quarta-feira, 27 de abril de 2016

TRINDADE E INTERSUBJETIVIDADE

      Este artigo apresenta a teontologia trinitária, ou seja, a crença em um só Deus subsistindo em três Pessoas distintas (o Pai, o Filho e o Espírito Santo) dentro das discussões filosóficas sobre o uno e o múltiplo e da resposta tomista no interior do debate metafísico entre o monismo e o pluralismo. Por fim, este estudo introduzirá a contribuição gnosiológica da Trindade para as discussões sobre as relações intersubjetivas.
      O dogma da Trindade refere-se à crença religiosa cristã na unidade e pluralidade da imanência divina (Pai, Filho e Espírito Santo), estabelecendo a unidade essencial da substância e a pluralidade pessoal das subsistências da deidade. A diversidade e pluralidade do divino (Deus) percorre de maneira latente o monoteísmo e as descrições plurais de Deus no Antigo Testamento e é revelada nas fórmulas trinitárias neotestamentárias. Foi formulada ao longo da história da Igreja Cristã, tendo profundo significado para as discussões teológicas da ontologia divina (SILVA, 2014).
      O dogma da Trindade envolve o problema metafísico geral do uno e do múltiplo. O enigma aparece no monoteísmo trinitário na formulação da tripessoalidade divina e na unidade monoteística do Teísmo cristão. A grande questão está no fato de que a unidade do plural no divino não é compreendida simplesmente no âmbito do gênero, da espécie ou da união, mas num sentido de consubstancialidade. Logo, o problema filosófico-teológico não é tão simples como quando se diz que três seres estão unidos e por todos possuírem uma natureza humana. A unidade e pluralidade da imanência trinitária assume um sentido mais estrito e profundo em que no Uno indivisível, o Trino habita mutuamente na mesmíssima substância (CLARK, 2005).
      A questão do uno e do múltiplo se dá na discussão filosófica da própria metafísica do real, em que a cosmovisão da realidade pode se assumir como uma unidade absoluta, a diversidade absoluta ou a diversidade na unidade (FERREIRA & MYATT, 2007). O dilema entre o monismo e o pluralismo metafísico é de grande importância. Parmênides, por exemplo, argumentado que as coisas precisariam se diferir pelo não-ser, sendo o não-ser um nada ser, chegou a um monismo rígido compreendendo não haver uma pluralidade de seres no real (GEISLER, 2015).
      Disso, várias alternativas foram apresentadas contra o monismo rígido, entre elas o atomismo, o platonismo e o aristotelismo, mas nenhuma delas logrou êxito em fornecer uma resposta satisfatória à proposta parmenêdiana. Para o atomismo as coisas diferiam pelo não ser-absoluto, o platonismo defendia a multiplicidade com base no não-ser relativo e o aristotelismo entendia que as coisas se diferenciavam como seres simples, a solução inovadora, no entanto, aparece com Tomás de Aquino, que apresenta a ideia de que os seres finitos são compostos de ato e potência e que as coisas se diferenciam entre si na medida em que são portadoras de diferentes potencialidades ou formas de ser. O raciocínio continua até a afirmação de que só pode haver um Ser Simples ou Ato Puro não – composto. Desse modo, ficaria estabelecido o Uno Indivisível e Absoluto do divino e a pluralidade metafísica da realidade (GEISLER, 2015).
     Não obstante Deus seja essencialmente uma unidade absoluta, Ele é subsistencialmente plural. A relação de pessoas na imanência divina pode ser levantada para pensar nas relações de intersubjetividade como modelo relacional. Neste caso, estamos diante de uma ênfase para o modelo social de Trindade, tendo de tomar cautela para não valorizar a diversidade sobre a unidade, a fim de não desembocar no triteísmo (SILVA, 2014). O modelo social da triunidade divina é refletida na ideia da unidade de pessoas no Corpo eclesiástico místico do Cristo, no reflexo da analogia da Trindade econômica nas subordinações funcionais das relações humanas e na representação da filiação geracional refletida nas relações paternais. Desse modo, a relação intertrinitária apresenta um importante modelo para pensar a tripessoalidade do divino como uma “comunidade de amor” para ponderar a interpessoalidade (DUARTE & BOFF, 2013).  Tendo em vista isso, podemos citar alguns exemplos para mostrar como a Trindade é o modelo perfeito para que os cristãos vivam relações intersubjetivas de acordo com a Vontade Divina:


A Trindade e as relações matrimoniais: A maneira como Cristo voluntariamente se submete a autoridade amorosa do Pai, serve de modelo para o modo pelo qual as esposas podem ser submissas aos maridos. "Quero, porém, que entendam que o cabeça de todo homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de Cristo é Deus." - 1 Coríntios 11.3


A Trindade e a relação pai-filho: O relacionamento entre Deus, o Pai e Deus, o Fiho é o arquétipo perfeito das relações entre pais e filhos. O Pai e o Filho vivem em uma unidade eterna de amor filial tão perfeito, que pais e filhos não podem negligenciar esse modelo.  "E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo." - Mateus 3.17


A Trindade e as relações de amor: O Espírito Santo enquanto procedendo do Pai e do Filho deve nos levar a viver nossas relações interpessoais nos revestindo sobretudo com o vínculo perfeito do amor divino. "Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito" (Colossenses 3.14). "E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu." - Romanos 5.5


A Trindade e a unidade da Igreja: A unidade perfeita da Trindade deve ser refletida na comunhão da Igreja, em um só corpo, uma só fé e um só Espírito. "Não ficarei mais no mundo, mas eles ainda estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um" (João 17.11). "Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos." - Efésios 4.4-6


     Dessa forma, a Trindade tem uma importância, não só teórica, mas também prática para os cristãos. Unitaristas e unicistas não podem ser verdadeiros cristãos na unidade da fé, justamente porque falta-lhes o modelo perfeito para a vivência religiosa autêntica da comunhão cristã. Assim, confessamos junto a O Credo de Atanásio: "Mas todas as três pessoas co-eternas são co-iguais entre si; de modo que em tudo o que foi dito acima, tanto a unidade em trindade, como a trindade em unidade deve ser cultuada. Logo, todo aquele que quiser ser salvo deve pensar desse modo com relação à Trindade."


