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INTRODUÇÃO AO CRÁTILO DE PLATÃO

 

O objetivo do texto abaixo é apresentar uma Introdução ao Crátilo de Platão. O texto está organizado nas seguintes partes: (i) o Problema Convenção; (ii) Nomeação como técnica; (iii) Investigação etimológica da língua grega; (iv) Crítica do Naturalismo Extremo.  O Crátilo de Platão investiga o problema da “correção dos nomes” (orthótēs onomátōn) e sua relação com a estrutura objetiva da realidade. A questão fundamental que orienta o texto é se a linguagem possui um vínculo natural com as coisas ou se ela depende apenas de convenções humanas.

No diálogo, Platão constrói uma oposição entre duas posições extremas: (i) convencionalismo linguístico (Hermógenes): defende uma forma de convencionalismo linguístico, segundo a qual os nomes não possuem qualquer conexão intrínseca com seus referentes; (ii) naturalismo linguístico (Crátilo): cada coisa possui um “nome verdadeiro” que lhe pertence por natureza, refletindo sua essência.

Para o Convencionalismo linguístico, a relação entre palavra e objeto é estabelecida por acordo social: qualquer comunidade poderia chamar um cavalo de “homem” e um homem de “cavalo”, desde que houvesse consenso.  De outro lado, o naturalismo linguístico sustenta um naturalismo linguístico. Segundo essa visão, cada coisa possui um “nome verdadeiro” que lhe pertence por natureza, refletindo sua essência. Nesse sentido, nomear corretamente não é apenas uma questão de uso, mas de adequação ontológica: um nome inadequado falha em referir-se à coisa. Essa posição leva à ideia de que conhecer os nomes seria suficiente para conhecer as coisas mesmas, o que, como o diálogo mostrará, é filosoficamente problemático.

Sócrates, no diálogo, rejeita o relativismo implícito no convencionalismo, ao afirmar que as coisas possuem naturezas próprias e independentes da opinião humana. Essa tese é coerente com a metafísica platônica, na qual os entes sensíveis participam de estruturas estáveis e inteligíveis (as formas). Assim, se há uma ordem objetiva no mundo, também deve haver alguma correção possível no uso dos nomes. É nesse contexto que Sócrates introduz a concepção de nome como um instrumento (organon) de diferenciação do ser, produzido por um “legislador dos nomes” (nomothetēs), que deve olhar para a estrutura das coisas ao instituir a linguagem.

 

I. O PROBLEMA DA CONVENÇÃO


O Crátilo (383a–385e) começa com a seguinte questão: Os nomes refletem a natureza das coisas ou são apenas produtos de convenção humana?  Logo em 383a, Crátilo é apresentado como defensor da tese naturalista, segundo a qual existe uma correspondência intrínseca entre nome e essência. Essa posição é introduzida por Hermógenes ao relatar a Sócrates a visão de seu interlocutor:

Crátilo sustenta que cada coisa tem por natureza um nome apropriado e que não se trata da denominação que alguns homens convencionaram dar-lhes, com designá-las por determinadas vozes de sua língua, mas que, por natureza, têm sentido certo, sempre o mesmo, tanto entre os Helenos como entre os bárbaros em geral. (383a)

Essa formulação antecipa uma tese forte de essencialismo linguístico: o nome correto não depende de comunidade linguística, mas da estrutura objetiva da realidade. Nomear corretamente, portanto, seria captar uma verdade independente da variação cultural ou linguística. Em oposição direta, Hermógenes apresenta em 384d sua defesa do convencionalismo linguístico, sustentando que não há qualquer vínculo natural entre palavras e coisas:

... a justeza dos nomes se baseia em outra coisa que não seja convenção e acordo. Para mim, seja qual for o nome que se dê a uma determinada coisa, esse é o seu nome certo; e mais: se substituirmos esse nome por outro, vindo a cair em desuso o primitivo, o novo nome não é menos certo do que o primeiro. [...] Nenhum nome é dado por natureza a qualquer coisa, mas pela lei e o costume dos que se habituaram a chamá-la dessa maneira. (384d)

Essa posição implica uma tese semântica anti-essencialista: o significado não está nas coisas, mas nas práticas sociais de nomeação. A linguagem, nesse modelo, é um sistema normativo dependente exclusivamente de acordo humano. A radicalização dessa tese ocorre quando Sócrates investiga até onde vai esse convencionalismo. Em 385a, Hermógenes admite que a convenção não depende sequer de uma comunidade ampla, podendo ser reduzida ao uso individual:

