sexta-feira, 13 de outubro de 2017

COMO ACONSELHAR QUEM TEM PROBLEMAS COM MASTURBAÇÃO?

Como este é um problema comum entre os cristãos e por consequência deve se tornar um problema comum no aconselhamento, é importante que se escreva sobre o assunto. Sabe-se que a maioria dos métodos e técnicas para combater a masturbação é um fracasso. O motivo é simples: esses métodos não são inteiramente fiéis à Escritura e estão baseados em pressuposições falsas. 
      O objetivo deste artigo é apresentar, baseado em Jay Adams, um método eficaz e que realmente funciona no combate à masturbação. O objetivo é fornecer aos conselheiros cristãos princípios e técnicas, fundamentados na Escritura, para aconselhar eficazmente pessoas que lutam contra esse pecado. Já tratei desse pecado do ponto de vista mais teórico (aqui), este artigo, ao contrário do anterior, visa ser prático e concreto. Orientações abstratas e gerais sobre como vencer esse pecado são insuficientes. Pessoas que sofrem com esse problema precisam de orientações claras, práticas, eficazes e concretas. 
  
O QUE NÃO DEVE SER FEITO 
  
Definamos primeiro o que não deve ser feito ao aconselhar pessoas que lutam contra a masturbação: 
  
1. Tentar diminuir a gravidade e a culpa do que a pessoa fez: É comum pessoas que se masturbam desenvolverem fortes sentimentos de culpa. A pessoa pecou e ela é realmente culpada, sua culpa deve ser levada a sério, não subestimada. A culpa no fundo esconde um medo da pessoa de que repetirá o mesmo pecado. Na medida em que passa a aplicar o método bíblico e começa a perceber resultados, o medo de uma nova recaída sumirá e a culpa passará. A culpa será superada na medida em que a pessoa se arrepender do seu pecado e mudar seus comportamentos. O aconselhado não é um “viciado”, alguém com “problemas emocionais” ou uma pessoa com “necessidades fisiológicas”, ele é um pecador culpado e responsável. 
2. Negociar com o pecado do aconselhado: Masturbação é pecado, não importa se tem causas emocionais, se não envolve pensamentos lascivos ou se é praticada com pouca frequência. Deve ser condenada como egocentrismo e, portanto, não se deve admitir que o aconselhado a pratique sob qualquer justificativa. 
3. Ter pena do aconselhado: O aconselhado é um pecador responsável, não uma vítima. É comum pessoas que lutam contra a masturbação se revolverem na autocompaixão. Nesses casos, não se deve alimentar tal compaixão ficando com dó do aconselhado, deve-se confrontá-lo mostrando-o que tal atitude é egocêntrica e orgulhosa. Diga ao aconselhado que ele não é o centro do universo, que o mundo não foi criado especialmente para ele e que ele deve parar de pensar em si mesmo e começar a pensar em Deus e no próximo. Deixe claro que Deus não o considerada uma vítima, mas alguém responsável pelo seu pecado. 
4. Usar outra fonte no aconselhamento além da Escritura: Não aconselhe com base em outra coisa senão a Bíblia. Não se oriente por descobertas da neurociência, como aquelas que atribuem a culpa da masturbação ao sistema dopaminérgico do cérebro, ou teorias da Psicologia que desresponsabilizam o aconselhado. O aconselhamento cristão é aconselhamento bíblico e deve orientar-se somente pela Escritura. 
5. Generalizar ao invés de especificar: Você precisa dar orientações claras, concretas e executáveis ao aconselhado. Não dê orientações vagas e abstratas, mas instruções concretas. Por exemplo, ao invés de dizer: “Evite situações que te levem a masturbar.”, diga claramente: “Você deverá parar de usar o computador quando estiver sozinho em casa. Não tome banho na água quente, nem se demore no banho e coloque o despertador longe da cama para ter de levantar e desligá-lo.” Também exija que seu aconselhado seja claro e específico ao relatar o seu problema. 
6. Estabelecer motivações antibíblicas: O motivo para parar com a masturbação deve ser a glória de Deus. Não forneça ao aconselhado, nem lhe dê qualquer outra motivação para abandonar a masturbação, senão a glória de Deus. Orgulho, agradar a namorada, alívio da culpa, etc. não devem ser as motivações últimas do aconselhado para abandonar o pecado. 
  
