INTRODUÇÃO A SER E TEMPO DE MARTIN HEIDEGGER
O objetivo deste texto consiste em apresentar uma Introdução à obra Ser e Tempo de Martin Heidegger usando uma linguagem clara e acessível aproximando noções heideggerianas a uma linguagem mais próxima da filosofia analítica contemporânea. O texto se divide nas seguintes partes: (i) Projeto de pesquisa de Ser e Tempo; (ii) Ser-no-mundo; (iii) Impessoalidade (a-gente); (iv) Estruturas existenciais do Dasein; (v) Cuidado; (vi) Apelo da Consciência; (vii) Temporalidade; (viii) Tempo vulgar.
I.
PROJETO DE PESQUISA DE SER E TEMPO
A
filosofia de Martin Heidegger é uma ontologia, mas não uma ontologia no sentido
tradicional de uma teoria que enumera o que existe, mas como uma investigação
sobre as condições de inteligibilidade que tornam possível qualquer discurso
ontológico. Assim, trata-se mais propriamente de um projeto de metaontologia, que lida com perguntas
como: (i) O que estamos fazendo
quando fazemos ontologia?; (ii) o
que significa dizer que algo existe?; (iii)
quais são os critérios de comprometimento ontológico?
A
principal questão (problema de pesquisa)
que orienta o pensamento de Heidegger é: “O que significa ser?”, ou, colocado
de outro modo: “o que precisa estar em
jogo para que algo possa contar como existente para nós?” A justificativa para discutir esta
questão é um diagnóstico crítico da tradição. Heidegger sustenta que a
filosofia herdou uma atitude equivocada em relação ao conceito de ser: ela o
trata como se fosse simultaneamente o conceito mais geral, indefinível e, ainda
assim, perfeitamente compreendido. Desse modo, a filosofia tradicional teria
cometido três erros metaontológicos:
Erro 1: A filosofia
tradicional assume-se que “ser” funciona como um predicado maximamente geral,
aplicável a tudo que existe: A filosofia tradicional
assume que “ser” funciona como um predicado que se aplica a tudo, algo como a
propriedade mais geral possível. Ao tratá-lo como um predicado (algo que
atribui uma propriedade a um objeto), a tradição o coloca no mesmo nível de
propriedades como “vermelho” ou “pesado”. Mas, como enfatiza Martin Heidegger,
“ser” não parece funcionar assim. Dizer que “a cadeira é” não é atribuir uma
propriedade adicional à cadeira; não estamos acrescentando uma característica
ao objeto.
Erro 2: A filosofia
tradicional conclui que, por sua generalidade, o conceito de ser não pode ser
definido por meio de distinções do tipo gênero–espécie: A
partir da ideia de que “ser” é o conceito mais geral, a tradição conclui que
ele não pode ser definido (já que definição clássica – segundo Aristóteles -
exige um gênero mais amplo e uma diferença específica). No entanto, assumir que
a única forma legítima de definição é a definição por gênero–espécie e, com
base nisso, declarar o conceito “indefinível”, em vez de considerar que ele
pode exigir outro tipo de análise
Erro 3: A filosofia
tradicional sugere que não há problema filosófico relevante em relação à noção
de ser, já que o conceito é utilizado com sucesso na linguagem ordinária.
A
tradição observa que usamos “ser” o tempo todo de forma aparentemente sem
dificuldade e conclui que não há um problema filosófico relevante aqui. No
entanto, isso confunde competência prática com transparência conceitual - podemos
dominar o uso de um conceito sem sermos capazes de explicar o que o torna
aplicável.
Isso
não implica que não tenha havido metafísica ou ontologia ao longo da história
da filosofia, nem que a noção de ser não tenha sido tematizada. Pelo contrário,
houve uma extensa produção ontológica. No entanto, essa produção ocorre,
segundo esse diagnóstico, sem uma análise prévia das condições de
inteligibilidade que tais teorias pressupõem. A tradição desenvolveu ontologias de primeira ordem, isto é,
teorias sobre o que existe (ente), sem enfrentar adequadamente questões
metaontológicas sobre os critérios que tornam legítimas afirmações ontológicas.
A
partir desse diagnóstico, Heidegger introduz uma distinção de níveis explicativos.
De um lado, temos os entes, isto é,
objetos, eventos, propriedades e assim por diante. De outro, temos aquilo que
ele chama de “ser”, que não deve ser
entendido como uma entidade adicional nem como um ente supremo, mas como aquilo
que está envolvido no fato de que esses entes podem ser identificados,
descritos e compreendidos como sendo o que são. “Ser”, portanto, não pertence
ao domínio das coisas, mas ao domínio das condições de aplicação de conceitos
ontológicos.
Essa
distinção implica que não podemos investigar o ser da mesma maneira que
investigamos objetos. Não faz sentido procurar o ser como se fosse um item no
mundo. Consequentemente, a investigação precisa adotar uma estratégia indireta
e um método próprio. É nesse ponto que entra a escolha do ente humano (que ele chama de Dasein)
como fio condutor. O ente humano (Dasein) não deve ser entendido como ser
humano biológico (membro da espécie humana), mas sim como todo ente capaz de
autoconsciência, reflexão, questionamento e escolha. Em outras palavras, é o ente para o qual o
ser está em questão, no sentido de que ele opera com critérios de inteligibilidade,
ainda que de forma não tematizada.
