TAXONOMIA DAS TEORIAS DA VERDADE
O que se segue é uma taxonomia das posições em Teorias da Verdade. As Teorias da Verdade fazem parte da Epistemologia, área da filosofia que coniste nas teorias do conhecimento. Essa taxonomia classifica as posições em teoria da verdade em onze grandes grupos: (1) Constitutivismo aletético; (2) Coerentismo aletético; (3) Logicismo aletético; (4) Minimalismo aletético; (5) Primitivismo aletético; (6) Pragmatismo aletético; (7) Cognoscibilismo aletético; (8) Pluralismo aletético; (9) Relativismo aletético; (10) Não-cognitivismo aletético; (11) Aletelismo fenomenológico.
(1) Constitutivismo aletético: sustenta
que a verdade é uma propriedade substantiva cuja natureza envolve uma relação
constitutiva com a realidade.
=> (1.1) Correspondentismo: afirma que uma sentença é verdadeira se existe
uma relação apropriada de correspondência entre seu conteúdo proposicional e a
realidade.
-> (1.1.1) Teoria da Correspondência factual: afirma que uma sentença é
verdadeira se corresponde a um fato ou estado de coisas ontologicamente
distinto que a torna verdadeira.
-> (1.1.2) Teoria da Correspondência Objetual: afirma que uma sentença é
verdadeira se seus termos referem a objetos e seus predicados são satisfeitos
por esses objetos no mundo, sem postular fatos como entidades.
-> (1.1.3) Teoria dos fazedores de verdade (Truthmakers): afirma que uma sentença é verdadeira se existe alguma
entidade cuja existência fundamenta ontologicamente a verdade dessa sentença.
-> (1.1.4) Correspondentismo pluralista: afirma que uma sentença é verdadeira
se corresponde à realidade segundo um modo de correspondência apropriado ao
tipo de entidade ou domínio envolvido.
-> (1.1.5) Correspondentismo restrito: uma sentença é verdadeira por
correspondência apenas quando versa sobre entidades ontologicamente
substanciais, sendo outros domínios avaliados por critérios não
correspondenciais.
=> (1.2) Teoria da identidade: Uma sentença verdadeira é idêntica ao fato ou
estado de coisas que ela expressa, e não meramente correspondente a ele.
-> (1.2.1) Teoria da identidade fato-proposição: Uma proposição verdadeira é
idêntica ao fato ou estado de coisas que ela expressa.
-> (1.2.2) Teoria da identidade sentença-fato: Uma sentença verdadeira,
enquanto portadora de conteúdo, é idêntica ao estado de coisas que torna
verdadeira sua ocorrência.
-> (1.2.3) Teoria da identidade conteúdo-realidade: O conteúdo semântico de
uma sentença verdadeira é numericamente idêntico a um aspecto da realidade, e
não meramente correspondente a ele.
-> (1.2.4) Teoria da identidade semântica forte: A relação entre proposição
verdadeira e realidade é identidade estrita, e não uma relação mediada por
representação ou satisfação.
-> (1.2.5) Teoria da identidade austera: A verdade não é uma propriedade
adicional das proposições, pois proposições verdadeiras são simplesmente partes
da realidade.
(2) Coerentismo aletético:
sustenta que a verdade consiste na pertença de uma sentença a um sistema
coerente de crenças ou proposições.
=>
(2.1) Coerentismo idealista: uma
sentença é verdadeira se pertence ao sistema total de crenças que constitui a
própria realidade.
=> (2.2) Coerentismo epistêmico: Uma sentença é verdadeira se e porque
pertence ao sistema maximamente coerente sob condições ideais de racionalidade
e informação.
(2.2.1) Coerentismo
de cosmovisão: uma sentença só é verdadeira se ela faz parte do sistema de
proposições internamente coerente que forma a visão abrangente e completa de
mundo verdadeira.
-> (2.2.2) Coerentismo epistêmico restrito: Uma sentença é verdadeira se
integra coerentemente a um subconjunto limitado de crenças ou proposições, sem
exigir coerência com um sistema global de cosmovisão.
(3) Logicismo aletético:
Trata a verdade primariamente como um valor semântico ou lógico determinado
pela estrutura formal da linguagem.
=> (3.1) Teoria fregeana dos valores de verdade: Uma sentença é verdadeira
se o referente do seu conteúdo proposicional é o objeto abstrato Verdade, sendo
o Falso o único outro referente possível.
=> (3.2) Teoria bivalente clássica da verdade: Uma sentença é verdadeira se
recebe o valor de verdade designado em uma semântica clássica bivalente, sem
comprometimento com a ideia de Verdade como objeto abstrato.
=> (3.3) Teoria multivalente da verdade: Uma sentença é verdadeira se recebe
um valor designado em um sistema lógico com mais de dois valores de verdade.
=> (3.4) Teoria puramente lógica da verdade: Uma sentença é verdadeira se
ocupa uma posição designada de acordo com as regras formais de um sistema
lógico, independentemente de compromissos metafísicos.
(4) Minimalismo aletético: Nega que a
verdade possua uma natureza metafísica substantiva além de seu papel
lógico-linguístico.
=> (4.1) Teoria tarskiana da verdade: Uma sentença é verdadeira se, e
somente se, aquilo que a sentença afirma é o caso, conforme os esquemas-T, isto
é, para qualquer sentença p, dizer que p é verdadeira equivale a afirmar aquilo
que p diz.
=> (4.2) Redundancialismo: Atribuir verdade a uma sentença não acrescenta
nenhum conteúdo semântico além da própria asserção.
=> (4.3) Minimalismo esquemático: Uma sentença é verdadeira se satisfaz os
esquemas de equivalência fundamentais que governam o uso do predicado
“verdade”.
