TRATADO SOBRE OS PRINCÍPIOS DO CONHECIMENTO HUMANO


  
    O que se segue é um resumo do Tratado sobre os Princípios do Conhecimento Humano de George Berkeley. Berkeley foi um filósofo idealista irlandês e, neste tratado, ele defende o Imaterialismo, doutrina segundo a qual a matéria não existe. Seu objetivo é mostrar como a crença na matéria é a causa de todo ateísmo e ceticismo e, assim, apresentar como evidente a existência de Deus como sendo o Espírito supremo que causa as nossas ideias. É importante colocar que este resumo é apenas uma apresentação do texto original de forma compactada, sem paráfrases ou resenhas críticas. A ideia é de que o texto permaneça do autor original.

INTRODUÇÃO

       (1) Existem ideias: (i) impressas nos sentidos, (ii) percebidas considerando as paixões e operações do espírito, ou (iii) formadas com auxílio da memória e da imaginação, compondo, dividindo ou simplesmente representando-as originariamente apreendidas. (2) Ao ser que opera com as ideias chamamos espírito. (3) Nem as paixões, nem as ideias formadas pela imaginação existem sem o espírito. (4) O ser das coisas é serem percebidas de modo que não é possível às coisas terem existência fora dos espíritos que as percebem. (5) É impossível conceber no pensamento uma coisa sensível distinta de sua percepção.
       (6) Assim, é uma verdade óbvia a de que todos os corpos que compõem o mundo não existem sem o espírito, o ser das coisas é serem percebidas, assim, é absurdo atribuir às coisas uma existência independente do espírito. (7) O ser das qualidades e dos corpos sensíveis é inseparável de sua percepção e, sendo que somente percebemos as ideias, as qualidades sensíveis e os corpos são ideias.  (8) Diz-se que as ideias são cópias de coisas existentes sem o espírito, contra isso dizemos que as ideias só podem se assemelhar a ideias, não a uma substância inatingível.
       (9) Faz-se distinção entre qualidades primárias (extensão, forma, movimento, repouso, solidez ou impenetrabilidade e número) e qualidades secundárias (qualidades sensíveis, como cor, som, sabor, etc.) e pretende-se que as ideias de qualidades primárias sejam imagens de coisas existentes fora do espírito em uma substância a que dão nome matéria na qual existiriam as qualidades primárias. No entanto, as chamadas “qualidades primárias” são ideias e, assim, não podem existir fora do espírito. (10) Todas as qualidades, sendo ideias, só podem existir no espírito. (11) Nada existe fora do espírito. (12) Mesmo o número é uma criação do espírito. (13) Já a ideia de unidade não passa de uma ideia abstrata e ideias abstratas são impossíveis.
       (14) Admite-se que certas qualidades sensíveis não estão em um objeto fora do espírito, como o calor e o sabor, porque não se admite o mesmo quanto a outras qualidades como a extensão e o movimento? (15)  Assim, se admitimos que sabores e cores só existem no espírito, deveríamos admitir também o mesmo sobre essas outras qualidades. 
       (16) Diz-se que a matéria é um suporte da extensão, que seria um acidente, mas o que isso quer dizer? (17) A partir disso entende-se o Ser como o suporte de todos os acidentes, tal coisa é incompreensível. (18) Mesmo se existem substâncias materiais fora de nós, como poderíamos saber isso se tudo o que percebemos são as ideias?  (19) Além disso, como os corpos materiais poderiam produzir ideias em nós, como algo material pode causar algo no espírito? (21) A crença na existência da matéria é a fonte de inúmeros erros na filosofia e na religião.
        (22) Basta examinar o pensamento próprio e tentar conceber a possibilidade de algo fora do espírito para provar que a matéria não existe. (23) Talvez se argumente “mas posso imaginar coisas no mundo sem ninguém para percebê-los", mas que coisas são essas que formamos no espírito senão ideias? (24) A existência absoluta de coisas não pensantes é sem sentido.
       (25) Todas as nossas ideias são inativas, isto é, não tem poder algum, não podem alterar outra. (26) Sendo assim, essas ideias não podem ser produzidas por outras ideias, antes precisam ser produzidas por uma substância ativa e, dado que não há substância material, a causa das ideias é um Espírito. (27) Um espírito é um ser simples, indivíduo, ativo; quando percebe ideias chama-se entendimento e quando produz ou de outro modo opera com elas chama-se vontade. Não pode haver ideia de espírito; porque, sendo as ideias não podem representar para nós aquilo que age. (28) O espírito ativo tem a capacidade de fazer e desfazer-se de ideias.
        (29) Apesar do controle que temos sobre nossos pensamentos, as ideias percebidas pelos sentidos não dependem da nossa vontade, não determinamos os objetos que se apresentam a nós, de modo que deve existir outra vontade ou Espírito que os produz.  (30) As ideias dos sentidos são mais fortes, vivas e distintas do que as da imaginação; a coerência delas prova a sabedoria e benevolência do Autor, essa coerência se manifesta no que chamamos de “leis da natureza”.  (31) Graças a essa coerência podemos ordenar nossa vida. (32) Tal coerência revela que o Autor das ideias é um Espírito soberano, sábio e bondoso.  (33) Chamamos de objetos reais às ideias impressas nos sentidos pelo Autor da natureza; e as excitadas na imaginação, designam-se mais propriamente por ideias ou imagens.

