quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

QUATRO PROMESSAS PARA CRISTÃOS QUE SENTEM ATRAÇÃO HOMOSSEXUAL

Christopher Asmus

        Sou casado, pai e pastor e desde que eu possa me lembrar, tenho experimentado desejos por pessoas do mesmo sexo. Embora eu sempre tenha sido atraído, tanto fisicamente, quanto romanticamente, por mulheres, eu também nunca deixei de sentir profundas atrações, tanto sexuais, quanto emocionais, por homens.
       Muitos em nossa cultura iriam querer rotular pessoas como eu como “bissexuais”, mas eu acredito que Jesus tenha dito algo melhor.

“Sinto, logo...”
       A ética sexual, em geral, de nossos dias é “Sinto, logo existo”. Vemos isso claramente nas discussões atuais sobre “identidade de gênero”. Os proponentes das chamadas “identidades de gênero não-binárias” sugerem que, se alguém se sente de um gênero contrário ao do seu sexo biológico, ele pertence à uma identidade que se correlaciona melhor com os seus sentimentos. Da mesma forma, muitos na nossa cultura pensariam em pessoas como eu a partir da ideia de que se você sente desejos homossexuais, logo você é homossexual.
       Muitas vezes, ouvimos declarações como: “Você não pode escolher quem você ama; seja verdadeiro consigo mesmo”. Ou, “Pare de esconder seus sentimentos e abrace quem você realmente é”. Essas declarações significam que seus desejos sexuais realmente o definem. Seus desejos determinam sua definição. Suas atrações sexuais são quem você realmente é no cerne do seu ser.
       A Bíblia, no entanto, não ensina: “Sinto, logo existo”, mas sim, “Sinto, logo careço”. Como resultado da queda, nossos corações estão fora de ordem e são sombrios (Romanos 1.21). Ao invés de amar a luz e odiar as trevas, amamos as trevas e odiamos a luz (João 3.19). E quando nos apaixonamos pelas trevas, pecamos e escolhemos o caminho da morte (Tiago 1.14-15, Provérbios 14.12).
       Em resumo, ser humano em um mundo caído significa ser atraído por coisas que são contrárias ao crescimento do homem em Deus, coisas que são contrárias ao bom plano de Deus para nós, coisas que conduzem à morte. Sinto essas atrações pelo pecado, logo, eu careço de um Salvador.
        Como tenho lutado diariamente contra a atração por pessoas do mesmo sexo, quatro promessas particulares têm sido como “tiros certeiros da graça” em minha luta pela alegria.

Liberdade da Punição da Atração Homossexual
       Os cristãos que lutam contra desejos por pessoas do mesmo sexo muitas vezes se sentem especialmente embaraçados e envergonhados por causa desses desejos. Sentimos a perversão de nossas vontades e desejos distorcidos e, como resultado, muitas vezes nos sentimos muito sujos para estar em comunidade com os outros, ou para estar em comunhão com Deus.
       “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.” (Romanos 8.1). Cristãos, Deus nunca usará sua atração por pessoas do mesmo sexo contra você. Visto que Cristo tomou o cálice cheio da ira de Deus em seu favor (Romanos 5. 8-9; 1 Pedro 3:.8), você nunca experimentará em nenhum momento o juízo de Deus sobre seus desejos homossexuais, ou sobre qualquer outra coisa.

Liberdade do Poder da Atração Homossexual
       Muitas vezes, os cristãos que experimentam desejos homossexuais sentem-se desamparados e desesperados com o poder desses desejos. À medida que as atrações se intensificam, as tentações se aprofundam e as fantasias - como uma miragem de água fria em um deserto - parecem cada vez mais atraentes, o desejo por uma relação com alguém do mesmo sexo pode ser tão potente que parece quase impossível de ser vencido.
       Cristão, por causa da obra realizada por Cristo na cruz, suas atrações por pessoas do mesmo sexo não têm mais domínio sobre você (Romanos 6.14); Cristo tem domínio sobre você agora (Romanos 6.22; Efésios 6.6). Visto que você foi crucificado com Cristo (Gálatas 2.20), você não é mais escravo dos seus desejos, você é totalmente livre para rejeitar seus desejos e torná-los impotentes em sua vida (Romanos 6.6-7).
       Mesmo em seus momentos de maior tentação, considere-se morto para os desejos homossexuais e viva para Deus através da fé em Jesus Cristo (Romanos 6.11).

