RESPOSTA AO ARGUMENTO DA ENCARNAÇÃO DE RAIMUNDO LÚLIO
O objetivo deste texto consiste em apresentar uma crítica ao argumento do filósofo medieval Raimundo Lúlio a favor de Jesus de Nazaré como o Verbo encarnado. Para tanto este texto encontra-se dividido em três partes (i) pressupostos da filosofia luliana; (ii) argumento luliana a favor da encarnação do Logos; (iii) problemas do argumento.
I. PRESSUPOSTOS DA FILOSOFIA LULIANA
Ramon Lúlio, também conhecido como
Raimundo Lull ou Doctor Illuminatus,
foi uma das figuras mais singulares da filosofia medieval, cuja obra representa
a fusão de misticismo, filosofia, literatura e zelo missionário Por volta de 1262, Lúlio passou por uma
experiência mística que culminou, segundo a tradição, em uma iluminação divina
que lhe revelou a Ars Magna, a “Arte
Geral”, um sistema universal de conhecimento destinado a unificar todas as
ciências e que não deve ser confundido com o projeto do Maior Livro do Mundo, cujo propósito era converter os infiéis.
É importante considerar os seguintes
pressupostos filosóficos fundamentais do pensamento de Raimundo Lúlio:
(1) Lógica-ontológica: O
pensamento luliano é centrado na Ars
Magna, concebida não apenas como uma lógica formal, mas como uma estrutura
metafísica que reflete a própria ordem divina. Demonstrações lógicas são
tomadas como demonstrações ontológicas e transitar entre a ordem do ser e do
pensar é legítimo pois há uma unidade formal entre ambos.
(2) Doutrina das Dignidades Divinas: No
núcleo desse sistema estão as chamadas “Dignidades Divinas”, atributos como
Bondade, Grandeza, Eternidade, Poder, Sabedoria, Vontade, Virtude, Verdade e
Glória, que constituem os princípios fundamentais de toda a criação, pois, para
Lúlio toda criatura é uma imitação de Deus.
(3) Arte Combinatória: Lúlio
desenvolveu um método simbólico e geométrico para combinar as Dignidades
Divinas, usando um alfabeto simbólico e figuras como círculos e triângulos para
gerar todas as relações possíveis entre princípios divinos.
(4) Voluntarismo: Seguindo
a tradição agostiniana e franciscana, Lúlio enfatiza a primazia da vontade e do
amor sobre o intelecto. A beatitude final não consiste apenas na contemplação
intelectual, mas no exercício da caridade perfeita.
(5) Formalismo:
Lúlio aceita a ideia de que existem porções mínimas de inteligibilidade
(micro-inteligibilidades ou micro-essências) metafisicamente incompletas e
inseparáveis que compõem as essências, inclusive de Deus.
(6) Doutrina da formalidade lógico
ontológica: há uma formalidade lógico-ontológica que
surge no ponto de interseção entre duas operações do intelecto: a primeira
intenção, na qual o intelecto apreende diretamente formas universais presentes
nas coisas (ontológicas), e a segunda intenção, na qual o intelecto reflete
sobre essas apreensões, produzindo conceitos sobre conceitos (lógicas). Essa
formalidade constitui o objeto da Ars
Magna.
(7) Teoria dos Conectivos:
Lúlio propõe que toda composição metafísica deve ser pensada como uma tríade,
polo ativo (que produz), polo passivo (que recebe) e polo conectivo (que une),
substituindo os binômios aristotélicos tradicionais, como ato e potência,
matéria e forma, ou intelecto agente e intelecto possível.
(8) Hilemorfismo Universal: Doutrina
segundo a qual toda realidade criada, exceto Deus, é composta de matéria e
forma, interpretando até mesmo os anjos como possuindo uma matéria sutil.
(9) Prova por Equiparação:
além das tradicionais provas a partir da causa (propter quid) ou pelo efeito (quid),
Lúlio defende uma forma de demonstração por equiparação (per aequiparantia) que consiste em mostrar que algo deve é o caso
porque é idêntico ou equivalente a outra realidade já conhecida, r exemplo,
podemos provar que Deus não pode pecar porque a essência divina é inseparável
de sua vontade e bondade, de modo que querer pecar seria contradizer a si mesmo.