Eu, pelo menos, Sócrates, não conheço outra maneira de denominar com acerto as coisas, a não ser a seguinte: posso designar qualquer coisa pelo nome que me aprouver dar-lhes, e tu, por outro nome que lhe atribuíres. O mesmo vejo passar-se nas cidades, conferindo por vezes cada uma aos mesmos objetos nomes diferentes... (385a)

Platão aqui leva o convencionalismo ao seu limite lógico: se o significado depende apenas de intenção e uso, então mesmo uma linguagem privada pareceria possível. O ponto em questão é o seguinte: se o convencionalismo de Hermógenes fosse levado ao extremo, isto é, se qualquer indivíduo pudesse atribuir qualquer nome a qualquer coisa sem restrição objetiva, surgem três problemas filosóficos importantes.

Primeiro, o problema da normatividade do significado. Se nomes dependem apenas de decisão individual ou coletiva, então o que exatamente faz com que um uso seja “correto” ou “incorreto”? A dificuldade aqui é explicar como pode haver regras linguísticas obrigatórias se tudo depende apenas de convenção arbitrária. Sem algum tipo de padrão independente, a distinção entre uso certo e errado parece perder fundamento.

Segundo, o problema da comunicação intersubjetiva. Se cada indivíduo pudesse nomear as coisas livremente, sem restrição comum, torna-se difícil explicar como diferentes falantes conseguem entender uns aos outros. A linguagem deixaria de ser um sistema compartilhado e passaria a ser uma coleção de usos privados potencialmente incompatíveis.

Terceiro, o problema dos critérios objetivos de correção e verdade. Se o significado não tem qualquer ligação com a realidade, então não parece haver um critério externo para avaliar se uma palavra “se aplica corretamente” a algo. Isso enfraquece a ideia de que podemos errar ao nomear ou descrever o mundo, já que o erro pressupõe algum padrão independente de verificação.

O interesse de Sócrates ao explorar essas consequências não é simplesmente refutar o convencionalismo de forma imediata, mas mostrar que ele precisa de algum tipo de estrutura estável externa à vontade dos falantes. Caso contrário, a linguagem perde sua capacidade de se vincular ao ser e de sustentar conhecimento verdadeiro.

Em seguida, Sócrates conduz Hermógenes a uma inferência decisiva entre 385b–d: se proposições podem ser verdadeiras ou falsas, e nomes são componentes das proposições, então também nomes poderiam participar dessa distinção semântica:

Sócrates — Sendo assim, a proposição que se refere às coisas como elas são, é verdadeira, vindo a ser falsa quando indica o que elas não são. [...] Logo, é possível dizer por meio da palavra o que é e o que não é. (385b–c)

Sócrates — E a parte de uma proposição falsa, não será também falsa? [...] Logo, é possível dizer nomes verdadeiros e nomes falsos, uma vez que há proposições de ambas as modalidades. (385c–d)

Essa passagem é filosoficamente controversa, pois nomes isolados não possuem estrutura proposicional suficiente para receber valores de verdade. Ainda assim, Platão utiliza esse movimento argumentativo para mostrar que o convencionalismo não pode escapar facilmente das noções de verdade e falsidade, sugerindo que a linguagem está necessariamente vinculada a uma estrutura objetiva do ser. Por fim, na transição para 385e–386a, Hermógenes realiza uma distinção crucial entre convencionalismo linguístico e relativismo ontológico, rejeitando explicitamente Protágoras:

Hermógenes — Já me aconteceu, Sócrates, algumas vezes, em minha perplexidade, ser levado a adotar a opinião de Protágoras [de que o homem é a medida de todas as coisas]. Contudo, não me parece que seja muito certa. (385e)

Hermógenes aceita que os nomes podem ser convencionais, mas nega que a realidade dependa da percepção humana. Assim, ele preserva uma ontologia objetiva ao mesmo tempo em que sustenta uma semântica convencionalista. De um lado, Crátilo defende que os nomes derivam da natureza das coisas; de outro, Hermógenes sustenta que eles derivam de convenção humana. A intervenção de Sócrates prepara o deslocamento do debate para um nível mais profundo: se a realidade possui essências estáveis e independentes, então a linguagem não pode ser inteiramente arbitrária, mas também não pode ser uma reprodução perfeita do ser.

