INTRODUÇÃO À FILOSOFIA DA MENTE
O objetivo deste texto consiste em apresentar uma Introdução à Filosofia da Mente. O texto se divide nas seguintes partes: (i) Dualismo de Substância; (ii) Behaviorismo lógico; (iii) Teoria da Identidade; (iv) Funcionalismo; (v) Materialismo Eliminativo; (vi) Mente estendida. O texto é baseado no curso do filósofo Kane B sobre o assunto.
I.
DUALISMO DE SUBSTÂNCIA
A investigação filosófica sobre a
relação entre mente e corpo nasce de uma dificuldade aparentemente simples: como compreender a existência de experiências
subjetivas em um mundo descrito pela ciência como composto por entidades
físicas? A pergunta adquire uma forma mais precisa quando se considera que
seres humanos possuem estados mentais, como
pensamentos, sensações e desejos, cuja existência parece apresentar
características que não são facilmente encontradas nos objetos materiais.
É nesse contexto que surge o dualismo de substância, uma posição
metafísica segundo a qual a realidade humana envolve dois tipos fundamentais de
substância: uma dimensão física
responsável pela extensão espacial e uma dimensão mental caracterizada pelo
pensamento.
A formulação mais influente dessa
concepção encontra-se na filosofia de René
Descartes. De acordo com o dualismo cartesiano, a essência da matéria
consiste na extensão, isto é, na capacidade de ocupar um lugar no espaço e
possuir propriedades mensuráveis, como tamanho, forma e movimento. A mente, por
sua vez, possui como característica fundamental o pensamento, entendido como a
atividade consciente pela qual o sujeito percebe, duvida, deseja e compreende.
Essa distinção surge de uma separação
ontológica: mente e corpo seriam substâncias cuja natureza fundamental não
poderia ser reduzida uma à outra.
O argumento cartesiano encontra força em uma intuição relacionada ao
modo como experimentamos nossa própria consciência.
Quando alguém sente dor, acredita em uma proposição ou imagina uma situação
inexistente, parece estar diante de algo que não possui localização espacial
determinada. Não parece haver sentido em perguntar qual é a extensão física de
uma crença ou qual a forma geométrica de um pensamento.
Essa dificuldade conduz a uma
questão mais profunda: se os estados mentais possuem características que
escapam à descrição física comum, talvez eles pertençam a uma dimensão da
realidade que não pode ser explicada inteiramente pelos conceitos utilizados
para compreender objetos materiais.
Esse problema aparece com maior
intensidade na chamada lacuna
explicativa, conceito que designa a dificuldade de compreender como
processos físicos poderiam dar origem à experiência
consciente. A questão não envolve apenas descobrir quais regiões cerebrais
participam de determinado estado mental. A neurociência consegue investigar
relações entre atividades cerebrais e experiências conscientes, identificando
correlações entre processos neuronais e estados psicológicos. A dificuldade
filosófica permanece quando se pergunta por que esses processos físicos são
acompanhados por uma experiência subjetiva.
O caso da dor permite perceber essa problemática. É possível
explicar, em termos fisiológicos, como um estímulo nocivo ativa terminações
nervosas, transmite sinais ao sistema nervoso e provoca respostas corporais.
Surge, porém, uma pergunta adicional: por
que essa atividade neural é acompanhada pela sensação de dor? Por que existe algo que é sentir dor, em vez
de ocorrer apenas uma cadeia de processos físicos sem qualquer experiência
interior? O argumento da lacuna explicativa explora justamente essa
passagem aparentemente difícil entre uma descrição objetiva do cérebro e a
existência de uma perspectiva subjetiva.
Essa dificuldade também aparece
quando se examina a intencionalidade.
