PERCEPÇÃO, IMAGINAÇÃO E O PROBLEMA DA CAUSALIDADE NA FILOSOFIA DE DAVID HUME
O presente trabalho tem por tema a epistemologia de David Hume, examinada a partir de quatro de seus eixos estruturantes: a teoria da percepção e o princípio da cópia, os princípios universais da imaginação, a bifurcação entre relações de ideias e questões de fato, e o problema da causalidade. Trata-se de reconstruir, de modo articulado, o percurso pelo qual Hume funda uma teoria da mente sobre bases empiristas, deslocando progressivamente a justificação do conhecimento humano da razão pura para a experiência e o hábito.
O
objetivo deste trabalho é demonstrar como esses quatro momentos da filosofia
humeana se encadeiam logicamente: a delimitação entre impressões e ideias,
simples e complexas, fornece o solo conceitual sob
re o
qual se assentam tanto a liberdade combinatória da imaginação quanto os limites
do que pode ser legitimamente conhecido. A bifurcação entre relações de ideias
e questões de fato, por sua vez, prepara o terreno para o problema central do
artigo: a impossibilidade de fundamentar racionalmente a necessidade causal, e
a substituição dessa fundamentação racional pelo hábito como princípio
psicológico explicativo da crença humana na regularidade da natureza.
Para
isso, o artigo está organizado em quatro seções. Na primeira, apresenta-se o
princípio da cópia. Na segunda seção, são examinados os três princípios
universais que regem as operações da imaginação (semelhança, contiguidade e
causa e efeito). A terceira seção reconstrói a bifurcação humeana, distinguindo
o conhecimento demonstrativo, fundado na não contradição, do conhecimento
factual, fundado na experiência e na probabilidade. Por fim, a quarta seção
investiga o problema da causalidade propriamente dito.
I.
PRINCÍPIO DA CÓPIA
O
pensamento do filósofo David Hume parte da proposta de uma teoria da mente
humana que concebe os conteúdos que afetam a mente como sendo “percepções”. As
percepções subdividem-se em duas categorias: as impressões e as ideias. A
distinção fundamental entre ambas não é uma diferença de natureza, mas
baseia-se unicamente nos graus de força e vividez com que essas percepções
atingem a mente e penetram na consciência.
As
impressões são as percepções originais e mais vigorosas, compreendendo as
nossas sensações, paixões e emoções no momento em que surgem pela primeira vez
na mente (Hume, 2009, p. 28). As ideias, por sua vez, são descritas como
reflexos ou imagens pálidas e esmaecidas dessas impressões durante os processos
de pensamento e raciocínio. A diferença entre sentir (ter uma impressão) e
pensar (ter uma ideia) é imediata e evidente para qualquer indivíduo.
Para
aprofundar sua análise, Hume (2009, p. 28) introduz uma subdivisão essencial
que se aplica tanto às impressões quanto às ideias: as percepções podem ser
classificadas como simples ou complexas. As percepções simples são irredutíveis
e indivisíveis, ou seja, não admitem qualquer separação ou distinção em partes
menores (como a percepção pura de uma cor específica, um sabor ou um aroma
isolado). As percepções complexas, ao contrário, são compostas e podem ser
divididas e analisadas em suas diversas partes. A percepção de uma maçã, por
exemplo, é uma impressão complexa, pois a mente é capaz de distinguir nela
diferentes qualidades sensíveis que estão reunidas, como a cor vermelha, a
forma arredondada, o sabor adocicado e a textura.
Num
primeiro momento, a observação dessas categorias pode sugerir que há uma
semelhança e uma correspondência exata entre todas as impressões e ideias, de
modo que toda ideia seria uma cópia perfeita de uma impressão anterior.
Todavia, Hume percebe rapidamente que essa regra é falha no domínio das
percepções complexas.
O
descompasso ocorre em duas vias: primeiro, a mente é perfeitamente capaz de
formar a ideia complexa da “Nova Jerusalém”, uma cidade imaginária com ruas
pavimentadas de ouro e muros de rubis, sem que jamais tenha tido uma impressão
sensorial complexa dessa cidade (Hume, 2009, p. 29). Segundo, mesmo quando
experienciamos um objeto real, como a complexidade da cidade de Paris, somos
incapazes de formar uma ideia complexa que retenha e represente com exata
precisão todas as suas ruas e casas em suas proporções corretas.