II. NOMEAÇÃO COMO TÉCNICA

 

A seção 2 do Crátilo (385e–390e) marca a passagem da exposição do convencionalismo radical de Hermógenes para a construção sistemática de uma tese de naturalismo linguístico de caráter técnico e metafísico.  Sócrates transforma a questão da linguagem em um problema sobre racionalidade prática, natureza e conhecimento, integrando o ato de nomear à estrutura objetiva do ser.

O ponto de partida dessa transformação está na concessão ontológica feita por Hermógenes na seção anterior: a de que as coisas possuem naturezas próprias e independentes da opinião humana. A partir disso, Sócrates introduz uma tese de alcance geral: se a realidade não depende de convenção, então as ações humanas que se dirigem a ela também não podem ser arbitrárias. Em 387d, essa tese é formulada de maneira explícita:

Sócrates — Ora, as ações, como já vimos, não são relativas a nós, mas têm cada uma sua própria natureza. [...] Assim sendo, convirá nomear as coisas pelo modo natural de nomeá-las e serem nomeadas, e pelo meio adequado, não como imaginamos que devemos fazê-lo, caso queiramos ficar coerentes com o que assentamos antes. (387d)

Platão insere a nomeação dentro da esfera das téchnai, isto é, atividades técnicas reguladas por padrões objetivos de adequação. O argumento é estruturalmente forte: se cortar, queimar ou tecer não são atos indiferentes à natureza do objeto, mas dependem de um modo correto de execução, então nomear também não pode ser reduzido a decisão arbitrária. A linguagem passa a ser tratada como uma prática normativamente estruturada, cuja correção depende de algo externo ao sujeito. Essa reconfiguração teórica é aprofundada quando Sócrates define o estatuto funcional do nome em 388b–c:

Sócrates — O nome, por conseguinte, é instrumento para informar a respeito das coisas e para separá-las, tal como a lançadeira separa os fios da teia. (388b–c)

Essa analogia é central para o argumento platônico: o nome não é um signo convencional, mas um instrumento cognitivo e discriminador, cuja função é tornar a realidade inteligível ao pensamento. Assim como a lançadeira organiza e separa fios de acordo com uma finalidade técnica, o nome organiza o ser em distinções significativas. Isso implica que a linguagem possui uma função epistemológica intrínseca, e não apenas comunicativa. Nomear é, portanto, uma forma de ordenar o real segundo suas próprias articulações.

Essa concepção instrumental exige, contudo, uma explicação sobre a origem e a competência na produção dos nomes. É nesse contexto que Sócrates introduz, em 389a, a figura do legislador dos nomes (nomothetēs):

Sócrates — Por conseguinte, Hermógenes, nem todos os homens têm capacidade para impor nomes, mas apenas o fazedor de nomes, e esse, ao que tudo indica, é o legislador, de todos os artistas o mais raro. (389a)

 O “legislador” é uma figura teórica hipotética que representa o “designer ideal da linguagem”, alguém que criaria nomes corretos se tivesse acesso ao conhecimento verdadeiro das coisas. Ele usa isso para ilustrar a nomeação como uma técnica altamente especializada, exigindo conhecimento técnico e, sobretudo, conhecimento da realidade. O legislador hipotético não cria nomes por convenção social, mas como um artesão que precisa compreender aquilo que pretende moldar linguisticamente:

Sócrates — Logo, meu excelente amigo, o nosso legislador deverá saber formar com os sons e as sílabas o nome por natureza apropriado para cada objeto, compondo todos os nomes e aplicando-os com os olhos sempre fixos no que é o nome em si, caso queira ser tido na conta de verdadeiro criador de nomes. O fato de não empregarem as mesmas sílabas, não nos deve induzir a erro. (389d)

Aqui Sócrates introduz a distinção entre o nível sensível das línguas particulares e um nível inteligível mais profundo, correspondente ao “nome em si”. O “nome em si” (onoma auto), isto é, uma espécie de padrão ou forma correta de nomear que não depende das sílabas específicas de cada língua. O “nome correto” não é uma palavra concreta, mas uma realização linguística que capta algo como uma estrutura inteligível da coisa nomeada. Por isso, diferentes línguas podem “instanciar” o mesmo nome correto de maneiras distintas, desde que preservem essa adequação funcional ao ser.

