UMA CRÍTICA AO LIVRO O ANTI-WOKE DE JONAS BRESSAN
O presente texto tem como objetivo apresentar uma análise crítica do livro O Anti-Woke, de Jonas Bressan (em parceria com Daniel Miorim), publicado pela Editora Alta Linguagem. Importa esclarecer, desde o início, que a crítica aqui desenvolvida se dirige exclusivamente às teses, argumentos e pressupostos teóricos da obra, não se estendendo aos autores, e é conduzida em tom respeitoso. Irei concentrar a críticas nos elementos filosóficos da obra, para tanto irei analisar: (i) a definição de woke: fazendo uma crítica a como o livro define o wokismo e apresentando uma alternativa melhor de definição; (ii) espantalhos teóricos de posições acadêmicas: nesta seção mostro como os filosóficos e acadêmicos citados no livro são discutidos pelo autor a partir de espantalhos grosseiros; (iii) alertas de teoria da conspiração: pretendo mostrar como a teoria sobre wokismo do livro apresenta traços de teoria da conspiração; (iv) defesa do progressismo clássico: na qual apresento as reais bases filosóficas do progressismo clássico e explico por que o progressismo clássico é anti-woke.
I. A DEFINIÇÃO DE WOKE
A principal
fragilidade teórica do livro O Anti-Woke, de Jonas Bressan, manifesta-se
já em sua definição central de woke. A suspeita que se tem ao ler o
livro é que se trata de uma definição instrumental, marcada por engenharia
conceitual por conveniência política. Para entender isso, em filosofia, uma
definição adequada de um fenômeno sociopolítico deve, no mínimo, cumprir três
requisitos: (i) ser primeiro descritiva antes de normativa; (ii) distinguir
níveis analíticos distintos (psicológico, sociológico, político e
institucional); e (iii) evitar genealogias conspiratórias ou teleológicas
fortes, que atribuem unidade intencional onde há processos emergentes e
contraditórios. A definição de woke apresentada no livro falha sistematicamente
nesses três pontos.
O livro apresenta
uma definição do wokismo que pode ser sistematizada da seguinte forma:
Wokismo
(def.): movimento sociopolítico e econômico
caracterizado por três traços principais:
(1) Subversão
da Verdade: questionamento de conceitos tradicionais de verdade e
objetividade, frequentemente associado a perspectivas relativistas ou
subjetivistas.
(2)
Crítica à Civilização Ocidental: postura crítica em relação a instituições,
tradições e valores considerados centrais à civilização ocidental.
(3)
Politização da vida privada: a
crença de que a política deve se expandir para todos os campos da vida humana,
ocupando o papel que anteriormente pertencia à religião
A
politização da vida privada parece ser um dos elementos mais importantes da
definição. A partir do livro, ela pode ser entendida como a transformação de
práticas cotidianas, linguagem, alimentação, sexualidade, relações
interpessoais, em objetos de julgamento moral e disputa política. Diversos
movimentos contemporâneos de direita cabem nesse critério, como comunidades red
pill que politizam relações afetivas, tradicionalismos radicais que
moralizam hábitos sexuais e familiares, ou movimentos identitários
nacionalistas que transformam cultura, linguagem e costumes em marcadores
morais absolutos. Essa me parece uma característica interessante da definição,
mas os demais critérios parecem propositadamente colocados para seletivamente
excluir fenômenos de direita.
Essa
assimetria revela um caso clássico do que a filosofia chama de engenharia
conceitual normativa: o conceito não é construído para descrever um tipo de
prática social, mas para atacar um adversário específico, preservando práticas
estruturalmente idênticas quando realizadas por grupos ideologicamente próximos
aos autores. Embora o livro permita a possibilidade de um wokismo de direita, a
análise de todo o livro se concentra em fenômenos de esquerda, o que indica uma
definição enviesada do conceito.
Outro traço
central da definição do livro é tratar o wokismo como um bloco monolítico, que
reuniria grandes corporações, militantes de esquerda, mídia, academia e
tradições teóricas como o marxismo e o pós-estruturalismo em um projeto
coordenado de poder. Cuidarei de mostrar a seguir que o livro comete
espantalhos claros ao analisar essas correntes filosóficas, mas aqui cabe mencionar
que uma análise sociopolítica que mistura tanta coisa “em um balaio só” é
profundamente especulativa e simplista. Na realidade, análises desse tipo são
justamente sinais de alerta de teoria da conspiração, algo que irei considerar
adiante.
A definição
de woke no livro exige, além da politização da vida privada, uma suposta
“crítica veemente à civilização ocidental”, frequentemente apresentada como um
projeto consciente de subversão da verdade objetiva e das instituições
fundamentais da sociedade. Esse ponto é particularmente problemático. Contudo,
a ideia de “civilização ocidental” é utilizada como um conceito vago,
retroativo e normativamente carregado, que mistura tradições filosóficas,
jurídicas e religiosas heterogêneas sob uma identidade artificial. É importante
mencionar que mudanças sociais, propostas de reformas morais ou críticas
institucionais não equivalem, por si só, à “destruição” de uma civilização.
