INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA CONTEMPORÂNEA
O objetivo deste texto consiste em apresentar uma Introdução à Epistemologia Analítica a partir de teses fundamentais apresentadas por Gregory Gaboardi (aqui) como amplamente aceitas hoje. Embora esses pontos reflitam posições amplamente aceitas ou aquilo que se encontra com frequência nos manuais contemporâneos da área, o fato de serem centrais não implica que constituam consensos absolutos. Ao contrário, cada uma dessas teses é objeto de debate filosófico sofisticado e contínuo. As teses examinadas são as seguintes:
(i) Há pelo menos
três tipos de conhecimento quanto ao tipo de conteúdo: o conhecimento
proposicional (know-that), o
conhecimento por competência (know-how)
e o conhecimento de objetos (knowledge
by acquaintance).
(ii)
O conhecimento proposicional pode ser distinguido quanto ao modo de obtenção em
a priori e a posteriori.
(iii) Há
diferentes tipos de conhecimento proposicional inferencial, notadamente o
dedutivo, o indutivo e o abdutivo.
(iv)
O conhecimento de objetos pode ocorrer por contato direto ou por descrição.
(v) Há ao menos cinco
fontes clássicas de conhecimento ou justificação reconhecidas pela
epistemologia contemporânea: percepção, introspecção, memória, razão e
testemunho
(vi)
O conhecimento proposicional é, ao menos em parte, um estado mental,
consistindo numa relação diádica entre um sujeito e uma proposição, expressa
pela forma “S sabe que P”.
(vii)
O conhecimento é factivo, isto é, uma proposição só pode ser conhecida se for
verdadeira, e tipicamente falível.
(viii)
O conhecimento não pode ser adequadamente definido como crença verdadeira justificada.
(ix)
A justificação epistêmica, ao menos em alguns casos, depende da posse de
evidências que apoiem a crença em questão.
(x)
O conhecimento (ou a justificação) é geralmente considerado fechado sob dedução
competente.
(xi)
É fundamental distinguir entre justificação proposicional e justificação
doxástica.
(xii)
A justificação e o conhecimento são anuláveis (defeasible).
(xiii)
O conhecimento inferencial não pode depender essencialmente de crenças falsas.
(xiv) O
status epistêmico de uma crença não depende dos interesses práticos do agente.
(xv) Há
três concepções principais acerca da estrutura da justificação e do
conhecimento, destacando-se o fundacionalismo, o coerentismo e o infinitismo.
Segue-se
uma explicação de cada uma dessas teses:
I. TIPOS DE CONHECIMENTO QUANTO AO
CONTEÚDO
A
epistemologia analítica contemporânea reconhece uma distinção fundamental entre
diferentes tipos de conhecimento segundo o tipo de conteúdo envolvido.
Embora essas distinções não sejam isentas de controvérsia, elas estruturam
grande parte do debate epistemológico atual e permitem delimitar com maior
precisão o objeto de investigação da disciplina. Em linhas gerais, podem ser
identificados ao menos três tipos de conhecimento: (i) o conhecimento proposicional (know-that), (ii) o conhecimento por competência (know-how)
e (iii) o conhecimento de objetos ou por
familiaridade (knowledge by acquaintance).
O conhecimento
proposicional ocupa um lugar privilegiado na epistemologia. Ele
consiste em uma relação entre um sujeito cognoscente e uma proposição,
entendida como o conteúdo abstrato que pode ser verdadeiro ou falso. Essa
relação é usualmente expressa pela forma canônica “S sabe que P”. A
centralidade do conhecimento proposicional decorre do fato de que ele é
diretamente avaliável segundo categorias normativas fundamentais da
epistemologia, tais como verdade, justificação, racionalidade inferencial,
fechamento dedutivo e derrotabilidade. Exemplos
paradigmáticos de conhecimento proposicional incluem tanto crenças empíricas
ordinárias, como saber que não está chovendo em determinado lugar, quanto
crenças matemáticas ou lógicas, como saber que 2 + 2 = 4.