REFERÊNCIAS


CLARCK, Gordon Haddon. A Trindade. Cuiabá: Monergismo, 2005. Disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/trindade/A_Trindade_Gordon_Clark.pdf>. Acesso em: 04 de Março de 2016.


DUARTE, Pedro Pereira & BOFF, Clodovis. A Trindade Santa: Modelo Supremo da  Família como comunidade de amor. Caderno Teológico da PUCPR, Curitiba, v.1, n.1, pp.163-191, 2013.


FERREIRA, Franklin & MYATT, Alan. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007.


GEISLER, Norman. Teologia Sistemática 1. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2015.


O Credo de Atanasio. Disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/credos/credoatanasio.htm> Acesso em: 27 de Abril de 2016.


SILVA, André de Aloísio de Oliveira da. A Trindade Imanente: Unidade de essência e diversidade de pessoas como igualmente fundamentais em Deus. Teresinha: Seminário Teológico do Nordeste Memorial Igreja Presbiteriana da Coreia – Monografia, 2014.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

MASTURBAÇÃO - CONSIDERAÇÕES MORAIS, BÍBLICAS E REFLEXIVAS


Bruno dos Santos Queiroz

     

     Creio que quase todo jovem cristão já enfrentou ou enfrenta problemas nessa área. Por isso creio poder me familiarizar com muitos jovens (e também adultos) que lerão este artigo. Vamos tratar da questão em quatro fases: (i) definição da masturbação, (ii) considerações morais, (iii) considerações bíblicas e (iv) reflexões especiais.

DEFINIÇÃO DE MASTURBAÇÃO

       O termo masturbação é usado aqui num sentido mais restritivo, para se referir a estimulações eróticas conscientes e de livre agência, com sentido erótico-genital, que podem ser praticadas solitariamente ou mutuamente, no último caso distinguindo-se da relação sexual em especial pela inexistência de penetração. Nessa definição exclui-se: (i) “masturbações” sem sentido erótico-genital na primeira e segunda infância, (ii) sonambulismo sexual; (iii) sonho erótico (iv) polução noturna e (v) excitação sexual não estimulada[*].

CONSIDERAÇÕES MORAIS

       A masturbação assim definida possui diversos problemas éticos, sendo, portanto uma prática objetivamente imoral. Se olharmos do ponto de vista ético, perceberemos que a masturbação é um desvio do ideal da sexualidade. O orgasmo seria algo como um "pedacinho do céu", do gozo eterno da união mística entre Cristo e a Igreja. O sexo é o símbolo da "união agápica-erótica"[9] entre os cônjuges. Por isso, onde há sexualidade em seu sentido genital deve haver o Eros matrimonial, a conexão mística com "o outro", em que a diferença de gênero sinaliza a alteridade, e a marca da conjugabilidade aduz à intimidade. Na masturbação, a alteridade é quebrada, o prazer é destinado a satisfazer a "si mesmo", e não a compartilhar-se com o amado. Nela resta a estimulação narcísica e egoica do autoerotismo. Quando a prática envolve fantasias sexuais com uma pessoa ou a instrumentalidade da pornografia, está incluso o problema da coisificação do corpo do outro e do desrespeito envolvido na atitude imoral de tomar sem autorização a imagem de uma pessoa como um estímulo para satisfazer seus próprios desejos.

CONSIDERAÇÕES BÍBLICAS

       Existe um erro grave quando se argumenta a favor da masturbação com base no silêncio das Escrituras em torno do assunto. Quando a Bíblia não menciona explicitamente uma prática, isso não significa que a Escritura a autorize. Em casos assim, o que se deve examinar é o conjunto global principiológico da Palavra de Deus e a relação da prática com esse contexto principiológico geral. A Bíblia apresenta muitos princípios importantes, em geral feridos pela prática masturbatória, tais como (i) a pureza moral da mente e dos pensamentos (Filipenses 4.8); (ii) a mortificação de apetites sexuais impuros (Colossenses 3.5); (iii) a castidade no olhar (Jó31.1; Mateus 5.28) e; (iv) o domínio próprio e o controle sobre os desejos da carne (Gálatas 5.22-23; Tito 3.3).
       Precisamos ser sinceros em reconhecer que a masturbação fere os princípios de castidade das Escrituras, por mais que nossa mente depravada busque sempre escusas para recusar a verdade. Quando observamos o Ensino do Cristo percebemos que ele pregava uma moral que excede o mero legalismo dos religiosos da sua época. Em Cristo, como percebemos a partir de uma leitura de Mateus 5.21-37, as intenções e desejos do coração tem um grande valor para Deus, de modo que não só a prática é pecaminosa, mas também a estimulação de pensamentos e desejos imorais ferem o padrão de Deus. Sendo que a fé cristã considera o sexo antes do casamento pecado, do mesmo modo a estimulação de pensamentos e desejos nesse sentido deve ser evitada, de modo que o Cristianismo considera a prática masturbatória como pecado.