É
exatamente para solucionar esse descompasso epistemológico que Hume formula o
Princípio da Cópia, direcionando-o exclusivamente aos elementos irredutíveis da
percepção. O princípio declara que “todas as nossas ideias simples, em sua
primeira aparição, derivam de impressões simples, que lhes correspondem e que
elas representam com exatidão” (Hume, 2009, p. 28). Ao deslocar o foco para o
domínio do simples, a relação de cópia torna-se rigorosa e universal: é
impossível encontrar uma ideia simples (como a ideia de um tom específico de
vermelho) que não tenha sido precedida e causada por uma impressão simples
exata que lhe corresponda. Toda a nossa matéria-prima mental, por mais abstrata
que pareça, é ultimamente derivada dessas unidades básicas da experiência.
A
partir da delimitação imposta por esse princípio, Hume consegue explicar a
imensa liberdade criativa da faculdade da imaginação. Embora os limites do
pensamento estejam confinados ao material simples fornecido pelos sentidos, a
imaginação possui o poder de transpor, transformar, separar e unir as ideias
simples da forma que bem entender. É através desse processo de composição que a
mente pode gerar arranjos arbitrários, criando ideias complexas de monstros,
quimeras ou cavalos alados, simplesmente aglomerando características e ideias
simples que foram previamente atestadas e derivadas de impressões na realidade.
II.
Princípios Universais da Imaginação
A
imaginação é descrita por Hume como uma faculdade que atua com ideias menos
vívidas (que são cópias esmaecidas das impressões) e que possui uma liberdade
quase irrestrita para compor e decompor essas percepções (Hume, 2004, p. 34;
Seneda, 2013, p. 14). Graças a essa extrema liberdade, a imaginação tem o poder
de “transpor e transformar suas ideias”, separando e unindo percepções da forma
que bem entender (Hume, 2009, p. 34). É essa liberdade que explica a nossa
capacidade de conceber ficções, como cavalos alados ou dragões de fogo, criadas
a partir da junção arbitrária de ideias simples (Hume, 2009, p. 34).
No
entanto, Hume nota que, se as ideias andassem inteiramente soltas e desconexas,
sendo unidas apenas pelo acaso, a mente humana seria um caos e seria impossível
que ideias simples se agrupassem regularmente em ideias complexas. Para que o
nosso pensamento tenha coerência, a imaginação é guiada por princípios
universais que conferem certa uniformidade às suas operações em diferentes
tempos e lugares (Hume, 2001, p. 31).
Hume
descreve esse princípio de união não como uma conexão inseparável (visto que a
mente é livre para separar ideias), mas sim como uma “força suave, que comumente
prevalece” (Hume, 2001, p. 34). Essa força associativa atua no mundo mental de
forma análoga a uma atração gravitacional no mundo físico, produzindo efeitos
extraordinários e variados ao guiar a mente naturalmente de uma ideia a outra
(Hume, 2001, p. 35). Essa atração não é uma regra imposta de fora, mas sim o
resultado de qualidades imanentes às próprias percepções, de modo que são as
ideias que se inter-relacionam e geram as operações regulares que chamamos de
imaginação (Seneda, 2013, p. 16).
Essas
qualidades associativas, que formam os três princípios universais da
imaginação, são (Hume, 2009, p. 35; Hume, 2004, p. 42):
1. Semelhança: A imaginação transita com grande
facilidade de uma ideia para qualquer outra que se lhe assemelhe, sendo essa
qualidade, por si só, um vínculo suficiente para guiar a fantasia (Hume, 2009,
p. 35). Um exemplo claro dessa associação ocorre quando observamos um retrato,
o qual conduz naturalmente os nossos pensamentos para a pessoa original que ele
representa (Hume, 2004, p. 42).
2. Contiguidade no
tempo ou no espaço:
Como os nossos sentidos precisam operar de modo regular, passando de um objeto
a outro conforme a sua adjacência (física ou temporal), a imaginação adquire,
por meio de um longo costume, esse mesmo método de percorrer as partes do
espaço e do tempo ao conceber os seus objetos (Hume, 2009, p. 35). Assim, a
menção a um objeto nos faz pensar naquilo que lhe é contíguo, da mesma forma
que a menção a um cômodo de uma habitação leva naturalmente a mente a indagar
ou observar os demais cômodos (Hume, 2004, p. 41-42).