RESPOSTAS ÀS OBJEÇÕES CONTRA O IMATERIALISMO

       (34) Cabe agora refutar às objeções contra os princípios apresentados até aqui:

       OBJEÇÃO 1: O Imaterialismo substitui o mundo real por um mera quimera de ideias.
Resposta: Quanto a isso afirmamos que aquilo que percebemos é real (objetos reais). (35) Negamos a existência da matéria, não da realidade do que percebemos. (36) Se alguém pensa que negamos a existência real das coisas, não entendeu o que  foi dito até aqui. (37) O que rejeitamos são as substâncias materiais entendidas como suportes de acidentes fora do espírito. (38)  As ideias são reais. Nós comemos e bebemos as ideias e nos vestimos com elas. (39) Chamamos de ideia aquilo que geralmente é designado “coisa”, mas preferimos o termo ideia, porque o termo “coisa” traz a ideia de algo existente fora do espírito. (40) Longe estamos do ceticismo ou de duvidar dos sentidos.

       (41) OBJEÇÃO 2: Há uma distinção entre a coisa real e a ideia sobre essa coisa. Por exemplo, a ideia de fogo é diferente do fogo que queima minha mão e causa dor.
Reposta: Esta distinção é infundada, só faria sentido se a ideia de dor e a dor também fossem distintas, isto é, se a dor pudesse existir fora do espírito. Assim como a dor não pode existir fora do espírito, o fogo que causa a dor também não existe fora do espírito.

       (42) OBJEÇÃO 3: Uma coisa só pode estar distante de nós se estiver fora de nós.   Resposta: A distância só têm existência em nosso espírito. (43) A nossa visão do espaço externo e da distância entre os corpos nele existentes é apenas sugerida ao pensamento por certas ideias visíveis e sensações ligadas à visão. (44) As ideias ligadas à visão são a linguagem em que o Espírito soberano nos informa das ideias táteis que vai imprimir em nós se excitarmos este ou aquele movimento no nosso corpo.

       (45) OBJEÇÃO 4: Se as coisas só existem enquanto são percebidas, elas são a cada momento aniquiladas e recriadas.
Resposta: Reafirmamos que é impossível conceber algo que não seja percebido. (46) Lembremos que os próprios escolásticos, que creem na matéria, defendem que Deus sustenta a existência das coisas continuamente numa espécie de criação divina. (47) Mesmo se a matéria existisse, ela seria algo incompreensível. (48) Dizer que os objetos só existem quando percebidos, não quer dizer que eles só existam quando percebidos por nós, desde que outros espíritos podem percebê-lo, assim, os objetos não são aniquilados em cada instante.