Liberdade do Prazer da Atração Homossexual
        A principal mentira que a atração homossexual nos diz é que uma experiência com alguém do mesmo sexo será mais prazerosa e mais satisfatória do que o que você está experimentando aqui e agora. Mas Deus promete que o próprio Cristo é infinitamente mais prazeroso e satisfatório do que qualquer coisa que este mundo tenha a oferecer (Salmo 16.11; Salmos 107.9), incluindo a falsa salvação da experiência homossexual.
       Cristão, não acredite nas mentiras que a atração homossexual te diz. Nossas atrações homossexuais podem resultar de bons desejos de intimidade e amor, mas o pecado distorceu esses desejos em uma direção mortal. Assim como um espelho distorcido remodela a realidade e convence o olho de que as coisas parecem diferentes do que realmente são, o pecado remodela nossos desejos e vontades, e convence o coração de que a mentira é, na realidade, a verdade. Não acredite no espelho divertido da atração homossexual.
       Os desejos que Deus te deu por satisfação profunda e íntima só podem ser cumpridos na pessoa de Jesus Cristo (João 6.35; Salmos 22.26).

Liberdade da Presença da Atração Homossexual
        Talvez a coisa mais difícil para os cristãos que experimentam desejos homossexuais seja o fato de que esses sentimentos não desaparecem da noite para o dia, ou ao longo de meses, ou, muitas das vezes, nem mesmo durante toda a vida. Embora Deus tenha nos dado armas poderosas para combater o pecado - como a oração e o jejum - ainda devemos viver em nossos corpos caídos com nossas vontades e desejos perversos como nossa realidade sempre presente. Mas essas vontades e desejos têm um prazo de validade.
       O crente, seu corpo, incluindo suas atrações e desejos pelo pecado, um dia serão finalmente e totalmente redimidos (Romanos 8.23). Quando essa redenção acontecer, em um instante, você nunca mais terá uma atração errada novamente, porque todos os seus desejos de intimidade e amor serão completamente cumpridos em Jesus Cristo.
       Se você é um cristão lutando contra atrações por pessoas do mesmo sexo, saiba que você não é definido pelo seu pecado. Sua identidade não é determinada pelas suas tentações. “Abrace quem você realmente é” abraçando a Jesus Cristo e sua nova vida encontrada nele (2 Coríntios 5.17). “Seja verdadeiro consigo mesmo”, agarrando-se à própria verdade (João 14.6) e desfrutando das liberdades que Cristo, por meio de seu sangue, comprou para você.

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Christopher Asmus (Twitter: @ChrisAsmus) é pastor na Vertical Church St. Paul, uma nova igreja em St. Paul, MN. Christopher tem uma família feliz: é casado com Alexandria, com quem tem um filho chamado Haddon.
Tradução: Bruno dos Santos Queiroz.
*Publicação em português autorizada pelo autor.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A SUFICIÊNCIA DAS ESCRITURAS - 2 TIMÓTEO 3.16-17

       As epístolas pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito) foram escritas por Paulo a Timóteo e a Tito. Paulo comissionou Timóteo como seu representante apostólico e como pastor em Éfeso. Paulo escreveu duas cartas a Timóteo, a primeira por volta do ano 65 d.C. depois dos eventos relatados no fim de Atos e a segunda por volta do ano 67 d.C. quando preso em Roma e pouco antes do seu martírio. Ela é a última carta do apóstolo Paulo e foi escrito em um tempo de perseguição perpetrada contra os cristãos pelo imperador Nero. Tendo em vista tanto a perseguição de fora como a ação dos falsos mestres de dentro, Paulo exorta Timóteo a permanecer fiel em meio à tribulação e admoesta-o a pregar a Escritura (BEP, pp.1862,1875,1876).
         O apóstolo Paulo inicia a segunda epístola a Timóteo com saudações e ações de graça (1.1-5), daí passa a instruir Timóteo a (i) exercer seu dom (1.6-11); (ii) guardar a Palavra (1.12-14); (iii) confiar a pregação a homens competentes (2.1-7); estar disposto a sofrer por Cristo (2.8-13) e evitar vãs contendas (2.14-26). O capítulo 3 se inicia com o apóstolo dizendo que os últimos dias seriam trabalhosos e listando uma série de homens corruptos. Em seguida, Paulo orienta Timóteo (3.11-13) a permanecer fiel às Escrituras apesar das corrupções dos homens e das doutrinas dos falsos mestres, mostrando a função dela em reprovar e corrigir os corruptos e hereges (3.14-15).  Paulo justifica isso afirmando a inspiração e suficiência das Escrituras. O que se segue é uma exegese de 2 Timóteo 3.16-17:

