segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A SUFICIÊNCIA DAS ESCRITURAS - 2 TIMÓTEO 3.16-17

       As epístolas pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito) foram escritas por Paulo a Timóteo e a Tito. Paulo comissionou Timóteo como seu representante apostólico e como pastor em Éfeso. Paulo escreveu duas cartas a Timóteo, a primeira por volta do ano 65 d.C. depois dos eventos relatados no fim de Atos e a segunda por volta do ano 67 d.C. quando preso em Roma e pouco antes do seu martírio. Ela é a última carta do apóstolo Paulo e foi escrito em um tempo de perseguição perpetrada contra os cristãos pelo imperador Nero. Tendo em vista tanto a perseguição de fora como a ação dos falsos mestres de dentro, Paulo exorta Timóteo a permanecer fiel em meio à tribulação e admoesta-o a pregar a Escritura (BEP, pp.1862,1875,1876).
         O apóstolo Paulo inicia a segunda epístola a Timóteo com saudações e ações de graça (1.1-5), daí passa a instruir Timóteo a (i) exercer seu dom (1.6-11); (ii) guardar a Palavra (1.12-14); (iii) confiar a pregação a homens competentes (2.1-7); estar disposto a sofrer por Cristo (2.8-13) e evitar vãs contendas (2.14-26). O capítulo 3 se inicia com o apóstolo dizendo que os últimos dias seriam trabalhosos e listando uma série de homens corruptos. Em seguida, Paulo orienta Timóteo (3.11-13) a permanecer fiel às Escrituras apesar das corrupções dos homens e das doutrinas dos falsos mestres, mostrando a função dela em reprovar e corrigir os corruptos e hereges (3.14-15).  Paulo justifica isso afirmando a inspiração e suficiência das Escrituras. O que se segue é uma exegese de 2 Timóteo 3.16-17:

16.Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça,
πᾶσα γραφὴθεόπνευστος καὶ ὠφέλιμος πρὸςδιδασκαλίαν, πρὸςἐλεγμόν, πρὸς ἐπανόρθωσιν, πρὸς παιδείαν τὴνἐνδικαιοσύνῃ,
       O apóstolo começa afirmando a inspiração e suficiência das Escrituras e prossegue pontuando a utilidade da Bíblia em orientar os diferentes aspectos da existência por meio do ensino, correção e educação em justiça:
Toda Escritura é inspirada por Deus πᾶσα γραφὴθεόπνευστος: Como o verbo "ser" não aparece no grego, algumas versões o colocam depois, e não antes, da palavra "inspirada" (SBB; ARC). Caso o verbo “ser” seja colocado antes do adjetivo "inspirada", há uma afirmação mais explícita da inspiração plenária da Escritura, em ambos os casos, está presente a ideia de que a totalidade daquilo que Deus revelou na Escritura é útil para todas as áreas da vida. No entanto a conjunção "καὶ" entre os adjetivos "θεοπνευστος" e "ωφελιμος", ambos no nominativo, feminino e singular, concordando com "γραφὴ", favorece a tradução: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil". O adjetivo "πᾶς" refere-se a cada parte de uma totalidade (HWS). Isso significa que as Escrituras, em todas as suas partes, isto é, em cada coisa que afirma, nega ou ensina, é inspirada por Deus. O substantivo "γραφή" (TI: "Sagrada Escritura") é sempre usado (nas 51 vezes em que ocorre no Novo Testamento) para falar das Sagradas Escrituras, os escritos inerrantes e inspirados de Deus (HWS). "Γραφή" é usado em 1 Timóteo 5.18 para anunciar a citação de um texto da Escritura do Antigo Testamento e outro do Novo Testamento e as próprias epístolas paulinas são chamadas de "Escrituras" (2Pedro 3.16), de modo que "toda Escritura" inclui até mesmo os escritos do próprio Paulo: "A Bíblia inteira nos foi dada por inspiração de Deus" (BV). Assim, Paulo tem em mente toda a Escritura, incluindo integralmente o Antigo Testamento e os escritos neotestamentários já existentes na época, mesmo em 1 Timóteo 5.18, Paulo já cita uma passagem dos evangelhos (Lucas 10.7) como Escritura (WM, p.799). Hendriksen vê uma distinção entre "escritos sagrados" (v.15) e "toda escritura" (v.16), sendo que o primeiro se refere ao Antigo Testamento o último ao Antigo Testamento e aos escritos inspirados que estavam sendo produzidos no primeiro século (WH, 369). A Bíblia como um todo, portanto, é suficiente para orientar todas as esferas da vida humana: "A Bíblia contém tudo que é necessário para construir uma cosmovisão cristã compreensiva que nos capacite a ter uma verdadeira visão da realidade. A Escritura nos transmite, não somente a vontade de Deus em assuntos gerais da fé e conduta cristãs, mas, ao aplicar preceitos bíblicos, podemos também conhecer sua vontade em nossas decisões específicas e pessoais. Tudo que precisamos saber como cristãos é encontrado na Bíblia, seja no âmbito familiar, do trabalho ou da igreja." (VC, p.24). O adjetivo "θεόπνευστος" (VR: "soprada por Deus"; ARC: "divinamente inspirada"; TLA: "mensaje de Dios") ocorre só aqui no Novo Testamento, sendo provavelmente um termo cunhado pelo próprio Paulo para expressar a natureza ou origem divina das Escrituras e seu poder de santificar os crentes (HWS). Franklin Ferreira & Alan Myatt definem inspiração "como sendo a influência sobrenatural do Espírito de Deus sobre os homens escolhidos por ele mesmo, a fim de que registrassem, de forma inerrante e suficiente, toda a vontade de Deus em relação à salvação e à vida do homem, constituindo-se esse registro na única fonte e norma da fé e prática cristã." (FA, p.116). Charles Hodge define inspiração como "uma influência do Espírito Santo sobre a mente de determinados homens seletos fazendo deles instrumentos de Deus para a comunicação infalível de sua mente e vontade. Eles foram, em tal sentido, órgãos de Deus, de sorte que o que eles disseram foi o que Deus disse." (CH, p.115). A doutrina da inspiração da Escritura implica que não há diferença entre o que a Bíblia diz e o que Deus diz: "Visto que Deus possui autoridade absoluta e última, a Bíblia sempre porta autoridade absoluta e última. Já que não existe diferença alguma entre Deus falando e a Bíblia falando, não há diferença nenhuma entre obedecer a Deus e obedecer a Bíblia. Crer e obedecer a Bíblia é crer e obedecer a Deus; não crer e não obedecer a Bíblia é não crer e não obedecer a Deus. A Bíblia não é apenas um instrumento através do qual ele nos fala; antes, as palavras da Bíblia são as próprias palavras de Deus falando — não há diferença. A Bíblia é a voz divina para a humanidade, e sua autoridade é total" (VC, p.21).
e útil para o ensino, ὠφέλιμος πρὸςδιδασκαλίαν: A conjunção " καὶ" mostra que a totalidade  da Escritura além de ser inspirada também é útil para a totalidade dos aspectos da existência. O adjetivo "ὠφέλιμος" (TNM: "proveitosa") é usado em 1 Timóteo 4.8 para falar que a piedade é mais proveitosa do que o exercício físico e em Tito 3.8 para dizer que as boas obras são proveitosas para o homem. O substantivo "διδασκαλία" (VFL: "falar sobre a verdade") é usado nas epístolas de Paulo a Timóteo para falar da "sã doutrina" (1 Timóteo 1.10; 4.6; 6.1; 2 Timóteo 4.2), do ensino doutrinário das Escrituras (1 Timóteo 4.13; 5.17), da doutrina ensinada por Paulo (2 Timóteo 3.10), mas também das doutrinas falsas ensinadas por hereges (1Timóteo 4.1; 6.3). Assim, o termo pode ser entendido como "doutrina", significando que a Escritura é a regra de fé do cristão, a base da verdadeira doutrina e ensino da verdade.  Esta verdade inclui as doutrinas a respeito da Trindade, dos anjos, do homem, do pecado, da salvação, da santificação, da igreja, dos últimos dias, etc (WM, p.799).
para a repreensão πρὸςἐλεγμόν: O substantivo "ἔλεγχος" (NTLH: "condenar o erro"; VFL: "repreender os pecadores") ocorre no Novo Testamento somente aqui e em Hebreus 11.1. Neste último, o termo é usado para falar da fé como uma firme "convicção", mas o termo também pode trazer a ideia de "reprovação" (SC). Em inglês a palavra "conviction" pode querer dizer tanto "convicção", quanto "condenação" ou "reprovação". A fé é uma "prova" das coisas que não se veem e as Escrituras são úteis para "reprovar" o erro. Assim, a Escritura fornece resposta àquilo que nos tenta (WM, p.799) e refutações contra os erros de doutrina e conduta (WH, p.373). No entanto, a forma verbal da palavra (ἐλέγχω) é usada em Mateus 18.15 e 1 Timóteo 5.20 para falar da confrontação do pecado. A Escritura em sua função de repreensão confronta os nossos, pecados, nossos ídolos, nossos desejos, pensamentos, crenças e ações pecaminosos (LP).
para a correção πρὸς ἐπανόρθωσιν: O substantivo "ἐπανόρθωσις" (VFL: "corrigir as faltas") aparece só aqui no Novo Testamento e traz a ideia de restaurar algo para um estado de justiça, um aperfeiçoamento da vida e do caráter (TGL). A Bíblia não somente mostra o que está errado, mas apresenta a solução para que o problema seja corrigido (WM, p.799). Isto é, a Escritura não só adverte o pecador a abandonar o caminho errado, mas também o guia no caminho correto a fim de que seu caráter seja restaurado (WH, p.373).
para a educação na justiça πρὸς παιδείαν τὴνἐνδικαιοσύνῃ: O substantivo "παιδεία" (VFL: "ensinar" é usado no Novo Testamento para falar da "disciplina do Senhor" (Efésios 6.4; Hebreus 12.5,7,8,11), traz a ideia de todo o treinamento e educação de uma criança, o que inclui o cultivo mental e moral, envolvendo mandamentos, admoestações, repreensões e punições.O substantivo "δικαιοσύνη" é usado nas epístolas de Paulo a Timóteo quando ele exorta o jovem pastor a seguir a "justiça", em que ela é relacionada com a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão, a paz e a  pureza (1Timóteo 6.11; 2 Timóteo 2.22) e quando, prevendo seu martírio, o apóstolo diz que a coroa da "justiça" está reservada a todos os que esperam a vinda do Senhor. Desse modo, as Escrituras nos educam para ajustiça assim como um pai treina e educa a criança moral e mentalmente, por meio da disciplina, admoestação e repreensão a fim de que ela cresça em piedade, fé, amor, constância, mansidão, paz e pureza. A Bíblia não só diz que o erro deve ser corrigido, como também mostra em detalhes que atitudes devem ser adotadas para uma vida piedosa (WM, p.799).