3. Causa e Efeito: É considerada a conexão mais forte
na fantasia, sendo aquela que faz com que uma ideia evoque o seu correlato da
maneira mais pronta e vigorosa (Hume, 2009, p. 35-36). Essa relação é também a
de maior extensão, ocorrendo quando um objeto é a causa da ação, do movimento
ou da própria existência de outro (Hume, 2009, p. 36). Um exemplo clássico
dessa associação é o pensamento sobre um ferimento, que faz com que dificilmente
consigamos evitar a reflexão imediata sobre a dor que o acompanha (Hume, 2004,
p. 42).
III. A BIFURCAÇÃO
DE HUME
A
“Bifurcação de Hume” (Hume’s fork) estabelece
uma fronteira epistemológica entre as diferentes formas de conhecimento
alcançáveis pela mente humana, dividindo todos os objetos da razão ou
investigação em dois tipos categóricos: Relações de Ideias (relations of ideas) e Questões de Fato (matters of fact) (Hume, 2004, p. 53).
Essa demarcação estrita é fundamental no interior da filosofia experimental de
Hume para distinguir o que pode ser conhecido pela pura operação do pensamento
daquilo que exige, incontornavelmente, a observação e a empiria (Seneda, 2020, p. 88).
Na
categoria das Relações de Ideias, encontram-se as ciências puramente
demonstrativas, tais como a Geometria, a Álgebra e a Aritmética, cujas
proposições são intuitiva ou demonstrativamente certas (Hume, 2004, p. 53). O
conhecimento derivado das relações de ideias é estabelecido de modo
estritamente analítico e dedutivo, pois suas verdades são descobertas “pela
simples operação do pensamento, independentemente do que possa existir em
qualquer parte do universo” (Hume, 2004, p. 53). Isso significa que, mesmo que
jamais houvesse existido um círculo perfeito ou um triângulo na natureza
empírica, as verdades matemáticas demonstradas por Euclides conservariam para
sempre a sua certeza e evidência irrefutáveis (Hume, 2004, p. 53).
O
raciocínio demonstrativo opera exclusivamente no âmbito das relações de ideias
(Seneda, 2020, p. 92). Por conseguinte, a característica lógica central das
proposições desta classe é que a sua negação implica uma contradição evidente e
incontornável (Hume, 2004, p. 53). Seria completamente vão tentar conceber
distintamente o oposto de uma verdade demonstrativa, uma vez que uma
impossibilidade lógica (aquilo que é contraditório) não pode sequer ser
concebida de forma clara pela mente (Hume, 2004, p. 53-54; Seneda, 2020, p.
90).
Em
contrapartida, as Questões de Fato constituem o segundo tipo de objetos da razão
humana. Elas não são apuradas mediante demonstrações lógicas a priori e, por isso, não possuem a
mesma natureza de evidência ou certeza que as relações de ideias (Hume, 2004,
p. 53). O raciocínio aplicado a esta categoria é classificado por Hume (2004,
p. 64) como raciocínio moral ou provável, referente a fatos concretos e à
existência efetiva.
A
marca definidora e o grande princípio dessa categoria é que “o contrário de
toda questão de fato permanece sendo possível, porque não pode jamais implicar
contradição” (Hume, 2004, p. 53-54). A mente humana consegue conceber o seu
oposto com total facilidade e clareza, como se fosse algo perfeitamente
inteligível e ajustável à realidade (Hume, 2004, p. 53).
Hume
ilustra essa contingência com um célebre exemplo: a proposição de que “o sol
não nascerá amanhã” não é menos inteligível e nem implica mais contradição do
que a afirmação de que ele nascerá, sendo impossível demonstrar logicamente a
sua falsidade (Hume, 2004, p. 53-54). Da mesma forma, não há contradição lógica
nenhuma em conceber de forma clara e distinta que uma árvore perca suas folhas
no verão, ou que algo caído das nuvens com a aparência da neve venha a ter o
gosto de sal ou transmitir a sensação de fogo (Hume, 2004, p. 64-65).