16.Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça,
πᾶσα γραφὴθεόπνευστος καὶ ὠφέλιμος πρὸςδιδασκαλίαν, πρὸςἐλεγμόν, πρὸς ἐπανόρθωσιν, πρὸς παιδείαν τὴνἐνδικαιοσύνῃ,
       O apóstolo começa afirmando a inspiração e suficiência das Escrituras e prossegue pontuando a utilidade da Bíblia em orientar os diferentes aspectos da existência por meio do ensino, correção e educação em justiça:
Toda Escritura é inspirada por Deus πᾶσα γραφὴθεόπνευστος: Como o verbo "ser" não aparece no grego, algumas versões o colocam depois, e não antes, da palavra "inspirada" (SBB; ARC). Caso o verbo “ser” seja colocado antes do adjetivo "inspirada", há uma afirmação mais explícita da inspiração plenária da Escritura, em ambos os casos, está presente a ideia de que a totalidade daquilo que Deus revelou na Escritura é útil para todas as áreas da vida. No entanto a conjunção "καὶ" entre os adjetivos "θεοπνευστος" e "ωφελιμος", ambos no nominativo, feminino e singular, concordando com "γραφὴ", favorece a tradução: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil". O adjetivo "πᾶς" refere-se a cada parte de uma totalidade (HWS). Isso significa que as Escrituras, em todas as suas partes, isto é, em cada coisa que afirma, nega ou ensina, é inspirada por Deus. O substantivo "γραφή" (TI: "Sagrada Escritura") é sempre usado (nas 51 vezes em que ocorre no Novo Testamento) para falar das Sagradas Escrituras, os escritos inerrantes e inspirados de Deus (HWS). "Γραφή" é usado em 1 Timóteo 5.18 para anunciar a citação de um texto da Escritura do Antigo Testamento e outro do Novo Testamento e as próprias epístolas paulinas são chamadas de "Escrituras" (2Pedro 3.16), de modo que "toda Escritura" inclui até mesmo os escritos do próprio Paulo: "A Bíblia inteira nos foi dada por inspiração de Deus" (BV). Assim, Paulo tem em mente toda a Escritura, incluindo integralmente o Antigo Testamento e os escritos neotestamentários já existentes na época, mesmo em 1 Timóteo 5.18, Paulo já cita uma passagem dos evangelhos (Lucas 10.7) como Escritura (WM, p.799). Hendriksen vê uma distinção entre "escritos sagrados" (v.15) e "toda escritura" (v.16), sendo que o primeiro se refere ao Antigo Testamento o último ao Antigo Testamento e aos escritos inspirados que estavam sendo produzidos no primeiro século (WH, 369). A Bíblia como um todo, portanto, é suficiente para orientar todas as esferas da vida humana: "A Bíblia contém tudo que é necessário para construir uma cosmovisão cristã compreensiva que nos capacite a ter uma verdadeira visão da realidade. A Escritura nos transmite, não somente a vontade de Deus em assuntos gerais da fé e conduta cristãs, mas, ao aplicar preceitos bíblicos, podemos também conhecer sua vontade em nossas decisões específicas e pessoais. Tudo que precisamos saber como cristãos é encontrado na Bíblia, seja no âmbito familiar, do trabalho ou da igreja." (VC, p.24). O adjetivo "θεόπνευστος" (VR: "soprada por Deus"; ARC: "divinamente inspirada"; TLA: "mensaje de Dios") ocorre só aqui no Novo Testamento, sendo provavelmente um termo cunhado pelo próprio Paulo para expressar a natureza ou origem divina das Escrituras e seu poder de santificar os crentes (HWS). Franklin Ferreira & Alan Myatt definem inspiração "como sendo a influência sobrenatural do Espírito de Deus sobre os homens escolhidos por ele mesmo, a fim de que registrassem, de forma inerrante e suficiente, toda a vontade de Deus em relação à salvação e à vida do homem, constituindo-se esse registro na única fonte e norma da fé e prática cristã." (FA, p.116). Charles Hodge define inspiração como "uma influência do Espírito Santo sobre a mente de determinados homens seletos fazendo deles instrumentos de Deus para a comunicação infalível de sua mente e vontade. Eles foram, em tal sentido, órgãos de Deus, de sorte que o que eles disseram foi o que Deus disse." (CH, p.115). A doutrina da inspiração da Escritura implica que não há diferença entre o que a Bíblia diz e o que Deus diz: "Visto que Deus possui autoridade absoluta e última, a Bíblia sempre porta autoridade absoluta e última. Já que não existe diferença alguma entre Deus falando e a Bíblia falando, não há diferença nenhuma entre obedecer a Deus e obedecer a Bíblia. Crer e obedecer a Bíblia é crer e obedecer a Deus; não crer e não obedecer a Bíblia é não crer e não obedecer a Deus. A Bíblia não é apenas um instrumento através do qual ele nos fala; antes, as palavras da Bíblia são as próprias palavras de Deus falando — não há diferença. A Bíblia é a voz divina para a humanidade, e sua autoridade é total" (VC, p.21).