REFLEXÕES ESPECIAIS
       A trama significativa do estruturalismo anímico[7] do recalque[2], a naturalização [1] do reducionismo afetivo[3] e a degradação dos princípios ético-morais constroem um pensamento que coloca o sujeito casto dentro de um campo de significações e categorizações que lhe roubam a subjetividade[5]. Para o pensamento mundano, aquele que se abstêm de prazeres sexuais por princípios morais, é alguém que baniu sua subjetividade pelo recalcamento das afetações prazerosas. A Revolução Afetiva[4] elevou de tal forma o sentimento, que o colocou como o resumo da construção indenitária, e deslocou o próprio Ser do campo da Existência para o mundo dos afetos. Nega-se aos 'abstêmicos' a própria felicidade, como se o gozo sexual fosse a arkhé da eudaimonia. Não só são excluídos dos afetos positivos, como também são aos abstêmicos atribuídos os sentimentos patológicos de angústias advindos da repressão neurótica.
       O que se põe é - não pode haver felicidade plena sem uma sexualidade livre, e aqueles que não seguem essa regra, são os que a dominação social infundiu-lhes a ojeriza pelo sexo - são os reprimidos, alienados da subjetividade. Mas será mesmo assim? Não pode a busca do desenvolvimento do autodomínio e da continência significar uma vivência subjetiva legítima de contatar a própria sexualidade? Não há por que ver no exercício vivencial da continência um necessário recalcamento da sexualidade ao mundo do Inconsciente, ao contrário, controlar os próprios desejos sexuais e direcionar a própria libido é uma atitude da Consciência em contato com a própria sexualidade. Ou mesmo se falarmos do recalque, não seria a sublimação[6] e o direcionamento da libido sexual para atividades de "latência" de práticas excelsas uma atitude louvável? Ainda, não estaria o verdadeiro sentido da dignidade humana na possibilidade de transcendência sobre os domínios instituais? E não fazem parte de uma profunda vivência subjetiva os próprios conflitos, dificuldades e angústias que podem daí emergir?
       A luta contra a masturbação ajudará um jovem (ou mesmo adulto) cristão a conhecer melhor sua própria sexualidade. Por isso, os que lutam contra esse pecado devem observar qual é maneira que seu corpo, uma parte do si mesmo, lida com a sexualidade. Avalie quais são os padrões de comportamento, os tipos de estímulos, ambientes que costumam te levar a se masturbar. Observe também qual a forma que você costuma se masturbar, bem como as fantasias sexuais ligadas ou não ao ato. Conhecer todos esses aspectos na luta contra a masturbação, lhe ajudará a desenvolver não só melhores meios de cultivar autodomínio como também o levará a vivenciar de perto seus conflitos éticos-morais e a conhecer sua própria sexualidade. Se esforce em desenvolver autodomínio, e em evitar certos padrões de comportamento e ambientes sexualmente estimulantes. Conheça a si mesmo, vivencie seus conflitos morais e desenvolva autodomínio. Saber controlar e administrar seus próprios desejos sexuais é uma manifestação da dignidade humana, enquanto imagem do Criador.
       Lidar com o sentimento de culpa nesse processo pode também ser difícil. Mas a culpa também é, na medida certa, positiva, para a vivência subjetiva de nossos conflitos ético-morais, mas em exagero é um mal. Por isso, não se esqueça das inspiradas palavras do apóstolo do amor: “Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo.” (1 João 2:1,2) e ainda: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. ” (1 João 1:9).



GLOSSÁRIO

      [1]Naturalização: É quando passamos a entender as interpretações que fazemos das coisas como se elas realmente fizessem parte das coisas em si. Por exemplo, a interpretação “pessoas que não se masturbam são infelizes” (uma interpretação da nossa cabeça) pode acabar sendo entendida por nós como algo que diz respeito à realidade em si ou ao modo como as coisas realmente são. Às vezes, por sempre termos pensado de uma forma, podemos achar que as coisas são realmente da forma que estamos acostumados a pensar. Mas podemos, na verdade, estar introduzindo informações às coisas como sendo naturais das mesmas.
         [2]Recalque: Na Psicanálise, o termo é usado para se referir a um mecanismo de defesa que leva representações para o inconsciente. Seria como levar para o “porão da alma”, ou para o “fundo da nossa mente”, as ideias sexuais que são censuradas por nossa consciência moral. Nesse caso, o nosso inconsciente seria semelhante a um grande esgoto que vai se enchendo das nossas ideias sexuais consideradas imorais. Seguindo essa analogia, todo esgoto que vai ficando cheio, uma hora começa a dar sinais ou até mesmo ameaça estourar. Assim, pessoas que procuram manter no inconsciente, ideias sexuais, ao invés de descarregar os desejos ligados a essas ideias, desenvolveriam sintomas neuróticos, em especial sentimentos de angústia sem explicação aparente.
       [3]Reducionismo afetivo: É uma forma de pensamento surgida na Idade Moderna e que enxerga a afetividade, os sentimentos e as emoções como as dimensões mais importantes da existência humana. Para esse modo de pensar, a identidade de uma pessoa é definida por aquilo que ela sente e o sentimento de uma pessoa deve ser considerado de valor sagrado. Verdades racionais não são relevantes, o que importa é se “sentir bem”. Em acordo com essa concepção, é um ato de enorme gravidade ofender os sentimentos de alguém.
     [4]Revolução Afetiva: Refere-se a uma “revolução” ocorrida na Idade Moderna que teria levado a uma maior consideração da dimensão afetiva do ser humano, seus aspectos psicológicos, suas emoções e sua subjetividade, acima de sua dimensão cognitiva e racional.
        [5]Roubar a subjetividade: Diz respeito ao ato de classificar uma pessoa de acordo com categorias teóricas que impedem de enxergá-la como ela realmente é. Ocorre quando usamos nossa teoria para rotular os sujeitos de acordo com a nossa forma de pensar, estabelecendo falsas relações de causa e efeito e deixando de enxergar cada indivíduo como singular, livre, diferente, responsável e sujeito de escolhas próprias.
      [6]Sublimação: Mecanismo de defesa pelo qual um desejo de natureza sexual é canalizado ou redirecionado para atividades não-sexuais. Por exemplo, um jovem pode, ao invés de gastar sua energia no prazer sexual da masturbação, usar essa energia para obter prazer no esporte, na arte, na religião, etc. 
        [7]Trama significativa do estruturalismo anímico: Se refere ao conjunto de conceitos teóricos que enxergam a mente como uma grande e dinâmica estrutura. Na Psicanálise, a mente é vista como um aparelho com três instâncias id (desejos instituais), ego (eu) e superego (consciência moral). Existiria um conflito entre as exigências dos nossos desejos sexuais advindos do id e nossas restrições morais presentes no superego. Caso uma pessoa tenha uma consciência moral muito forte e restrinja muito seus desejos sexuais, ela se tornará neurótica e problemática. Uma pessoa feliz seria aquela que é mais “livre” em relação aos seus desejos.