Distinto do
conhecimento proposicional é o conhecimento por competência,
ou know-how, que diz respeito à posse de habilidades práticas, tais
como saber andar de bicicleta ou tocar um instrumento musical. Há duas posições
sobre o conhecimento por competência: (i)
intelectualismo: afirma que saber como fazer algo consiste, em
última instância, em saber um conjunto de proposições relevantes acerca de como
realizar determinada ação; (ii) anti-intelectualismo:
sustenta que habilidades práticas não podem ser reduzidas a estados
proposicionais, uma vez que envolvem disposições, capacidades e formas de
desempenho que não se esgotam no conhecimento de fatos.
Por fim, a
epistemologia distingue o conhecimento de objetos,
frequentemente denominado knowledge by acquaintance. Esse tipo de
conhecimento consiste em uma relação epistêmica direta entre o sujeito e um
objeto, pessoa ou lugar, e não em uma relação mediada por proposições
descritivas. Um exemplo típico é o de conhecer uma cidade, como Paris, em
oposição a meramente conhecer fatos verdadeiros sobre ela. A fundamentação
clássica dessa distinção remonta a Bertrand Russell, que defendeu que certos
tipos de conhecimento, como o conhecimento de dados sensoriais, de particulares
ou de universais simples, dependem de uma forma de familiaridade imediata e não
inferencial.
II. MODOS DE JUSTIFICAÇÃO
Na
epistemologia analítica contemporânea, o conhecimento proposicional é
tradicionalmente distinguido segundo o modo de justificação em conhecimento a priori e conhecimento a posteriori. O conhecimento a priori é aquele cuja justificação não depende
causalmente da experiência sensorial. Isso não significa que a experiência não
desempenhe qualquer papel psicológico na formação da crença, mas sim que a
experiência não é o fator que confere justificação epistêmica ao conteúdo
acreditado. A justificação a priori é frequentemente entendida como fundada na
razão, na reflexão conceitual ou na compreensão das relações necessárias entre
proposições. Exemplos paradigmáticos incluem verdades matemáticas e lógicas,
como as da aritmética e da lógica formal, bem como formas de conhecimento
conceitual.
Um argumento
recorrente em favor da existência do conhecimento a priori, consiste na
observação de que não temos acesso sensorial direto a proposições, fatos ou
relações lógicas. Não “vemos” que uma inferência é válida nem percebemos
empiricamente a necessidade lógica que conecta certas proposições. Esse fato
sugere que a razão desempenha um papel indispensável na justificação desse tipo
de conhecimento. Entre os defensores contemporâneos do a priori, destaca-se Laurence BonJour, cuja obra argumenta
que a rejeição do conhecimento a priori conduz a um ceticismo profundo quanto à
própria racionalidade das inferências lógicas e matemáticas. Para BonJour, a
compreensão racional de relações necessárias fornece um tipo genuíno de
justificação epistêmica independente da experiência empírica.
Em contraste,
o conhecimento a posteriori é aquele
cuja justificação depende essencialmente da experiência. Trata-se do domínio do
conhecimento empírico, no qual a percepção sensorial, a experimentação e a
observação desempenham um papel constitutivo. Exemplos paradigmáticos incluem o
conhecimento perceptual ordinário, como saber que há uma mesa à frente ou que
está chovendo, bem como o conhecimento científico empírico, que se apoia em
dados observacionais, medições e experimentos.
III. TIPOS DE INFERÊNCIA
A
epistemologia analítica contemporânea reconhece que uma parte significativa do
conhecimento proposicional é inferencial,
isto é, obtida a partir de outras crenças por meio de diferentes tipos de
raciocínio. Há três tipos fundamentais de inferência proposicional: (i) inferência dedutiva; (ii)
inferência indutiva e; (iii)
inferência abdutiva.
A
inferência dedutiva é caracterizada
por sua propriedade distintiva de preservação da verdade. Em uma dedução
válida, se as premissas são verdadeiras, a conclusão não pode ser falsa. Do
ponto de vista epistemológico, isso significa que, se um sujeito conhece as
premissas de uma inferência dedutiva e realiza a dedução de maneira competente,
isto é, seguindo corretamente as regras lógicas relevantes, então ele está em
posição de conhecer a conclusão.
A
inferência indutiva, por sua vez,
distingue-se da dedução por não preservar a verdade de modo necessário.