e útil para o ensino, ὠφέλιμος πρὸςδιδασκαλίαν: A conjunção " καὶ" mostra que a totalidade  da Escritura além de ser inspirada também é útil para a totalidade dos aspectos da existência. O adjetivo "ὠφέλιμος" (TNM: "proveitosa") é usado em 1 Timóteo 4.8 para falar que a piedade é mais proveitosa do que o exercício físico e em Tito 3.8 para dizer que as boas obras são proveitosas para o homem. O substantivo "διδασκαλία" (VFL: "falar sobre a verdade") é usado nas epístolas de Paulo a Timóteo para falar da "sã doutrina" (1 Timóteo 1.10; 4.6; 6.1; 2 Timóteo 4.2), do ensino doutrinário das Escrituras (1 Timóteo 4.13; 5.17), da doutrina ensinada por Paulo (2 Timóteo 3.10), mas também das doutrinas falsas ensinadas por hereges (1Timóteo 4.1; 6.3). Assim, o termo pode ser entendido como "doutrina", significando que a Escritura é a regra de fé do cristão, a base da verdadeira doutrina e ensino da verdade.  Esta verdade inclui as doutrinas a respeito da Trindade, dos anjos, do homem, do pecado, da salvação, da santificação, da igreja, dos últimos dias, etc (WM, p.799).
para a repreensão πρὸςἐλεγμόν: O substantivo "ἔλεγχος" (NTLH: "condenar o erro"; VFL: "repreender os pecadores") ocorre no Novo Testamento somente aqui e em Hebreus 11.1. Neste último, o termo é usado para falar da fé como uma firme "convicção", mas o termo também pode trazer a ideia de "reprovação" (SC). Em inglês a palavra "conviction" pode querer dizer tanto "convicção", quanto "condenação" ou "reprovação". A fé é uma "prova" das coisas que não se veem e as Escrituras são úteis para "reprovar" o erro. Assim, a Escritura fornece resposta àquilo que nos tenta (WM, p.799) e refutações contra os erros de doutrina e conduta (WH, p.373). No entanto, a forma verbal da palavra (ἐλέγχω) é usada em Mateus 18.15 e 1 Timóteo 5.20 para falar da confrontação do pecado. A Escritura em sua função de repreensão confronta os nossos, pecados, nossos ídolos, nossos desejos, pensamentos, crenças e ações pecaminosos (LP).
para a correção πρὸς ἐπανόρθωσιν: O substantivo "ἐπανόρθωσις" (VFL: "corrigir as faltas") aparece só aqui no Novo Testamento e traz a ideia de restaurar algo para um estado de justiça, um aperfeiçoamento da vida e do caráter (TGL). A Bíblia não somente mostra o que está errado, mas apresenta a solução para que o problema seja corrigido (WM, p.799). Isto é, a Escritura não só adverte o pecador a abandonar o caminho errado, mas também o guia no caminho correto a fim de que seu caráter seja restaurado (WH, p.373).
para a educação na justiça πρὸς παιδείαν τὴνἐνδικαιοσύνῃ: O substantivo "παιδεία" (VFL: "ensinar" é usado no Novo Testamento para falar da "disciplina do Senhor" (Efésios 6.4; Hebreus 12.5,7,8,11), traz a ideia de todo o treinamento e educação de uma criança, o que inclui o cultivo mental e moral, envolvendo mandamentos, admoestações, repreensões e punições.O substantivo "δικαιοσύνη" é usado nas epístolas de Paulo a Timóteo quando ele exorta o jovem pastor a seguir a "justiça", em que ela é relacionada com a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão, a paz e a  pureza (1Timóteo 6.11; 2 Timóteo 2.22) e quando, prevendo seu martírio, o apóstolo diz que a coroa da "justiça" está reservada a todos os que esperam a vinda do Senhor. Desse modo, as Escrituras nos educam para ajustiça assim como um pai treina e educa a criança moral e mentalmente, por meio da disciplina, admoestação e repreensão a fim de que ela cresça em piedade, fé, amor, constância, mansidão, paz e pureza. A Bíblia não só diz que o erro deve ser corrigido, como também mostra em detalhes que atitudes devem ser adotadas para uma vida piedosa (WM, p.799).