         [8]União agápica-erótica: A ideia nessa expressão é a união de dois tipos ou formas de amor. O amor Eros refere-se a um tipo de amor que carece de algo que o complete. Eros está especialmente associado à ideia de desejar algo. Na medida em que só é possível desejar aquilo que não se tem e na medida em que o amor deseja o bom e o belo, o amor Eros carece do que é belo e bom. O amor ágape, por sua vez, é pleno e completo. É o amor sacrifical, que ao invés de buscar receber aquilo que lhe falta, se dá em sacrifício por outrem. Quando unidos em relação, o amor ágape completa a carência do amor Eros, tornando-o pleno. Uma ilustração que ajuda nessa compreensão é a da árvore e do sol. A árvore carece da luz do sol para sobreviver e é o sol o que vivifica a árvore. Assim como a árvore, o amor Eros é vivificado pela plenitude do amor agápico. É a luz plenificadora do amor agápico que cultiva e não deixa morrer o rebento do amor Eros. No casamento, o amor paixão (Eros) só pode sobreviver e continuar vívido se for plenificado pelo amor sacrifical e divino (Ágape).


[*] A exclusão dessas modalidades da definição estrita de masturbação, não significa que esses atos, sejam eles conscientes, inconscientes ou semi-conscientes, estejam totalmente livres da mancha do pecado. Pelo contrário, não se pode excluir a pecaminosidade de um ato com base em distinções, diga-se de passagem, psicanalíticas, sobre a fase do desenvolvimento psicossexual ou sobre a ideia de "inconsciente" como algo que não tem a ver, total ou quase nada, com o ego.