Essa noção permite a Platão resolver um problema imediato do naturalismo: a diversidade linguística. Se nomes fossem naturais no sentido estrito de depender de sons específicos, então idiomas diferentes tornariam impossível a comunicação da mesma realidade. A solução platônica é afirmar que diferentes sistemas fonéticos podem realizar a mesma estrutura essencial do nome, assim como diferentes materiais podem instanciar a mesma forma técnica. O critério de correção, portanto, não está na superfície sonora, mas na adequação à Forma.

Esse deslocamento prepara o último movimento da seção: a subordinação da criação linguística à dialética. Em 390c–d, Sócrates estabelece uma hierarquia entre o produtor de nomes e o verdadeiro conhecedor da verdade:

Sócrates — E a quem sabe interrogar e responder dás outro nome que não seja o de dialético?
Hermógenes — Não; esse mesmo.”

[...]
“Sócrates — E a do legislador, ao que parece, é o de dar nomes, sob a direção do dialético, caso deseje criá-los com acerto.
(390c–d)

Aqui Platão conclui uma tese epistemológica fundamental: a linguagem não é autônoma em relação ao conhecimento. O dialético (aquele que domina o método da investigação racional por meio de perguntas e respostas) ocupa o lugar epistemicamente superior. O legislador dos nomes depende dele, pois apenas quem conhece a estrutura do ser pode orientar a correta constituição da linguagem.

III. INVESTIGAÇÃO EPISTEMOLÓGICA DA LÍNGUA GREGA

 

A seção 3 do Crátilo (390e–427d) constitui o núcleo mais extenso e teoricamente ambicioso do diálogo, no qual Platão coloca à prova a hipótese do naturalismo linguístico por meio de uma investigação etimológica sistemática da língua grega. O movimento filosófico central dessa seção consiste em transformar a linguagem em objeto de decifração ontológica: se os nomes são naturais, então eles devem conter, em sua própria estrutura, pistas sobre a essência das coisas que designam. A etimologia torna-se, assim, um método filosófico de leitura do ser inscrito na linguagem.

O primeiro passo dessa análise consiste na decomposição de palavras complexas (“nomes secundários”) em elementos mais simples, revelando supostas descrições condensadas da realidade. Sócrates sustenta que muitos termos não são arbitrários, mas funcionam como definições comprimidas. Um exemplo clássico é a interpretação do termo grego anthrôpos, apresentado como algo próximo de “aquele que reflete sobre o que viu”, sugerindo que a racionalidade humana se distingue pela capacidade de contemplação e reflexão. Nesse estágio, a linguagem parece operar como um sistema de “sabedoria encodificada”, no qual os nomes preservam traços de uma compreensão originária das coisas.

Entretanto, ao analisar os nomes, Sócrates descobre que eles parecem refletir não apenas as coisas, mas também as opiniões filosóficas dos antigos criadores da linguagem. Em especial, ele identifica uma forte presença da doutrina heraclítea do fluxo universal, segundo a qual toda a realidade está em constante mudança e nada permanece estável. Isso é explicitamente indicado em 401d: "... a opinião de Heraclitus, que todas as coisas fluem e nada permanece ..." E reforçado em 402a: "Heraclitus é suposto dizer que todas as coisas estão em movimento e nada em repouso; ele as compara ao fluxo de um rio, e diz que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio." (402a)

Os nomes, longe de serem janelas neutras para a realidade, podem carregar pressupostos metafísicos historicamente situados. Em vez de revelar diretamente a essência das coisas, a linguagem pode estar impregnada de teorias filosóficas equivocadas dos seus criadores. Isso enfraquece progressivamente a confiança no projeto naturalista inicial.

O segundo movimento da seção ocorre quando Sócrates identifica um limite metodológico da análise etimológica. Se os nomes complexos podem ser decompostos em elementos mais simples, deve haver um ponto em que essa regressão termina: os chamados nomes primários, ou unidades linguísticas elementares. Em 422a–b, Sócrates formula esse problema:

Em que ponto deve ele ... perder o ânimo e desistir da investigação? Não deve ele parar quando chega aos nomes que são os elementos de todos os outros nomes e sentenças? Pois estes não podem ser supostos como compostos de outros nomes... (422a–b)