 17. a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.
ἵνα ἄρτιος ᾖ ὁ τοῦ Θεοῦ ἄνθρωπος, πρὸς πᾶν ἔργον ἀγαθὸν ἐξηρτισμένος.
       O propósito das Escrituras é ensinar, repreender, corrigir e educar e fazer que com o homem de Deus possa se tornar capacitado para toda boa obra. Assim, a Escritura é suficientemente abrangente para orientar todos os aspectos da existência. Além disso, ela é eficiente para habilitar o homem de Deus para a prática das boas obras, visto que, só o homem regenerado é capaz de praticar obras verdadeiramente boas. O adjetivo "ἄρτιος" (NTLH: "completamente") aparece só aqui no Novo Testamento e traz provavelmente a ideia de ser perfeito ou completo para uma dada aptidão específica, no caso, a prática de boas obras (TGL). O verbo “ἐξαρτίζω” (NTLH: “preparado e pronto”; TNM: “completamente equipado”) usado aqui no particípio perfeito para falar de um tempo completo em que Paulo passou em um lugar (Atos 21.5), reforçando, portanto, a ideia de completude, algo perfeitamente acabado (TGL).  Essa ênfase na completude reforça a ideia de que a Escritura é suficiente para orientar todos os aspectos da vida e também que o homem regenerado, habilitado pela Escritura, é perfeitamente capaz de fazer tudo o que deve fazer. A expressão para "boas obras" aparece nas epístolas de Paulo a Timóteo que fala do dever da mulher cristã de servir a Deus com boas obras (1 Timóteo 2.10), a necessidade de que uma viúva sob custódia da igreja local tivesse testemunho de boas obras (1Timóteo 5.10) e para falar da importância da pureza cristã a fim de que a pessoa esteja preparada para a prática de boas obras (2 Timóteo 2.21). Quanto à expressão "homem de Deus", Paulo a usa para se referir ao próprio Timóteo ao lhe dar conselhos e exortações gerais (1 Timóteo 6.11), evidentemente é uma palavra que se refere só ao homem regenerado. Paulo fala das boas obras como um fruto da vida do regenerado (Efésios 2.10) de modo que é somente no homem regenerado que as admoestações das Escrituras são eficazes para torná-lo apto para a prática de boas obras. O homem de Deus é cada crente considerado como pertencente a Deus (WH, 373, 374). O homem de Deus tem a Escritura que o capacita para uma vida piedosa, portanto, o cristão não pode dizer que não pode como uma desculpa para permanecer no pecado e não adotar comportamentos piedosos.