       (49) OBJEÇÃO 5: Se extensão e forma só existem no espírito, então o espírito é extenso e tem forma.
Resposta:  Extensão e forma estão no espírito apenas como percebidas por ele, não como modo ou atributo mas como ideia.

       (50) OBJEÇÃO 6:  Se a matéria não existe se destruirá todo conhecimento da filosofia natural.
Resposta: Não há fenômeno algum explicado pela filosofia natural que não possa ser explicado sem a hipótese da matéria.

       (51) OBJEÇÃO 7:  Seria absurdo banir causas naturais e restringir tudo a operação imediata de espíritos.
(52) Resposta: Embora se faça isso, ao falar das coisas naturais mantemos a linguagem comum. (53) A opinião de que não há causas corpóreas foi já mantida noutro tempo por alguns escolásticos, e por outros dentre os filósofos modernos que, embora aceitando a existência da matéria, entendem que só Deus é causa eficiente imediata de todas as coisas.

       (54) OBJEÇÃO 8: Há um consenso universal a respeito da existência da matéria, não é possível que todos estejam enganados.  
Resposta: Primeiro, que uma investigação minuciosa mostrará não serem talvez tantos os que realmente creram na existência da matéria. (55) Em segundo lugar, mesmo preconceitos e ideias falsas já foram aceitas por numerosa parte da humanidade.

        (56) OBJEÇÃO 9: O Imaterialista teria que explicar como a crença na matéria poderia ter surgido e aceita pelo mundo.
Resposta: A crença na matéria surgiu porque os homens, percebendo que não são os autores de suas próprias ideias, concluíram que os objetos existem fora do espírito, sem perceber que isso não faz sentido.  (57) Afirmamos que é o Espírito Supremo quem produz em nós as ideias.  

       (58) OBJEÇÃO 10: Não crer na matéria seria incompatível com os princípios bailares da matemática e da astronomia.
(59) Resposta: Afirmamos que podemos, pela sucessão de ideias no espírito, conhecida por experiência, formar predições seguras e bem fundadas sobre as ideias que nos afetarão, em consequência de uma grande série de ações. Nisto consiste o conhecimento da natureza.

       (60) OBJEÇÃO 11: Se não há matéria, toda a organização das plantas e o mecanismo das partes do animal seria inútil e sem sentido.
(61) Resposta: Mesmo quem crê na matéria não está livre dessa dificuldade, pois poderia se perguntar porque Deus teria criado todo esse mundo complexo, podendo realizar tudo por simples decisão de Sua vontade sem todo esse aparato. (62) Se agradou a Deus que as coisas fossem assim é porque isso cumpre seus sábios propósitos. (63) Por meio da natureza, Deus revela a nós sua sabedoria e benevolência. (64) Assim, a questão seria mais qual o propósito de Deus com toda Sua obra? (65) Afirmamos que Deus revela por meio das leis da natureza a regularidade que nos permiti estabelecer predições e que manifesta o sábio plano divino. (66) É a função do filósofo natural buscar entender essas regularidades, e não explicar causas corpóreas. Foi a crença na matéria que afastou a mente humana de Deus.  

       (67) OBJEÇÃO 12: A matéria poderia existir, talvez, de uma forma diferente daquela descrita pelos filósofos, não sendo um suporte de acidentes.
Resposta: Primeiro, não parece menos absurdo supor uma substância sem acidentes do que acidentes sem substância. Segundo, suposta a existência da matéria, onde existe? No espírito sabemos que não; em qualquer lugar também não, pois que todo lugar ou extensão existe apenas no espírito, como ficou provado; logo, não existe em parte alguma. (68) A matéria é algo incompreensível, não existe em parte alguma, sendo completamente sem sentido, (69) de modo que não faz sentido pensar na matéria, quer como estando presente, quer como ocasião. (70) Há quem argumente que a matéria, embora não percebida por nós, poderia ser percebida por Deus. (71) No entanto, essa noção de matéria é extravagante demais para merecer refutação. (72)  Deus é suficiente para explicar as aparências da natureza, mas não se pode concluir com base na existência de Deus, a existência da matéria.