Esse momento introduz uma dificuldade estrutural para o naturalismo: se todos os nomes derivam de outros nomes, a cadeia explicativa se torna infinita; mas se há nomes primários, então é preciso explicar como eles podem significar algo sem serem definidos por outros termos. A resposta de Sócrates é ousada: esses nomes primários devem indicar a essência das coisas não por descrição conceitual, mas por imitação fonética da realidade. Em 422d, essa tese é explicitada: "Todos os nomes que temos explicado foram destinados a indicar a natureza das coisas.... e isso é verdadeiro dos nomes primários tanto quanto dos secundários..." (422d) E em 423e: "Se alguém pudesse expressar a essência de cada coisa em letras e sílabas, não estaria ele expressando a natureza de cada coisa?" (423e)

Aqui Platão radicaliza o naturalismo ao sugerir que a linguagem primordial funciona como uma espécie de mimetismo acústico da realidade, no qual sons específicos correspondem a propriedades ontológicas. Essa hipótese transforma a linguagem em uma forma de “iconicidade sonora”, na qual o significado não depende de convenção nem de definição, mas de semelhança estrutural entre som e ser.

Sócrates, contudo, não ignora as dificuldades dessa tese. Em 425d–426a, ele admite explicitamente o caráter problemático da ideia:

Que os objetos sejam imitados em letras e sílabas, e assim encontrem expressão, pode parecer ridículo, Hermógenes, mas não pode ser evitado — não há princípio melhor ao qual possamos recorrer para a verdade dos nomes primeiros... (425d–426a)

Assim, Platão expõe o naturalismo em sua forma mais extrema justamente para evidenciar suas fragilidades internas. A tentativa de explicar a linguagem por imitação fonética leva a resultados pouco plausíveis e abre espaço para a conclusão de que muitas explicações etimológicas são, na verdade, “desculpas engenhosas” sem fundamento rigoroso.

 

IV. CRÍTICA DO NATURALISMO EXTREMO

 

A seção 4 do Crátilo (427d–435) marca o momento em que Sócrates passa para sua crítica interna mais incisiva contra o  naturalismo, voltada especificamente contra a versão extrema defendida por Crátilo. Após a longa análise etimológica da seção anterior, Crátilo acredita que a tese naturalista foi plenamente confirmada: se os nomes parecem conter descrições da realidade, então a linguagem seria um sistema perfeitamente transparente de acesso ao ser. A partir dessa conclusão, ele radicaliza sua posição, sustentando que todo nome é ou perfeitamente adequado ou não é nome algum, e que o uso de um nome incorreto não produz erro, mas simples ausência de significação, algo comparável a ruído sem conteúdo.

Essa posição aparece claramente em sua rejeição da possibilidade de falsidade linguística: “Por que, Sócrates, como pode um homem dizer aquilo que não é — dizer algo e ainda assim não dizer nada? Pois não é a falsidade dizer aquilo que não é?” (429d). Essa tese conduz a uma forma de perfeccionismo semântico, segundo o qual a linguagem só funciona quando há correspondência total entre nome e essência. O problema, como Sócrates mostrará, é que essa exigência elimina a própria possibilidade de erro e, consequentemente, de aprendizagem, investigação e comunicação imperfeita, elementos essenciais da prática linguística real.

Para refutar essa posição, Sócrates inicia sua crítica por meio de uma analogia decisiva: a relação entre nomes e imagens. Em 433d–e, ele questiona Crátilo sobre o estatuto representacional dos nomes:

“SOCRATES: Admites que um nome seja a representação de uma coisa? ... Ou preferes a opinião de Hermógenes e de muitos outros, que dizem que os nomes são convencionais e têm significado apenas para aqueles que concordaram sobre eles?” (433d–e)

A estratégia argumentativa consiste em deslocar o debate do plano da correspondência perfeita para o plano da representação imperfeita. Assim como uma pintura pode representar um objeto sem reproduzi-lo integralmente, um nome pode significar uma coisa sem capturar sua essência de forma completa. Essa analogia permite a Sócrates introduzir uma distinção crucial: a representação não exige identidade. Um retrato pode ser reconhecível mesmo sendo imperfeito, assim como uma palavra pode ser significativa mesmo sem ser uma “cópia exata” do objeto.

Essa ideia é levada ao extremo quando Sócrates mostra que a exigência de perfeição naturalista leva a um paradoxo: se um nome fosse uma reprodução totalmente fiel da coisa, ele deixaria de ser nome e se tornaria duplicação ontológica do objeto. Em outras palavras, a linguagem deixaria de ser representação e passaria a ser repetição do real, o que destruiria sua função distintiva.