De acordo com o conceito de intencionalidade, os estados mentais possuem a
característica de serem direcionados a algo, isto é, apresentam conteúdo ou
referência. Uma crença possui uma relação com aquilo que representa; um
pensamento sobre uma pessoa, um lugar ou uma situação envolve uma espécie de
direcionamento mental. O problema consiste em compreender como estruturas
físicas compostas por processos materiais poderiam adquirir essa propriedade de
representar algo.
A dificuldade torna-se mais
evidente quando se observa que pensamentos podem possuir conteúdo mesmo quando
aquilo a que se referem não existe. Uma pessoa pode imaginar uma criatura
fictícia ou acreditar em algo falso. A mente parece possuir uma capacidade representacional que
ultrapassa a simples relação causal entre objetos físicos. Uma configuração de
matéria pode provocar efeitos, alterar outros corpos ou produzir movimentos,
mas a ideia de que ela seja literalmente “sobre” alguma coisa exige uma
explicação adicional.
Outro ponto central da discussão
envolve os qualia, termo utilizado na filosofia da mente para designar os
aspectos subjetivos da experiência, isto é, aquilo que caracteriza como é vivenciar determinado estado
consciente. Ver uma cor específica, experimentar um sabor ou sentir uma emoção
envolve uma dimensão fenomenal que parece acessível apenas ao sujeito da
experiência.
A investigação filosófica dos qualia levou David Chalmers, a formular o chamado problema difícil da consciência. Segundo essa formulação, mesmo que
fosse possível explicar completamente os mecanismos responsáveis pelo
comportamento, pela atenção ou pela comunicação, ainda permaneceria a questão
de compreender por que esses processos físicos são acompanhados por uma
experiência consciente.
O dualismo de substância surge,
nesse cenário, como uma tentativa de preservar a diferença entre processos físicos e experiências mentais. Se a
consciência possui características que parecem escapar às explicações materiais
disponíveis, uma possibilidade seria admitir que a mente constitui uma
realidade distinta do corpo. Essa hipótese possui uma força intuitiva porque
leva a sério a singularidade da experiência subjetiva. A história da filosofia
da mente, entretanto, mostrou que essa solução enfrenta dificuldades próprias.
A principal objeção ao dualismo
cartesiano envolve o problema da
interação. Se mente e corpo pertencem a substâncias diferentes, torna-se
necessário explicar como uma entidade imaterial poderia produzir efeitos em um
organismo físico. A experiência cotidiana parece indicar que existe influência mútua: decisões conscientes
orientam ações corporais, enquanto alterações físicas no organismo modificam
estados mentais.
A dificuldade está em compreender
qual seria o mecanismo dessa
relação. Uma substância definida
pela ausência de propriedades espaciais parece não oferecer uma explicação
clara para sua capacidade de interferir em processos materiais.
Outra dificuldade decorre da dependência entre estados mentais e
funcionamento cerebral. As evidências sobre a relação entre cérebro e mente
colocam pressão sobre versões fortes do dualismo. Alterações cerebrais provocadas por lesões, doenças ou intervenções
químicas podem modificar memória, personalidade, percepção e consciência.
A investigação científica sugere
que determinadas capacidades mentais dependem de estruturas neurais
específicas. Essa dependência parece indicar que compreender a mente exige
examinar profundamente a organização física do cérebro.
II.
BEHAVIORISMO LÓGICO
Uma das questões que
atravessam a filosofia da mente consiste em compreender o que fazemos quando
atribuímos estados mentais a alguém. Quando dizemos que uma pessoa acredita em
determinada proposição, deseja um objeto ou sente dor, parece natural supor que
estamos descrevendo algo que ocorre em seu interior.
Essa interpretação,
embora bastante difundida, passou a ser alvo de críticas no contexto da filosofia
analítica do século XX. A investigação deixou de perguntar qual é a natureza da
mente para examinar o significado da própria linguagem mental. É nesse
deslocamento que se torna possível compreender o surgimento do behaviorismo lógico.