Esse
ente possui uma prioridade metodológica
em relação à questão do ser. Não se trata de dizer que o ente humano é mais
fundamental que outros entes, mas que, ao analisar suas práticas, podemos
explicitar estruturas que permanecem implícitas em qualquer ontologia. Essa
estratégia também explica a recusa de termos como “consciência” ou “sujeito”:
tais noções já incorporam teorias específicas e tenderiam a distorcer a
análise. O que interessa aqui é uma caracterização mais neutra, centrada no
papel que esse ente desempenha na articulação de sentido.
Assim,
o ponto de Heidegger é: não podemos investigar o ser diretamente porque ser não
é nenhum objeto, ente, coisa, evento ou propriedade. Assim, podemos fazer uma análise “preliminar” de um ente que
sirva de “ponte” para a questão do ser. O melhor ente para tanto é o ente
humano (Dasein), porque ele é o único que pode se questionar sobre o ser e
entender melhor esse ente pode contribuir, posteriormente, para a construção de
uma metaontologia.
Assim,
definido um objeto de estudo (o ente
humano ou Dasein), Heidegger também adota um método: o método fenomenológico. O método fenomenológico pode então ser
reinterpretado como uma forma de análise conceitual orientada à explicitação de
pressupostos. Ele consiste na ideia de “suspender” preconceitos, de deixar de
lado as categorias herdadas da tradição a fim de evitar vieses, visões ou
concepções prévias. Não se trata de negar o que a filosofia tradicional
desenvolveu, mas de “deixar entre parêntesis”, isto é, “suspender o juízo”
sobre suas afirmações.
Nesse
contexto, Heidegger adota o que ele denomina como “destruição” da história da ontologia, o que pode ser compreendido
como um procedimento de reconstrução crítica: identificar como certos conceitos
foram formados, quais distinções eles pressupõem e de que modo essas distinções
podem ter encoberto aspectos mais fundamentais. Para ilustrar isso, Heidegger
usa o que pode ser denominado de “metáfora
arqueológica”, comparando a destruição da ontologia com um trabalho de dessedimentação conceitual.
Teorias
filosóficas acumulam compromissos implícitos ao longo do tempo, e esses
compromissos passam a operar como pressupostos não examinados. O objetivo da
“destruição” não é rejeitar a tradição, mas torná-la transparente, separando o
que é essencial do que é contingente em suas formulações. Nesse sentido, o
método é construtivo: ele visa recuperar condições de inteligibilidade que
foram obscurecidas por interpretações posteriores.
Além
de objeto e método, Heidegger trabalha com uma hipótese inicial, que é o anti-essencialismo sobre a natureza humana.
Trata-se da hipótese de que a “essência” do ente humano reside em sua
existência. Por existência, Heidegger entende uma noção mais próxima das
chamadas “filosofias da existência”
(como em Søren Kierkegaard). Existência é vida com significado,
liberdade e sentido. O ente humano é definido, portanto, como um ser que pode
dar sentido à sua própria vida e fazer escolhas.
Essa
recusa do essencialismo sobre a natureza humana, faz Heidegger evitar uma linguagem metafísica forte. Para ele,
há um contraste central entre objetos ordinários (entes-à-mão/ente simplesmente dado/subsistente), que podem ser
descritos adequadamente em termos de propriedades relativamente estáveis e o
ente humano. Um artefato como uma cadeira, por exemplo, pode ser identificado
por um conjunto de características que determinam suas funções típicas. O ente
humano, por outro lado, não é adequadamente descrito por um conjunto fixo de
propriedades. Em vez disso, ele é melhor entendido como estruturado por um espaço de possibilidades.
Para
Heidegger, a identidade do ente humano não é dada por uma natureza ou essência
que existe de antemão, mas depende de como ele se engaja com suas
possibilidades ao longo do tempo. Dizer que ele “existe” no sentido relevante é
dizer que ele está sempre projetado para além do que já é, operando em um campo
de alternativas práticas. Isso não requer nenhuma tese forte com a ideia de
“livre-arbítrio”, Heidegger entende liberdade
como assumir possibilidades escolhidas, independente de como essa escolha é
explicada em termos empíricos ou metafísicos.
Heidegger
descreve o ente humano não como um sujeito isolado que primeiro representa o
mundo internamente para depois agir, mas como um ente já inserido em um
contexto estruturado de significância prática, que ele denomina “mundo” (ou, em linguagem mais
contemporânea, “campo de affordances”). Esse “mundo” não deve
ser entendido como o conjunto de objetos físicos, mas como um domínio no qual
coisas aparecem imediatamente como relevantes para ação, isto é, como utilizáveis,
evitáveis, manipuláveis, perigosas, úteis, e assim por diante.
O
mundo, para o ente humano, não aparece primariamente como um conjunto de
objetos neutros, mas como um domínio
estruturado de relevâncias, no qual certas possibilidades de ação se destacam.
Podemos, pois, definir mundo como o ambiente estruturado em termos de possibilidades
de ação disponíveis ao agente. O ente humano, por sua vez, é inseparável desse
campo, sendo constituído pelo que Heidegger chama de “abertura”. Por “abertura”, entende-se a capacidade do
ente humano de se mover nesse espaço, selecionando, mantendo e revisando
possibilidades.