(10) Racionalismo moderado:
consiste na tese de que dogmas de fé podem ser demonstrados racionalmente, como
a Trindade e a encarnação de Cristo, mas a razão não esgota esses mistérios
havendo espaço para fé.
Esses pressupostos filosóficos são
importantes porque ajudam a entender o framework
a partir do qual Lúlio parte para provar que Jesus é Deus. Como Lúlio entende
que lógica e ontologia são unidas, ele pode passar da estrutura metafísica de
Deus para deduzir que a encarnação do Logos é possível e necessária: se o
intelecto humano consegue apreender a forma universal da Bondade e Veracidade,
então pode demonstrar que Deus, sendo infinitamente bom e comunicativo, se
expressaria no mundo de forma inteligível, ou seja, encarnando o Logos. Isso
permite que ele possa transitar de todo seu arcabouço lógico (arte
combinatória, provas ontológicas) para a ordem do ser porque ele vê um
intercruzamento formal entre esses dois campos e por isso acredita ser possível
uma prova ontológica de um evento que se dá na ordem do mundo.
Finalmente,
o racionalismo moderado ampara toda a estrutura, pois consiste em sustentar a
possibilidade demonstrar racionalmente que a Trindade e a encarnação são coerentes
com a natureza divina, sem esgotar o mistério que requer fé. No entanto, este
racionalismo é qualificado: Lúlio muitas vezes pressupõe a fé como um hábito
que eleva o intelecto, permitindo-lhe alcançar verdades que, sem a fé, seriam
inacessíveis. A sua apologética baseava-se em provar que negar a Trindade ou a
Encarnação implicaria em atribuir imperfeição a Deus: Se Deus não se encarnou,
ele não é bom. Deus é bom, logo ele se encarnou.
II. ARGUMENTO DA ENCARNAÇÃO DE
RAIMUNDO LÚLIO
O
argumento de Raimundo Lúlio da Encarnação de Cristo é como se segue:
Premissa 1:
A bondade é necessária e verdadeira.
Premissa 2:
A bondade é grande e plenamente atual.
Premissa 3:
A bondade não pode ser nada.
Conclusão parcial 1:
Portanto, a bondade absoluta (Deus) existe de modo necessário, verdadeiro e
atual.
Premissa 4:
Toda bondade verdadeira possui uma estrutura triádica: quem faz o bem, aquele a
quem o bem é feito e o próprio bem feito.
Premissa 5: Deus é a própria Bondade
Conclusão parcial 2:
Logo, Deus, sendo o Sumo Bem, é triúno: Pai (que bonifica), Filho (que recebe a
bonificação) e Espírito Santo (que une ambos).
Premissa 6:
Um Deus infinitamente bom deseja comunicar-se com a criação da forma mais
perfeita possível.
Premissa 7:
A forma mais perfeita de comunicação é a união hipostática de Deus com a
natureza humana.
Conclusão parcial 3:
Portanto, é conveniente que Deus deseje a encarnação do Logos.
Premissa 8: A
união hipostática requer uma receptora pura que não tenha impedimentos para
receber a natureza divina.
Premissa 9:
O Logos encarnado deve ser atestado por sinais divinos e ser cognoscível como
tal.
Premissa 10:
O Logos deve viver plenamente como homem, experienciando nascimento, sofrimento,
morte e ressurreição.
Conclusão parcial 4:
Logo, o Logos encarnado deve nascer de uma virgem pura, ser atestado por
milagres, sofrer, morrer e ressuscitar.
Premissa 11: Uma
pessoa histórica que realmente existiu, Jesus de Nazaré, cumpre todos os
critérios exigidos para o Logos encarnado: nasceu de uma virgem pura, fez
milagres, sofreu, morreu e ressuscitou.
Premissa 12:
Nenhum outro personagem histórico cumpre simultaneamente todos esses critérios.
Conclusão parcial 5:
Portanto, Jesus de Nazaré é o único candidato racionalmente viável à identidade
com o Logos encarnado.
Premissa 13:
Deus, sendo providente, não permitiria que a máxima obra de revelação fosse
falsificada.
Premissa 14:
Se Jesus fosse uma farsa, isso impediria a plena revelação de Deus.
Conclusão final:
Portanto, Jesus de Nazaré não é uma farsa, mas o próprio Logos encarnado,
enviado por Deus para revelar sua glória e comunicar sua bondade ao mundo.