     PRIMEIRAS COISAS A SEREM FEITAS NO ACONSELHAMENTO 
  
Estabelecido o que não deve ser feito, devemos agora avaliar o que deve ser primeiramente feito quando alguém que luta contra a masturbação procura aconselhamento: 
  
1. Determine se a pessoa é cristã: Se alguém busca aconselhamento, certifique-se de que a pessoa é cristã. O método de aconselhamento cristão é ineficiente para pessoas não regeneradas, se um não-cristão busca aconselhamento para superar o hábito da masturbação, evangelize-o primeiro. 
2. Estabeleça sua liderança no aconselhamento: Você deve estar comprometido a aconselhar com base na Escritura e, portanto, seu aconselhado deve comprometer-se fielmente a seguir suas orientações. Você pode dizer algo como: “Você deve se comprometer a fazer aquilo que eu te orientar, se eu lhe disser para fazer uma tarefa para casa, você deve fazê-la. Siga fielmente as minhas orientações na medida em que elas forem bíblicas.” 
3. Estabeleça a regularidade das devocionais: O aconselhado deve se comprometer a ler a Bíblia e a orar todos os dias. Se negligenciar as devocionais diárias não deve esperar que seu problema seja de fato resolvido. Oriente assim: “Ore sobre seu problema com a masturbação sem vitimismo ou sentimentalismo. Confesse o seu pecado e peça ajuda. Mas não basta só orar, coloque em prática, junto à oração as instruções que te darei. Leia também a Bíblia todos os dias, considere o trecho que está lendo e como ele se aplica ao seu problema com a masturbação. Não basta simplesmente ler a Bíblia sem considerar as aplicações práticas do que acabou de ler. Separe todos os dias um momento para ler a Bíblia e orar.” Você pode estabelecer um cronograma para o aconselhado. 
4. Infunda esperança no aconselhado: Você deve se mostrar competente para aconselhar e não deve perder a esperança de que o aconselhado pode mudar. Seu aconselhado, por ter tentado métodos frustrantes ou não ter lutado com a devida persistência, pode estar desanimado. Você deve fornecer-lhe esperança consciente de que o método bíblico sempre funciona quando seguido. 
5. Determine o real problema: Por vezes a masturbação é só um problema de apresentação associado a algum outro padrão subjacente. Pode ser que a pessoa se masturbe sempre que se sente irada, ou deprimida, ou que a masturbação seja o modo como a pessoa reage diante de determinada situações. Para determinar o problema real, peça ao paciente que faça a seguinte tarefa para casa: 
  
DPP (Descobrindo Padrões Problemáticos) 
“Anote as situações e ações (boas ou más) que ocorreram e que tenham resultado na masturbação. Circule as que ocorreram três vezes ou mais:” 
  
  
Domingo 
Segunda 
Terça 
Quarta 
Quinta 
Sexta 
Sábado 
Manhã 
  
  
  
  
  
  
  
Tarde 
  
  
  
  
  
  
  
Noite 
  
  
  
  
  
  
  
  
DESABITUAÇÃO E REABITUAÇÃO 
  
       Este processo costuma durar cerca de 8 semanas. O aconselhado deve desabituar-se do padrão pecaminoso e habituar-se a um novo padrão de comportamento. O novo padrão deve substituir o pecaminoso e se tornar tão natural quanto o antigo. Leva-se cerca de três semanas para desabituar um padrão pecaminoso de comportamento e mais três para habituar-se a um novo padrão. 
  