Todos esses
problemas revelam a necessidade de uma definição melhor do termo “woke”. Esse
termo surgiu na década de 1930 e 1940 entre afroamericanos para designar uma
“consciência desperta” no que diz respeito ao racismo. O termo foi retomado no
início dos anos 2000 e 2010, impulsionado por casos de violência policial,
mantendo o sentido original de alerta contra injustiças sociais. Após 2010,
contudo, houve uma “virada pejorativa” no uso do termo, o termo começou a ser
apropriado por críticos para descrever comportamentos tribalistas, de censura e
policiamento moral excessivo. Percebendo essa carga negativa, a própria
esquerda parou de utilizar o termo para se autodescrever.
Assim, desde
a virada pejorativa, o termo woke descreve, não uma consciência desperta em
relação a injustiças sociais, mas um fenômeno social complexo de tribalismo,
identitarismo e exclusão social. Por isso, em toda análise sobre o wokismo é
preciso ter clareza entre dois sentidos distintos do termo “woke”, o uso
anterior à virada pejorativa, e é nesse sentido que muitos progressistas se
autoidentificaram como woke, e o uso posterior à virada pejorativa, e é nesse
sentido que os próprios teóricos de esquerda rejeitam o termo woke.
A filósofa política de esquerda Susan Neiman, por exemplo, autora do livro Left is Not Woke (“A Esquerda não é Woke”) argumenta que existe uma contradição fundamental entre ser de esquerda (no sentido clássico/iluminista) e ser woke. Como irei mostrar mais adiante, o progressismo clássico tem como uma de suas bases teóricas fundamentais o Iluminismo. A esquerda tradicional baseia-se em valores do Iluminismo, focando na universalidade e naquilo que os seres humanos têm em comum. O objetivo é a solidariedade universal e a igualdade de direitos para todos, independentemente de suas características particulares.
Em
contraste, o movimento woke (ou identitarismo) foca excessivamente nas
particularidades e nas diferenças de identidade (raça, gênero, etc.). Para
Neiman, isso cria um tribalismo onde o apego à identidade do grupo se sobrepõe
aos laços universais, levando a uma mentalidade de “nós contra eles” que
abandona os princípios universalistas da esquerda clássica. A esquerda clássica
não é woke porque o woke abandona o universalismo em favor do tribalismo, algo
que historicamente está mais ligado a movimentos reacionários do que
progressistas clássicos: “Concordo que precisamos desesperadamente de mudanças
fundamentais no pensamento, mas exortei outra direção. Pois, como argumentei,
os próprios wokes foram colonizados por uma fileira de ideologias que pertencem
propriamente à direita” (Left Is Not Woke, 5)
Em contraste
com a definição instrumental do livro, proponho a seguinte definição que me
parece bem mais rigorosa:
Wokismo é um conjunto de práticas e ideias sociopolíticas
caracterizado por:
(1) Identitarismo
como eixo central de análise e ação social;
(2) Comportamento
tribalista, com mecanismos de punição e reforço moral;
(3) uma consciência
de “despertar”, isto é, a crença em superioridade moral ou epistemológica
que legitima militância agressiva.
Essa definição
é superior porque: é descritiva, não moralizante; aplica-se simetricamente a
diferentes espectros políticos; distingue práticas sociais de fundamentos
científicos ou éticos legítimos; evita teorias conspiratórias; permite crítica
rigorosa sem deslegitimar ciência, universidade ou política pública como tais. Essa
definição oferece uma base muito mais sólida para compreender, criticar e
delimitar o wokismo sem recorrer a espantalhos, moralismos ou generalizações
indevidas e está de acordo com o valor de clareza conceitual requerido pela
filosofia hoje.
II. ESPANTALHOS TEÓRICOS DE POSIÇÕES ACADÊMICAS
Além de
problemas conceituais, o livro O Anti-Woke faz uso sistemático de
espantalhos acadêmicos, como de autores como Marx, Gramsci, Foucault, Marcuse,
Horkheimer, Paulo Freire entre outros. Há um padrão recorrente de distorção
teórica, leitura indireta, e reprodução de narrativas conspiratórias amplamente
desacreditadas no debate acadêmico atual. Segundo critérios amplamente aceitos
na filosofia, uma crítica intelectualmente honesta exige a reconstrução
caridosa (principle of charity) da posição criticada antes de sua
refutação. O Anti-Woke viola sistematicamente esse princípio.
Comecemos
por Karl Marx, um dos autores mais alvos de espantalhos da história do
pensamento. O livro afirma que o marxismo teria como um de seus objetivos a
“destruição da família”, sugerindo que Marx e Engels buscavam eliminar os laços
afetivos em favor do fortalecimento do Estado ou do Partido. No entanto, em
A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Engels critica
especificamente a família burguesa como instituição baseada na propriedade e na
subordinação da mulher, e não propõe abolir a monogamia ou os vínculos
afetivos. Pelo contrário, a superação do capitalismo permitiria que os
relacionamentos fossem pautados pelo afeto e não pelo contrato econômico. Marx
e Engels, inclusive, refutam qualquer ideia de “comunização das mulheres”,
destacando que o objetivo era libertar as mulheres da condição de propriedade
imposta pelo sistema capitalista. Trata-se, pois, de substituir uma monogamia burguesa,
baseada na propriedade, por uma monogamia ética, baseada em laços de
afeto.