III. PROBLEMAS DO ARGUMENTO
As
objeções ao argumento racional de Raimundo Lúlio em favor da Encarnação do
Logos podem ser sistematizadas em quatro frentes fundamentais e independentes:
(I) Objeção modal,
que avalia como o argumento implicaria em necessarianismo;
(II) Objeção epistêmica,
no que diz respeito aos nossos acessos às razões divinas
(III) Objeção Ontológica: que
questiona a hierarquia do ser pressuposta pelo sistema luliano; e
(IV) Objeção histórica:
ligadas ao hiato entre o Logos deduzido filosoficamente e a figura contingente
do Jesus histórico.
Comecemos
pela objeção modal. O núcleo do
argumento luliano repousa na tese de que as Dignidades Divinas, sobretudo a
Bondade, são intrinsecamente difusivas, ativas e comunicativas. Sendo Deus o
Sumo Bem, sua perfeição exigiria a máxima comunicação possível dessa bondade ad extra. A Encarnação do Logos surge,
assim, como o ápice dessa difusão: a forma mais perfeita, mais excelente e mais
adequada de manifestação da glória divina.
Para
evitar o necessitarismo, Lúlio recorre à distinção tradicional entre potência absoluta e potência ordinada. Pela potência
absoluta, Deus poderia não criar, não se encarnar e agir de múltiplas outras
maneiras sem contradição lógica. Pela potência
ordinada, entretanto, Deus age em conformidade com suas Dignidades,
Sabedoria, Justiça e Bondade, e, nesse sentido, a Encarnação é apresentada como
conveniens, isto é, moralmente
necessária ou apropriada à perfeição divina.
Nesse ponto emerge o chamado colapso modal
luliano: se a vontade divina não é uma faculdade contingente separada da
essência ou do intelecto: ela é idêntica às próprias Dignidades. Se o intelecto
divino apreende a Encarnação como a melhor e mais perfeita ação possível, e se
a vontade divina perfeita não pode deixar de querer o melhor sem incorrer em
imperfeição, então a liberdade divina se reduz a uma necessidade interna.
Raimundo
Lúlio responde a esse problema por meio de uma distinção entre
potência absoluta e potência ordenada, bem como entre a ação divina formalmente
imanente e virtualmente transitiva. Pela potência absoluta, Deus poderia não
criar o mundo ou não se encarnar, ou agir de múltiplas outras formas sem
incorrer em contradição lógica. Já pela potência ordenada, aquela que age em
consonância com as Dignidades Divinas, como Sabedoria, Bondade e Justiça, a
Encarnação se apresenta como moralmente necessária ou adequada.
A
distinção entre ação formalmente imanente e virtualmente transitiva serve a um
propósito análogo. O ato pelo qual Deus deseja a Encarnação é formalmente
imanente, isto é, ele se identifica com a essência de Deus, é necessário e
imutável. Em contrapartida, a mesma ação é virtualmente transitiva, na medida
em que pode se manifestar em efeitos externos contingentes, como diferentes
mundos possíveis, diferentes modos de comunicação ou até mesmo nenhum mundo.
Assim, Lúlio busca preservar tanto a simplicidade divina quanto a contingência
dos efeitos, mantendo que a liberdade de Deus não é violada, uma vez que o ato
em si é autideterminado e perfeito, e qualquer variação ocorre apenas na
terminação extrínseca, fora da essência divina.
Apesar
de seu engenhoso refinamento, a solução luliana enfrenta críticas
significativas no contexto da filosofia contemporânea da religião.
Primeiramente, a liberdade que Lúlio preserva é interna, formal e imanente, mas
não libertária. Filósofos modernos entendem a liberdade, de modo central, como
a capacidade real de escolher entre alternativas possíveis. No sistema luliano,
Deus não poderia, de fato, deixar de querer a Encarnação; a contingência se
limita ao resultado externo, ou seja, à manifestação no mundo criado. Assim, a
liberdade é deslocada para a terminação dos efeitos e não se aplica ao ato em
si, o que não satisfaz a concepção moderna de liberdade como escolha real entre
alternativas internas.