Inferências indutivas envolvem a generalização a partir de um número finito de
casos observados para uma conclusão mais geral, ou a projeção de regularidades
passadas para o futuro. Apesar de sua falta de garantia lógica, a indução é na
epistemologia contemporânea como epistemicamente indispensável, especialmente
no contexto da ciência empírica e do conhecimento cotidiano. A maior parte das
leis científicas, previsões e explicações empíricas depende de raciocínios
indutivos. A indução continua, pois,
racional mesmo sem oferecer certeza lógica.
Por
fim, a inferência abdutiva, também
chamada de inferência pela melhor
explicação, consiste em inferir uma hipótese a partir do fato de que ela
fornece a explicação mais adequada de um conjunto de dados observados.
Diferentemente da dedução e da indução, a abdução enfatiza critérios
explicativos, como simplicidade, poder explicativo e coerência com teorias já
aceitas. A abdução tem um papel fundamental tanto na ciência quanto no
raciocínio cotidiano, sendo uma forma legítima de inferência racional, ainda
que falível e não garantidora da verdade. O sucesso explicativo de uma hipótese
não assegura sua verdade, mas pode fornecer uma base epistêmica significativa
para aceitá-la provisoriamente.
IV. TIPOS DE CONHECIMENTOS DE OBJETOS
Na
epistemologia analítica contemporânea uma distinção relevante diz respeito aos tipos de conhecimento de objetos, bem
como às fontes fundamentais de conhecimento ou justificação. Há dois tipos de
conhecimento de objetos: (i) conhecimento
por contato direto: consiste em uma relação epistêmica imediata entre o
sujeito e um objeto, pessoa, propriedade ou evento; (ii) conhecimento por descrição: é mediado por proposições, o
sujeito conhece um objeto na medida em que conhece certas proposições verdadeiras
que o caracterizam.
Essa
distinção desempenha um papel central na filosofia de Bertrand Russell. Russell defende que apenas o conhecimento por
contato pode fornecer o fundamento último do significado e da referência.
Segundo essa perspectiva, para que um sujeito possa referir-se a um objeto ou
compreender o significado de certos termos, ele deve estar, em algum nível, em
uma relação direta de familiaridade com aquilo a que se refere. O conhecimento
proposicional e descritivo, por sua vez, dependeria dessa base mais imediata, uma
vez que proposições e descrições só podem ter conteúdo determinado se ancoradas
em algum tipo de contato epistêmico direto com o mundo.
Uma
objeção recorrente a essa concepção questiona se existe, de fato, um acesso não
proposicional genuíno. Críticos argumentam que toda forma de conhecimento pode
ser reconstruída como conhecimento proposicional, de modo que conhecer um
objeto seria simplesmente conhecer um conjunto suficientemente rico de
proposições verdadeiras sobre ele. Essa objeção por vezes aparece como uma
forma de “mito do dado” (proposto
por Wilfrid Sellars), o mito de que
haveria um dado perceptual puro pré-teórico e epistemicamente independente. Embora essa objeção tenha certa força, mesmo
que se admita que grande parte do nosso conhecimento ordinário seja
proposicional, a noção de familiaridade continua a desempenhar uma função
explicativa importante sobretudo para explicar fenômenos relacionados à
referência, à experiência consciente e ao papel epistêmico da percepção
imediata.
V. FONTES DO CONHECIMENTO
A
filosofia contemporânea reconhece tradicionalmente cinco fontes do conhecimento de objetos: (i) percepção: fornece crenças sobre o mundo externo por meio dos
sentidos; (ii) introspecção: permite
o acesso privilegiado aos próprios estados mentais; (iii) memória: preserva e transmite conhecimento adquirido
anteriormente; (iv) intuição: permite conhecer objetos
abstratos, como verdades matemáticas e lógicas; (v) testemunho: possibilita a aquisição de conhecimento a partir
da palavra de outros agentes epistêmicos.
É
amplamente aceito na filosofia analítica contemporânea que cada uma dessas
fontes possui uma confiabilidade prima facie. Em condições normais, estamos epistemicamente autorizados a
confiar na percepção, na memória ou no testemunho, a menos que haja razões
específicas para duvidar de sua adequação em um caso particular. O testemunho,
em especial, é frequentemente destacado como socialmente indispensável, uma vez
que grande parte do nosso conhecimento, histórico, científico e cotidiano, depende
inevitavelmente da informação fornecida por outros.