=> (4.4) Disquotacionalismo: Uma sentença é verdadeira se a remoção das
aspas preserva seu conteúdo assertivo.
=> (4.5) Teoria pró-sentencial: Uma sentença é verdadeira quando uma
pró-sentença (como “isso é verdade”, “é assim mesmo”) retoma corretamente o
conteúdo assertivo de uma asserção anterior, sem atribuir uma propriedade
chamada “verdade”, mas apenas repetindo ou endossando o que já foi dito.
(5)
Primitivismo aletético: Sustenta que
a verdade é irredutível a conceitos mais básicos.
=> (5.1) Primitivismo conceitual: Uma sentença é verdadeira se ela é
verdadeira, sendo o conceito de verdade indefinível.
=> (5.2) Primitivismo de propriedade: Uma sentença é verdadeira se possui a
propriedade simples e não analisável da verdade.
(6)
Pragmatismo aletético: Define a
verdade em termos de práticas de investigação, aceitação racional ou sucesso
prático.
=> (6.1) Pragmatismo peirciano: Uma sentença é verdadeira se não puder ser
derrotada e se mantiver estável diante de uma investigação científica
prolongada e contínua realizada por uma comunidade ideal de investigadores.
=> (6.2) Pragmatismo jamesiano: Uma sentença é verdadeira se provar ser boa
como crença, isto é, se for útil ou eficaz na forma de acreditar, por razões
claras, na medida em que contribui satisfatoriamente para a experiência e as
práticas humanas.
=> (6.3) Teoria da Assertibilidade garantida: Uma sentença é verdadeira se é
assertível sob condições ideais de justificação epistêmica.
(7) Cognoscibilismo aletético:
identificam a verdade com condições de cognoscibilidade ou justificação.
=> (7.1) Antirrealismo epistêmico: Uma sentença é verdadeira se sua verdade
pode ser conhecida em princípio.
=> (7.2) Verificacionismo aletético: Uma sentença sintética (que não depende
dos significados dos termos, mas de como o mundo) com sentido científico é
verdadeira se for empiricamente verificada
(8) Pluralismo alético:
Nega que exista uma única propriedade ou definição constitutiva da verdade
válida para todos os domínios.
=> (8.1) Pluralismo aletético de propriedades: Uma sentença é verdadeira se
satisfaz a propriedade alética própria de seu domínio específico.
=> (8.2) Funcionalismo da verdade: Uma sentença é verdadeira se cumpre o
papel funcional atribuído ao predicado “verdade” pelas platitudes centrais, ou
seja, pelas afirmações consensuais sobre como o predicado funciona na
linguagem, como esquemas de equivalência, generalização e normatividade, sem
pressupor propriedades metafísicas substantivas da verdade.
=> (8.3) Pluralismo restritivo: Uma sentença é verdadeira de maneiras
distintas em diferentes domínios, sendo a correspondência apenas uma entre várias.
[é o mesmo que 1.1.5]
(9) Relativismo aletético:
Sustenta que a verdade é relativa a parâmetros contextuais ou avaliativos.
=> (9.1) Relativismo cultural: Uma sentença é verdadeira relativamente a um
esquema conceitual ou cultural.
=> (9.2) Relativismo contextual: Uma sentença é verdadeira relativamente a
um contexto de avaliação.
=> (9.3) Relativismo indexical: Uma sentença é verdadeira relativamente a
parâmetros como tempo, lugar ou padrão normativo.
(10) Não-cognitivismo aletético:
Posturas que negam que a verdade seja uma propriedade substantiva ou
explicativa das proposições, tratando o predicado “verdade” como expressivo,
normativo ou funcional no discurso.
=> (10.1) Performativismo aletético: Atribuir verdade a uma sentença consiste
em realizar um ato de endosso ou aprovação, sem descrever uma propriedade
objetiva do mundo.
=> (10.2) Quietismo alético: A noção de verdade é legítima e útil no uso
filosófico ou linguístico, mas não requer nem admite uma teoria substantiva ou
explicativa da verdade.
=> (10.3) Normativismo: A verdade é uma prescrição ou uma regra, não uma
propriedade ou fato, verdade é aquilo que requer que nós demos assentimento.
=> (10.4) Niilismo aletético: Uma sentença não é verdadeira nem falsa; a
verdade não existe como propriedade, função ou norma, e o predicado “verdade”
não corresponde a nada no mundo.
-> (10.4.1) Quasi-realismo aletético: Uma sentença é tratada como verdadeira se
se comporta em nossas práticas discursivas e normativas como se fosse verdadeira,
mesmo que a verdade não exista realmente.
-> (10.4.2) Niilismo eliminativo: visto que a verdade não existe, devemos parar
e utilizar essa noção.
(11) Aletelismo fenomenológico:
entende verdade como o próprio desvelamento pré-teórico do objeto tal como se
mostra para a consciência.
=> (11.1) Teoria evidencial da verdade: A verdade consiste no preenchimento
intuitivo adequado de uma intenção significativa pela doação originária do
próprio objeto à consciência.
=> (11.2) Teoria heideggeriana da verdade: A verdade é o acontecimento de
desocultamento no qual o ente se mostra a partir da abertura do ser, sendo a
verdade proposicional um modo derivado.
=> (11.3) Teoria perceptivo-encarnada da verdade: A verdade emerge da
identidade pré-reflexiva entre o corpo perceptivo e o mundo vivido no próprio
ato da percepção.
=> (11.4) Teoria imanente da verdade: A verdade consiste na autoafecção
imediata da vida em sua imanência absoluta, anterior a toda intencionalidade e
exteriorização.

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