A
resposta luliana na verdade apenas desloca a necessidade da essência divina
para a necessidade dos efeitos contingentes. É primeiro necessário justificar a
validade desse deslocamento, isto é, por que é legítimo atribuir contingência
ao efeito de um ato necessário. Essa resposta assume a tese de que a
contingência da terminação externa não compromete a necessidade interna, mas é
difícil entender por que a necessidade imanente da essência divina não deveria
metafisicamente condicionar os efeitos externos. Em outras palavras, a
distinção formalmente imanente / virtualmente transitiva sem a justificação
dessa tese permanece um recurso ilegítimo.
Além
disso, mesmo que se aceite essa distinção, a solução luliana não resolve
completamente o problema da graça gratuita. No sistema de Lúlio, a Encarnação é
a manifestação máxima da Bondade divina, e a vontade divina está
inevitavelmente inclinada a escolher o ótimo. O que se preserva é uma liberdade
“externa” relativa ao efeito, mas o ato essencial de querer a Encarnação é
necessário, o que significa que a Encarnação não é livremente contingente do
ponto de vista interno.
Por fim, a resposta de Lúlio
compromete a simplicidade divina. A ideia é que o ato
divino é formalmente imanente (identificado com a essência) e virtualmente
transitivo (capaz de gerar efeitos contingentes distintos). Mas ao fazer isso,
ele introduz um elemento de multiplicidade ontológica mínima, que já está
presente em consequência do seu formalismo. Dizer que há distinções formais na
essência divina já é uma forma de composição metafísica mínima, isso flexibiliza
demais a doutrina da simplicidade, porque agora a essência contém, mesmo que de
modo sutil, uma estrutura interna que é funcionalmente composta.
A
segunda linha de objeção é um problema
epistêmico. Esse problema pode ser formulado de modo condicional: se Deus
tem uma razão X para se encarnar, não basta mostrar que X é excelente ou
máxima; seria preciso demonstrar que nenhuma razão alternativa Y poderia ser
superior, que nenhuma circunstância do mundo criado poderia funcionar como
razão derrotadora, e que a vontade divina não poderia deixar de escolher X. Em
termos formais, seria preciso demonstrar que, sendo Y a encarnação de Deus: (a)
Deus age necessariamente com base em Y; (b) não existe nenhuma razão Z superior
a Y; e (c) não há nenhuma razão alternativa X′ que Deus prefira a Y.
No
entanto, criaturas finitas não têm acesso ao espaço completo das razões
possíveis de um agente onisciente. O argumento luliano pressupõe, sem
justificação, que a maior razão concebível por
nós coincide com a maior razão concebível por Deus. Mesmo se conseguisse, o argumento também talvez só
funcionasse para provar que Deus tem uma vontade antecedente de se encarnar,
mas precisaria provar que ele também tem uma vontade consequente para garantir
que a encarnação ocorra, mas para fazer isso é preciso apelar para um
conhecimento quase onisciente dos condicionantes da vontade consequente.
O
terceiro nível de crítica incide sobre os pressupostos
ontológicos do argumento. O sistema luliano depende essencialmente de uma
ontologia hierárquica, segundo a qual ser, bondade, verdade e perfeição são
convertíveis e existem em graus. As criaturas participam dessas perfeições de
modo limitado; Deus, de modo pleno, simples e absoluto.
Essa
ontologia vertical é indispensável ao argumento: só faz sentido afirmar que
Deus deve comunicar-se maximamente se existe uma escala objetiva de perfeição
que pode ser maximizada. No entanto, concepções ontológicas contemporâneas rejeitam
essa estrutura. A chamada ontologia plana, por exemplo, sustenta que existência
não admite graus: as coisas simplesmente existem. Um elétron não é “menos ser”
do que um ser humano, nem este é ontologicamente inferior a um anjo. Se não há
hierarquia objetiva de ser, a passagem de “bondade máxima” para “ação máxima”
perde seu fundamento metafísico.
A
última linha do argumento, por sua vez, consiste em objeções históricas. Mesmo que se concedam os pressupostos
teológico-metafísicos e ontológicos do sistema luliano, permanece um problema
decisivo: a identificação histórica do Logos encarnado com Jesus de Nazaré.
Trata-se do hiato entre um conceito metafísico deduzido racionalmente e uma
figura histórica concreta, contingente e acessível apenas por fontes limitadas
e disputadas.