O
ente humano, contudo, não deve ser entendido como um sujeito em um campo, mas
como sendo o próprio campo. Nesse sentido, o ente humano não é uma
subjetividade encapsulada, isto é, um sistema interno que recebe inputs sensoriais e constrói
representações do mundo. Na verdade, o ente humano é mais semelhante a uma
mente estendida. A ideia central aqui é que os processos cognitivos relevantes
para explicar o comportamento do ente humano não estão confinados ao cérebro ou
a um “interior” mental, mas se distribuem através de sua interação com o
ambiente.
Por isso, Heidegger chama o ente
humano de “ser-no-mundo”. O “mundo” não é algo que precisa ser
representado para depois ser acessado; ele já está, desde o início, disponível
como um campo de possibilidades significativas no qual o ente humano está
operativamente imerso. Desse modo, o ente humano é um sistema dinâmico cuja identidade
emerge do modo como atualiza possibilidades dentro de um contexto de sentido. É
nesse sentido que a análise do ente humano fornece acesso às condições mais
gerais de inteligibilidade: ao explicitar sua estrutura, tornamos visível
aquilo que, de outro modo, permaneceria implícito em qualquer compreensão do
ser.
II. SER-NO-MUNDO
Para
desenvolver melhor a ideia do ente humano como campo, Heidegger discute em mais
detalhe a noção de ser-no-mundo. A
noção de ser-no-mundo pode ser entendida como a rejeição de uma arquitetura
teórica do internalismo mental, segundo
a qual haveria, de um lado, um sujeito mental encapsulado e, de outro, um domínio
externo de objetos físicos. Modelos desse tipo, paradigmáticos desde René Descartes, pressupõem que a
relação fundamental entre mente e mundo é mediada por representações internas. A proposta heideggeriana, por contraste, pode
ser reconstruída como uma forma de externalismo
mental forte: o ente humano não é um sistema que primeiro constrói
representações para depois se relacionar com o mundo, mas um sistema já
operando em um ambiente estruturado de significância.
Nesse
sentido, “ser-no-mundo” não descreve uma relação entre dois termos
independentes (um sujeito e um mundo), mas uma estrutura unitária. O ente
humano deve ser entendido como constituído por seu engajamento com um domínio
de relevâncias práticas. Não há, portanto, um “interior” mental que pudesse ser
isolado de um “exterior” físico; a distinção tradicional entre dentro e fora
perde seu papel explicativo fundamental. Heidegger parte da tese de que
cognição e ação são essencialmente situadas e não podem ser adequadamente
descritas sem referência ao ambiente no qual ocorrem.
Nesse
contexto, o mundo pode ser descrito como uma rede de dependências funcionais e
referenciais, na qual o papel de qualquer elemento só é compreensível dentro de
um conjunto mais amplo de práticas. Um objeto como uma caneta, por exemplo, não
é primariamente identificado por suas propriedades físicas, mas por sua
inserção em um sistema de usos que envolve escrever, superfícies de escrita,
projetos e finalidades.
Nesse
ponto, a análise converge com a ideia de que o ambiente do agente pode ser
descrito como um campo de affordances. O que é primário não
são objetos teoricamente descritos, mas possibilidades de ação que se
apresentam diretamente como disponíveis ou relevantes. Assim, os entes no
interior do mundo não aparecem inicialmente como objetos de contemplação, mas
como elementos funcionalmente integrados a práticas.
Heidegger
então introduz a noção de “utensílio”:
trata-se do fato de que os itens que aparecem no campo do ente humano possuem
um modo de ser definido por seu papel em padrões de uso. Um martelo, por
exemplo, não é primariamente um objeto com certas propriedades físicas, mas
algo que conta como apropriado para martelar dentro de um conjunto de práticas
já estabelecidas. Isso se aplica não só a artefatos, mas até a entes naturais:
uma árvore “serve” para nos dar frutos para comer, as estrelas “servem” para
nos guiar na navegação, o toco de uma árvore “serve” para sentar etc.
A
ideia não é que o mundo foi “criado” para nós, mas sim que as coisas no mundo aparecem para nós como coisas das quais
podemos nos servir, como “oferecimentos”
(affordances). Mais precisamente, as
coisas não aparecem primariamente como objetos neutros portadores de
propriedades, mas como itens que já possuem um papel potencial em relação às
atividades do agente. Nesse sentido, a noção de mundo não deve ser entendida
nem como construção subjetiva, nem como mero dado físico bruto, mas como um
domínio relacional no qual itens se apresentam como ofertas de ação.
Essa
prioridade do uso sobre a descrição teórica sugere uma forma de antirrepresentacionismo: o acesso do
agente ao mundo não depende fundamentalmente da construção de representações
internas, mas de uma competência prática que o coloca diretamente em contato
com um domínio estruturado de significância. O “sentido” de um ente, nesse
contexto, pode ser entendido como seu papel dentro dessa rede de usos e
remissões. O mundo é um todo articulado, uma trama de significados, na qual cada item remete a outros em função
de usos possíveis, finalidades e contextos de ação.
Essa
estrutura também implica uma reformulação da noção de espacialidade. Em modelos tradicionais, o espaço é tratado como um
sistema métrico no qual objetos ocupam posições determinadas por relações de
distância. No entanto, se o ente humano é essencialmente um sistema engajado em
práticas, então a espacialidade relevante para descrevê-lo não pode ser
reduzida a métricas físicas. Em vez disso, ela deve ser entendida em termos de organização
prática do campo de ação.