VI. CONHECIMENTO PROPOSICIONAL COMO
ESTADO MENTAL DIÁTICO
Na
epistemologia analítica contemporânea, o conhecimento proposicional é
amplamente concebido como um estado
mental relacional, especificamente uma relação diádica entre um sujeito
cognoscente e uma proposição. Essa concepção é normalmente expressa pela forma
linguística padrão “S sabe que P”,
na qual “S” designa o sujeito epistêmico e “P” uma proposição dotada de valor
de verdade. Tal caracterização fornece o arcabouço conceitual dominante para a
análise do conhecimento, das crenças e de outras atitudes proposicionais.
Um
dos principais argumentos em favor dessa concepção relacional reside em sua
capacidade de explicar fenômenos epistêmicos como: (i) atribuições de conhecimento: dizer que alguém sabe algo
equivale a dizer que esse indivíduo se encontra em um certo estado mental
dirigido a uma proposição específica; (ii)
erro epistêmico: pode ser compreendido como a adoção de uma atitude positiva
em relação a uma proposição falsa; (iii)
dúvida: consiste em uma suspensão ou enfraquecimento da atitude
proposicional; (iv) inferência:
consiste em uma transição racional entre proposições tomadas como verdadeiras.
Essa
concepção também se mostra fundamental para a avaliação epistêmica. Somente proposições, e não objetos, eventos ou
estados psicológicos brutos, são portadoras de verdade ou falsidade. Assim, a
ideia de que o conhecimento envolve essencialmente proposições explica por que
critérios como verdade, justificação, racionalidade e fechamento dedutivo se
aplicam de modo direto ao conhecimento proposicional.
VII. CARACTERÍSTICAS DO CONHECIMENTO
PROPOSICIONAL
Na
epistemologia analítica contemporânea, há duas
características fundamentais do conhecimento proposicional: (i) fatividade; (ii) falibilidade. A factividade
do conhecimento expressa a ideia de que o conhecimento implica verdade. De
acordo com essa tese, se um sujeito S sabe que P, então P deve ser verdadeira.
Essa característica é geralmente considerada conceitual e semântica, e não uma
tese empírica contingente. Um dos principais argumentos em favor da factividade
deriva da própria semântica do verbo “saber”, que pertence à classe dos verbos
factivos: ao atribuir conhecimento a um sujeito, pressupõe-se a verdade do
conteúdo atribuído. Assim, afirmar que alguém “sabe” algo falso é, estritamente
falando, um erro categorial; no máximo, pode-se dizer que o sujeito acreditava
saber.
Ao
mesmo tempo, a epistemologia contemporânea sustenta amplamente o falibilismo, segundo o qual os métodos,
fontes ou processos que normalmente conduzem ao conhecimento podem, em
determinadas circunstâncias, falhar. A falibilidade não nega que o conhecimento
exija verdade, mas rejeita a ideia de que o conhecimento demande certeza
absoluta ou infalibilidade dos métodos cognitivos. Essa posição permite
reconhecer que um sujeito pode estar epistemicamente bem situado, por exemplo,
ao confiar em uma percepção normal ou em um testemunho confiável, e ainda assim
errar, caso circunstâncias atípicas intervenham. A busca medieval e moderna por conhecimentos
e demonstrações infalíveis é hoje amplamente interpretada, na filosofia
contemporânea, como um compromisso excessivamente forte com padrões de
justificação inalcançáveis, tendo sido praticamente abandonada nas abordagens
epistemológicas atuais.
VIII. CASOS GETTIER
Na
epistemologia analítica contemporânea, a definição clássica de conhecimento
como crença verdadeira justificada (JTB – Justified True Belief) sofreu uma crítica decisiva a partir dos
chamados casos de Gettier.
Tradicionalmente, considerava-se que uma crença constituía conhecimento se
fosse verdadeira, se o sujeito acreditasse nela e se possuísse justificação
adequada. Embora intuitivamente satisfatória, essa definição mostrou-se
insuficiente, uma vez que a verdade de uma crença justificada pode ocorrer por
mera sorte, sem que o sujeito possua uma conexão epistemicamente adequada com a
realidade.