sábado, 16 de abril de 2016

REALISMO X IDEALISMO E A PROPOSTA FENOMENOLÓGICA

       A Fenomenologia é sobretudo um modo de pensar que surge no contexto da crise das ciências, em especial como uma anti-teoria, que se contrapõe ao cientificismo positivista e ao psicologismo e que supera o dilema filosófico de ênfases no sujeito ou no objeto das tradições idealistas e realistas. Na medida em que Husserl usou conceitos da tradição filosófica, doando-lhes um novo sentido dentro do olhar fenomenológico, é importante resgatar, num primeiro momento, a tradição filosófica no meio da qual Husserl desenvolve seu pensamento.
       No contexto filosófico em que a Fenomenologia surge, havia duas grandes correntes na Tradição Filosófica em relação ao sujeito e ao objeto. A primeira poderia ser denominada de Realismo, caracterizada pela concepção de que o locus de conhecimento e sentido estava nas coisas em si, em uma essência substancial aristotélica/platônica na realidade anterior ao sujeito. Tal posicionamento foi representado por empiristas, como Francis Bancon, cuja doutrina concebia a origem do conhecimento na manipulação da natureza pela experimentação. Em sua ênfase na objetividade, a Ciência positivista buscou banir o máximo possível a influência da subjetividade na construção de um conhecimento válido. A visão epistemológica do sentido habitando nas coisas, também propiciou uma concepção popperiana de verdade, e uma busca de se aproximar através do teste da teoria pelo erro cada vez mais da essência praticamente inalcançável que habitaria na realidade.
        Outra corrente, por sua vez, via o sentido ou o conhecimento como representações mentais ou cognitivas, sendo que o conhecimento ou o sentido estava na construção representacional que a Consciência fazia da realidade. O conhecimento, neste caso, seria uma construção do sujeito.  O filósofo representativo desta corrente seria René Descartes, que através da dúvida metódica estabeleceu o Cogito como fundamento gnosiológico primordial. O grande equívoco do idealismo cartesiano teria sido o solipsismo filosófico, que isolou o ego cogito do mundo.
       O filósofo que buscou conciliar a disputa epistemológica entre o Realismo e o Idealismo, mas que acabou adotando uma espécie de Idealismo, foi o prussiano Immanuel Kant. Kant partiu da ideia de que o conhecimento vem da experiência, mas tem origem na Consciência. Ele concebeu a Consciência como categorial, na qual o mundo seria ‘encaixado’ nas categorias da consciência, composta de estruturas lógicas apriorísticas. O conhecimento, então, consistiria em apreender os elementos do mundo empírico por meio da aplicação dos processos racionais da consciência, na união da intuição da ordem do empírico com a razão. A razão pura seria aquela que contém os princípios para conhecer algo absolutamente ‘a priori’. Kant fala, então, de uma ‘forma do fenômeno a priori’, que estaria presente no espírito em geral, independente da sensação. Neste ponto, a filosofia kantiana acaba por cair num certo idealismo, e a ideia de categorias gerais da consciência vai ter reverberações na Psicanálise, no conceito de representantes pulsionais e na Psicologia Analítica, na ideia de estruturas arquetípicas da psique universal.
       Dentro de toda essa discussão do que seria a Consciência e de onde estaria o locus de significado, sentido e conhecimento, a Fenomenologia traz dois conceitos importantes: a ideia de consciência intencional e a do a priori da correlação intencional. Enquanto a tradição filosófica empirista reduzia a consciência ao sentido psicológico, os cartesianos a colocavam como constructo isolado do mundo e os kantianos a viam como estrutura categorial, Husserl concebia a consciência como inerentemente intencional. A ideia de intencionalidade já estava presente no Psicologismo de Brentano que concebia a intencionalidade no sentido do voltar-se da consciência para os objetos representados para e na consciência. Brentano falava de um objeto intencional, isto é, o objeto é presente para a consciência no processo em que ele se apresenta a mesma. Toda experiência psíquica se refere a um objeto. No entanto, a psicologia intencional de Franz Brentano, concebia a intencionalidade no sentido do direcionamento das representações, insistindo numa espécie de idealismo.
       Husserl é profundamente inovador. Diferente das teses psicologistas, Husserl concebe a consciência como um ato, e não uma estrutura psicológica, pois a consciência é transcendental. A consciência não é estrutural, mas um verbo. Conhecer é direcionar à consciência para o objeto. É nesse sentido que a Fenomenologia vai falar de Consciência Intencional. Cada Cogito tem em si como visado o seu cogitatum. A propriedade fundamental da Consciência é sempre ser consciência de alguma coisa. A intencionalidade da Consciência é uma reorientação até a coisa, e isso é um traço constitutivo, o ser da própria consciência. A Consciência, portanto, não é uma estrutura fechada separada do mundo exterior, ela é aberta ao mundo e sempre direcionada ao objeto. Pode-se falar então, de uma consciência pública, não existe uma cisão entre “interior” e “exterior”, a experiência é vivida no mundo.
     Mas Edmund Husserl não cai no Idealismo tradicional, como se só a Consciência estivesse direcionada para o mundo. O objeto também é objeto em referência a uma consciência. Para todo ato de ver existe uma coisa vista, para todo observar há um observado, para todo olhar há um olhado, para todo ouvir um ouvido, para todo cheirar um cheirado, e para todo lembrar um lembrado. Assim, não basta falar numa consciência intencional, é preciso identificar também a natureza constitutiva dos objetos intencionais. É nesse sentido que se pode falar de uma análise noético-noemática. Os atos de consciência (noeses) e a coisa visada (noema), encontram-se numa correlação noético-noemática apriorística. A intencionalidade faz com que o ego puro projete atos intencionais que incidem no objeto, que por sua vez está direcionado a consciência que o visa.
       Husserl vai falar, então de um a priori da correlação intencional, isto é, o sujeito e objeto surgem como inseparáveis, não numa relação de duas anterioridades separadas, nem numa dialética de antagônicos, mas como uma correlação de emergências simultâneas e inseparáveis. O foco não está mais na ênfase idealista no sujeito, nem na ênfase realista do objeto, mas sim na correlação universal e apriorística eu-mundo. Existe uma vinculação universal inexorável de correlação sujeito-objeto, sem o qual não existiria nem “eu”, nem “mundo”. Essa correlação, portanto, está posta antes de qualquer coisa, por isso a priori – anterior a qualquer experiência. Isso não significa que as ‘coisas’ (embora essa não seja a melhor palavra) não existiriam se não houvesse nenhum sujeito, mas sim que só pode haver objeto se houver um sujeito que lhe doe sentido. Mas esse sentido não é dado arbitrariamente por uma consciência idealista, antes é constituído na própria aparição do fenômeno à consciência. Não existe, portanto um objeto visado sem uma consciência intencional que o vise, nem consciência intencional sem um objeto intencional visado.

FONTES

Goto, Tommy Akira (2007). A (Re) constituição da Psicologia Fenomenológica em Edmund Husserl. Tese de Doutorado. PUC Campinas: Campinas

Goto, Tommy Akira (2008). Introdução à Psicologia Fenomenológica. São Paulo:  Paulus.

Husserl, Edmund (1929). Conferências de Paris. Edições 70.

Kant, Immanuel (1781). Crítica da Razão Pura. Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia) – versão eletrônica.

Ponty, Merleau Maurice (1999). Fenomenologia da Percepção - prefácio. São Paulo: Martin Fontes.

*Anotações de aula.



domingo, 10 de abril de 2016

A GERAÇÃO ETERNA DO FILHO

       Muitos cristãos têm descartado ou ignorado a crença trinitária clássica na geração eterna do Filho de Deus. Essa doutrina é ratificada pelas confissões reformadas e pelos quatro primeiros concílios ecumênicos da Igreja reconhecidos pelos protestantes. Este artigo busca retomar essa verdade como importante para uma cosmovisão trinitária e até mesmo para a práxis cristã.