Para
explicar isso, Heidegger introduz o conceito de desafastamento direcional. “Desafastar” corresponde à capacidade de
um agente de tornar algo operacionalmente disponível, isto é, de integrá-lo ao
seu campo atual de ação, independentemente de sua distância física.
“Direcionar-se”, por sua vez, diz respeito à orientação seletiva da atividade
do agente para certos elementos do ambiente em detrimento de outros. Juntos,
esses processos determinam uma forma de proximidade que é funcional, e não
meramente geométrica.
Isso
explica por que a distância física não coincide com a relevância prática: itens
fisicamente próximos podem ser irrelevantes para a ação em curso, enquanto
itens distantes podem ser imediatamente disponíveis no campo de atividade do
agente. A espacialidade do ente humano é, portanto, melhor descrita como uma
estrutura dinâmica definida por padrões de engajamento, e não como uma
localização em um espaço homogêneo.
III. IMPESSOALIDADE (A-GENTE)
Após
detalhar melhor sua hipótese teórica central sobre em que consiste o ente
humano, Heidegger parte para um segundo momento: descrever o ente humano em sua
existência concreta. Assim, a investigação que começou com um esclarecimento
teórico, passa para a fase de análise propriamente dita, o esforço descritivo
de analisar a existência humana como ela se encontra no mundo real. Trata-se,
não de investigação experimental, pois aqui o ser humano precisa ser observado
em sua vida cotidiana natural visando uma descrição filosófica.
De
acordo com Heidegger, na maior parte do tempo, o ente humano pode ser descrito
como alguém que não age a partir de uma deliberação autônoma plenamente
explícita, mas a partir de padrões de comportamento e interpretação que já
estão disponíveis em seu ambiente social. Com isso, Heidegger não pretende
oferecer uma análise sociológica. Ser e Tempo não é uma obra de psicologia,
antropologia ou sociologia, mas uma obra de filosofia que busca se manter
neutra em relação a teses de ciências particulares.
Mais
precisamente, a análise pretende operar em um nível ontológico ou estrutural, e não em um nível empírico. O
objetivo não é descrever fatos contingentes sobre grupos humanos específicos,
mas explicitar condições gerais sob as quais qualquer agente humano pode agir e
compreender. Nesse sentido, a referência a um “ambiente social” não deve ser tomada como referência a uma
configuração histórica particular (por exemplo, cultura dominante, subcultura,
etc.), mas como uma característica formal da existência humana enquanto tal: o
fato de que o agente sempre já se encontra inserido em um domínio de práticas,
normas e significados previamente disponíveis.
Assim,
“social” aqui não designa um objeto de estudo das ciências sociais, mas uma
dimensão constitutiva da agência: qualquer forma de vida humana já envolve um
conjunto de padrões compartilhados que orientam o que conta como agir, falar ou
compreender. Na maioria das vezes, o ente humano vive inserido em um sistema de
normas práticas não explicitamente codificadas, cuja autoridade não deriva de
uma fonte identificável, mas do fato de serem socialmente mantidas e
reproduzidas. A esse sistema Heidegger dá o nome de “impessoal” ou “a-gente”.
Esse
modo de funcionamento, também é denominado de “impropriedade”: modo de existência no qual um agente não se
“apropria” de suas próprias escolhas. A impropriedade pode ser entendida como
uma condição em que há uma dissociação entre agência e apropriação reflexiva. O
agente age, decide e avalia, mas o faz com base em normas que ele não tematiza
nem endossa de maneira explícita. Essas normas são herdadas do domínio impessoal (o “a-gente”) e operam como critérios tácitos de
correção.
No
entanto, esse modo de existir não deve ser entendido como uma falha ou desvio,
mas como a forma ordinária da vida prática. Trata-se de uma análise descritiva
de que a maior parte da ação humana é guiada por normas internalizadas,
heurísticas sociais e rotinas incorporadas, e não por reflexão deliberativa de
primeira ordem. Trata-se de uma normatividade
distribuída e anônima: padrões de comportamento são mantidos e reproduzidos
socialmente, de modo que “o que se faz”, “o que se diz” e “o que se pensa”
aparecem como dados, sem exigir justificação explícita.
Essa
estrutura normativa prévia está ligada ao que Heidegger chama de “lançamento”. O ponto aqui é que o ente
humano nunca começa em um estado neutro ou pré-social. Ele sempre já se
encontra inserido em um contexto que inclui linguagem, práticas, instituições e
formas de interpretação. Agentes são sempre socialmente situados desde o início,
adquirindo suas capacidades cognitivas e práticas dentro de um ambiente
normativo que não escolheram.
A
partir disso, Heidegger descreve o que ele chama de “decadência”, que é a tendência do agente a se manter imerso nesse
domínio normativo sem tematizá-lo criticamente. Não se trata de um colapso ou
falha, mas de uma forma de estabilidade: o agente continua operando com base em
padrões já disponíveis, evitando o custo cognitivo e prático de reavaliá-los. Essa condição se manifesta de maneira mais
concreta em três padrões estruturais,
que Heidegger descreve como se segue:
(1) Falatório:
trata-se de um mecanismo de circulação e reprodução de conteúdo proposicional
sem avaliação crítica independente. Crenças são adotadas e transmitidas com
base em sua aceitação social, e não em uma análise das razões que as sustentam.