O
conceito central dos casos Gettier é
que uma crença pode ser justificada e verdadeira, mas sua verdade pode depender
acidentalmente de fatores externos, de tal modo que o sujeito não tem uma
conexão adequada com a verdade. Ou seja, a crença é verdadeira “por sorte”, e
não por mérito epistemológico. Considere-se os seguintes casos de Gettier:
(1) Caso das moedas no bolso:
suponha que João acredita que “a pessoa com moedas no bolso ganhará a vaga de
emprego” porque observa que seu amigo Pedro possui moedas no bolso e está
concorrendo. João tem justificação para sua crença baseada nessa evidência. No
entanto, por coincidência, Pedro não ganha a vaga; quem ganha é o próprio João,
que inadvertidamente também tem moedas no bolso. Assim, sua crença é verdadeira
e justificada, mas não constitui conhecimento, pois a verdade da proposição
depende de circunstâncias acidentais e não da justificativa que ele possuía.
(2) Caso do carro confiável:
suponha que Maria acredita que o carro de seu amigo funciona porque sempre o
viu funcionando. Hoje, o carro realmente funciona, mas não devido à
confiabilidade histórica, e sim porque alguém acabou de consertá-lo
secretamente. Novamente, a crença é verdadeira e justificada, mas não
qualifica-se como conhecimento, pois a conexão entre justificativa e verdade é
meramente fortuita.
Entre
as respostas contemporâneas à falha da JTB, destacam-se três linhas principais:
(i) Teoria causal (Alvin Goldman):
sustenta que o conhecimento exige uma conexão causal adequada entre a crença e
o fato verdadeiro; (ii) Teoria
confiabilista: afirma que o conhecimento depende de a crença ser produzida
por um processo cognitivo confiável, ou seja, um processo que tende a gerar
crenças verdadeiras; (iii) Teoria
anti-sorte: enfatiza que a crença deve estar conectada à verdade de forma
robusta, de modo que a proposição não seja verdadeira apenas por coincidência; (iv) Teoria do não-lema falso: afirma
que o conhecimento não pode depender de premissas falsas.
(IX) CONEXÃO ENTRE JUSTIFCAÇÃO
EPISTÊMICA E EVIDÊNCIA
Na
epistemologia analítica contemporânea, a justificação epistêmica é intimamente
ligada à evidência, entendida como aquilo que apoia ou sustenta proposições,
tornando a crença racionalmente aceitável. Em termos conceituais, uma crença
está justificada quando há suporte
evidencial suficiente para ela, de modo que o sujeito possui razões
adequadas para considerá-la verdadeira. Esse enfoque conecta a justificação à
estrutura racional das crenças e à sua avaliação normativa, distinguindo
crenças epistemicamente legítimas de simples convicções acidentais ou infundadas.
Há
duas perspectivas principais sobre a relação entre evidência e justificação: (i) internalismo epistêmico: sustenta
que a justificação requer acesso consciente ou introspectivo à evidência, nesse
enfoque, o sujeito deve ser capaz de reconhecer ou articular as razões que
sustentam suas crenças, de modo que a justificação dependa de uma relação
epistemicamente transparente com a evidência disponível; (ii) externalismo epistêmico: afirma que se uma crença é formada
por um processo confiável, por exemplo,
percepção normal, memória confiável ou raciocínio lógico adequado, ela pode ser
justificada independentemente de o sujeito acessar ou compreender completamente
a base evidencial.
(X) PRINCÍPIO DO FECHAMENTO
EPISTÊMICO
Na
epistemologia analítica contemporânea, o princípio
de fechamento epistêmico sob dedução competente sustenta que se um sujeito
conhece uma proposição 𝑃 e
deduz competentemente outra proposição 𝑄
a partir de 𝑃,
então ele também deve ser capaz de conhecer 𝑄,
desde que não haja fatores que derrotem a justificação. Em outras palavras, o
conhecimento é “fechado” sob deduções competentes: a capacidade de raciocinar
logicamente a partir de crenças conhecidas permite a expansão do conhecimento
sem perda da justificação epistêmica.