CAUSA DA CRENÇA NA MATÉRIA

       (73) Aqui vamos refletir sobre os motivos que levaram os homens a supor a existência da matéria. Pensou-se primeiro que qualidades sensíveis existiam fora do espírito; e assim pareceu necessário supor uma substância onde elas existissem. (74) Tal crença na matéria se tornou tão arraigada que é difícil afastá-la. (75) Tal preconceito foi fortemente arraigado no espírito humano, por mais absurdo que ele seja.
       (76) É impossível que a matéria exista. (77) Mesmo se a matéria existisse, ela seria incognoscível e incompreensível e sem sentido para nós. (78) Qualidades sensíveis só podem existir em um espírito que percebe. (79) A matéria é algo completamente incompreensível e sem sentido. (80) A matéria simplesmente é nada. (81) Pretender alguém uma noção de entidade ou existência, abstraída de espírito e ideia, de percipiente e percebido, parece-me contradição e jogo de palavras.

RESPOSTA AOS ARGUMENTOS RELIGIOSOS MATERIALISTAS

       (82) Resta agora considerar os argumentos religiosos a favor da existência da matéria. Argumenta-se que a Bíblia é clara sobre a existência real dos corpos. Respondemos lembrando que os princípios aqui apresentados não contradizem a realidade das coisas. (83) Todos concordam em que o uso adequado das palavras é exprimir as nossas concepções ou coisas somente enquanto conhecidas e percebidas por nós. (84) Argumenta-se que se os nossos princípios forem verdadeiros, os milagres não seriam reais, mas meras fantasias. (85) Repetimos que não negamos a realidade daquilo que percebemos como objetos reais.

CONHECIMENTO DAS IDEIAS

       (85) Passemos agora às consequências da nossa doutrina. (86) Dos princípios alegados conclui-se poder o conhecimento humano reduzir-se naturalmente a dois domínios: o conhecimento das ideias (coisas não pensantes) e o conhecimento dos espíritos
       (87) Nossos princípios nos protegem do ceticismo (88) que tem sua origem na crença em objetos externos. (89) Nada parece mais importante para construir um sistema de sólido e real conhecimento, à prova do ataque do ceticismo, do que principiar por distinguir claramente o sentido de coisa, realidade existência. Coisa ou Ser é o termo mais geral; compreende duas espécies distintas e heterogêneas, que só têm comum o nome: espíritos e ideias; os primeiros são substâncias ativas e indivisíveis; as segundas, seres inertes, transitórios, dependentes, não subsistentes em si mas em espíritos ou substâncias espirituais. (90) As ideias impressas nos sentidos são coisas reais ou existem realmente; não o negamos, o que negamos é que existam fora do espírito. (91) Assim, seria um erro ver nestas afirmações a negação da realidade das coisas.
       (92) A doutrina da matéria foi verdadeiro pilar ou suporte do ceticismo (93), do ateísmo (94) e da idolatria. (95) Entre os cristãos, a crença na matéria causou confusões acerca da Ressurreição. (96) Abandonada a crença na matéria, o ateísmo, o ceticismo e disputas teológicas são superadas.
       (97) Além da existência externa dos objetos perceptíveis, outra grande fonte de erro e dificuldades para o conhecimento ideal é a doutrina das ideias abstratas, (98) que causou sérias dificuldades. (99) Todas as qualidades sensíveis são igualmente sensações e igualmente reais, os objetos sensíveis nada mais são do que sensações combinadas em conjunto; nenhum pode existir impercebido. (100) A doutrina da abstração tornou a moralidade muito difícil ao abstrair noções gerais de pessoas e ações particulares.