TRINDADE ONTOLÓGICA, IMANENTE E ECONÔMICA
      Willian Lane Craig, negando a doutrina da geração eterna do Filho, afirma que acha que seria:
“útil distinguir entre a Trindade ontológica e a Trindade econômica. A Trindade ontológica é a Trindade conforme existe por si mesma à parte da relação de Deus com o mundo. A Trindade econômica está relacionada aos diferentes papéis interpretados pelas pessoas da Trindade com relação ao mundo e, especialmente, com relação ao plano da salvação. Na Trindade econômica há subordinação (ou, talvez seja melhor dizer, submissão) de uma pessoa à outra, assim como o Filho encarnado faz a vontade do Pai e o Espírito fala, não por sua própria conta, mas em nome do Filho. A Trindade econômica não reflete diferenças ontológicas entre as pessoas; pelo contrário, é uma expressão da amorosa condescendência de Deus em prol da salvação. O erro da cristologia do Logos está em combinar a Trindade econômica com a Trindade ontológica, introduzindo a subordinação na natureza da própria Divindade. ”
A Regra de Rahner por outro lado diz o contrário: “A Trindade ‘econômica’ é a Trindade ‘imanente’ e a Trindade ‘imanente’ é a Trindade ‘econômica’”. Quem estará correto Craig ou a Regra de Rahner?
      Creio que as duas visões se complementam. Não pode haver subordinação ontológica na Trindade. Pai, Filho e Espírito são iguais em essência, glória, força e poder. Entendo que o Filho não tem uma existência contingente, ele não pode não-ser. Desse modo Craig acerta ao dizer que economia e ontologia não são a mesma coisa. De fato, as pessoas da Trindade se relacionam numa ordem econômica, mas são iguais ontologicamente. Discordo assim, da segunda parte da Regra de Rahner “A Trindade ‘imanente’ é a Trindade ‘econômica’”, se isso for entendido no sentido de que o Deus Triúno é somente Deus em relação à Criação. Neste caso, temos o risco de pensar em Deus somente como imanente, destituindo-o de Sua transcendência.
       Por outro lado, proponho ampliar um pouco a noção de economia, para pensar nas relações da Trindade imanente. Se entendermos “economia” como a relação da Trindade com a Criação, consequentemente teríamos de admitir que as distinções pessoais das pessoas divinas não são reais, mas apenas autodistinções que aparecem nas funções, papéis e atos interpretados pelo Divino. Corremos aqui o risco de uma espécie de modalismo, no qual as distinções entre as pessoas em Deus só são relativas às suas funções, mas não às suas propriedades. Neste caso, Deus seria uma só Pessoa na sua transcendência, mas que na medida em que se relaciona com o Universo se apresenta em uma triunidade de funções que permite-nos estabelecer uma distinção.
      Assim, estamos diante de dois perigos. Se assumimos a posição de que a Trindade econômica nada tem a ver com a ontológica, podemos cair num modalismo que destrói as distinções reais das pessoas divinas, por outro lado, se assumimos que a Trindade econômica e a Trindade imanente são uma e a mesma coisa, podemos cair numa visão ariana ou semiariana e no subordinacionismo ontológico.
      Minha proposta é usar três termos para falar da Trindade. O primeiro seria a “Trindade ontológica”, como se referindo ao que Deus é em sua essência, isto é, uma unidade absolutamente simples, na qual não há maior, nem menor. Já ontologicamente, Deus é um Ser individual pessoal autoconsciente. O segundo seria a “Trindade econômica”, isto é, as relações das Pessoas divinas com a criação, o que estabelece uma distinção e uma subordinação funcional e temporal entre as Pessoas da divindade. A terceira seria a “Trindade Imanente”, isto é, as relações metafísicas das pessoas divinas na atemporalidade, ou estado eterno, estabelecendo uma distinção de propriedades e uma subordinação nas relações eternas (não na ontologia) das Pessoas divinas. Neste caso, fugimos do subordinacionismo ontológico, afirmando a igualdade essencial entre as pessoas divinas e ao mesmo tempo nos protegemos contra a redução das distinções à economia, o que poderia levar a uma espécie de modalismo.
       A discussão que pretendo chegar aqui é afirmar a primeira parte da regra de Rahner para pensar na geração eterna do Filho. “A Trindade ‘econômica’ é a Trindade ‘imanente’”. Isto é, as relações econômicas de Deus na criação refletem as relações eternas que nEle existem na atemporalidade.

O PERIGO DO SEMI-MODALISMO

     Como já observado, a negação da geração eterna do Filho, se levada às últimas consequências conduziria ao modalismo, isto é, à crença de que Deus, em si mesmo, é uma única Pessoa e que Pai, Filho e Espírito são distintos apenas economicamente. Para que um sujeito seja distinto de outro é preciso que se dê a ele predicações distintas de outro sujeito do qual ele se distingue.
     Em Deus há numericamente uma só substância ou essência indivisível e absolutamente simples. Isso significa que o que se predica de forma essencial aos três sujeitos que compartilham dessa mesma substância é idêntico. Logo, não há como diferenciar as pessoas divinas em termos do que se predica sobre elas em relação à substância. Por outro lado, Deus não tem acidentes, de modo que as pessoas divinas não podem se diferir em termos de características acidentais.
      Em que se distinguem então as pessoas divinas? Há um tipo de predicação dada a Deus que não é nem essencial, nem acidental, mas de relação. Chamamos Deus de "Criador", "Senhor", etc. Logo, as pessoas divinas devem se distinguir entre si pela relação. Se há relações de distinção em Deus só no que diz respeito à Trindade Econômica, logo as pessoas divinas não seriam realmente distintas entre si. Assim, é necessário que haja relações mútuas dentro da Divindade para que se possa de fato afirmar que a Trindade é constituída por três pessoas realmente distintas. Aqueles que negam as relações mútuas na Divindade (geração eterna do Filho e procedência eterna do Espírito) correm o risco de cair numa espécie de semi-modalismo por não ter no que distinguir as pessoas divinas na Trindade Imanente.