O
argumento a favor do princípio de fechamento é que ele é essencial para a
racionalidade dedutiva. Se o conhecimento não fosse fechado sob dedução
competente, um sujeito poderia conhecer uma proposição e, ao tirar
consequências logicamente válidas dessa proposição, deixar de conhecer essas
consequências, mesmo que não houvesse erro ou confusão. Isso violaria a
intuição fundamental de que a inferência lógica competente transmite
conhecimento, tornando as práticas cognitivas ordinárias incoerentes.
No
entanto, o fechamento epistêmico está no centro de paradoxos céticos. Um
exemplo clássico é o ceticismo sobre o
mundo externo: se o sujeito sabe que tem mãos (P), e deduz que não está
sendo enganado por um cérebro em uma cuba (Q), o fechamento implicaria que ele
também saberia que não é um cérebro em uma cuba (argumento conhecido como shift
mooreano). A dificuldade surge porque intuitivamente parece que não
conhecemos que não estamos em cenários radicalmente céticos, apesar de
conhecermos muitas proposições sobre o mundo imediato.
Em
resposta a essas objeções, epistemólogos contemporâneos propõem restrições ao
fechamento: o princípio se aplica apenas a deduções
competentes e não derrotadas. Ou seja, a dedução deve ser logicamente
válida, realizada de maneira racional e sem evidências ou defeitos que possam
anular a justificativa original. Essa restrição preserva a utilidade do
fechamento para explicar a transmissão de justificação e conhecimento, sem
torná-lo vulnerável às formas extremas de ceticismo que exploram cenários improváveis
ou derrotadores.
(XI) TIPOS DE JUSTIFICAÇÃO EPISTÊMICA
A
epistemologia analítica contemporânea distingue entre dois tipos fundamentais
de justificação epistêmica: (i)
justificação proposicional e; (ii)
justificação doxástica. A justificação proposicional refere-se à
posse de razões ou evidências que apoiam uma proposição. Um sujeito está
proposicionalmente justificado em relação a uma proposição 𝑃 se há evidência
adequada disponível que sustentaria racionalmente a crença em 𝑃, independentemente
de o sujeito efetivamente acreditar nela. Essa forma de justificação é centrada
no conteúdo proposicional e no suporte que ele recebe, permitindo avaliar a
qualidade epistemológica das proposições consideradas isoladamente.
A
justificação doxástica, por outro
lado, diz respeito à crença efetivamente formada pelo sujeito com base nessas
razões. Um sujeito está doxasticamente justificado quando sua crença em 𝑃 se apoia nas
razões que justificam proposicionalmente 𝑃.
Essa forma de justificação conecta a avaliação normativa da evidência à prática
cognitiva real, explicando quando um agente racionalmente acredita em uma
proposição com base em sua justificativa disponível.
A
distinção entre proposicional e doxástica permite explicar situações de crenças
mal formadas ou incorretamente aplicadas. Por exemplo, um sujeito pode possuir
evidência suficiente para justificar uma proposição (justificação
proposicional), mas, por falha de raciocínio ou distração, não formar a crença
correspondente, ou formar uma crença baseada em razões irrelevantes, carecendo
assim de justificação doxástica. Esse refinamento conceitual ajuda a
diferenciar o status normativo da razão do estado mental efetivo do sujeito,
abordando problemas que surgem quando crenças são formadas ou mantidas de
maneira inadequada.
(XII) ANULABILIDADE EPISTÊMICA
Na
epistemologia analítica contemporânea, o conceito de anulabilidade epistêmica (defeasibility)
descreve a característica do conhecimento e da justificação de serem sensíveis
a novas evidências. Segundo essa perspectiva, uma crença ou justificativa
considerada epistemicamente válida em um determinado momento pode perder seu
status se informações adicionais relevantes forem descobertas, refletindo a
natureza dinâmica e revisável do conhecimento humano.