Em segundo
lugar, o livro distorce a 11ª Tese sobre Feuerbach, interpretando-a como uma
recusa de Marx em buscar a verdade objetiva, substituindo-a por uma práxis
que moldaria a realidade à força. No entanto, a tese propõe exatamente o
oposto: compreender as condições materiais e econômicas concretas para orientar
transformações sociais fundamentadas na realidade, e não em construções
fictícias. A ideia não é que os filósofos deveriam parar de interpretar a
realidade, mas sim que, ao invés de interpretar a realidade a partir de
sistemas metafísicos abstratos, como no idealismo alemão, deveriam agora
interpretar a realidade a partir de um engajamento com o mundo concreto.
O Anti-Woke
compra, ainda, a teoria da conspiração chamada “marxismo cultural”. Essa
tese, porém, não encontra respaldo em nenhuma fonte primária. A expressão
“marxismo cultural” não existe como categoria teórica no marxismo, no
gramscianismo ou na teoria crítica. Sua origem remonta a círculos conservadores
norte-americanos dos anos 1990 (especificamente por Paul Weyrich e William S.
Lind), como estratégia retórica para associar multiculturalismo, feminismo e
estudos culturais a um complô ideológico. Trata-se de uma teoria da conspiração
intelectual, pois atribui intencionalidade coordenada, continuidade estratégica
e objetivos ocultos a tradições teóricas heterogêneas e frequentemente
conflituosas.
No caso
específico de Gramsci, O Anti-Woke distorce profundamente o conceito de
hegemonia. Para Gramsci, hegemonia significa direção moral e intelectual obtida
pelo consenso, em contraste com a dominação baseada na coerção. Não se trata de
hipnose coletiva, manipulação inconsciente ou engenharia secreta da cultura,
mas de liderança política explícita, disputada publicamente. O próprio Gramsci
atribui a formulação do conceito a Lênin, no contexto da aliança entre
proletariado e campesinato, e insiste que a hegemonia cultural não pode ser
dissociada de um programa de reforma econômica: “[...] A estrutura e as
superestruturas formam um 'bloco histórico', isto é, o conjunto complexo e
contraditório das superestruturas é o reflexo do conjunto das relações sociais
de produção.” (Cadernos do Cárcere. Vol. 1, p. 250-51).
Gramsci não
defende nenhuma forma de subversão silenciosa dos valores da civilização
ocidental, nem diz que uma mudança cultural é primeiro necessária para que a
transformação econômica seja efetiva. Gramsci não desistiu da luta de classes
ou da economia, ele analisava a cultura e a ideologia como terrenos onde a
consciência de classe era formada ou bloqueada, não como um fim em si mesmo
para “destruir o Ocidente”. Gramsci também entendia que a transformação econômica e a mudança cultural aconteceriam
juntas:
“Criar uma
nova cultura não significa apenas fazer individualmente descobertas
'originais'; significa também, e sobretudo, difundir criticamente verdades já
descobertas, 'socializá-las' por assim dizer; e, portanto, transformá-las em
base de ações vitais, em elemento de coordenação e de ordem intelectual e
moral” (Cadernos do cárcere. Vol. 1, p. 95-96)
No entanto, O Anti-Woke afirma o exato oposto do que
Gramsci defendia: “Portanto, o principal objetivo do Partido revolucionário não
deve ser a tomada do poder político, mas a conquista do controle, 'hegemonia' ,
sobre essa rede informal de organizações que produzem a 'cultura', isto é, a
ideologia dominante.” (O Anti-Woke,
p. 33). Isso contradiz a visão de Gramsci que insiste: “É por isso que uma reforma intelectual e moral não pode deixar de
estar ligada a um programa de reforma econômica; mais precisamente, o programa de reforma econômica é exatamente o
modo concreto através do qual se apresenta toda reforma intelectual e moral.” (Cadernos do Cárcere vol 3 p. 18-19).
Outro
espantalho central de O Anti-Woke é a figura de Michel Foucault,
apresentado como um pensador que negaria a verdade objetiva, a biologia e a
racionalidade, promovendo um relativismo moral absoluto destinado a subverter
todas as normas sociais. Essa leitura não apenas é superficial, como é
textualmente falsa. Foucault, na obra A
Coragem da Verdade, vê a função fundamental do filósofo como a obrigação
ética de dizer a verdade, mesmo sob risco pessoal. A ideia de que Foucault
negava a noção de verdade vem de uma falha em distinguir em sua obra o conceito
de verdade, como uma correspondência com a realidade, e a noção de “regimes de
veridicção”, que diz respeito a saberes que se tornam hegemônicos em uma dada
sociedade e período histórico.