A PRIMEIRA PARTE DA REGRA DE RAHNER E A FILIAÇÃO ETERNA DE CRISTO

      Levando em conta a primeira parte da regra de Rahner, podemos crer que a relação econômica de geração do Filho por Deus Pai reflete as propriedades divinas de paternidade e filiação. As Escrituras falam da economia trinitária em relação à Criação fazendo claras referências à geração do Filho. Isso é dito relacionado à Ressurreição: “Nós lhes anunciamos as boas novas: o que Deus prometeu a nossos antepassados ele cumpriu para nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, como está escrito no Salmo segundo: ‘Tu és meu filho; eu hoje te gerei’” (Atos 13.32 - 33). O autor aos Hebreus fala de vários momentos econômicos em que Jesus foi reconhecido como Filho de Deus relacionando isso a questão da geração: “O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, ele se assentou à direita da Majestade nas alturas, tornando-se tão superior aos anjos quanto o nome que herdou é superior ao deles. Pois a qual dos anjos Deus alguma vez disse: ‘Tu és meu Filho; eu hoje te gerei’? E outra vez: ‘Eu serei seu Pai, e ele será meu Filho?’” (Hebreus 1.3-5). Na economia trinitária, o Antigo Testamento vaticina que o Messias recebe por herança as nações, tendo esse direito assegurado pelo decreto da filiação: “’Eu mesmo estabeleci o meu rei em Sião, no meu santo monte’. Proclamarei o decreto do Senhor: Ele me disse: ‘Tu és meu filho; eu hoje te gerei. Pede-me, e te darei as nações como herança e os confins da terra como tua propriedade. ’” (Salmos 2.6-8). Aquele que é declarado “Filho” no cumprimento de seus atos econômicos, o é por Sua Filiação Eterna na Trindade Imanente.
      O Filho é gerado pelo Pai antes de todos os tempos. Desse modo, a geração do Filho não é um ato concluído, mas necessário e eterno, continuando sempre, mas sempre completo. Cristo é identificado como μονογενὴς (Unigênito, único gerado – João 1:14, 18; 3.16, 18; 1Jo 4.9). A ideia é de que Cristo é o único Filho de Deus literalmente gerado dele. “Gerar” significa ser origem de um “da mesma espécie” (Gênesis 1.11-12; 21-25), e assim como “gatos” geram “gatos” e “cachorros” geram “cachorros”, o Pai gerou o Filho da mesma espécie, “Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro”, “O Nascido de Deus” (1 João 5.18), conforme P75 e P66 “o Deus Unigênito” (João 1.14). Essa geração se deu antes de todos os tempos: “...e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade.” (Miquéias 5.2). “Antes que os montes se houvessem assentado, antes dos outeiros, eu fui gerada.” (Provérbios 8.25). De modo que nunca houve um tempo em que o Pai fosse Pai sem Filho e o Filho fosse Filho sem Pai: “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse. Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo.” (João 17.5, 24). Quando as Escrituras chamam Jesus de “Filho de Deus”, isto não é uma simples metáfora para querer trazer a ideia de “igualdade”, ou apenas uma questão encarnacionista e econômica. Jesus de fato é o Filho de Deus desde sempre e para sempre.

GERAÇÃO DA PESSOA E COMUNICAÇÃO DA ESSÊNCIA
      A geração é o ato pelo qual o Pai é o Princípio que serve de base para um segundo modo de existência dentro do ser divino. Não é a natureza ou a essência o que é gerado, mas sim a Pessoa. Desse modo, a natureza ontológica é numericamente uma só, absolutamente uma. Preserva-se assim também todos os atributos da essência divina, incluindo sua unidade absoluta e sua existência necessária não-contingente. Desse modo, o Filho tem a essência divina de si mesmo como Deus, não sendo portanto contingente ou dependente, isso porque a essência divina do Filho, embora comunicada do Pai, não é derivada de outra essência, e por isso é “em si”, absoluta e necessária. Por comunicação se pretende dizer que,  no ato da geração, o Filho recebe do Pai a essência divina completa e autoexistente.  O Filho continua, portanto, sendo “Deus de si mesmo”, mesmo Sua essência fluindo do Pai. Interessantemente, a própria Escritura se utiliza dessa linguagem aparentemente paradoxal: “Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo.” (João 5.26). Ainda Paulo escreveu: “Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” (Colossenses 1.19).
      Tudo o que o Filho recebe, pensando mesmo na primeira parte da Regra de Rahner, quer no âmbito da economia, quer da imanência, Ele o recebe do Pai: “Mas Jesus respondeu, e disse-lhes: ‘Na verdade, na verdade vos digo que o Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente. Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que faz; e ele lhe mostrará maiores obras do que estas, para que vos maravilheis. Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos, e os vivifica, assim também o Filho vivifica aqueles que quer. E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo; Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai. Quem não honra o Filho, não honra o Pai que o enviou. ... Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo; E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem. ... Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou. Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro. Há outro que testifica de mim, e sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro. ” (João 5:19-32). Se nos atos econômicos temporais da Trindade há uma relação de subordinação, adotando a primeira parte da regra de Rahner, me parece haver uma boa base para afirmar uma subordinação eterna não – ontológica nas relações (não na essência) das pessoas divinas. Condeno, porém, como herege, qualquer que ensine em termos ontológicos qualquer espécie de subordinacionismo do Filho ao Pai.