Há
dois tipos principais de derrotadores (defeaters), que ilustram como a
justificativa pode ser anulada: (i)
derrotador por refutação (rebutting
defeater): ataca diretamente a proposição em questão, por exemplo, se
alguém acredita que “está chovendo” com base na observação de nuvens escuras,
mas recebe um relatório meteorológico confiável informando que o céu está
limpo, a crença é diretamente contestada e perde seu status de justificada; (ii) derrotador por minação (undercutting defeater): não nega a
proposição diretamente, mas questiona a relação entre a evidência e a crença, usando
o mesmo exemplo, se o sujeito descobre que o para-brisas do carro estava sujo,
distorcendo sua percepção do céu, a evidência anterior deixa de fornecer
suporte confiável à crença, mesmo que a proposição em si seja verdadeira.
O
princípio subjacente é que o conhecimento é derrotável (defeasible): a validade de uma crença depende de sua resistência a
derrotadores relevantes. Esse entendimento é essencial para compreender por que
crenças previamente justificadas podem deixar de ser consideradas conhecimento
à medida que novas informações aparecem, sem que isso implique falha
epistemológica do sujeito. O raciocínio anulador
(defeasible reasoning) é um recurso
conceitual fundamental para modelar a falibilidade humana e a necessidade de
revisão contínua das crenças diante de evidências emergentes.
Filósofos
como John Pollock contribuíram para
a formalização dessas ideias, mostrando como sistemas de raciocínio anulador permitem
lidar com incerteza e informação em constante mudança, mantendo a coerência
epistemológica sem recorrer a critérios infalíveis. Assim, a teoria da
anulabilidade epistêmica fornece uma estrutura robusta para explicar como o
conhecimento e a justificação podem ser preservados, modificados ou revogados
de maneira racional e sistemática, contra a ideia de que seria possível
estabelecer um sistema de crenças infalíveis e irrevisável.
(XIII) PRINCÍPIO DO NÃO-LEMA FALSO
Na
epistemologia analítica contemporânea, um princípio central do conhecimento inferencial é que ele não
pode depender essencialmente de crenças
falsas, o que é chamado de Princípio
do Não-lema Falso. Isso significa que, para que uma crença derivada por
inferência seja considerada conhecimento, sua justificação e verdade não devem
depender de premissas ou crenças que sejam falsas. A dependência de uma
falsidade comprometeria a conexão epistemicamente relevante entre a justificativa
do sujeito e a verdade da proposição, violando a exigência de uma relação
robusta entre crença e realidade.
O
argumento central é que crenças falsas quebram a conexão com a verdade. Quando
uma inferência depende de premissas falsas, mesmo que a conclusão seja
verdadeira por coincidência, a justificativa do sujeito não garante
epistemicamente a verdade da conclusão. Esse tipo de situação é intimamente
relacionado aos casos de Gettier, nos quais a crença verdadeira de um sujeito
depende de fatores acidentais ou falsos, impedindo que se configure como
conhecimento, como já considerado.
Essa
restrição é fundamental para preservar a confiabilidade
epistemológica das inferências. Enquanto o conhecimento inferencial exige que
as conexões lógicas e evidenciais sejam adequadas, a presença de crenças falsas
na cadeia inferencial compromete essa adequação, tornando a conclusão
epistemicamente frágil ou inválida como conhecimento. Essa ideia também é
crucial para o desenvolvimento de
teorias anti-sorte, confiabilistas e causais do conhecimento, que buscam
garantir que as inferências estejam ligadas à verdade por meios não acidentais
e robustos.
(XIV) PURISMO EPISTÊMICO
Na
epistemologia analítica contemporânea, o purismo
epistêmico é a tese segundo a qual o status epistêmico de uma atitude proposicional, como ser
conhecimento, ser justificada ou ser racional, não é afetado pelos interesses
práticos do agente. Em termos gerais, o purismo sustenta que fatores como
custos, riscos, apostas práticas ou consequências da ação não alteram se uma
crença é ou não epistemicamente adequada; tais fatores pertencem ao domínio da
prudência ou da racionalidade prática, e não ao da epistemologia propriamente
dita.