O falatório é uma forma de dependência de testemunho em que o agente não
distingue entre diferentes níveis de justificação, operando com base no fato de
que “é assim que se diz”.
(2) Curiosidade:
trata-se de uma forma de engajamento cognitivo caracterizada pela busca
constante por novidade sem estabilização. O agente passa rapidamente de um
conteúdo a outro, de uma atividade a outra, sem consolidar um entendimento mais
profundo ou integrado. Em outras palavras, trata-se de uma dinâmica de atenção
fragmentada orientada por novidade, na qual o valor de um conteúdo está em sua
imediata disponibilidade, e não em sua integração em um sistema mais amplo de
compreensão.
(3) Ambiguidade:
Como o agente opera com conteúdo herdado socialmente e não estabiliza suas
investigações, ele desenvolve uma forma de ilusão de compreensão. Ele acredita
compreender a si mesmo e ao mundo porque domina o vocabulário e as
interpretações disponíveis, mas não possui critérios claros para distinguir
entre compreensão efetiva e mera conformidade com o discurso dominante. Desse
modo, há uma discrepância entre confiança epistêmica subjetiva e suporte
justificacional objetivo.
O
efeito conjunto desses processos é que o agente evita confrontar a
indeterminação de suas próprias possibilidades. Ao operar dentro de um sistema
normativo já dado, ele reduz a necessidade de deliberação e responsabilidade
explícita. Isso produz uma forma de estabilidade prática: a vida se torna
previsível e gerenciável porque os critérios de ação já estão previamente
estabelecidos. No entanto, essa estabilidade tem um custo. Ao não tematizar as
bases que orientam suas escolhas, o agente abdica da possibilidade de
determinar de maneira explícita e singular o curso de sua própria vida.
IV. ESTRUTURAS EXISTENCIAIS DO DASEIN
Seguindo a tradição moderna de
filosofia, Heidegger busca analisar o ser humano a partir de três elementos: entendimento, sensibilidade e linguagem.
No entanto, a partir do momento que o ente humano (Dasein) é entendido como uma
mente estendida e um campo aberto de significância, esses conceitos precisam
ser fortemente reconfigurados. Por isso, Heidegger os substitui por
compreensão, disposição afetiva e discurso. Ele denomina cada um deles de “existenciais”, para evitar a ideia de
que eles são meras propriedades, categorias ou estruturas fixas. Os
existenciais são estruturas dinâmicas
que tornam possível o acesso de um agente ao mundo. São eles:
(1) Disposição afetiva:
trata-se do componente avaliativo que estrutura o campo de relevância do
agente. A tese central é que o mundo nunca é dado como um conjunto neutro de
objetos; ele já aparece sob uma determinada configuração de saliência. Isso
significa que a experiência do agente é sempre modulada por estados que
determinam o que conta como relevante, urgente, ameaçador ou desejável. Esses
estados não devem ser entendidos como episódios internos no sentido de estados
mentais encapsulados. Pelo contrário, eles têm uma dimensão essencialmente
mundana: eles estruturam o próprio campo de experiência. Dizer que um agente
está ansioso, entediado ou alegre não é apenas descrever uma condição interna,
mas caracterizar a maneira como o mundo se apresenta para ele. Um ambiente pode
aparecer como opressivo, estimulante ou indiferente dependendo dessa
configuração.
(2) Compreensão:
trata-se da capacidade do agente de operar em um espaço estruturado de
possibilidades. Diferentemente de concepções intelectualistas, compreender não
é primariamente formar representações proposicionais, mas possuir um tipo de
competência prática. Essa capacidade tem um caráter essencialmente projetivo. O
agente não apenas responde ao que está presente, mas se orienta em direção a
possibilidades futuras. Isso pode ser descrito como a habilidade de navegar um
campo de affordances, no qual os
itens do ambiente são apreendidos em função das ações que possibilitam. A
compreensão tem a estrutura do “como”, por exemplo, percebo algo “como” sendo
uma caneta que posso usar para escrever etc.
(3) Discurso:
pode ser entendido como a capacidade de articular e explicitar aquilo que já
está operando implicitamente nos dois níveis anteriores. O discurso não deve
ser reduzido a linguagem no sentido de um sistema formal de signos; ele
corresponde à possibilidade de tornar públicos e avaliáveis os conteúdos que
estruturam a prática. O mundo já é experimentado como significativo, mas é por
meio do discurso que esse significado pode ser estabilizado, compartilhado e
submetido a avaliação normativa. Assim, a linguagem não cria significado ex nihilo, mas torna explícita uma
estrutura de sentido que já está operando no engajamento prático.
V. CUIDADO
De acordo com Heidegger, o ponto de
partida é que as diversas dimensões do ente humano como engajamento prático com
o mundo, inserção em estruturas normativas, orientação por possibilidades, não
são independentes, mas formam uma unidade funcional. O conceito de cuidado nomeia precisamente essa
unidade. Por cuidado, entende-se a ideia de que o agente humano é um sistema
que está continuamente investido em suas próprias possibilidades, isto é, em
selecionar, manter e revisar modos de ação e interpretação ao longo do tempo.