De acordo com a teoria do behaviorismo lógico,
expressões psicológicas não devem ser entendidas como nomes de acontecimentos
privados acessíveis apenas ao próprio sujeito. O objetivo consiste em mostrar
que o significado desses termos pode ser inteiramente compreendido a partir de critérios públicos de uso. Surge,
então, a hipótese de que falar sobre crenças, desejos, intenções ou dores
equivale a descrever modos característicos de comportamento ou disposições para agir em determinadas
circunstâncias.
Essa referência às disposições
desempenha um papel decisivo. Um comportamento isolado dificilmente seria
suficiente para explicar o emprego de um conceito mental. Uma pessoa pode
suportar a dor em silêncio ou fingir sofrimento sem experimentá-lo.
Diante de casos como
esses, o behaviorismo lógico procura ampliar o foco da análise. Em vez de
identificar um estado mental com uma única ação observável, propõe
compreendê-lo como um conjunto de
tendências comportamentais que se manifestariam caso certas condições
fossem satisfeitas. Dizer que alguém sente dor envolve atribuir-lhe uma disposição relativamente estável para
reagir de maneiras características, como proteger a parte lesionada, evitar
novos estímulos nocivos ou buscar alívio.
Essa reconstrução
depende de uma concepção específica da análise filosófica. Segundo o
behaviorismo lógico, a relação entre estados mentais e disposições
comportamentais pertence ao próprio significado dos conceitos psicológicos. A proposta não consiste em formular uma
hipótese empírica sobre o funcionamento do cérebro, tampouco em descobrir uma causa
oculta do comportamento, o problema é tratado como uma investigação conceitual. A pergunta deixa de ser “o que produz a raiva?” e passa a ser “o
que queremos dizer quando atribuímos raiva a alguém?”.
Esse ponto permite compreender por que os behavioristas não
pretendiam eliminar a linguagem cotidiana
da psicologia. Frases como “João quebrou
o computador porque estava com raiva” continuam fazendo parte da
comunicação ordinária. O que muda é a interpretação filosófica dessa
atribuição. De acordo com essa perspectiva, a referência à raiva não introduz
uma entidade mental privada que posteriormente produz o comportamento, a função
da expressão consiste em caracterizar um padrão
de conduta e as circunstâncias nas quais esse padrão tende a ocorrer.
A motivação dessa proposta torna-se mais compreensível quando
se considera o ambiente intelectual em que ela foi desenvolvida. Grande parte
da filosofia analítica da primeira metade do século XX buscava estabelecer critérios
rigorosos para o uso significativo da linguagem. Ao mesmo tempo, a psicologia
procurava consolidar-se como disciplina científica.
Diante desse contexto, parecia razoável perguntar se
conceitos definidos por experiências estritamente privadas poderiam desempenhar
algum papel em uma investigação objetiva. Caso ninguém possa observar
diretamente os estados mentais de outra pessoa, surge a dificuldade de explicar
como esses conceitos poderiam possuir critérios públicos de aplicação. O
behaviorismo lógico procura responder precisamente a essa dificuldade ao
localizar esses critérios no comportamento observável e nas disposições
comportamentais.
Apesar da influência que exerceu durante várias décadas, essa
teoria passou a enfrentar objeções que colocaram em dúvida sua capacidade
explicativa. Uma delas parte da própria experiência
consciente. Quando alguém sente dor, experimenta medo ou recorda um
acontecimento da infância, parece haver um aspecto
fenomenológico que acompanha essas experiências.
De acordo com essa objeção, reduzir conceitos mentais a
disposições comportamentais deixa sem explicação aquilo que torna essas
experiências subjetivamente vividas. A crítica não depende da ideia de uma
substância imaterial, ela apenas sustenta que existe uma dimensão interna cuja
presença continua exigindo esclarecimento.
Outra objeção revelou dificuldades internas na própria estratégia de análise conceitual. A
proposta behaviorista pretendia explicar estados mentais recorrendo
exclusivamente a disposições para agir. O problema surge quando se procura
reconstruir essas disposições de maneira suficientemente precisa.