É a
“verdade” no sentido de “regimes de veridicção” que é socialmente e
historicamente construída como um produto de relações de poder, mas Foucault
não negava que haviam fatos verdadeiros. No entanto, a verdade no sentido
daquilo que corresponde à realidade é um valor central na filosofia de
Foucault. É por isso que Foucault valoriza a parrhesia contrastando-a
com a retórica. Enquanto a retórica é uma técnica de persuasão que não exige
que o falante acredite no que diz, a parrhesia exige um vínculo existencial
entre o falante e a verdade: “A parresía é, portanto, o 'dizer tudo', mas
indexado à verdade: dizer tudo da verdade, não ocultar nada da verdade, dizer a
verdade sem mascará-la com o que quer que seja” (Foucalt. A Coragem da Verdade, p. 10-11 – transcrição da aula de 1º de
fevereiro de 1984).
O livro se
esforça também em denegrir biograficamente Foucault. Esssa abordagem é uma
forma de roteiro psicológico e sensacionalismo para sujar a imagem do autor sem
engajar com a complexidade de sua obra. É importante mencionar que as
experiências de Foucault com o sadomasoquismo, por exemplo, limitadas a certos
períodos e locais, como a Califórnia; não ocupam a centralidade na sua obra
teórica que os críticos conservadores alegam. Quando vivia essas experiências,
Foucault escrevia sobre biopolítica e governamentalidade, temas distintos da
discussão sobre sexualidade.
A abordagem
de O Anti-Woke à Escola de Frankfurt segue o mesmo padrão conspiratório.
Primeiro, é importante dizer desde já que essa Escola não tem nada
a ver com um projeto ideológico voltado à destruição deliberada da civilização
ocidental por meio da subversão moral, da dissolução da família e da promoção
da degeneração cultural. Pelo contrário, a Escola de Frankfurt surge como uma
crítica ao modernismo, à degeneração da cultura devido à emergência do mundo
administrado e se sustenta na defesa da promoção de valores civilizacionais.
O marco filosófico
de fundação teórica da Escola de Frankfurt é o texto “A presente situação da
filosofia social e as tarefas de um Instituto de Pesquisas Sociais” (1931)
de Max Horkheimer. Nele, o autor deixa claro o projeto da Escola de Frankfurt,
que ele denomina como “materialismo interdisciplinar”. Horkheimer propunha a
formação de uma comunidade de pesquisadores de diferentes áreas das ciências
humanas, como sociólogos, psicólogos, psicanalistas, economistas entre outras,
para pensar em conjunto de maneira interdisciplinar a sociedade.
Horkheimer
discordava da desconfiança de muitos marxistas em relação às chamadas ciências
burguesas. Ele apostava na importância do conhecimento científico das
humanidades, propondo integrar as contribuições de diferentes ciências para
poder compreender “a totalidade social” e superar a fragmentação do
conhecimento científico. Por isso, ele passa a denominar esse projeto como uma
Teoria Crítica, que critica a Teoria Tradicional sobre o conhecimento
científico. A Teoria Tradicional se refere ao modernismo cientificista e
instrumentalista e é da crítica a esse modelo de conhecimento que vem o nome
“Teoria Crítica”.
Não se
trata, pois, de crítica a valores da civilização ocidental, mas sim ao modelo
de conhecimento típico do modernismo científico. Segundo Horkheimer, a teoria
tradicional, dominante tanto nas ciências naturais quanto nas ciências humanas
empíricas, caracteriza-se por sua pretensão de neutralidade, sua fragmentação
do saber e sua indiferença quanto aos fins sociais do conhecimento. Daí surge a
sua crítica ao que ele denomina como “razão instrumental”, a redução da
racionalidade a cálculo técnico. O alvo da Teoria Crítica é o que Horkheimer
chama de “mundo administrado”: uma sociedade em que eficiência, progresso
tecnológico e controle substituem reflexão, autonomia e sentido.
Assim, no
capítulo “Ascensão e Declínio do Indivíduo” (1947) do seu livro Eclipse
da Razão, Horkheimer critica a degenerescência da civilização ocidental a
partir do que ele denomina de “crise do indivíduo”. A sociedade administrada
moderna havia destruído a consciência de autonomia e individualidade, tornando
o sujeito uma mera unidade numérica. Ele observa que o indivíduo contemporâneo
se tornou parte de uma sociedade massificada onde a alta cultura foi deixada de
lado em nome do que produz a indústria cultural.
É nesse
texto que fica claro a ruptura entre a Teoria Crítica e o marxismo. Horkheimer
rejeita a análise da luta de classes como equivocada e propõe em seu lugar a
Teoria dos Racket, segundo a qual a sociedade é dividida, não em
classes, mas em grupos sociais, como a igreja, as agremiações etc, com uma
certa hierarquia interna de comando e obediência e que externamente competem um
com os outros.