Desse modo, a expressão tem o sentido de “cuidar de quem se é”.
Essa
estrutura tem pelo menos dois eixos fundamentais: (i) ocupação: é o engajamento com os objetos do ambiente, que pode
ser descrito como interação prática com artefatos e recursos naturais; (ii) preocupação: é o engajamento com
outros agentes, que envolve formas de coordenação, expectativa e reconhecimento
mútuo.. Assim, a agência humana é simultaneamente materialmente situada e
socialmente normada. O cuidado, portanto, não é um estado psicológico, mas a
estrutura que integra essas dimensões em um único processo contínuo.
No
entanto, essa estrutura tende, no curso ordinário da vida, a permanecer
implícita. O agente normalmente opera dentro de rotinas estabilizadas e normas
socialmente disponíveis, o que reduz a necessidade de tematizar explicitamente
o fato de que ele está constantemente comprometido com a determinação de suas
próprias possibilidades. É nesse contexto que entra o papel da angústia.
A
angústia consiste em um estado afetivo
no qual o sistema usual de relevâncias práticas entra em colapso.
Diferentemente do medo, que é dirigido a objetos ou situações específicas (por
exemplo, um perigo identificável), a angústia não tem um objeto determinado. Ela
pode ser descrita como uma desestabilização
global do campo de affordances:
aquilo que normalmente aparece como significativo perde sua estrutura familiar
de relevância.
Essa
desestruturação tem um efeito revelador. Ao suspender temporariamente as normas
e significados que orientam a ação cotidiana, a angústia torna explícito o fato
de que o agente não está simplesmente reagindo a um mundo dado, mas está sempre
operando dentro de um espaço de possibilidades que não é completamente
determinado. Em outras palavras, ela expõe a indeterminação estrutural da
agência. O agente se confronta com o fato de que suas formas de vida não são
necessárias nem fixas, mas dependem de sua contínua atualização.
Esse
fenômeno está diretamente ligado à noção de finitude. A estrutura de possibilidades na qual o agente opera não
é aberta indefinidamente; ela é limitada por uma possibilidade que não pode ser
ultrapassada: a morte. Aqui, a morte
não deve ser entendida primariamente como um evento biológico, mas como um
elemento estrutural na organização das possibilidades do agente. Para descrever
esse elemento estrutural Heidegger adota a noção de “ser-para-a-morte”, a tese de que a agência humana é organizada em
torno de um limite absoluto. A morte funciona como a possibilidade de
impossibilidade de continuar projetando possibilidades. Ela não é apenas mais
uma possibilidade entre outras, mas aquela que encerra o espaço no qual todas
as outras podem ser realizadas.
A
possibilidade da morte possui características específicas que a distinguem de
todas as demais: (i) iminência: ela
não pode ser eliminada do horizonte do agente; (ii) incondicionalidade: ela não depende de circunstâncias
particulares para ser relevante; (iii)
irrelatividade: não pode ser assumida por outro agente no lugar do
indivíduo; (iv) insuperabilidade:
não há uma possibilidade posterior que a ultrapasse. Assim, a morte define o
limite estrutural do espaço de possibilidades individuais.
A
conexão entre angústia e morte torna-se então clara. Ao desestabilizar o campo
de significância cotidiana, a angústia expõe o agente ao fato de que suas
possibilidades são finitas e que sua realização não pode ser delegada, adiada
ou garantida externamente. Isso revela a estrutura do cuidado em sua forma mais
explícita: o agente é responsável por sustentar e atualizar suas próprias
possibilidades dentro de um horizonte limitado.
VI. APELO DA CONSCIÊNCIA
Ao
tornar explícito que o espaço de possibilidades do ente humano é finito e
individualmente delimitado, a morte desestabiliza a tendência do agente a se
orientar exclusivamente por normas impessoais (o domínio do “a-gente”). Ela
introduz uma pressão para que o agente se aproprie das bases de sua própria
conduta, isto é, para que ele não apenas siga normas disponíveis, mas reconheça
sua responsabilidade por adotá-las ou rejeitá-las. A essa apropriação,
Heidegger dá o nome de “propriedade”.
No
entanto, essa reconfiguração não ocorre automaticamente. Heidegger introduz,
nesse contexto, a noção de apelo da
consciência, um mecanismo pelo qual o agente é levado a explicitar a
estrutura de sua própria agência. Esse “apelo” não deve ser entendido como uma
faculdade moral que emite juízos sobre o que é correto ou incorreto. Ele não
fornece conteúdo normativo específico, não diz ao agente o que fazer, mas opera
como uma forma de autorreferência
normativa.
O
apelo pode ser descrito como a ativação de uma perspectiva na qual o agente se
reconhece como a fonte última de suas próprias decisões. Nesse apelo o agente é
simultaneamente quem “chama” e quem é “chamado”, ou seja, não se trata de uma autoridade
externa, mas de uma reflexividade interna da agência. Esse apelo tem também um caráter
“silencioso” no sentido de uma ausência de conteúdo proposicional determinado:
o que está em jogo não é a transmissão de informação, mas a exigência de
posicionamento.