Desabituação : Tomado consciência, pelo DPP, dos padrões pecaminosos, deve-se avaliar o método bíblico de solucionar esse padrão e buscar cessar esse hábito. Diga claramente ao aconselhado – “Não se masturbe, ainda que sinta vontade de fazê-lo”. Deve ficar claro ao aconselhado que ele não é obrigado a agir em conformidade com seus sentimentos e desejos e que ele tem a obrigação de fazer o que é certo independente de como se sinta. 
A Desabituação envolve (1) prevenção e (2) resistência: 
(1) Prevenção: A pessoa deve tomar prevenções, consciente dos seus padrões, de como agir para quando a tentação surgir não ter uma recaída. A pessoa não pode negligenciar devocionais, deve estar em comunhão com a igreja, evitar pensamentos imorais, deve evitar padrões de comportamento que geralmente a conduzem à queda, se afastar de lugares, situações, contextos e ambientes tentadores, etc. Ou seja, deve-se prevenir antes que a tentação aconteça. 
(2) Resistência: Se a tentação surgir e por não ter se prevenido devidamente, a pessoa ter uma reação errada, a oriente a restringir sua ação pecaminosa o quanto antes. Diga claramente: “Assim que tomar consciência de que está agindo errado, pare imediatamente. Se você já começou a pensar em coisas erradas, se estimular, já clicou em um vídeo pornográfico ou parte dele, não importa, pare imediatamente a ação pecaminosa e vá orar.” Não deixe que o aconselhado use o fato de já ter cedido no início como uma desculpa para levar a ação pecaminosa até o final. 
  
Reabituação: Não basta abandonar antigos padrões pecaminosos, é necessário substituí-lo pelo padrão bíblico de modo que a reação correta se torne um hábito. É necessário disciplina e esforço diário para estabelecer o novo padrão. Pode-se orientar o aconselhado assim: “Toda vez que sentir vontade de se masturbar, substitua isso por uma oração ou leitura bíblica. Comprometa-se consigo mesmo: ‘Sempre que a vontade vier, vou me colocar a orar e a ler a Bíblia’” A masturbação pode ser substituída por trabalho produtivo. Oriente ao aconselhado que não viva na ociosidade, que comece a trabalhar, se ocupar em atividades eclesiásticas, etc. 
       Caso haja outros problemas relacionados, como ira, depressão e autocompaixão, deve-se fazer o mesmo processo de habituação e reabituação. Por exemplo, se o problema é a ira, pode-se orientar: “Você deve agir biblicamente independente do que está sentindo. Previna-se contra a ira, dormindo bem e mantendo devocionais diárias. Mas se ceder, interrompa a ação o quanto antes. Por exemplo, se começar a ficar com raiva de alguém por dentro, pare assim que perceber, antes que você expresse isso externamente contra alguém. Substitua a reação de ira por uma reação correta. Sempre que sentir vontade de atacar alguém, olhe para seus próprios erros contra essa pessoa e peça perdão a ela pelos seus próprios erros.” 
  
QUADRO DE RESPOSTAS ÀS DESCULPAS DO ACONSELHADO 
  
Se o aconselhado der algumas dessas desculpas para não mudar seus comportamentos, segue-se o que deve ser respondido: 
  
Observações do Aconselhado 
Resposta 
“Não posso ou não consigo vencer a masturbação” 
“Você quer dizer não posso, ou não quero?” 
“Deus diz que você pode. Em 1 Coríntios 10.13 diz claramente que Deus não permite que você seja tentado além do que pode resistir.” 
“Já fiz tudo o que podia para vencer a masturbação, tentei de tudo, mas nada deu certo” 
“Tudo? E que diz sobre...(apresente orientações claras e concretas do que fazer)” 
“Tentou realmente? Quantas vezes? Por quanto tempo? De que maneira? Com que persistência?  Precisamente o que você fez?” – Obtenha informações precisas para saber o que o aconselhado já fez e identifique onde ele errou e o que precisa ser feito. 
Ninguém acredita em mim ou que eu possa vencer a masturbação” 
“Pois eu acredito” (Deixe claro sua confiança no método bíblico e que ele realmente funciona para vencer a masturbação. Encoraje o aconselhado, infundindo-lhe esperança.) 
“Mas eu já orei a esse respeito.” 
“Ótimo! E em seguida, o que você fez?” 
“Você orou pedindo ajuda para descobrir o que diz a Bíblia para você fazer quanto a esse problema?” 
“Sobre o que, exatamente, você orou?” 
(Obtenha informações claras sobre a oração. Se a oração tem sido vitimista e sentimentalista, isso deve ser corrigido. Além de orar, enfatize que o aconselhado deve agir.) 
  