Logo,
como nenhuma relação de ideias pode invalidar ou provar uma questão de fato
(Seneda, 2020, p. 90), conclui-se que o conhecimento factual só pode ser
fundamentado e validado empiricamente, sendo inteiramente impossível inferir
existências, causas ou efeitos sem o lastro da experiência (Hume, 2004, p. 58).
Enquanto o conhecimento demonstrativo das relações de ideias não admite dúvidas
ou dificuldades, as questões de fato se apoiam estritamente na probabilidade e
na experiência empírica, cujas inferências derivam de forma exclusiva da
relação de causa e efeito imposta pelo hábito (Seneda, 2020, p. 92; Hume, 2004,
p. 54).
IV. O PROBLEMA
DA CAUSALIDADE
Visto
que as questões de fato se caracterizam por não poderem ser demonstradas a priori, ao investigar a natureza da
evidência que nos assegura da existência real das coisas para além da percepção
presente, Hume conclui que todos os raciocínios que vão além do testemunho
imediato de nossos sentidos e dos registros de nossa memória fundamentam-se
exclusivamente na relação de causa e efeito: “Todos os raciocínios relativos à
questão de fato parecem fundar-se na relação de causa e efeito. Só mediante
esta relação podemos ir além do testemunho da nossa memória e imaginação”
(Hume, 2004, p. 54).
Assim,
Hume estabelece que todo o nosso conhecimento direto e indubitável sobre o
mundo empírico (considerado no interior da experiência) está restrito àquilo
que estamos experimentando no exato momento (as impressões presentes dos
sentidos) ou àquilo que retivemos em nossa mente de experiências passadas (a
memória). No entanto, o conhecimento humano seria extremamente limitado se não
pudesse transcender essa barreira. É nesse ponto que a causalidade entra como a
ferramenta fundamental da mente.
Para
explicar como a causalidade atua como a única ponte capaz de nos transportar do
conhecido (presente) para o desconhecido (ausente), Hume utiliza exemplos
precisos. A suposição de uma ligação causal é o que permite à mente inferir a
existência de algo que não está acessível sensorialmente no momento. Como Hume
(2004, p. 54) ilustra: “Um homem que encontre um relógio ou qualquer outra
máquina em uma ilha deserta concluirá que homens estiveram anteriormente nessa
ilha”.
O
relógio (objeto presente aos sentidos) atua como o efeito visível, a partir do
qual a mente salta em direção à causa oculta (a presença anterior de seres
humanos). Hume enfatiza que todo raciocínio sobre existências factuais opera
dessa forma: “E aqui se supõe invariavelmente que há uma conexão entre o fato
presente e o fato que dele se infere. Se nada houvesse que os ligasse, a
inferência seria completamente incerta” (Hume, 2004, p. 54-55).
Ao
assinalar que toda inferência sobre existências reais que transgride os limites
imediatos da mente têm a causalidade como condição de possibilidade, é preciso
também notar que essa “ponte epistêmica” não paira no vazio; ela precisa estar
ancorada em uma das margens da realidade presente. A razão não pode deduzir
existências a priori. É por isso que
Hume adverte:
Se não
partirmos de algum fato, presente à memória ou aos sentidos, nossos raciocínios
serão puramente hipotéticos, e, por melhor que os elos individuais pudessem
estar conectados uns aos outros, a cadeia de inferências, como um todo, nada
teria que lhe dessa sustentação, e jamais poderíamos, por meio dela, chegar ao
conhecimento da existência efetiva de qualquer coisa (Hume, 2004, p. 77-78).
É
apenas supondo uma ligação causal (como inferir a existência pretérita de seres
humanos ao encontrar um relógio em uma ilha deserta, ou o fogo ao avistar
fumaça) que a mente consegue ultrapassar a barreira do que está experimentando
no agora. No entanto, ao analisar como operamos com essa relação causal, Hume
levanta um problema epistemológico central: o que fundamenta nossa confiança de
que as causas produzirão sempre os mesmos efeitos? A sua resposta é que essa
confiança nas inferências causais não decorre de nenhum processo do raciocínio
ou do entendimento racional (Hume, 2004, p. 71).