A partir dessa crítica, Sócrates reintroduz um elemento que Crátilo havia rejeitado: a convenção. Ele demonstra que mesmo a hipótese naturalista não consegue explicar o funcionamento efetivo da linguagem sem recorrer a hábitos compartilhados. Isso fica evidente em dois exemplos centrais. Primeiro, o problema da inconsistência fonética. Em 434d–435a, Sócrates analisa o termo grego para “duro” (sklêrotês):

“[Socrates:] ... mas ainda assim a palavra é inteligível para ambos nós. Quando digo sklerós (duro), você entende o que quero dizer.”
“CRATYLUS: Sim, meu caro amigo, e a explicação disso é o costume.”
(434d–435a)

Aqui, Platão desmonta a ideia de que o significado depende exclusivamente de semelhança fonética. Mesmo que o termo contenha sons teoricamente associados a qualidades opostas (como rho e lambda), ele continua sendo compreendido. Isso mostra que a inteligibilidade linguística não pode ser explicada apenas por imitação natural, mas depende de regularidade de uso compartilhado.

O segundo exemplo é ainda mais decisivo: o problema dos números. Sócrates argumenta que não é possível derivar nomes numéricos exclusivamente por semelhança natural, pois há infinitos números e um conjunto finito de sons linguísticos. Isso obriga qualquer sistema linguístico a recorrer a regras convencionais de composição. Isso é uma demonstração estrutural de que a linguagem exige um elemento de articulação normativa arbitrária, sem o qual não poderia expandir-se infinitamente nem funcionar de modo sistemático.

Diante dessas dificuldades, Sócrates conclui que mesmo que a semelhança fosse ideal, ela não pode explicar sozinha a linguagem. Em 435a–b, ele afirma: “… a correção de um nome acaba sendo convencional, uma vez que letras diferentes são igualmente indicativas se forem sancionadas pelo costume e pela convenção.” (435a–b). E complementa: “… o significado das palavras é dado pelo costume e não pela semelhança [com a coisa nomeada].” (435b).

A posição final de Sócrates, contudo, não é uma rejeição completa do naturalismo. Em 435c, ele reconhece: “Pois acredito que, se pudéssemos sempre ou quase sempre usar semelhanças perfeitamente adequadas, isso seria o estado mais perfeito da linguagem.” (435c). Platão não abandona a ideia de que há alguma relação entre linguagem e realidade, mas rejeita a tese de que essa relação possa ser total ou exaustiva. A linguagem ideal seria aquela que maximiza a semelhança, mas, na prática, ela sempre depende de um equilíbrio entre semelhança e convenção.

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Para auxílio na construção deste texto foi utilizado o Notebook KLM para extrair informações a partir das seguintes fontes acadêmicas:

ADEMOLLO, Francesco. Why the Cratylus Matters, or: Plato’s Cratylus and the Philosophy of Language. In: MIKEŠ, V. (ed.). Plato’s Cratylus: Proceedings of the Eleventh Symposium Platonicum Pragense. Leiden e Boston, 2022. p. 26-47.

ANGELO, Robert Wesley. Plato's Cratylus and the Origins of Names. Wittgenstein's Logic of Language, 1998 (atualizado em 2007). Disponível em: https://www.roangelo.net/logwitt/cratylus.html.

MONTENEGRO, Maria Aparecida de Paiva. Linguagem e conhecimento no Crátilo de Platão. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, p. 368-377, 2007.

PLATÃO. Diálogos: Teeteto e Crátilo. Tradução de Carlos Alberto Nunes. 2. ed. Belém: Gráfica e Editora da Universidade Federal do Pará (UFPA), 1988.

ROBINSON, Richard. The Theory of Names in Plato's Cratylus. Revue Internationale de Philosophie, v. 9, n. 32 (2), p. 221-236, 1955.

SEDLEY, David. Plato's Cratylus. In: The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2018 Edition). Stanford: Metaphysics Research Lab, Center for the Study of Language and Information (CSLI), Stanford University, 2018.

SPELLMAN, Lynne. Naming and Knowing: The "Cratylus" on Images. History of Philosophy Quarterly, v. 10, n. 3, p. 197-210, jul. 1993.

Além disso, para sistematização das ideias foi utilizado o Philosophy Prof, modelo de IA desenvolvido Andrew Bell que responde apenas com base na Stanford Encyclopedia of Philosophy.

 


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Bruno dos Santos Queiroz

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