 17. a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.
ἵνα ἄρτιος ᾖ ὁ τοῦ Θεοῦ ἄνθρωπος, πρὸς πᾶν ἔργον ἀγαθὸν ἐξηρτισμένος.
       O propósito das Escrituras é ensinar, repreender, corrigir e educar e fazer que com o homem de Deus possa se tornar capacitado para toda boa obra. Assim, a Escritura é suficientemente abrangente para orientar todos os aspectos da existência. Além disso, ela é eficiente para habilitar o homem de Deus para a prática das boas obras, visto que, só o homem regenerado é capaz de praticar obras verdadeiramente boas. O adjetivo "ἄρτιος" (NTLH: "completamente") aparece só aqui no Novo Testamento e traz provavelmente a ideia de ser perfeito ou completo para uma dada aptidão específica, no caso, a prática de boas obras (TGL). O verbo “ἐξαρτίζω” (NTLH: “preparado e pronto”; TNM: “completamente equipado”) usado aqui no particípio perfeito para falar de um tempo completo em que Paulo passou em um lugar (Atos 21.5), reforçando, portanto, a ideia de completude, algo perfeitamente acabado (TGL).  Essa ênfase na completude reforça a ideia de que a Escritura é suficiente para orientar todos os aspectos da vida e também que o homem regenerado, habilitado pela Escritura, é perfeitamente capaz de fazer tudo o que deve fazer. A expressão para "boas obras" aparece nas epístolas de Paulo a Timóteo que fala do dever da mulher cristã de servir a Deus com boas obras (1 Timóteo 2.10), a necessidade de que uma viúva sob custódia da igreja local tivesse testemunho de boas obras (1Timóteo 5.10) e para falar da importância da pureza cristã a fim de que a pessoa esteja preparada para a prática de boas obras (2 Timóteo 2.21). Quanto à expressão "homem de Deus", Paulo a usa para se referir ao próprio Timóteo ao lhe dar conselhos e exortações gerais (1 Timóteo 6.11), evidentemente é uma palavra que se refere só ao homem regenerado. Paulo fala das boas obras como um fruto da vida do regenerado (Efésios 2.10) de modo que é somente no homem regenerado que as admoestações das Escrituras são eficazes para torná-lo apto para a prática de boas obras. O homem de Deus é cada crente considerado como pertencente a Deus (WH, 373, 374). O homem de Deus tem a Escritura que o capacita para uma vida piedosa, portanto, o cristão não pode dizer que não pode como uma desculpa para permanecer no pecado e não adotar comportamentos piedosos.

       A Escritura inteira com seus 66 livros é a Palavra inspirada e inerrante de Deus. A Bíblia é completa e suficiente para orientar todos os aspectos da existência. A Escritura fornece uma Cosmovisão completa e abrangente para a ciência, história, filosofia, arte, política, educação e para orientar todas as nossas decisões e ações, incluindo nossa vida familiar, religiosa e profissional. Portanto, não devemos construir nossa visão de mundo sobre pressupostos humanistas, nem abraçar as teorias seculares dos incrédulos. A Bíblia também é suficiente e infalível para solucionar todos os problemas da alma. Não devemos, portanto, relegar à Psicologia secular a função de tratar dos problemas psicológicos do homem. A Palavra de Deus fornece orientações claras, práticas e concretas para que nos desabituemos de padrões pecaminosos e adotemos hábitos piedosos. Por fim, a Escritura é a nossa única regra de fé doutrinária, ela e somente ela, deve orientar tudo o que cremos e pensamos. Rejeitadas, pois, devem ser todas as "profecias", "visões", "sonhos", etc., pois temos orientações de fé e prática suficientes na Bíblia Sagrada.