A
razão é incapaz de prever o futuro com base no passado porque não existe
nenhuma contradição em supor que o curso da natureza venha a se modificar e que
um objeto, apesar de ter qualidades sensíveis semelhantes às que já conhecemos
(como a aparência do pão), perca subitamente os seus poderes secretos (como a
capacidade de nos nutrir). Se a razão não é capaz de garantir racionalmente a
uniformidade da natureza, deve haver outro princípio determinante na mente
humana. Para Hume, o que nos determina a transferir o passado para o futuro e a
realizar essa inferência é o Hábito ou Costume (Hume, 2004, p. 74).
O
hábito atua como um princípio instintivo e mecânico da natureza humana. Ele é
definido como a propensão que adquirimos para realizar um determinado ato ou
transição mental simplesmente pela força da repetição prévia, sem o auxílio ou
intermédio de qualquer argumentação dedutiva. Após observarmos uma conjunção
constante de dois eventos no passado (por exemplo, a chama sempre acompanhada
do calor), o hábito atua de forma sensível na imaginação e faz com que, tão
logo apareça a causa aos nossos sentidos, a mente transite imediata e
espontaneamente para a ideia de seu acompanhante usual, concebendo o efeito e
acreditando em sua existência. É essa propensão instintiva que confere “força e
vividez” à nova ideia imaginada, gerando a crença nas ligações de causa e
efeito.
Hume
consagra que o hábito é o “grande guia da vida humana” (Hume, 2004, p. 77). É
unicamente a influência do costume que torna a nossa experiência passada útil
para nós, permitindo nossa sobrevivência ao induzir-nos a esperar pela
continuidade da uniformidade da natureza. Sem a atuação constante do hábito,
seríamos totalmente ignorantes de qualquer matéria de fato para além da
percepção imediata dos sentidos, e jamais saberíamos como adequar meios aos
nossos fins ou empregar as nossas capacidades para agir de forma útil no mundo.
A natureza humana estaria arruinada caso nossa mente dependesse de lentos
raciocínios intelectuais, em vez do ágil instinto do hábito, para reger as
nossas inferências perante a realidade empírica.
Desse
modo, o pensamento de Hume é crítico à associação entre causalidade e
necessidade. Ele observa:
Nunca poderíamos demonstrar a necessidade
de uma causa para toda nova existência ou para toda nova modificação de
existência sem mostrar, ao mesmo tempo, a impossibilidade de que alguma coisa
comece a existir sem algum princípio produtivo. E se esta última proposição não
puder ser provada, deve-se perder qualquer esperança de jamais provar a
primeira. [Ora...] a separação da ideia de uma causa da ideia de um começo de
existência é claramente possível para a imaginação (Hume, 2009, T 1.3.3.3).
Na
tradição filosófica que antecede Hume, a máxima de que “tudo o que começa a
existir deve ter uma causa” era tratada como uma verdade autoevidente, dotada
de certeza intuitiva e demonstrativa (semelhante às verdades matemáticas). Hume
desafia frontalmente esse status epistemológico.
O seu argumento baseia-se no princípio da separabilidade. Segundo esse
princípio, qualquer coisa que a mente consiga conceber de forma clara e
distinta como separada pode, metafisicamente e de fato, existir de forma
separada, sem que isso gere uma contradição lógica: “...uma vez que qualquer
causa individual é necessariamente precedente ao começo da existência do seu
efeito, causa e efeito são, por definição, existências distintas...” (Waxman,
1994, p. 144, tradução minha).
Sendo
entidades e ideias ontologicamente distintas, elas não estão amarradas por
nenhuma necessidade lógica que proíba a mente de pensá-las separadamente. É por
isso que Hume demonstra que a máxima causal falha no teste da demonstração a priori:
Como todas as ideias distintas são
separáveis umas das outras, e como as ideias de causa e efeito são
evidentemente distintas, será fácil para nós concebermos qualquer objeto não
existindo neste momento, e existindo no próximo, sem conjugarmos a ele a ideia
distinta de uma causa ou princípio produtivo (Waxman, 1994, p. 143).
A
força do argumento reside na capacidade da nossa imaginação. Se a máxima causal
possuísse uma certeza demonstrativa (como afirmar que 2+2=4), conceber o seu
oposto deveria gerar um absurdo incontornável na mente (como conceber um
triângulo de quatro lados). No entanto, a nossa imaginação é perfeitamente
capaz de visualizar um objeto surgindo do nada (um começo de existência) sem
ter de figurar, simultaneamente, um agente que o tenha criado (uma causa
produtiva).