Suponha-se o caso de alguém que deseja uma laranja. Uma
análise inicial poderia dizer que essa pessoa tenderá a dirigir-se até a
cozinha para buscá-la. Logo aparece uma complicação. Esse comportamento depende
de outras condições, como acreditar que existem laranjas na cozinha, desejar
alimentar-se naquele momento ou não possuir objetivos considerados mais
urgentes. Cada tentativa de especificar essas condições acaba recorrendo
novamente a crenças, desejos, intenções e outras noções mentais.
Ao que tudo indica, essa dificuldade produz uma consequência
relevante para a investigação filosófica. Se a análise de um conceito
psicológico exige a utilização de outros conceitos psicológicos, torna-se
difícil sustentar que o vocabulário mental possa ser inteiramente reconstruído
em termos comportamentais. Foi
justamente essa percepção que contribuiu para o enfraquecimento do behaviorismo
lógico e abriu espaço para novas teorias da mente.
III. TEORIA DA
IDENTIDADE
O abandono progressivo
do dualismo de substância e do behaviorismo lógico deixou uma questão em
aberto. Se a mente não constitui uma substância independente do corpo e os
conceitos psicológicos não podem ser reduzidos ao comportamento observável,
cabe perguntar onde os estados mentais
devem ser localizados. A investigação filosófica passou então a acompanhar
mais de perto os avanços das
neurociências, motivada pela expectativa de que a relação entre mente e
cérebro pudesse ser compreendida como um caso de identidade entre fenômenos que
inicialmente pareciam distintos.
De acordo com a Teoria da Identidade, cada tipo de estado mental corresponde ao
mesmo tipo de estado cerebral. A
tese não propõe apenas uma correlação constante entre processos mentais e
processos neurais, seu objetivo consiste em sustentar que ambos constituem uma única realidade descrita por vocabulários
diferentes. Quando alguém afirma que sente dor, por exemplo, essa descrição
psicológica e a descrição neurofisiológica do cérebro referem-se ao mesmo
acontecimento, ainda que utilizem conceitos distintos para fazê-lo.
A formulação dessa hipótese foi influenciada por exemplos
recorrentes na história da ciência. Durante
muito tempo, a água foi identificada
por propriedades perceptíveis, como transparência, fluidez e capacidade de
dissolver determinadas substâncias. O desenvolvimento da química permitiu
compreender que todas essas características pertencem à mesma entidade cuja
estrutura molecular é H₂O. Algo
semelhante ocorreu com o relâmpago,
que deixou de ser tratado como um fenômeno independente para ser compreendido
como uma descarga eletrostática.
A Teoria da Identidade procura estender esse modelo
explicativo à filosofia da mente. Se descobertas científicas anteriores
revelaram que duas descrições aparentemente distintas podiam referir-se ao
mesmo fenômeno, parece plausível investigar se a neurociência poderá mostrar
que estados mentais também possuem identidade com processos cerebrais específicos.
Essa hipótese encontra apoio em um princípio metodológico
amplamente utilizado na investigação científica. De acordo com o princípio da parcimônia, quando duas
explicações conseguem dar conta do mesmo conjunto de fenômenos, há razões para
preferir aquela que introduz menos entidades ou pressupostos independentes.
A estreita relação entre alterações cerebrais e alterações
mentais parece favorecer esse tipo de interpretação. Lesões neurológicas
modificam capacidades cognitivas, drogas alteram experiências conscientes e
técnicas de neuroimagem permitem identificar padrões relativamente estáveis
associados a diferentes atividades mentais. Diante desse conjunto de
evidências, parece natural perguntar se a hipótese de identidade não oferece
uma explicação mais econômica do que teorias que postulam uma dimensão mental
autônoma.