       A Escritura inteira com seus 66 livros é a Palavra inspirada e inerrante de Deus. A Bíblia é completa e suficiente para orientar todos os aspectos da existência. A Escritura fornece uma Cosmovisão completa e abrangente para a ciência, história, filosofia, arte, política, educação e para orientar todas as nossas decisões e ações, incluindo nossa vida familiar, religiosa e profissional. Portanto, não devemos construir nossa visão de mundo sobre pressupostos humanistas, nem abraçar as teorias seculares dos incrédulos. A Bíblia também é suficiente e infalível para solucionar todos os problemas da alma. Não devemos, portanto, relegar à Psicologia secular a função de tratar dos problemas psicológicos do homem. A Palavra de Deus fornece orientações claras, práticas e concretas para que nos desabituemos de padrões pecaminosos e adotemos hábitos piedosos. Por fim, a Escritura é a nossa única regra de fé doutrinária, ela e somente ela, deve orientar tudo o que cremos e pensamos. Rejeitadas, pois, devem ser todas as "profecias", "visões", "sonhos", etc., pois temos orientações de fé e prática suficientes na Bíblia Sagrada.

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FONTES E SIGLAS:
ARC: Almeida Revista e Corrigida
BEP: Bíblia de Estudo Pentecostal
BV: Bíblia Viva
CH: Charles Hodge – Teologia Sistemática.
FA: Franklin Ferreira & Alan Myatt - Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética.
HWS: Helps Word-studies.
LP: Luciano Peterlevitz – Toda a Escritura é Inspirada por Deus. 
NTLH: Nova Tradução na Linguagem de Hoje
SBB: Sociedade Bíblica Britânica
SC: Strong'sConcordance
TGL: Thayer'sGreekLexicon
TI: Tradução Interconfessional
TNM: Tradução do Novo Mundo
VC: VicentCheung - Teologia Sistemática, p.21.VFL: Portuguese New Testament: Easy-to-ReadVersion
VR: Novo Testamento - Versão Restauração.

WH: William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento: 1 e 2 Timóteo e Tito.



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

COMO ACONSELHAR PESSOAS DEPRIMIDAS?

       Já considerei que depressão sem base orgânica é pecado, e não doença (aqui). Se for o caso de você, como conselheiro cristão, aconselhar alguém deprimido, cujo problema não seja de origem orgânica, segue algumas orientações práticas de como fazê-lo:

(1).Identifique se a pessoa é cristã ou não:
       A pessoa deprimida só poderá encontrar verdadeira solução para o seu problema em Cristo, pois só Ele pode dar verdadeiro sentido a sua dor:

"Tomemos o exemplo de um macaco em que se aplicam injeções dolorosas com o intuito de obter um soro capaz de curar numerosas doenças. O macaco pode compreender por que tem de sofrer? A partir do seu ambiente ele é incapaz de compreender as intenções do homem empregadas em seus experimentos, uma vez que o mundo humano lhe é inacessível. Ele não alcança esse mundo, não consegue penetrar em sua dimensão; não podemos então supor que o mundo humano é também, por seu turno, superado por outro mundo, que, por sua vez, não é acessível ao homem, um mundo, cujo suprassentido, é o único capaz de dar sentido à sua dor?"  - Viktor Frankl[1]

       Se a pessoa for cristã, vá direto ao aconselhamento, se não, evangelize-a primeiro. Apresente a ela as verdades fundamentais do evangelho. Estas primeiras sessões podem ser chamadas de “pré-aconselhamento”, você pode dizer: “Este é um aconselhamento bíblico, entendo que somente em Cristo pode haver real solução para o seu problema. Assim, antes de começarmos nosso aconselhamento, queria aproveitar estas primeiras sessões para te apresentar brevemente a fé cristã.” Caso a pessoa responda negativamente ao evangelismo, rejeitando cabalmente sua apresentação do evangelho, diga: “Te apresentei um resumo da fé cristã e como te disse, somente no Cristianismo há real solução para seu problema. Assim, visto que você rejeitou as verdades que te apresentei, não há mais o que eu possa fazer. No entanto, caso um dia mude de ideia, estarei aqui para ajudá-la.” Pode ser que depois de um tempo a pessoa retorne buscando ajuda, ao perceber que não encontrou solução para seu problema em outro lugar.

(2).Procure encontrar outros problemas complicadores (exemplo: negligência das tarefas diárias) e leve a pessoa a trabalhar para corrigir esses problemas. 
       A depressão, em geral, funciona como uma espiral em que uma pequena reação errada a um problema leva a outras reações com proporções cada vez maiores. Por exemplo, alguém pode começar a se sentir mal por alguma dificuldade financeira, por estar mal, a pessoa começa a encher sua mente de preocupações, tais preocupações começam a dificultar sua vida no trabalho o que piora as coisas mais ainda. Por estar cheio de preocupações o sujeito começa a faltar no emprego e as dificuldades financeiras aumentam ainda mais. Chega a um ponto em que os problemas financeiros tomaram uma dimensão gigantesca, a cabeça da pessoa está cheia de preocupações e agora ela nem consegue levantar-se da cama para ir trabalhar. Deitado na cama, a pessoa passa a se revolver o dia todo em pensamentos de autocompaixão os quais, por sua vez, levam a pessoa até mesmo a pensamentos suicidas: “A auto-compaixão é destrutiva; é autodestrutiva. Se lhe for permitido prosseguir, levará à depressão. Esta, por seu turno, geralmente é a rota mais direta para o desespero e para a autodestruição final: o suicídio." [2] Aqui já é possível identificar problemas como negligência no trabalho e autocompaixão que precisam ser corrigidos.