A
consequência filosófica dessa experiência mental é devastadora para o
racionalismo, pois:
A separação, portanto, da ideia de uma
causa da de um começo de existência é claramente possível para a imaginação; e,
consequentemente, a separação atual desses objetos é tão possível que não
implica contradição nem absurdo; e é, portanto, incapaz de ser refutada por
qualquer raciocínio a partir de meras ideias (Waxman, 1994, p. 143-144).
Com
isso, Hume busca provar que a ligação entre um evento e a sua causa não pode
ser inferida pela simples operação intelectual, não detendo certeza
demonstrativa nem intuitiva. Se a razão lógica não é o que nos obriga a
acreditar que todo o evento exige uma causa, o que instaura em nós essa crença
tão inabalável de que as coisas não surgem simplesmente do nada? Ao retirar a
causalidade do domínio do raciocínio puramente abstrato (relações de ideias),
Hume a assenta firmemente no terreno da experiência empírica (questões de
fato).
A
crença na máxima causal não é um ditame da razão pura, mas sim algo incutido em
nós pelo costume ou hábito. Como estamos expostos, desde o nosso nascimento, a
uma “conjunção constante” de eventos na natureza (onde sempre observamos que a
uma causa se segue um efeito), o nosso aparato psicológico é treinado para
realizar inferências causais de forma imediata. O intelecto, condicionado pela
força repetitiva dessa experiência empírica, projeta essa necessidade na
natureza. Portanto, a crença na inevitabilidade de causas para todos os efeitos
não decorre de uma prova matemática ou formal, mas repousa unicamente na força
imperativa do costume forjado pela observação contínua do mundo empírico:
Em suma, todo o efeito é, pois, um evento
distinto da sua causa. Não podia, por conseguinte, descobrir-se na causa, e a
primeira invenção ou concepção dele, a priori, deve ser inteiramente
arbitrária. E mesmo depois de ter sido sugerida, a conjunção dele com a causa
deve surgir igualmente arbitrária, visto que há sempre muitos outros efeitos
que, para a razão, devem parecer plenamente tão consistentes e naturais. Em
vão, pois, pretenderemos determinar qualquer evento singular ou inferir
qualquer causa ou efeito, sem a ajuda da observação e da experiência (Hume,
2004, Investigação, Seção IV).
Se
nos fosse apresentado um objeto totalmente inédito, a razão humana seria
incapaz de extrair as suas causas secretas ou antecipar os seus efeitos apenas
inspecionando as suas qualidades sensíveis. Hume (2004, p. 56) ilustra essa
limitação cognitiva do entendimento puro com a figura do primeiro homem,
desprovido de memória empírica: “Adão, ainda que supuséssemos que suas
faculdades racionais fossem inteiramente perfeitas desde o início, não poderia
ter inferido da fluidez e transparência da água que ela o sufocaria” (Hume,
2004, p. 56). Fica provado, assim, que “nenhum objeto jamais revela, pelas
qualidades que aparecem aos sentidos, nem as causas que o produziram, nem os
efeitos que dele provirão” (Hume, 2004, p. 56).
A
justificação epistemológica para essa “cegueira” da razão reside no fato de que
causa e efeito são eventos ontologicamente separados, não havendo um elo
dedutivo que os conecte de forma demonstrativa na mente. A análise visual de
uma ocorrência nunca trará embutida a prefiguração irrefutável do que se lhe
seguirá: “O movimento da segunda bola de bilhar é um acontecimento
completamente distinto do movimento da primeira, e não há nada em um deles que
possa fornecer a menor pista acerca do outro” (Hume, 2004, p. 58). Como não há
implicação lógica mútua, a mente é incapaz de descobrir racionalmente o efeito
contido na causa.
Sendo
eventos distintos, se a mente tentasse prever o futuro guiando-se estritamente
pela lógica abstrata (onde apenas o que implica contradição é rejeitado), a sua
concepção prévia seria solta e aleatória. Sem o auxílio da experiência, a
imaginação poderia conceber infinitos efeitos possíveis que não seriam
logicamente contraditórios entre si. Voltando ao choque entre as bolas de
bilhar, Hume observa:
Não poderiam ambas as
bolas permanecer em absoluto repouso? Não poderia a primeira bola recuar em
linha reta ou saltar para longe da segunda em qualquer curso ou direção? Todas
essas suposições são consistentes e concebíveis” (Hume, 2004, p. 58-59).