SUBORDINAÇÃO ETERNA DO FILHO AO PAI
Quero, porém, que entendam que o cabeça de todo homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de Cristo é Deus.”
1 Coríntios 11.3

      Letham apresenta dois argumentos a favor da subordinação eterna do Filho, um a partir da união hipostática e outro a partir da primeira parte da Regra de Rahner:

*ARGUMENTO A PARTIR DA UNIÃO HIPOSTÁTICA DE CRISTO
1. O sujeito de todas as ações de Jesus, mesmo aquelas feitas em razão da sua natureza humana, é a Pessoa divina do Logos (“...um só e mesmo Filho Unigênito, Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor”Declaração de Calcedônia)
2. Jesus, de sua encarnação até a sua morte, se humilhou em subordinação ao Pai.
3. Logo, foi a Pessoa divina do Filho quem se subordinou ao Pai.

     Estabelecido que quando o Credo Atanasiano afirma que Jesus se subordinou "segundo a carne" (31. "...menor do que o Pai com relação à sua humanidade." ) isso implica, por causa da união hipostática, que não só a natureza humana, mas a “pessoa divina” (não a natureza divina! - o que seria subordinacionismo) se subordinou ao Pai, poderia se dizer corretamente que “Deus Filho se subordinou a Deus Pai”. Dessa conclusão caminharíamos à primeira regra de Rahner:

*ARGUMENTO A PARTIR DA PRIMEIRA PARTE DA REGRA DE RAHNER
1. Deus Filho se subordinou ao Pai na Trindade Econômica
2. “A Trindade ‘econômica’ é a Trindade ‘imanente’”, isto é, as relações econômicas de Deus na criação refletem as relações eternas que nEle existem na atemporalidade.
3. Logo, uma subordinação eterna do Filho ao Pai na Trindade Econômica seria a base para a subordinação temporal do Pai ao Filho na Trindade Econômica.

      Letham afirma que se não foi contrário à divindade do Filho que ele se subordinasse ao Pai na Trindade Econômica, não deveria ser contrário à sua divindade que Ele se subordinasse ao Pai na Trindade Imanente, visto que quem se subordinou foi a "pessoa divina" do Filho.
      A subordinação eterna do Filho ao Pai é defendida por Charles Hodge, A. Strong, Wayne Grudem, Robert Letham,John Dahms, Peter Schemm, Bruce Ware, J. Scott Horrell, Andreas J. Köstenberger, Scott R. Swain e me parece que também Norman Geisler (cf. TS1, p.801: "Uma palavra final sobre a natureza e duração dessa subordinação na divindade. Não é somente temporal e econômica; é essencial e eterna"). A maneira como a Confissão de Fé de Westminster anuncia as pessoas divinas já me parece sugerir ou insinuar (mas sem afirmar) a eternidade dessa subordinação, por dois motivos: (1) Ela coloca as três pessoas numa ordem, primeiro o Pai, depois o Filho e depois o Espírito e em seguida afirma as propriedades eternas das pessoas como base das distinções entre elas (CFW II.III); (2) Ela usa a numeração “Segunda Pessoa da Trindade” em relação ao Filho (CFW VIII.II), sugerindo uma ordem entre as pessoas da Trindade.
      Agora, não restam dúvidas de que o subordinacionismo ontológico (a ideia de que a natureza divina do Filho é inferior à do Pai ou que alguma pessoa da Trindade é essencialmente menor ou maior do que outra) é uma heresia ("E nessa Trindade nenhum é primeiro ou último, nenhum é maior ou menor." Credo Atanasiano, 24), mas afirmar uma subordinação nas relações eternas não é o mesmo que afirmar um subordinacionismo na essência divina.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

      A crença na geração eterna do Filho é bastante relevante, ela serve de modelo eterno para as relações temporais de paternidade e filiação entre os humanos. Existem pais e filhos, porque existe no Absoluto uma relação que serve de base para toda paternidade e filiação entre os humanos. A unidade de amor entre Jesus e Seu Pai deve servir de paradigma e exemplo perfeito para nós. Tal qual o Deus Unigênito, os filhos devem viver em submissão voluntária e tal qual o Deus Pai, devem os pais amarem os filhos em vínculo supremo.
      Ainda, só somos redimidos, chamados “filhos de Deus” porque nosso Representante é “o Filho de Deus”. Aquele que redimiu os eleitos deu-lhes o poder de serem adotados como “filhos de Deus” (João 1.12). Quão bom é, em Cristo, sermos tratados por Deus Pai como “filhos”. É inegável a importância, até prática da doutrina da filiação eterna. Consideramos, portanto, que a negação da geração eterna do Filho traz prejuízos para a Fé Cristã.

FONTES:
Além dos credos e confissões citados ao longo texto, foram usados como referências gerais diluídas ao longo do artigo:
Berkhof, Louis. Manual de doutrina cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.
Teologia Sistemática – Franklin Ferreira, Alyan Myatt, VIDA NOVA, 2007
Geisler, N. (2015). Teologia Sistemática 1. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus
John Mcarthur. Reexaminado a Filiação Eterna. Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/cristologia/filiacao_eterna_macarthur.htm
Lee Irons. A Eterna Geração do Filho. Disponível em: http://www.e-cristianismo.com.br/teologia/cristologia/a-eterna-geracao-do-filho.html
Luciano Sena. Franklin Ferreira vs Waune Grudem. A Subordinação do Filho. Disponível em: http://bereianos.blogspot.com.br/2013/09/franklin-ferreira-vs-wayne-grudem.html
William Lane Craig. Deus Pai é causalmente anterior ao Filho? Disponível em: http://www.reasonablefaith.org/portuguese/deus-pai-e-causalmente-anterior-ao-filho