Responder
a esse apelo implica confrontar aquilo que Heidegger denomina “culpa”, uma forma de déficit
estrutural inerente à agência. Não se trata de culpa moral ou jurídica, mas do
fato de que o agente nunca é a origem completa de si mesmo e, ao mesmo tempo,
não pode evitar assumir responsabilidade por suas escolhas.
Essa
estrutura pode ser decomposta em dois aspectos: (i) o agente pode se apropriar das condições iniciais de sua
existência: ele encontra-se já inserido em um conjunto de circunstâncias,
capacidades e limitações que ele pode assumir para si; (ii) qualquer escolha envolve exclusão: ao realizar uma
possibilidade, o agente necessariamente deixa de realizar outras. Isso pode ser
descrito como uma forma de custo de oportunidade estrutural. A “dívida” consiste precisamente nesse
fato de que a identidade do agente é sempre constituída à custa de
possibilidades não realizadas.
A
partir disso, Heidegger desenvolve a ideia de que o ente humano é o “fundamento nulo de uma nulidade”, a
tese de que o agente é simultaneamente responsável por sustentar sua própria
trajetória e incapaz de fundamentá-la de maneira última. Ele deve agir e
escolher, mas não dispõe de um ponto de apoio absoluto que determine suas
escolhas.
A
resposta adequada a essa condição é o que Heidegger chama de resolução precursora, que pode ser
entendida como uma forma de agência na qual o agente integra explicitamente a
finitude e a indeterminação que o caracterizam. “Precursora” porque envolve
antecipar o limite estrutural imposto pela morte; “resolução” porque implica
assumir de maneira explícita a responsabilidade pelas próprias escolhas.
Trata-se de um modo de agência no qual o agente reconhece a finitude de seu
espaço de possibilidades, aceita a impossibilidade de fundamentação última e
assume a responsabilidade pelas exclusões envolvidas em suas escolhas
Importante
notar que isso não implica em decisionismo,
a tese de que não importa as decisões que tomamos desde que elas sejam
autênticas. Para Heidegger, o agente deve agir eticamente, a diferença é que as
normas morais deixem de operar como determinações implícitas e passem a ser
explicitamente apropriadas. Assim, a transição relevante não é de conteúdo (o
que se faz), mas de estrutura (como se relaciona com o que se faz).
VII. TEMPORALIDADE
A
unidade das diversas dimensões da existência, como o engajamento prático,
inserção normativa e apropriação reflexiva, depende de uma estrutura mais
fundamental que organiza essas dimensões: a temporalidade. A temporalidade não deve ser entendida nem como um
parâmetro objetivo externo (como em modelos
fisicalistas do tempo), nem como uma mera forma subjetiva de experiência
interna (como em modelos psicologistas
do tempo), mas como a condição estrutural que torna possível a organização
das possibilidades do agente.
Assim,
a agência humana envolve uma estrutura temporal integrada, na qual passado,
presente e futuro não são momentos independentes, mas aspectos interdependentes
de um mesmo processo. Heidegger descreve essa estrutura como composta por três
“êxtases”, que podem ser reinterpretados como três dimensões funcionais da
organização temporal da ação:
(1) Orientação ao futuro:
corresponde ao fato de que o agente opera projetando possibilidades. Em vez de
reagir apenas ao que está dado, ele organiza sua conduta em função de estados
ainda não realizados. Trata-se da dimensão prospectiva da agência, na qual
decisões e ações são guiadas por metas, planos e antecipações.
(2) Dependência do
passado: corresponde ao fato de que o agente sempre atua a
partir de condições prévias. Suas capacidades, disposições e contextos já estão
parcialmente determinados por sua história. Trata-se da dimensão de dependência
histórica ou facticidade, isto é, o conjunto de restrições e habilitações
herdadas que moldam o espaço de possibilidades disponíveis.
(3) Imersão no presente: corresponde ao engajamento contínuo do agente
em atividades e práticas correntes. No entanto, esse “presente” não é um ponto
neutro, mas um estado no qual o agente tende a operar sob rotinas e normas
estabilizadas. Trata-se da dimensão de execução prática sob condições de
default, frequentemente associada a formas de ação não reflexiva.
A
tese central é que essas três dimensões não podem ser separadas: qualquer ação
envolve simultaneamente projeção de possibilidades futuras, dependência de
condições passadas e execução em um contexto presente. A temporalidade, nesse
sentido, é a estrutura que integra essas dimensões em um único processo
coerente. Heidegger acredita que a orientação para o futuro tem prioridade
porque é ela que estabelece todo o sentido da existência de um agente humano,
aquilo para o qual ele está direcionado.
A
partir dessa estrutura temporal, emerge o fenômeno da historicidade, que é a ideia de que a agência humana é
constitutivamente inserida em processos historicamente estendidos de
transmissão e transformação de práticas. O agente não apenas herda um conjunto
de normas e significados, mas também os atualiza e modifica ao agir. Esses
processos é a “narrativa” que forma o modo de ver o mundo do agente e inclui
tanto a sua história de vida individual, a história geral na qual se encontra e
a narratividade que faz parte da sua
cosmovisão.
Essa
estrutura é essencial para compreender como formas mais complexas de atividade,
como a ciência, se tornam possíveis. A prática científica não ocorre em um
vácuo, mas depende de um conjunto de pressupostos, métodos e conceitos
herdados. Há uma dependência da ciência em relação a um background histórico e conceitual que não é ele próprio produto de
decisões individuais isoladas.