Como
a razão aprova todas essas suposições arbitrárias de forma equânime, ela se
mostra muda para eleger qual evento ocorrerá na realidade material: “Todos os
nossos raciocínios a priori serão para sempre incapazes de nos mostrar qualquer
fundamento para essa preferência” (Hume, 2004, p. 59). O que confere peso a uma
inferência causal específica, preterindo todas as demais hipóteses igualmente
não contraditórias, é exclusivamente a repetição atestada pelos sentidos ao
longo do tempo. É a observação de uma conjunção constante entre dois fenômenos
no passado que cria o lastro indutivo para a mente, provando conclusivamente
que “em vão, portanto, pretenderíamos determinar qualquer ocorrência individual,
ou inferir qualquer causa ou efeito, sem a assistência da observação e
experiência” (Hume, 2004, p. 59).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo deste trabalho, procurou-se demonstrar como a
epistemologia de David Hume constitui um sistema rigorosamente articulado, no
qual cada etapa argumentativa prepara as condições para a etapa seguinte. O
princípio da cópia, ao restringir a correspondência exata entre impressões e
ideias ao domínio do simples, não apenas resolve o descompasso entre percepções
complexas inéditas e a experiência sensorial pregressa, como também abre espaço
para que a imaginação opere com ampla liberdade combinatória, desde que
ancorada, em última instância, nos elementos simples fornecidos pelos sentidos.
Essa liberdade, contudo, não é caótica: os três princípios
universais da imaginação, semelhança, contiguidade e causa e efeito, garantem a
regularidade necessária para que o pensamento humano não se disperse em
associações puramente arbitrárias. Essas associações permitem que uma ideia
introduza naturalmente a outra no fluxo do pensamento.
A bifurcação entre relações de ideias e questões de fato, por
sua vez, evidenciou que apenas o primeiro domínio admite certeza demonstrativa,
fundada na não contradição lógica, ao passo que o segundo depende inteiramente
da experiência e da probabilidade. Essa distinção mostrou-se decisiva para o
problema central do artigo: a causalidade, enquanto princípio que nos permite
transcender o testemunho imediato dos sentidos e da memória, não pode ser
justificada a priori, pois a negação de qualquer conexão causal específica
nunca implica contradição lógica. A separabilidade entre causa e efeito,
demonstrada pela capacidade da imaginação de conceber um objeto começando a
existir sem um princípio produtivo correspondente, confirma que a necessidade
causal não é uma verdade da razão, mas uma crença instituída pelo hábito.
Conclui-se, portanto, que o edifício epistemológico humeano
substitui sistematicamente a pretensão racionalista de fundamentação a priori por uma explicação psicológica
e empírica do funcionamento da mente. O hábito, descrito por Hume como o
“grande guia da vida humana”, emerge como o princípio que torna possível a
própria vida prática, ao permitir que a experiência passada oriente, de forma
confiável ainda que não demonstrável, as expectativas sobre o futuro.
REFERÊNCIAS
HUME,
David. Investigações sobre o entendimento
humano e sobre os princípios da moral. Tradução de José Oscar de Almeida
Marques. São Paulo: Editora UNESP, 2004.
HUME, David. Tratado da natureza humana: uma tentativa de
introduzir o método experimental de raciocínio nos assuntos morais.
Tradução de Débora Danowski. 2. ed. rev. e ampliada. São Paulo: Editora UNESP,
2009.
SENEDA, Marcos César. A
aquisição da memória e da imaginação na filosofia experimental de David Hume. Síntese - Revista de Filosofia, Belo
Horizonte, v. 40, n. 126, p. 5-23, 2013.
SENEDA, Marcos César. O
problema das definições e demonstrações geométricas no Tratado de David Hume. Revista Estudos Hum(e)anos, v. 8, n. 2,
p. 79-99, 2020.
WAXMAN, Wayne. Hume's Theory of Consciousness.
Cambridge: Cambridge University Press, 1994.

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