FILOSOFIA NATURAL

       (101) Os dois grandes domínios da ciência especulativa relacionados com as ideias sensíveis são a filosofia natural e a matemática. (102) O Imaterialismo torna o estudo da natureza muito mais simples, (103) superando hipóteses e especulações desnecessárias. (104) Examinando e comparando vários fenômenos, observamos alguma semelhança e conformidade entre eles (105) de modo que os filósofos naturais podem descobrir regras gerais na natureza. (106) Mas deveríamos ser prudentes nestas coisas, porque podemos confiar demais nas regras gerais, e com prejuízo da verdade sentir aquela avidez que leva o espírito a ampliar o seu conhecimento em teoremas gerais.
       (107) Defendemos que é evidentemente vão procurarem os filósofos uma causa natural eficiente distinta da mente ou espírito. Considerando que toda a Criação é obra de um Agente sábio e bom, os filósofos, parece, deveriam pensar  na causa final das coisas. Dos nossos princípios não se conclui de modo algum que a história da natureza não deva estudar-se, ou não se façam observações e experiências úteis ao homem e que habilitam a atingir conclusões gerais; mas isso não resulta de hábitos ou relações entre as coisas mesmas mas da bondade de Deus e da sua benignidade para com o homem na administração do mundo. Por diligente observação de fenômenos no nosso ponto de vista podemos descobrir leis gerais da natureza e delas deduzir os outros fenômenos.
       (108) Os que dos fenômenos derivam regras gerais e depois deduzem fenômenos a partir das regras parece considerarem sinais e não causas. (109) Devemos visar ampliar as nossas noções da grandeza, sabedoria e beneficência do Criador; e finalmente fazer das várias partes da Criação, quanto em nós cabe, servidoras do fim que lhes foi designado, a glória de Deus, a sustentação e bem-estar nosso.
       (110) Pensam-se tempo, espaço e (111) movimento como se existissem fora do espírito. (112) Quanto ao movimento, não me parece que possa haver outro movimento além do relativo; para conceber o movimento é preciso conceber pelo menos dois corpos à distância e em posição variáveis. (113) Mas, conquanto em cada movimento tenha de haver mais de um corpo, pode mover-se apenas um, aquele onde se aplica a força causadora da mudança de distância ou de situação. (114) Como o "lugar" é variamente definido, varia o movimento correlato.
       (115) Para afirmar que um corpo é movido, é preciso: primeiro, mudança de distância ou de situação relativamente a outro; segundo, aplicação da força causadora de mudança. (116) De onde se segue que a consideração do movimento não implica um espaço absoluto, diferente do percebido pelos sentidos e corpos correlatos. (117) O exposto parece dar fim às dificuldades e discussões dos doutos sobre a natureza do espaço puro.