(3).Identifique todos os fatores e padrões subjacentes para desabituação e reabituação. 
       Padrões subjacentes são aqueles que se tornaram um hábito automático (exemplo: “Fujo da responsabilidade toda vez que vejo que ela vai ser difícil”). Identificado os problemas, isto é, padrões de comportamentos errados que a pessoa tem adotado (como no exemplo: negligência no trabalho e autocompaixão), deve-se trabalhar a desabituação, isto é, deve-se ordenar que a pessoa pare imediatamente de agir assim, independente de como se sinta. Peça a pessoa aconselhada que aliste todos os comportamentos problemáticos que ela tem adotado por causa da depressão, aqui pode ser usada a seguinte tarefa de casa:

“Anote os comportamentos problemáticos que você tem adotado por causa da depressão, circule aqueles que ocorreram mais de três vezes:”

  
Domingo 
Segunda 
Terça 
Quarta 
Quinta 
Sexta 
Sábado 
Manhã 
  
  
  
  
  
  
  
Tarde 
  
  
  
  
  
  
  
Noite 
  
  
  
  
  
  
  
  

       Tendo o aconselhado tomado consciência desses comportamentos e entendido que eles são pecaminosos, leve-o a assumir o compromisso de não adotá-los, independente de como se sinta. A desabituação também envolve prevenção. A pessoa deve adotar atitudes que previnam reações problemáticas. O aconselhado deve assumir o compromisso de manter devocionais diárias, meditando nas aplicações práticas de uma porção bíblica e orando sobre seus problemas e sua dor, mas sem sentimentalismo vitimista. Podem ser anotados alguns textos bíblicos para serem considerados que ajudem a lidar com a depressão (exemplos: Salmos 42; Isaías 41,10; Filipenses 4.6-7; 1 Pedro 5.7; Apocalipse 21.1-7, etc.). Além disso, podem ser criados “impedimentos” que dificultem comportamentos problemáticos, como tentativas de suicídio, por exemplo. A pessoa e sua família podem ser orientadas a que o deprimido nunca fique sozinho. Em cada caso específico e para cada comportamento problemático, será possível pensar em “impedimentos” para a ação errada e “facilitadores” para a atitude correta. É recomendável que o aconselhado anote por escrito esses “impedimentos” e “facilitadores”. Abaixo um exemplo para o caso do suicídio:


Às tentativas suicidas
A não cometer suicídio

Adicionar
Remover
Impedimentos
Conversar com o meu pastor ou um cristão maduro sobre meu problema.
Ficar sozinho em casa.

Remover
Adicionar
Facilitadores
Presença de   objetos cortantes e medicamentos por perto.
Orar a Deus sobre meus problemas e sentimentos.


       A reabituação consiste em substituir a reação errada pela correta. No caso da negligência do trabalho (2) pode, por exemplo, ser dito à pessoa: “Você vai pegar e programar seu despertador para tocar às sete horas da manhã e quando ele tocar amanhã, vai se levantar, se arrumar e se dirigir a seu trabalho, cumprindo as tarefas exigidas pelo seu empregador, independente de como esteja se sentindo.


(4).Explane claramente a dinâmica da depressão (geralmente há uma espiral descendente na qual surge um problema inicial seguido de uma reação pecaminosa que gera outro problema que também é lidado mal e assim por diante...) 
       Explique claramente a dinâmica da espiral de depressão da pessoa, um exemplo de espiral já foi dado em (2).

(5).Elabore um plano de ataque contra essa espiral. 
       A partir dos comportamentos problemáticos da pessoa pode ser elaborado um plano de ação para combatê-los. Tomemos como exemplo uma mulher que tem negligenciado suas tarefas domésticas (exemplo: passar roupas) por causa da depressão, o plano de ação pode incluir algo assim[3]:

PROBLEMA 
MODO ERRADO DE LIDAR ou COMO TENHO LIDADO 
MODO BÍBLICO DE LIDAR ou O QUE VOU FAZER 

  Negligência das tarefas domésticas.
Por estar deprimida, passo o dia todo deitada na cama, assistindo TV, comendo chocolate e pensando nos meus problemas.
Vou me levantar da cama, pegar minha tábua de passar e as roupas, ligar o ferro na tomada e passar todas as roupas independente de como eu esteja me sentindo.