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FONTES E SIGLAS:
ARC: Almeida Revista e Corrigida
BEP: Bíblia de Estudo Pentecostal
BV: Bíblia Viva
CH: Charles Hodge – Teologia Sistemática.
FA: Franklin Ferreira & Alan Myatt - Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética.
HWS: Helps Word-studies.
LP: Luciano Peterlevitz – Toda a Escritura é Inspirada por Deus. 
NTLH: Nova Tradução na Linguagem de Hoje
SBB: Sociedade Bíblica Britânica
SC: Strong'sConcordance
TGL: Thayer'sGreekLexicon
TI: Tradução Interconfessional
TNM: Tradução do Novo Mundo
VC: VicentCheung - Teologia Sistemática, p.21.VFL: Portuguese New Testament: Easy-to-ReadVersion
VR: Novo Testamento - Versão Restauração.

WH: William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento: 1 e 2 Timóteo e Tito.



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

COMO ACONSELHAR PESSOAS DEPRIMIDAS?

       Já considerei que depressão sem base orgânica é pecado, e não doença (aqui). Se for o caso de você, como conselheiro cristão, aconselhar alguém deprimido, cujo problema não seja de origem orgânica, segue algumas orientações práticas de como fazê-lo:

(1).Identifique se a pessoa é cristã ou não:
       A pessoa deprimida só poderá encontrar verdadeira solução para o seu problema em Cristo, pois só Ele pode dar verdadeiro sentido a sua dor:

"Tomemos o exemplo de um macaco em que se aplicam injeções dolorosas com o intuito de obter um soro capaz de curar numerosas doenças. O macaco pode compreender por que tem de sofrer? A partir do seu ambiente ele é incapaz de compreender as intenções do homem empregadas em seus experimentos, uma vez que o mundo humano lhe é inacessível. Ele não alcança esse mundo, não consegue penetrar em sua dimensão; não podemos então supor que o mundo humano é também, por seu turno, superado por outro mundo, que, por sua vez, não é acessível ao homem, um mundo, cujo suprassentido, é o único capaz de dar sentido à sua dor?"  - Viktor Frankl[1]

       Se a pessoa for cristã, vá direto ao aconselhamento, se não, evangelize-a primeiro. Apresente a ela as verdades fundamentais do evangelho. Estas primeiras sessões podem ser chamadas de “pré-aconselhamento”, você pode dizer: “Este é um aconselhamento bíblico, entendo que somente em Cristo pode haver real solução para o seu problema. Assim, antes de começarmos nosso aconselhamento, queria aproveitar estas primeiras sessões para te apresentar brevemente a fé cristã.” Caso a pessoa responda negativamente ao evangelismo, rejeitando cabalmente sua apresentação do evangelho, diga: “Te apresentei um resumo da fé cristã e como te disse, somente no Cristianismo há real solução para seu problema. Assim, visto que você rejeitou as verdades que te apresentei, não há mais o que eu possa fazer. No entanto, caso um dia mude de ideia, estarei aqui para ajudá-la.” Pode ser que depois de um tempo a pessoa retorne buscando ajuda, ao perceber que não encontrou solução para seu problema em outro lugar.

(2).Procure encontrar outros problemas complicadores (exemplo: negligência das tarefas diárias) e leve a pessoa a trabalhar para corrigir esses problemas. 
       A depressão, em geral, funciona como uma espiral em que uma pequena reação errada a um problema leva a outras reações com proporções cada vez maiores. Por exemplo, alguém pode começar a se sentir mal por alguma dificuldade financeira, por estar mal, a pessoa começa a encher sua mente de preocupações, tais preocupações começam a dificultar sua vida no trabalho o que piora as coisas mais ainda. Por estar cheio de preocupações o sujeito começa a faltar no emprego e as dificuldades financeiras aumentam ainda mais. Chega a um ponto em que os problemas financeiros tomaram uma dimensão gigantesca, a cabeça da pessoa está cheia de preocupações e agora ela nem consegue levantar-se da cama para ir trabalhar. Deitado na cama, a pessoa passa a se revolver o dia todo em pensamentos de autocompaixão os quais, por sua vez, levam a pessoa até mesmo a pensamentos suicidas: “A auto-compaixão é destrutiva; é autodestrutiva. Se lhe for permitido prosseguir, levará à depressão. Esta, por seu turno, geralmente é a rota mais direta para o desespero e para a autodestruição final: o suicídio." [2] Aqui já é possível identificar problemas como negligência no trabalho e autocompaixão que precisam ser corrigidos.