O
núcleo conceitual do purismo reside na ideia de que a epistemologia avalia
crenças em função da verdade, da evidência e da racionalidade epistêmica, e não
em função do que está em jogo para o sujeito. Assim, se dois indivíduos possuem
exatamente as mesmas evidências para uma proposição 𝑃, então, do ponto
de vista puramente epistêmico, ambos se encontram no mesmo estado epistêmico em
relação a 𝑃,
independentemente de um deles enfrentar consequências práticas muito mais
graves caso 𝑃
seja falsa. A verdade de 𝑃,
o suporte evidencial disponível e a forma como a crença é formada são os
únicos elementos relevantes para a avaliação epistêmica.
O
principal argumento a favor do purismo é que ele preserva a autonomia das normas epistêmicas. Misturar
interesses práticos com critérios epistêmicos ameaça dissolver a distinção
entre racionalidade epistêmica e racionalidade prática. Uma crença pode
ser epistemicamente justificada, isto é, bem apoiada por evidências, e ainda
assim ser imprudente agir com base nela em contextos de alto risco. Confundir
essas avaliações levaria a uma noção instável de conhecimento, variável
conforme circunstâncias práticas externas, em vez de ancorada em razões
epistêmicas.
(XV) ESTRUTURAS DE JUSTIFICAÇÃO
Na
epistemologia analítica contemporânea, o debate sobre as estruturas da justificação surge como resposta direta ao chamado problema do regresso epistêmico. Sempre
que uma crença é justificada por outra, parece legítimo perguntar por que essa
crença justificadora é, por sua vez, justificada. Essa demanda gera um regresso
potencialmente infinito de razões, e as teorias estruturais da justificação
diferenciam-se precisamente pelo modo como lidam com esse problema. As três
posições centrais em epistemologia hoje são (i) o fundacionalismo, (ii) o
coerentismo e; (iii) o infinitismo.
O
fundacionalismo sustenta que existem
crenças básicas ou fundamentais, cuja justificação não depende de outras
crenças. Essas crenças básicas interrompem o regresso, servindo como fundamento
para crenças não básicas que são inferencialmente justificadas a partir delas.
Tradicionalmente, crenças perceptuais,
introspectivas ou autoevidentes foram candidatas a esse
papel fundamental. O principal argumento fundacionista é que, sem crenças
básicas, a justificação nunca se iniciaria, tornando o conhecimento impossível.
O fundacionalismo clássico afirmava,
que tal fundamento deveria consistir em crenças infalíveis. No entanto, a
posição amplamente aceita na epistemologia hoje é o fundacionalismo falibilista, segundo o qual crenças básicas são
justificadas de maneira não inferencial, mas permanecem passíveis de revisão
diante de derrotadores.
O
coerentismo, por sua vez, rejeita a
existência de crenças básicas. Para o coerentista, uma crença é justificada na
medida em que integra coerentemente um sistema global de crenças, caracterizado
por consistência, apoio mútuo e explicação integrada. A justificação não é
linear, mas holística: crenças sustentam-se reciprocamente dentro de uma rede.
O principal argumento a favor do coerentismo é que ele evita fundamentos
arbitrários e reflete melhor a prática cognitiva real, na qual crenças são
revisadas em conjunto. A objeção clássica é a da circularidade viciosa: como um sistema fechado de crenças poderia
ser justificado sem contato epistêmico adequado com o mundo? Em resposta,
versões contemporâneas do coerentismo introduzem restrições adicionais, como exigências
de input experiencial (o sistema
de crenças deve incluir conteúdos derivados da experiência perceptual) ou confiabilidade global do sistema (sistemas
coerentes devem tender a acertar sobre o mundo).
O
infinitismo, por fim, oferece uma
solução radicalmente distinta ao problema do regresso. Segundo essa posição, a
justificação exige uma cadeia infinita e não circular de razões, e não há
necessidade de um ponto final fundamental. Cada razão é justificada por outra,
indefinidamente. O argumento central do infinitismo é que qualquer tentativa de
interromper o regresso resulta em arbitrariedade, enquanto a aceitação do infinito
preserva a racionalidade plena da exigência de razões. A objeção mais comum é
que cadeias infinitas de razões seriam cognitivamente inatingíveis, tornando o
conhecimento humano impraticável. Em resposta, os defensores do infinitismo argumentam
que não é necessário que o sujeito possua explicitamente toda a cadeia
infinita, mas apenas que esteja sempre em posição de oferecer razões adicionais
quando desafiado.

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