       Também é importante identificar o problema inicial que deu origem à espiral e adotar a atitude correta que deveria ter sido adotada desde o início. No exemplo dado em (2), o problema foi ter reagido de maneira ansiosa e preocupada diante das dificuldades financeiras, a atitude correta seria confiar na providência divina e buscar formas de solucionar essas dificuldades (organizar um orçamento, verificar as oportunidades de trabalho com salário maior disponíveis, procurar ajuda da igreja, etc.).

(6).Ordene ao paciente que faça o certo, sem importar como se sente. 
       Isso já foi suficientemente abordado em (3). Mas especialmente ao se aconselhar pessoas deprimidas isso deve ser sempre enfatizado. Encoraje o aconselhado dizendo:

 “Não temos acesso direto aos sentimentos, não podemos simplesmente dizer ‘vou parar de me sentir deprimido’, mas temos controle sobre nossos comportamentos, e podemos escolher agir diferente de como estamos nos sentindo. Nossos sentimentos seguem nossos comportamentos. Se você continuar se comportando mal, seus sentimentos só tenderão a piorar, mas se você adotar os comportamentos corretos, independente de como esteja se sentindo, não demorará para que seus sentimentos acompanhem seus comportamentos.”

(7).Diga ao aconselhado para não permitir algum privilégio (exemplo: ficar vendo TV), sem antes fazer o que deve. 
       Como no exemplo em (5), pode ser dito: “Não vá assistir TV ou deitar, enquanto não tiver acabado de passar todas as roupas, independente se estiver com vontade de ir ver TV ou deitar-se ou se tiver sem disposição para passar roupa.”

(8).Oriente o paciente a evitar toda autocompaixão.
      Com amor e cuidado deve ser dito claramente ao aconselhado que  a autocompaixão é uma atitude egoísta e orgulhosa. Diga ao aconselhado que ele não é o centro do mundo, que o universo não foi criado pessoalmente para ele e que ele deve parar de pensar em si mesmo e mudar seu foco para Deus e o próximo.

(9).Obtenha ajuda. 
       Já foi tratado em (3) que a família pode ser chamada para ser orientada, por exemplo, a não deixar o aconselhado que tem pensamentos suicidas sozinho. Chamar a família, o cônjuge, a igreja, etc. para que ajudem o aconselhado na luta contra a depressão é de grande importância.

(10).Peça ao aconselhado para responder às seguintes perguntas: 
a.                  Qual é o meu problema? 
b.                  O que Deus quer que eu faça? 
c.                   Quando, onde e como começarei?  

       Aqui, basicamente é uma forma de sistematizar o que já foi tratado nos pontos anteriores. O objetivo é (1) identificar o problema e a espiral da depressão; (2) montar um plano de ação que envolva a desabituação e a reabituação; (3) ter claras as atitudes práticas e concretas a serem tomadas independente dos sentimentos.

11.Oriente o aconselhado a colocar em prática o quanto antes o método bíblico de resolução do seu problema. 
       As atitudes concretas a serem tomadas devem ser colocadas imediatamente em prática, independente de como o aconselhado se sinta. Portanto, não se deve de forma alguma procrastinar as tarefas planejadas.

       Diferente das psicoterapias abstratas e longas que nada resolvem, a Escritura fornece ferramentas e orientações práticas e suficientes para combater a depressão. Os conselheiros não devem relegar aos psicólogos aquilo que pertence aos cristãos por direito. O cuidado da alma dos crentes não pode ser relegado aos descrentes: a Bíblia, e somente a Bíblia, pode aliviar satisfatoriamente o sofrimento de uma alma deprimida.


FONTES E NOTAS:
[1] O Sofrimento de uma vida sem sentido – Viktor Frankl.
[2] Manual do Conselheiro Cristão, p.342 – Jay Adams. Na realidade, o texto todo é estruturado com base na sessão do livro que trata sobre depressão.

[3] Tanto o exemplo da negligência no trabalho quanto das tarefas domésticas são baseados em: Depressão e Mais Três Problemas - Aconselhamento Cristão IV da palestra Homilética: Pregando com Propósito – Jay Adams. Disponível em: http://www.ministeriofiel.com.br/conferencias/mensagem/19/Depressao_e_Mais_Tres_Problemas_Aconselhamento_Cristao_IV