Diante dessa
sociedade massificada e administrada, Horkheimer faz uma crítica a como a
religião abriu mão de seus valores para se tornar parte do sistema moderno. Ele
afirma que a religião perdeu seu caráter sério e se tornou uma ferramenta de
controle, onde o indivíduo, após passar a semana massacrado pelo mundo
administrado, vai à igreja somente aos domingos para ouvir um sermão de consolo
temporário. Portanto, a crítica que a Teoria Crítica faz à religião é
justamente por ela ter aberto mão de seus valores tradicionais para ceder ao
Modernismo científico do mundo administrado.
Em sua
análise da degenerescência da cultura, Horkheimer também analisa o que ele
chama de “crise da ciência”. Em "Observações sobre ciência e crise"
(1932), ele afirma que o método científico não é puro, pois a ciência atende
certos interesses sociais e valores implícitos. No entanto, ele observa que a
crítica da racionalidade científica não deve resultar em ceticismo. Ao invés da
descrença na razão como um todo era preciso ver na razão científica, não um
excesso de razão, mas um estrangulamento da razão. É só a promoção do
verdadeiro pensamento racional que poderia nos salvar da crise pela qual
passava a civilização ocidental.
No entanto,
a análise social mais madura de Horkheimer está no balanço que ele faz da
situação mais avançada do pensamento da Escola de Frankfurt enquanto ele esteve
vivo. Trata-se do texto “Teoria Crítica ontem e hoje” (1969), escrito
pouco depois da morte de Adorno. Nele, o autor deixa claro seu abandono de uma
teoria revolucionária e marxista. Nesse texto, ele critica a União Soviética de
Stálin chamando-a de “comunismo terrorista”, abandona a ideia de economia
planejada, critica o Capitalismo de Estado e afirma que Marx estava equivocado
e encontrava-se superado.
É nesse
texto também que Horkheimer critica a entrada da mulher no mercado de trabalho.
Ele observa que a suposta emancipação da mulher na verdade consiste na entrada
da mulher no mercado de trabalho. A mulher deixou de ser mulher, para ser
enfermeira, engenheira etc., deixando seu lugar na família burguesa e passando
a ser uma peça do mundo administrado. Horkheimer, então, defende uma revalorização
da religião, sustentando que a religião preserva algo que a razão
instrumental não pode fornecer: o anseio de que a injustiça não seja a última
palavra, a esperança de que o assassino não triunfe definitivamente sobre a
vítima inocente. É o anseio, não a ilusão com projetos de práxis
revolucionária, que, segundo Horkheimer, deve manter a nossa esperança em meio
a um mundo administrado.
Para
Horkheimer, esse é o diagnóstico final do projeto da Escola de Frankfurt. Esse
diagnóstico leva a uma posição paradoxal: é preciso desejar que o mundo seja
diferente, mas não é legítimo desenhar positivamente a utopia. Toda tentativa
de definir previamente a sociedade perfeita, como fizeram regimes totalitários
comunistas ou fascistas, termina em catástrofe. O papel da filosofia não é
oferecer planos de engenharia social, mas denunciar o sofrimento existente.
A Escola de
Frankfurt também foi responsável por críticas veementes à cultura de massas
como uma degeneração da cultura. Em Horkheimer e Adorno, a crítica à cultura de
massa é explícita: ambos defendem a superioridade da alta cultura (como a
música clássica e a arte autônoma) por sua capacidade de resistir à
padronização e preservar a negatividade crítica, enquanto a indústria cultural
administra o lazer, produz conformismo e neutraliza o pensamento reflexivo. Adicionalmente, Benjamin e Marcuse divergem parcialmente quanto ao potencial emancipatório de
formas culturais populares, mas ainda assim compartilham a crítica à
mercantilização e à manipulação das consciências. Em nenhum caso há defesa da
degradação moral ou da dissolução cultural; ao contrário, o núcleo da Teoria
Crítica é a defesa da autonomia, da subjetividade e da experiência estética não
administrada frente à racionalidade instrumental da modernidade.
Inclusive,
vale mencionar Herbert Marcuse, retratado como suposto mentor da contracultura
libertina, responsável por slogans como “Faça amor, não faça guerra”,
pela promoção das drogas e pela destruição da família. Nenhuma dessas acusações
resiste à verificação histórica. Marcuse criticou explicitamente a “libertação
privada” da contracultura, drogas, gurus, fuga espiritual, como formas de
neutralização da crítica social. No terceiro capítulo de O Homem
Unidimensional, ele também faz críticas à Revolução Sexual de 1960, vendo
nela uma forma de “dessublimação repressiva”, isto é, o uso da permissividade
sexual como uma forma de controle social.
Marcuse
analisa como a sociedade industrial avançada permite e até incentiva a
liberdade sexual (filmes, roupas, pornografia, relações livres), o que é, para ele, na
verdade uma forma de intensificar a dominação. Para Marcuse, ao permitir
prazeres sexuais imediatos (comercializados), o sistema retira a energia
crítica das pessoas. O indivíduo se sente “livre” porque pode fazer sexo, e por
isso deixa de lutar contra a opressão econômica e política real.