(3).Identifique todos os fatores e padrões subjacentes para desabituação e reabituação. 
       Padrões subjacentes são aqueles que se tornaram um hábito automático (exemplo: “Fujo da responsabilidade toda vez que vejo que ela vai ser difícil”). Identificado os problemas, isto é, padrões de comportamentos errados que a pessoa tem adotado (como no exemplo: negligência no trabalho e autocompaixão), deve-se trabalhar a desabituação, isto é, deve-se ordenar que a pessoa pare imediatamente de agir assim, independente de como se sinta. Peça a pessoa aconselhada que aliste todos os comportamentos problemáticos que ela tem adotado por causa da depressão, aqui pode ser usada a seguinte tarefa de casa:

“Anote os comportamentos problemáticos que você tem adotado por causa da depressão, circule aqueles que ocorreram mais de três vezes:”

  
Domingo 
Segunda 
Terça 
Quarta 
Quinta 
Sexta 
Sábado 
Manhã 
  
  
  
  
  
  
  
Tarde 
  
  
  
  
  
  
  
Noite 
  
  
  
  
  
  
  
  

       Tendo o aconselhado tomado consciência desses comportamentos e entendido que eles são pecaminosos, leve-o a assumir o compromisso de não adotá-los, independente de como se sinta. A desabituação também envolve prevenção. A pessoa deve adotar atitudes que previnam reações problemáticas. O aconselhado deve assumir o compromisso de manter devocionais diárias, meditando nas aplicações práticas de uma porção bíblica e orando sobre seus problemas e sua dor, mas sem sentimentalismo vitimista. Podem ser anotados alguns textos bíblicos para serem considerados que ajudem a lidar com a depressão (exemplos: Salmos 42; Isaías 41,10; Filipenses 4.6-7; 1 Pedro 5.7; Apocalipse 21.1-7, etc.). Além disso, podem ser criados “impedimentos” que dificultem comportamentos problemáticos, como tentativas de suicídio, por exemplo. A pessoa e sua família podem ser orientadas a que o deprimido nunca fique sozinho. Em cada caso específico e para cada comportamento problemático, será possível pensar em “impedimentos” para a ação errada e “facilitadores” para a atitude correta. É recomendável que o aconselhado anote por escrito esses “impedimentos” e “facilitadores”. Abaixo um exemplo para o caso do suicídio:


Às tentativas suicidas
A não cometer suicídio

Adicionar
Remover
Impedimentos
Conversar com o meu pastor ou um cristão maduro sobre meu problema.
Ficar sozinho em casa.

Remover
Adicionar
Facilitadores
Presença de   objetos cortantes e medicamentos por perto.
Orar a Deus sobre meus problemas e sentimentos.


       A reabituação consiste em substituir a reação errada pela correta. No caso da negligência do trabalho (2) pode, por exemplo, ser dito à pessoa: “Você vai pegar e programar seu despertador para tocar às sete horas da manhã e quando ele tocar amanhã, vai se levantar, se arrumar e se dirigir a seu trabalho, cumprindo as tarefas exigidas pelo seu empregador, independente de como esteja se sentindo.


(4).Explane claramente a dinâmica da depressão (geralmente há uma espiral descendente na qual surge um problema inicial seguido de uma reação pecaminosa que gera outro problema que também é lidado mal e assim por diante...) 
       Explique claramente a dinâmica da espiral de depressão da pessoa, um exemplo de espiral já foi dado em (2).

(5).Elabore um plano de ataque contra essa espiral. 
       A partir dos comportamentos problemáticos da pessoa pode ser elaborado um plano de ação para combatê-los. Tomemos como exemplo uma mulher que tem negligenciado suas tarefas domésticas (exemplo: passar roupas) por causa da depressão, o plano de ação pode incluir algo assim[3]:

PROBLEMA 
MODO ERRADO DE LIDAR ou COMO TENHO LIDADO 
MODO BÍBLICO DE LIDAR ou O QUE VOU FAZER 

  Negligência das tarefas domésticas.
Por estar deprimida, passo o dia todo deitada na cama, assistindo TV, comendo chocolate e pensando nos meus problemas.
Vou me levantar da cama, pegar minha tábua de passar e as roupas, ligar o ferro na tomada e passar todas as roupas independente de como eu esteja me sentindo.

       Também é importante identificar o problema inicial que deu origem à espiral e adotar a atitude correta que deveria ter sido adotada desde o início. No exemplo dado em (2), o problema foi ter reagido de maneira ansiosa e preocupada diante das dificuldades financeiras, a atitude correta seria confiar na providência divina e buscar formas de solucionar essas dificuldades (organizar um orçamento, verificar as oportunidades de trabalho com salário maior disponíveis, procurar ajuda da igreja, etc.).

(6).Ordene ao paciente que faça o certo, sem importar como se sente. 
       Isso já foi suficientemente abordado em (3). Mas especialmente ao se aconselhar pessoas deprimidas isso deve ser sempre enfatizado. Encoraje o aconselhado dizendo:

 “Não temos acesso direto aos sentimentos, não podemos simplesmente dizer ‘vou parar de me sentir deprimido’, mas temos controle sobre nossos comportamentos, e podemos escolher agir diferente de como estamos nos sentindo. Nossos sentimentos seguem nossos comportamentos. Se você continuar se comportando mal, seus sentimentos só tenderão a piorar, mas se você adotar os comportamentos corretos, independente de como esteja se sentindo, não demorará para que seus sentimentos acompanhem seus comportamentos.”