Além
disso, a produção de conhecimento envolve necessariamente uma perspectiva situada. Não há acesso a um
ponto de vista absolutamente neutro; toda investigação parte de um conjunto de
pressupostos e interesses que orientam a seleção e a interpretação de dados. Há
uma forma de dependência de enquadramento
ou cosmovisão: o que conta como evidência, problema ou solução depende de
um contexto prévio de significação.
VIII. TEMPO VULGAR
Ao tratar do tempo, Heidegger
distingue dois níveis de descrição do tempo:
(i) temporalidade existencial: é o tempo como estrutura das condições de
agência e (ii) intratemporalidade: é
o tempo como parâmetro no qual eventos são ordenados, o tempo de eventos, o modo
como entidades e acontecimentos são localizados em uma série temporal, isto é,
como algo ocorre em um tempo mensurável.
A intratemporalidade trata-se do tempo
como uma dimensão de ordenação de eventos, típica da física e das descrições
empíricas: objetos persistem, mudam e se sucedem ao longo de uma série de
instantes. Essa concepção está diretamente ligada ao que Heidegger chama de “tempo vulgar”, a ideia de tempo como
uma sequência linear de pontos, uma série potencialmente infinita de “agoras”
ordenados. Esse modelo é caracterizado
por propriedades como linearidade, homogeneidade e mensurabilidade, e
corresponde ao tempo tal como operacionalizado por relógios e calendários. Trata-se
de uma concepção quantitativa e métrica do tempo, adequada para descrição
científica, mas limitada em seu alcance explicativo.
Heidegger
argumenta que o tempo vulgar é derivado em relação a uma estrutura mais
fundamental. O ponto é que a própria possibilidade de identificar eventos,
medi-los e ordená-los pressupõe um tipo de acesso ao mundo que já está
estruturado de outra maneira, isto é, pressupõe um agente para quem algo pode
contar como um evento em primeiro lugar.
É
nesse nível mais fundamental que entra a noção de temporalidade existencial. Ela pode ser entendida como a estrutura
temporal da agência, isto é, a forma como passado, presente e futuro são
integrados no funcionamento de um agente. Diferentemente do tempo métrico, essa
estrutura não consiste em uma série de instantes, mas em um sistema de relações
funcionais: o agente projeta possibilidades (futuro), opera a partir de
condições herdadas (passado) e executa ações em contextos correntes (presente).
Heidegger
afirma que o ente humano não está simplesmente no tempo, mas é constituído por
essa estrutura temporal. A temporalidade não é um parâmetro externo ao qual a
agência se submete, mas a forma organizadora da própria agência. O agente não
primeiro existe para depois se localizar no tempo; sua existência já consiste
em operar segundo essa articulação temporal.
Desse
modo, Heidegger argumenta que a adesão ao “tempo vulgar” pode funcionar como
uma forma de evasão. Quando o tempo
é concebido exclusivamente como uma série infinita de instantes, ele pode ser
tratado como um domínio impessoal no qual eventos continuam indefinidamente,
independentemente de qualquer agente particular. Há uma despersonalização do horizonte temporal: o tempo passa a ser
concebido como algo que não está essencialmente ligado às possibilidades
individuais.
Essa
concepção pode ter um efeito existencial específico. Ao situar a própria vida
dentro de uma série infinita e pública de eventos, o agente pode minimizar a
relevância de sua própria finitude. A morte passa a ser vista como apenas um
ponto em uma sequência que continua além do indivíduo. Em contraste, a análise
heideggeriana enfatiza que, do ponto de vista da agência, o espaço de
possibilidades é individualmente delimitado e finito, e não simplesmente um
segmento de uma série infinita.
Nesse
contexto, Heidegger realiza uma crítica à concepção
de tempo de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Em linhas gerais, a posição
hegeliana pode ser entendida como atribuindo primazia a uma estrutura racional
totalizante (o “Espírito”), na qual o tempo aparece como um momento de
desenvolvimento. O tempo seria, nesse sentido, um meio no qual uma realidade
mais fundamental se realiza. Heidegger inverte essa ordem explicativa. Em vez
de tratar o tempo como derivado de uma estrutura mais básica, ele o trata como
aquilo que torna possível a própria articulação de qualquer estrutura
significativa.
É nesse ponto que Ser e Tempo
termina de modo abrupto. A obra Ser e Tempo é um projeto declaradamente
inacabado. O objetivo de Heidegger nunca foi meramente construir uma análise da
vida humana, mas utilizar o ente humano apenas como um fio condutor (uma ponte)
para investigar a questão ontológica suprema: o sentido do Ser em geral. A obra
foi abruptamente interrompida antes de realizar essa transição fundamental,
esgotando a analítica existencial do Dasein sem desfechar o seu grande objetivo
programado.
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PS:
Para construção deste texto usei como auxílio as ferramentas Notebook KLM para
transformar em conteúdo escrito, o conteúdo de vídeos meus no meu canal Youtube
sobre Ser e Tempo. Além disso, para aproximar noções heideggerianas de uma
linguagem mais próxima da filosofia analítica, usei como auxílio a ferramenta Philosophy
Prof (Chatgpt) desenvolvida por Andrew Bell para fornecer respostas
exclusivamente com base na Stanford
Encyclopedia of Philosophy.

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