“Eu tenho a necessidade de me masturbar” 
“Mas é uma necessidade ou apenas um desejo ou hábito?” 
(Deixe claro que a masturbação não é uma necessidade fisiológica ou psicológica, mas um hábito pecaminoso). 
“É impossível vencer a masturbação” 
“Vencer a masturbação, não é impossível, é verdade que é muito difícil, mas não impossível.” 
(Você também pode indicar testemunhos de pessoas que já superaram esse hábito, exemplo: https://www.youtube.com/watch?v=yymB9gZdj7s) 
“Há muitas objeções contra a ideia da masturbação ser pecado.” 
“Você se importa em enumerar seis ou sete, para que eu possa ver que coisa você tem em mente, e determinar como serão as respostas a elas?” (Refute biblicamente os argumentos apresentados) 
“Isso nunca funcionará.” 
“Esse é o método de Deus, e ele sempre funciona quando praticado.” 

 AÇÕES CONCRETAS A SEREM REALIZADAS 
  
1. Explique a base bíblica do sexo: o sexo existe para satisfazer o outro, não a si mesmo. 
       A Bíblia diz que o sexo foi criado para ser compartilhado. O sexo é hetero-orientado (orientado para o outro), não ego-orientado - orientado para satisfazer a si mesmo (1Coríntios 7.1-5). Deixe claro ao aconselhado que a masturbação é uma prática egoísta e trabalhe com ele noções bíblicas sobre o sexo. Aqui, exige-se competência exegética e teológica para que nenhum texto bíblico ou doutrina seja má aplicada. 
  
2. Converse com o aconselhado sobre o problema e apresente a solução bíblica.  
      Peça ao aconselhado que fale sobre seu problema e obtenha informações sobre quão severo, por quanto tempo se prolonga e com que frequência ele se masturba. Só falar sobre problemas não os resolve, na verdade isso só piora. Então, forneça ao aconselhado respostas bíblicas e claras de como solucionar seu problema. 
  
3. Identifique como, quando e em que contexto a masturbação ocorre com mais frequência para criar impedimentos à prática.  
       Por exemplo, pode ser que a pessoa se masturbe ao acordar de manhã ainda deitado na cama. Nesse caso, pode-se orientar à pessoa, por exemplo, que coloque o despertador longe da cama de modo que já tenha que se levantar quando ele tocar. Pode ser passada a seguinte tarefa para casa: 
  
  
À MASTURBAÇÃO 
À NÃO SE MASTURBAR 
  
Adicionar 
Remover 
IMPEDIMENTOS 
  
  
  
Remover 
Adicionar 
FACILITADORES 
  
  
  
       A fim de estabelecer ações práticas e concretas, outras tarefas que podem ser usadas é que se preencha e execute os seguintes esquemas: 
  
PROBLEMA 
MODO ERRADO DE LIDAR ou COMO TENHO LIDADO 
MODO BÍBLICO DE LIDAR ou O QUE VOU FAZER 
  
  
  
  
  
Atividades a serem descontinuadas 
Atividades a serem continuadas ou aumentadas 
Ordem de prioridades quanto à segunda coluna 
  
  
  
  
  
O que aconteceu 
O que eu fiz 
O que eu deveria ter feito     
O que vou fazer 
  
  
  
  
  
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
  
       O espaço é pequeno para estabelecer orientações mais claras, detalhadas e específicas, isso deixaria o artigo muito extenso. Espero que este pequeno “manual” sirva de ajuda aos conselheiros quando tiverem de ajudar pessoas que enfrentam o pecado da masturbação. Também espero que s métodos apresentados aqui sejam úteis e sejam aplicados por aqueles que enfrentam esse pecado. O método bíblico de solução de problemas é infalível e sempre funciona quando colocado em prática. Sejamos gratos a Deus que nos forneceu, na Escritura, recursos suficientes para lidar com qualquer problema. 
  
Fontes: Foi usado de maneira diluída em todo o texto o Conselheiro Capaz e o Manual do Conselheiro Cristão do Jay Adams. Neste último, ver especialmente páginas 365 a 368.