(7).Diga ao aconselhado para não permitir algum privilégio (exemplo: ficar vendo TV), sem antes fazer o que deve. 
       Como no exemplo em (5), pode ser dito: “Não vá assistir TV ou deitar, enquanto não tiver acabado de passar todas as roupas, independente se estiver com vontade de ir ver TV ou deitar-se ou se tiver sem disposição para passar roupa.”

(8).Oriente o paciente a evitar toda autocompaixão.
      Com amor e cuidado deve ser dito claramente ao aconselhado que  a autocompaixão é uma atitude egoísta e orgulhosa. Diga ao aconselhado que ele não é o centro do mundo, que o universo não foi criado pessoalmente para ele e que ele deve parar de pensar em si mesmo e mudar seu foco para Deus e o próximo.

(9).Obtenha ajuda. 
       Já foi tratado em (3) que a família pode ser chamada para ser orientada, por exemplo, a não deixar o aconselhado que tem pensamentos suicidas sozinho. Chamar a família, o cônjuge, a igreja, etc. para que ajudem o aconselhado na luta contra a depressão é de grande importância.

(10).Peça ao aconselhado para responder às seguintes perguntas: 
a.                  Qual é o meu problema? 
b.                  O que Deus quer que eu faça? 
c.                   Quando, onde e como começarei?  

       Aqui, basicamente é uma forma de sistematizar o que já foi tratado nos pontos anteriores. O objetivo é (1) identificar o problema e a espiral da depressão; (2) montar um plano de ação que envolva a desabituação e a reabituação; (3) ter claras as atitudes práticas e concretas a serem tomadas independente dos sentimentos.

11.Oriente o aconselhado a colocar em prática o quanto antes o método bíblico de resolução do seu problema. 
       As atitudes concretas a serem tomadas devem ser colocadas imediatamente em prática, independente de como o aconselhado se sinta. Portanto, não se deve de forma alguma procrastinar as tarefas planejadas.

       Diferente das psicoterapias abstratas e longas que nada resolvem, a Escritura fornece ferramentas e orientações práticas e suficientes para combater a depressão. Os conselheiros não devem relegar aos psicólogos aquilo que pertence aos cristãos por direito. O cuidado da alma dos crentes não pode ser relegado aos descrentes: a Bíblia, e somente a Bíblia, pode aliviar satisfatoriamente o sofrimento de uma alma deprimida.


FONTES E NOTAS:
[1] O Sofrimento de uma vida sem sentido – Viktor Frankl.
[2] Manual do Conselheiro Cristão, p.342 – Jay Adams. Na realidade, o texto todo é estruturado com base na sessão do livro que trata sobre depressão.

[3] Tanto o exemplo da negligência no trabalho quanto das tarefas domésticas são baseados em: Depressão e Mais Três Problemas - Aconselhamento Cristão IV da palestra Homilética: Pregando com Propósito – Jay Adams. Disponível em: http://www.ministeriofiel.com.br/conferencias/mensagem/19/Depressao_e_Mais_Tres_Problemas_Aconselhamento_Cristao_IV



sexta-feira, 27 de outubro de 2017

POR QUE BATIZAMOS CRIANÇAS?