Marcuse defendia não a permissividade sexual
desenfreada, mas sim uma transformação da libido: uma forma de viver a
sexualidade de maneira simultaneamente livre e ética. É por isso que ele
considerava o pansexualismo (a atração sexual indiscriminada e a explosão da
libido sem freios) uma forma pervertida e “pernóstica” de manifestação de Eros:
“O pansexualismo (...) pertence essencialmente à imagem da sociedade
repressiva” (Marcuse, Cultura e psicanálise. Paz e Terra, 2001,
p.112-138). Para ele, a verdadeira liberação sexual, não é uma explosão de
energia reprimida, mas uma transformação qualitativa da vida.
Há vários
outros casos de espantalhos em O Anti Woke, mas mencionarei apenas mais
um porque o acho o mais ilustrativo. Talvez o caso mais emblemático de distorção do
livro seja a leitura de Paulo Freire. O livro o acusa de promover ignorância,
relativismo e militância acrítica, responsabilizando-o até mesmo pelos baixos
índices educacionais brasileiros. O livro claramente confunde o fato de Paulo
Freire ser patrono da educação brasileira, com a educação brasileira ser
freiriana. Freire é patrono da educação brasileira apenas em sentido
simbólico-honorífico; sua pedagogia não estrutura, nem nunca estruturou de
fato, o sistema educacional brasileiro.
Na verdade,
a educação brasileira é fortemente anti-freiriana. Em Pedagogia da Autonomia
Freire insiste repetidamente que ensinar exige rigorosidade metódica,
pesquisa, domínio do conteúdo e responsabilidade ética. Ele critica tanto o autoritarismo
quanto a licenciosidade, defendendo uma pedagogia que una autoridade docente e
liberdade discente. Seu objetivo explícito é a superação da “curiosidade
ingênua” pela curiosidade epistemológica, isto é, pela capacidade crítica
fundamentada:
“Percebe-se,
assim, a importância do papel do educador [...] a certeza de que faz parte de
sua tarefa docente não apenas ensinar os conteúdos mas também ensinar a pensar
certo. Daí a impossibilidade de vir a tornar-se um professor crítico se,
mecanicamente memorizador, é muito mais um repetidor cadenciado de frases e de
ideias inertes do que um desafiador.” (Paulo Freire. Pedagogia da Autonomia)
Freire
achava que educação exige um equilíbrio entre liberdade do aluno e autoridade
do professor. Para Freire, ensinar é um ato rigoroso, que pressupõe domínio do
conteúdo, responsabilidade pedagógica e condução consciente da aprendizagem, ao
mesmo tempo em que reconhece o educando como sujeito histórico capaz de
desenvolver criticidade. Ele defendia que a alfabetização não era só ensinar
ler igual lê um analfabeto funcional, era a pessoa ser capaz de ler,
interpretar e usar criticamente a informação adquirida para entender a
realidade ao seu redor. O que espanta é que o livro atribui a Freire o exato
oposto do que ele propõe e apresenta como ideias suas justamente aquilo que
ele sempre criticou:
“O sujeito,
em vez de contemplar e se situar no mundo, começa a ser alfabetizado por meio
da negação. Paradoxalmente, o efeito criado é o de criar um ser acrítico,
justamente porque ele toma a negação como a realidade per se e, ao invés de
usar seus sentidos para progressivamente conhecer o objeto, ele começa usando
um arcabouço conceitual carregado...” (O
Anti-Woke, p. 92).
A verdade é que
o livro O Anti-Woke precisaria melhorar muito sua fundamentação teórica
antes de querer atacar a Universidade. É verdade que existem wokes nas Universidades,
mas não são a maioria. Podem até serem mais barulhentos, mas a maior parte da Universidade
é constituída por pesquisadores sérios comprometidos com a produção criteriosa do
conhecimento. Que exista espaço mesmo para ideias wokes nas Universidades
é prova de sua abertura para a pluralidade de ideias. Isso não significa que não
exista uma tendência maior ao progressismo de esquerda nas Universidades, mas
como mostrarei, o progressismo sério não é woke e muitas análises de
direita acabam não entrando em periódicos acadêmicos porque não possuem rigor metodológico
mínimo com análise de fontes e O Anti-Woke é um exemplo disso. Mas a
razão desse antiacademicismo da obra pode ser entendida pelo próximo tópico.
III. ALERTAS DE TEORIA DA CONSPIRAÇÃO
Sempre que
estamos diante de uma análise política deve se manter alerta sobre o que pode
ser chamado de Red flags de Teoria da Conspiração. Teorias da
Conspiração apresentam as seguintes características:
[1] Descredibilizar as universidades:
retratar a universidade como um espaço essencialmente ideológico, corrompido ou
tomado por doutrinação, de modo que o conhecimento produzido em seu interior
passe a ser visto como não confiável a priori. Esse é o primeiro passo para
sustentar o negacionismo científico, pois elimina a academia como fonte
legítima de evidência e crítica.
[2] Postular uma elite rica por
trás de tudo: afirmar que existe uma elite financeira, sustentada por
fundos públicos e privados, que financia e coordena essa agenda de forma
intencional e global. Isso introduz a ideia de uma conspiração centralizada, na
qual fenômenos sociais complexos são explicados pela ação oculta de um pequeno
grupo poderoso.