MATEMÁTICA

       (118) Tatamosa filosofia natural, vamos agora considerar a Matemática. (119) Pensou-se que a Aritmética tem por objeto as ideias abstratas de número. (120) Mas, sendo o número uma "coleção de unidades", conclui-se não haver unidade em abstrato; não há ideias de número em abstrato significadas por nomes numerais e figuras. (121) Assim, não faz sentido ficar gastando tempo com verdades abstratas, com teoremas aritméticos e problemas sem aplicação alguma. (122) Em Aritmética, não lidamos com as coisas, mas com sinais, considerados não como fim mas por nos dirigirem a ação relativamente às coisas para dispor delas seguramente.
       (123) Passamos agora à Geometria que trata da extensão. (124) Cada extensão finita particular pensável é uma ideia existente apenas no espírito, e, portanto, cada parte dela deve ser percebida. (125) Os convictos da doutrina das ideias gerais abstratas podem convencer-se  de que a extensão em abstrato é infinitamente divisível, o que é um erro. (126) O geômetra abstrai da sua grandeza - sem isto implicar que ele forme uma ideia abstrata.
       (127) Diz-se que uma linha finita contém partes em número ilimitado; o que é verdade, não tomando-a abstratamente, mas as coisas por ela significadas. (128) Não fazendo essa distinção, cometem-se erros. (130) Por fim a especulação sobre o infinito foi tão longe e deu de si noções tão extraordinárias que provocaram não pequenos escrúpulos e discussões entre os geômetras atuais. (131) Assim, pensa-se que nossos princípios podem destruir as bases da geometria. A isto se responde que tudo quanto na geometria é útil e benéfico à vida humana fica inabalável com os nossos princípios. (132) um cuidadoso exame mostrará não haver exemplo da necessidade de usar ou conceber partes infinitesimais de linhas finitas.
         (133) Vê-se claro quantos erros numerosos e importantes resultam de falsos princípios. (134) É certo que em consequência dos princípios anteriores muitas disputas e especulações se rejeitam por inúteis.

CONHECIMENTO DOS ESPÍRITOS

       (135) Tendo concluído o que se refere ao conhecimento de ideias, o método leva-nos a tratar do conhecimento dos espíritos, (136) em que nosso conhecimento talvez não seja tão deficiente como se pensa. (137) Muitas afirmações absurdas e heterodoxas e muito ceticismo sobre a natureza da alma provieram da opinião de julgar os espíritos cognoscíveis por uma ideia ou sensação. (138) É evidente não haver ideia de um espírito. (139) Por espírito, entende-se algo que é real que nem é ideia nem semelhante a uma ideia, mas percebe ideias.
       (140) Em sentido lato podemos ter uma ideia, ou antes, uma noção de espírito, isto é, compreender o sentido do termo. (141) A alma é indivisível, incorpórea, inextensa, portanto imortal.
       (143) A doutrina das ideias abstratas contribuiu muito para complicar e obscurecer as ciências com as coisas espirituais. (144) Nada parece ter contribuído mais para erros e controvérsias sobre as operações do espírito do que o uso de falar delas em termos provindos de ideias sensíveis. (145) Só podemos saber da existência de outros espíritos pelas operações ou pelas ideias que eles excitam em nós.
      (146) Já consideramos também que há um Espírito soberano que causa a maior parte das nossas ideias. (147) Assim é evidente conhecermos Deus imediatamente como outro espírito, distinto de nós. Podemos afirmar que a sua existência é mais evidente que a dos homens, porque os efeitos da natureza são infinitamente mais numerosos e consideráveis que os dos agentes humanos. (148) Assim, vemos Deus por meio da natureza, o que refuta os ateísmo que argumentam que Deus não existe porque não podemos vê-lo. (149)  Parece, pois, evidente a uma simples reflexão a existência de Deus ou um Espírito intimamente presente ao nosso, onde produz toda a variedade de ideias que percebemos.
       (150) A própria Bíblia atribui tudo o que percebemos à imediata ação de Deus – Jeremias 10.13; Amós 5.8; Salmo 65.6-11; Atos 17.27. (151) Objeta-se que Deus não pode estar por traz das misérias humanas e defeitos da natureza. (152) Devemos considerar que os defeitos da natureza não são sem préstimo por constituírem uma espécie de variedade e aumentarem a beleza do resto da Criação, como as sombras de uma pintura acentuam o brilho das partes iluminadas. (154) É, pois, manifesto a qualquer pessoa refletida que só a falta de atenção e capacidade compreensiva explica a existência de ateus.
       (155) A visão clara de que existe um Deus bondoso e soberano só pode levar-nos o coração a um sagrado temor, que é o mais forte incentivo à virtude e a melhor defesa contra o vício.  (156) Porque afinal o que tem o primeiro lugar nos nossos estudos é a consideração de Deus e do nosso dever. Este é o principal objetivo deste trabalho,

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