        As igrejas reformadas ministram o batismo, não só a adultos convertidos, mas também aos filhos de pais crentes. A doutrina do batismo infantil está fortemente relacionada à Teologia do Pacto, portanto, é necessário primeiramente apresentar tal teologia a fim de que se possa entender a base sobre a qual os pais cristãos estão sob a obrigação de apresentarem seus filhos ao batismo. Em seguida, serão refutados os argumentos que têm sido levantados contra a defesa da normatividade do batismo infantil.
        Segundo a Teologia do Pacto, Deus Pai fez uma Aliança com Deus Filho na Eternidade, chamado “Pacto da Redenção”. Neste Pacto, Cristo é o nosso Representante. O “Pacto da Redenção” é aquele no qual Cristo, como representante de um povo eleito, assume o compromisso de realizar a obra da expiação (Salmos 2.7-9; Efésios 3.11; Apocalipse 13.8).
       Deus também fez um Pacto com Adão, chamado “Pacto de obras”, no qual a vida foi prometida à humanidade sob a condição de perfeita obediência. Se esse pacto, no entanto, fosse transgredido, a punição seria a morte (Gênesis 2.17; Gálatas 3.10,12). Depois que Adão, representando a humanidade, transgrediu a Lei, todos aqueles nele representados ficaram encerrados sob condenação eterna (Romanos 5.12).
       Deus, no entanto, fez um Pacto de Graça com o homem através do qual os benefícios da redenção são comunicados à humanidade representada em Cristo. Assim como a morte veio sobre todos os que estão representados em Adão no Pacto das Obras, a vida eterna agora vem sobre todos aqueles que estão representados em Cristo no Pacto da Redenção, isto é, os eleitos com quem Deus estabeleceu uma Aliança de Graça (Romanos 5.18-19).
        O Pacto da Graça é único, mas possui duas grandes economias, designadas como “Antigo Testamento” e “Novo Testamento”. Assim como “nova Terra”, “nova criatura”, etc. não significam algo inédito (o termo grego usado é “καινός que significa novo no sentido de ‘renovado’ e não novo no sentido de 'inédito', que seria “νέος”). Assim, a Nova Aliança é substancialmente a mesma Aliança, embora “renovada”. O Novo Testamento é uma renovação do Antigo Testamento e não uma ruptura que instaura um pacto inédito (Romanos 4.13-18; Gálatas 3.15-18; Hebreus 6.12-18). Assim como não há total descontinuidade entre o nosso corpo atual e o nosso corpo futuro, entre o mundo atual e o mundo futuro, etc. há certa continuidade entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento: “Não há, pois, dois pactos de graça diferentes em substância, mas um e o mesmo sob várias dispensações.”[1]
       Sendo assim, deve-se ter em mente que há um só Deus, que Deus tem um só povo ou uma só Igreja na Terra e que a salvação sempre foi pela graça. O Antigo Israel é a Igreja no Antigo Testamento, não sem motivo, os crentes sob a dispensação cristã, são chamados “o Israel de Deus” (Gálatas 6.16) e “semente de Abraão” (Gálatas 3.29). Em um sentido mais amplo, pode-se falar do Pacto da Graça como a Aliança que Deus tem com sua Igreja, com seu povo, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento. No Antigo Testamento esse povo tinha sua forma visível no antigo Israel, a partir do Novo Testamento, esse povo tem sua forma visível naqueles que professam a fé católica (universal), a igreja cristã visível.
       A Aliança da Graça possui dois sacramentos, um rito de iniciação, e um rito de confirmação. O rito de iniciação é aquele que serve de selo de que a pessoa que o recebe faz parte da igreja visível, da comunidade da Aliança. No Antigo Testamento este rito era a circuncisão que foi substituída pelo batismo no Novo Testamento. O ritual de confirmação é um memorial de celebração da redenção. No Antigo Testamento este rito era a páscoa que foi substituída pela santa ceia no Novo Testamento.
        À Igreja Visível no Antigo Pacto, Deus ordenou a cerimônia da circuncisão. Este era o sinal de que alguém fazia parte do povo da Aliança. A circuncisão era o rito de iniciação do Antigo Testamento. Quando um adulto pagão se convertia à religião de Israel ou intentava fazer parte do povo, exigia-se que fosse circuncidado. Desse modo, a circuncisão servia como “selo da fé” (Romanos 4.11). Servia como símbolo de uma mudança interior (“a circuncisão de coração”). No entanto, a circuncisão não implicava em salvação, e alguém poderia ser circuncidado na carne sem o ser no coração. Apesar de ser “selo da fé” e símbolo de arrependimento, a circuncisão era também ministrada aos filhos dos israelitas como sinal de que eles eram parte da Igreja do Antigo Israel. Deus tinha um pacto com seu povo, e esse pacto incluía os filhos dos cristãos do Antigo Testamento.
           Visto que o Novo Testamento não é senão uma nova administração de uma mesma Aliança, que somos parte de uma mesma Igreja, que temos uma mesma fé, cremos em um mesmo Deus, num mesmo “Cristo” ou “Messias” – como poderíamos esperar que Deus privasse agora os filhos dos cristãos de um privilégio que Ele lhes concedeu sob a antiga dispensação? Deus não tem mais que um povo sobre a face da Terra:

“...Deus nunca teve senão uma só Igreja no mundo. O Jeová do Velho Testamento é nosso Senhor; o Deus de Abraão, Isaque e Jacó e nosso Deus e Pai pactual; nosso Salvador foi o Salvador dos santos que viveram antes de seu advento em carne. A pessoa divina que libertou os israelitas do Egito; que os guiou através do deserto; que apareceu em sua glória a Isaías no templo, aquele para cuja vinda os olhos do povo de Deus se voltaram em fé e esperança desde o princípio é aquele em quem reconhecemos como Deus manifestado em carne, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Aquele, pois, que foi o cabeça da teocracia é o cabeça da Igreja. O sangue que ele derramou por nós foi o sangue derramado desde a fundação do mundo...”[2]

       Tudo o que se diz sobre a circuncisão se diz a respeito do batismo: (i) é um rito de iniciação; (ii) é exigido dos adultos novos convertidos que recebam esse rito; (iii) é selo da fé; (iv) serve como símbolo da mudança de coração e (iv) não implica necessariamente em salvação. Nenhuma dessas características, comuns ao batismo e à circuncisão, impediu que esta última fosse administrada às crianças. Por que, então, se privam as crianças do batismo sob o argumento de que o batismo exige “fé”, simboliza o arrependimento, destina-se a novos conversos, se o mesmo pode ser dito da circuncisão? O batismo é a circuncisão cristã:

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, pela circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos”.Colossenses 2.11-12