[3] Reduzir a complexidade
social: eventos históricos, políticos ou culturais são explicados por
intenções coordenadas de poucos indivíduos, ignorando fatores sociais,
econômicos ou culturais múltiplos e contingentes.
[4] Identificar vilões claros: um
grupo ou indivíduo é retratado como totalmente maléfico, sem nuances,
responsável por todos os problemas sociais.
[5] Moralizar a narrativa: a
conspiração é apresentada como não apenas real, mas moralmente perversa,
reforçando o medo, indignação ou pânico e criando polarização entre “bons” e
“maus”.
[6] Apelo emocional sobre
evidência: a teoria se apoia mais em histórias impactantes, imagens
chocantes ou indignação moral do que em dados ou argumentos verificáveis.
O livro me
parece incorrer em todos esses problemas, o que acende um alerta alto de teoria
da conspiração. Ele cita repetidamente as universidades como um espaço
ideológico de gestação das ideias wokes. O autor se refere à universidade como
o “ventre maldito que deu à luz o parasita” do wokismo e diz que falar das
teorias acadêmicas causa “enjoo, náuseas e ânsia de vômito”. Alega-se que os
progressistas “já cooptaram ou infiltraram a maioria dos professores
universitários”, sugerindo que praticamente não há mais ciência, apenas militância.
O texto
refere-se, ainda, aos responsáveis pelo wokismo como os “donos do puteiro: os
sociopatas narcisistas e megalomaníacos que fazem esta máquina putrefata girar”
e apresenta os “metacapitalistas” como os verdadeiros mantenedores do wokismo,
incluindo figuras como Larry Fink, CEO da BlackRock, descrito como alguém que
impõe agendas globais “de cima para baixo”. Grandes empresas e as políticas ESG
(Environmental, Social, and Governance) e DEI (Diversity, Equity, and
Inclusion) são tidas como a peça central que conecta a “loucura
universitária” à “elite global” na narrativa do livro. Para oo autor, essas
siglas não são práticas de gestão corporativa, mas sim as armas de guerra
utilizadas pelos “metacapitalistas” para impor a ideologia woke de cima para
baixo ("top-down"), contornando a democracia e o livre mercado.
Além disso, O
Anti-Woke simplifica fenômenos sociais complexos, reduzindo mudanças
culturais, econômicas e de costumes a um plano consciente de engenharia social.
A obra define o wokismo como a crença de que “a sociedade pode ser
artificializada” como parte de uma estratégia gramsciana na qual “a submissão
coercitiva seria substituída pela obediência inconsciente... injetada
sutilmente na sociedade”. A coordenação entre elite financeira e militância de
rua é descrita como uma “perfeita convergência da ‘pressão de cima’ com a
‘pressão de baixo’”, evidenciando a intencionalidade total atribuída a
processos historicamente complexos.
Há, ainda,
na obra, uma identificação de vilões claros, característica de um maniqueísmo
extremo. Os opositores são desumanizados e patologizados: militantes são
chamados de “bocós”, “esquisitos” ou “meme ambulante”, enquanto teóricos como
John Money, Alfred Kinsey e a “esquerda francesa” são retratados como
“demônios”, “monstros” e “pessoas más”. A obra converte divergências ideológicas
em inimigos morais absolutos. Na verdade, esse é um comportamento típico do woke:
seria na verdade O Anti-woke uma obra woke de direita?
A narrativa
do livro moraliza os eventos, gerando um pânico moral em torno da preservação
da civilização. O livro afirma que “os wokes objetivam a destruição completa de
toda a cosmologia civilizacional” e que militam pela “escravização geral da
humanidade nos grilhões do Estado”. O mundo contemporâneo é caracterizado como
uma “máquina putrefata” operada por sociopatas, reforçando a urgência moral da
narrativa. Militantes são descritos com “face empalamada”, “flacidez corporal”
e “aparência grotesca”, enquanto detalhes da vida sexual de Foucault, Money e
Kinsey são explorados para invalidar suas contribuições acadêmicas. Esse tipo
de estrutura argumentativa reduz o espaço para o contraditório e dificulta a
avaliação empírica das teses apresentadas, aproximando a obra de padrões
explicativos típicos de narrativas conspiratórias
IV. A DEFESA
DO PROGRESSISMO CLÁSSICO
Há três formas principais de
progressismo: (i) progressismo clássico: posição que defende reformas
graduais dentro da democracia constitucional a fim de garantir os direitos das
minorias sociais e sua inclusão; (ii) progressismo Identitário: posição
que defende o reconhecimento de identidades dissidentes e a utilização de políticas
afirmativas como melhor forma para a construção de uma sociedade justa; (iii) progressismo
Radical: posição que defende que uma sociedade sem opressão de minorias
sociais só será alcançada por meios revolucionários. É justamente o
progressismo clássico que me parece a alternativa tanto ao wokismo quanto
a uma abordagem conservadora.
É preciso, pois, manter uma
distinção entre progressismo clássico e o fenômeno contemporâneo chamado de woke.