Já
ilustrei este problema em outro texto por meio do experimento mental do
“pesquisador sincero” (AQUI), que ilustra que alguém pode aceitar racionalmente
a Trindade e a possibilidade da Encarnação e, ainda assim, ao examinar os dados
históricos disponíveis, concluir que Jesus de Nazaré não satisfaz os critérios
exigidos para o Logos encarnado. A pesquisa crítica sobre o Jesus histórico aponta
vários elementos problemático: o Jesus histórico parece rejeitar ser identificado
com Deus e o Sumo Bem (Marcos 10:18). Ele também parece ter feito previsões
escatológicas que não se realizaram (Marcos 13:30), o que é incompatível com a
atribuição de onisciência ao Logos.
Além
disso, Jesus submete-se ao batismo de João, um rito de arrependimento, o que
sugere, do ponto de vista histórico, consciência de pecado ou imperfeição. Sua
própria família, incluindo sua mãe, parece considerá-lo mentalmente perturbado
(Marcos 3:21), o que revela que sua mãe não era uma virgem pura. Por fim, a identificação explícita de Jesus
com o Logos eterno consubstancial ao Pai é um desenvolvimento doutrinário
tardio. Os textos mais antigos do Novo Testamento apresentam cristologias
significativamente mais baixas e demorou até 451d.C., mais de quatro séculos
após a morte de Jesus, até o Cristianismo formular a doutrina da união
hipostática de Cristo.
Jesus
de Nazaré só foi chamado de Logos pela primeira vez um século depois de sua
morte e por uma aplicação da doutrina do Logos de Filo de Alexandria a Jesus,
ou seja, é uma identificação tardia e apelar a ela é petição de princípio
porque é justamente essa identificação feita por cristãos que está em questão.
Não temos nem mesmo evidência histórica suficiente para dizer que a mãe de
Jesus chamava Maria, a ideia de concepção virginal também é tardia aparecendo
em evangelhos posteriores à queda do Templo de Jerusalém e em dois relatos
natalícios que se contradizem e não passam em critérios de historicidade.
Cristo
não é chamado de Verbo eterno em nenhum lugar dos Evangelhos, sua eternidade
significativa só foi afirmada pela primeira vez no terceiro século por
Alexandre de Alexandria. Além disso, não
temos evidências históricas suficientes para dizer que Jesus ressuscitou. Jesus
de Nazaré abstraído das construções teológicas posteriores e reconstruído pela
historiografia não cumpre nenhuma dos critérios para ser identificado como
Logos encarnado.
Além
disso, os pontos centrais do argumento parasitam de modo evidente a dogmática
cristã, funcionando como uma just-so
story teológica entre muitas alternativas igualmente concebíveis. Mesmo que
se admita que Deus deseje comunicar-se da forma mais perfeita, não há razão
suficiente para concluir que essa comunicação deva ocorrer exatamente nos
moldes da ortodoxia cristã. Deus poderia, por exemplo, encarnar-se múltiplas
vezes; poderia encarnar-se em todo o cosmos; poderia encarnar-se na natureza
humana em geral, e não em um indivíduo particular; poderia comunicar-se sem
precisar sofrer ou morrer; ou ainda poderia realizar a máxima comunicação
divina por meios inteiramente distintos da união hipostática.
Se
a união hipostática exige uma receptora pura, como Maria imaculada, ou se o
Logos deve ser atestado pelo Pai nos relatos do Batismo e da Transfiguração,
então o argumento depende da aceitação de pressupostos que não são
historicamente verificáveis. Por fim, a questão da “farsa” é mal formulada. O
argumento sugere que, se Jesus fosse uma farsa, Deus permitiria um obstáculo à
máxima revelação de sua glória. No entanto, a posição majoritária da pesquisa
histórica sustenta que Jesus nunca reivindicou ser Deus; logo, ele não pode ser
classificado como farsante. Além disso, não há nada de estranho em uma tradição
religiosa historicamente delimitada desenvolver a doutrina da encarnação do
Logos e equivocar-se ao aplicá-la a uma pessoa histórica específica. Tal
equívoco não constitui fraude moral nem teológica e poderia perfeitamente ser
permitido por Deus como parte de um processo pedagógico mais amplo. Os próprios
cristãos precisam admitir que outras tradições, como o hinduísmo, identificaram
incorretamente encarnações divinas.

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