       Quando o Todo-Poderoso chamou Abrão para fazer dele um povo inumerável, uma de suas primeiras promessas foi que seria abençoado ele e seus filhos e sua descendência depois dele. Quando Deus inaugurou uma nova economia para a Igreja Cristã, repetiu similar promessa e advertiu explicitamente através de Pedro: “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar.” (Atos 2.39). De igual modo o apóstolo Paulo inclui os filhos dos crentes na comunidade dos santos: “Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos.” (1Coríntios 7.14).
       O ensino bíblico, portanto, é que o batismo deve ser administrado aos filhos dos crentes: “as crianças, cujos pais, ou um só deles, professarem fé em Cristo e obediência a ele, estão, quanto a isto, dentro do pacto e devem ser batizadas.”[3] Algumas objeções, no entanto, tem sido levantadas contra a doutrina reformada do batismo infantil, as quais serão respondidas agora:

RESPOSTAS ÀS OBJEÇÕES CONTRA O BATISMO INFANTIL

Objeção 1: O Novo Testamento apresenta a fé como uma condição para o batismo e bebês não têm capacidade de exercer fé.
Resposta: O Novo Testamento também diz que a circuncisão é “selo da fé” (Romanos 4.11), nem por isso as crianças foram excluídas. Evidentemente que se exige dos adultos que sejam batizados ao se converterem ao Cristianismo. No entanto, os filhos dos crentes já estão na igreja, e, portanto, não há outro requisito que precisem cumprir para receberem o batismo.

Objeção 2: O Novo Testamento não ordena batizar crianças.
Resposta: Visto que desde o Antigo Testamento as crianças recebiam o rito de iniciação na Aliança, se isso tivesse sido modificado, era de se esperar que o Novo Testamento se pronunciasse sobre essa mudança, no entanto, visto que o Novo Testamento não faz isso, devemos presumir que as crianças ainda devem receber o selo do pacto. Como observou Louis Berkhof:

“É verdade que não há nenhum mandamento explícito para batizar crianças, nem qualquer exemplo claro de batismo infantil no Novo Testamento, mas não há também qualquer autorização explícita para a prática dos batistas. Não somos ensinados, nem por palavras, nem por exemplos, que as pessoas nascidas e criadas nas famílias cristãs não possam ser batizadas até que cheguem à idade adulta e tenha professado sua fé em Cristo.”[4]

Objeção 3: Não há exemplos de batismos infantis no Novo Testamento.
Resposta: O Novo Testamento não menciona explicitamente o batismo infantil, embora em alguns textos nos quais se fale de batismos de famílias inteiras, ele possa estar subtendido: “...foi batizada, ela e a sua casa...” logo foi batizado, ele e todos os seus.” (Atos 16.15,33). No entanto, é perfeitamente compreensível a escassez de relatos de batismos infantis na igreja primitiva. Grande massa de pessoas se converteu ao Cristianismo no primeiro século, era a primeira geração de cristãos. A Igreja era constituída em sua maioria de novos convertidos adultos, não de “filhos de crentes”. Não se deve espantar, pois, da ausência de relatos explícitos de batismos infantis no Novo Testamento. A Igreja se viu primeiro envolvida na evangelização de adultos que foram se convertendo ao evangelho. Seguiu-se depois tempo de ferrenha perseguição. Cristãos evitaram se casar e constituir famílias em meio a essa hostilidade. No entanto, quando a igreja se estabeleceu, quando começaram a surgir as novas gerações de filhos e netos de crentes, a prática do batismo encontrou mais claro testemunho histórico. Além disso, devido à continuidade lógica e natural entre a circuncisão e o batismo não era necessário que se declarasse explicitamente a necessidade de batizar crianças. Isso já estava pressuposto com base na administração deste sacramento aos infantes na antiga economia. Assim, não foi preocupação dos escritores do Novo Testamento registrar batismos infantis.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

       Pesa sobre os pais cristãos uma grande responsabilidade: que apresentem seus filhos ao batismo! Como advertiu Charles Hodge:

“Portanto, aqueles que, havendo sido batizados e professando ainda sua fé na religião genuína, tendo competente conhecimento e estando isentos de escândalo, não só devem receber a permissão, mas deve-se insistir e ordenar-lhes que apresentem seus filhos para que sejam batizados, a fim de que pertençam à Igreja e sejam criados sob vigilância e cuidado. Não serem eles batizados é um grave mal e afronta, algo que um pai não pode privar a seus filhos sem grave responsabilidade. A negligência do batismo, que implica a falta de apreço por esta ordenança, é um dos pecados clamorosos desta geração.”[5]

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Fontes:
[1] Confissão de Fé de Westminster 7.6.
[2] Charles Hodge. Teologia Sistemática, p.1428.
[3] Catecismo Maior de Westiminster, 166 .
[4] Louis Berkhof. Manual de Doutrina Cristã, pp.236-237.
[5] Charles Hodge. Teologia Sistemática, p.1448.