O progressismo clássico se baseia nos seguintes pressupostos filosóficos: (i)
objetivismo moral: posição segundo a qual existem normas éticas objetivas que não
dependem da opinião de indivíduos, grupos ou culturas particulares; (ii)
herança iluminista: que afirma a universalidade da razão como fundamento
comum para crítica, emancipação e progresso moral; (iii) deliberacionismo:
entendido como a defesa da racionalidade comunicativa, do debate público e do
convencimento por argumentos em vez de coerção simbólica; (iv) liberalismo
político: consiste na defesa da igualdade moral fundamental das pessoas; da
prioridade da liberdade individual, e da exigência de que o poder político seja
publicamente justificável a cidadãos livres e iguais; e (v) bem-estarismo
social: consiste na defesa de que a sociedade deve promover o florescimento
humano e o bem-estar de seus cidadãos, garantindo uma vida satisfatória por
meio de políticas e ações eficazes, racionais e baseadas em evidências, que
reduzam sofrimento, ampliem oportunidades e melhorem as condições materiais de
vida de forma concreta e mensurável.
O coração do progressismo clássico é
o objetivismo moral. O progressismo rejeita o conservadorismo justamente porque
ele não é suficientemente objetivista. Conservadores condicionam, muitas vezes,
os valores morais à autoridade política ou religiosa. No entanto, para o progressista,
as verdades morais são objetivas de modo que não depende de nenhum tipo de autoridade,
seja ela religiosa, política, institucional, cultural, social ou divina. É justamente essa tese que é o centro do progressismo, porque é ela que fundamenta a crença na possibilidade de reformas
sociais robustas. A ideia central é que certos juízos morais, como a condenação
da miséria extrema, da dominação arbitrária ou da exclusão injustificada, não
dependem apenas de perspectivas locais ou identidades particulares, mas possuem
validade independente da opinião ou atitude dos sujeitos.
O progressismo clássico também é herdeiro
direto do Iluminismo, entendido não como um conjunto fechado de doutrinas, mas
como um projeto normativo baseado na universalidade da razão. A premissa
iluminista fundamental é que todos os seres humanos, enquanto tais,
compartilham capacidades racionais suficientes para justificar normas, criticar
instituições e revisar tradições. É esse fundamento objetivista que justifica o
princípio da igual consideração de interesses, segundo o qual os interesses
fundamentais de todos os indivíduos devem receber o mesmo peso moral, independentemente
de características contingentes como raça, sexo, orientação sexual, identidade
de gênero ou capacidades físicas e cognitivas.
Outro pilar do progressismo clássico
é o compromisso com a deliberação racional pública. Trata-se da ideia de
que normas legítimas devem poder ser justificadas por meio de razões acessíveis
a todos os participantes de uma esfera pública inclusiva. Esse ideal
deliberativo pressupõe que o desacordo não é apenas inevitável, mas produtivo,
e que o progresso moral ocorre por meio do confronto argumentativo, não pela
exclusão. A possibilidade de “convencer o outro” é constitutiva desse modelo:
se razões são universais, então podem, ao menos em princípio, atravessar bolhas
sociais. Isso significa também a rejeição da censura prévia, a defesa da
liberdade de expressão e a crítica à cultura do cancelamento.
O progresismo clássico é também herdeiro
da tradição liberal, o que o coloca como um defensor dos direitos dos indivíduos
contra a tirania da maioria. No progressismo clássico, o liberalismo político
expressa o compromisso com a igualdade moral fundamental de todas as pessoas,
entendidas como agentes dotados de dignidade, autonomia e capacidade de
justificar racionalmente suas ações. Isso implica a prioridade da liberdade
individual frente a coerções arbitrárias, bem como a defesa de direitos civis e
políticos universais que não dependem de pertencimento identitário ou aprovação
moral majoritária.
Por fim, o progressismo clássico
sustenta que a ação política deve ser orientada para a melhoria concreta das
condições de vida dos indivíduos. Isso se traduz na defesa de políticas
públicas eficazes, racionais e baseadas em evidências, capazes de produzir
resultados mensuráveis nas áreas de saúde, educação, trabalho, renda e
segurança material. Nesse sentido, a atenção às populações historicamente
vulnerabilizadas, como a comunidade LGBT, mulheres, negros, pessoas com
deficiência e outros grupos sociais expostos a maiores riscos de exclusão e
violência, não decorre de uma lógica identitária, mas de dados empíricos que
mostram desigualdades reais de bem-estar, acesso a direitos e exposição ao
sofrimento.
Espero ter mostrado com isso que o progressismo
clássico não é woke, na verdade ele é anti-woke. O livro O Anti-woke, ao
invés de dialogar com as melhores formulações de seus adversários, como exige
qualquer crítica séria, prefere selecionar passagens fora de contexto, recorrer
a intérpretes controversos e atribuir aos autores criticados responsabilidades
diretas por fenômenos que eles próprios não apenas não defenderam, como
frequentemente criticaram. O resultado não é uma refutação consistente do
wokismo, mas a construção de um inimigo imaginário.

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