Ainda assim, essa proposta encontrou dificuldades desde suas
primeiras formulações. Uma objeção bastante difundida observava que a
experiência consciente parece possuir características
que não podem ser encontradas em uma descrição neurofisiológica. Quem
observa um automóvel vermelho experimenta uma determinada qualidade visual. Se
um neurocientista examinasse o cérebro dessa pessoa durante a experiência,
dificilmente encontraria qualquer região literalmente vermelha. Essa diferença
levou muitos críticos a concluir que estados mentais e estados cerebrais não
poderiam ser a mesma coisa.
De acordo com a análise de Ullin Place, esse argumento decorre, no entanto, de uma confusão
conceitual que ele denominou falácia
fenomenológica. O equívoco consiste em atribuir ao estado cerebral
propriedades que pertencem ao objeto percebido ou ao conteúdo da experiência.
Quando alguém vê uma superfície vermelha, a vermelhidão caracteriza o objeto
percebido tal como aparece na experiência. Não há motivo para esperar que o
tecido cerebral apresente essa mesma propriedade. A identidade proposta pela
teoria não exige que descrições psicológicas e descrições neurofisiológicas
utilizem o mesmo vocabulário, assim como ninguém espera encontrar moléculas de
H₂O examinando a aparência transparente da água.
Embora essa resposta elimine uma objeção relativamente
imediata, permanece uma dificuldade mais profunda relacionada à experiência consciente. Surge então a
questão de saber se uma descrição física completa do cérebro consegue explicar
por que determinados processos neurais são acompanhados por uma perspectiva subjetiva.
Essa problemática tornou-se particularmente influente a
partir dos experimentos mentais
desenvolvidos por diversos filósofos contemporâneos. Um exemplo amplamente
discutido é o zumbi filosófico,
formulado por David Chalmers. De acordo com esse experimento mental, deve-se
imaginar um indivíduo fisicamente indistinguível de um ser humano. Cada órgão,
cada molécula e cada processo cerebral encontram correspondência exata no
organismo do zumbi. Apesar dessa identidade física completa, supõe-se que
nenhuma experiência consciente acompanhe seu funcionamento. Ele fala, reage,
aprende e interage com o ambiente exatamente como qualquer pessoa, embora não
exista qualquer sensação subjetiva associada a essas atividades.
O objetivo desse
experimento não consiste em defender que tais seres existam, mas em investigar
se sua existência pode ser concebida sem contradição lógica. Caso essa
possibilidade seja admitida, parece surgir uma dificuldade para a Teoria da
Identidade, pois um mesmo estado físico poderia ocorrer sem a experiência
consciente correspondente.
Outro experimento mental que exerceu grande influência foi
elaborado por Frank Jackson. O caso de Mary descreve uma cientista que
conhece todos os fatos físicos disponíveis sobre a percepção das cores. Ela
domina integralmente a neurofisiologia da visão, compreende o funcionamento do
sistema nervoso e conhece todas as leis físicas relacionadas ao processamento
visual. Apesar disso, vive desde o nascimento em um ambiente onde apenas tons
de preto, branco e cinza estão disponíveis. Quando finalmente observa uma
superfície vermelha, surge a pergunta que estrutura o experimento: Mary adquiriu algum conhecimento novo?
A força desse argumento depende da resposta oferecida a essa
questão. Caso se admita que Mary passa a conhecer como é experimentar o
vermelho, parece haver um aspecto da experiência que não estava contido em sua
descrição física completa. Jackson utiliza essa hipótese para sustentar que o
conhecimento físico não esgota todos os fatos sobre a mente.
A discussão posterior tornou-se bastante complexa, já que
muitos fisicalistas (aqueles para os
quais a consciência é idêntica a ou surge de processos físicos) contestaram a
interpretação proposta pelo experimento. Ainda assim, o caso de Mary permaneceu
como uma das principais referências nos debates sobre consciência fenomenal e qualia.
Embora essas discussões tenham colocado dificuldades
importantes para o fisicalismo, a objeção que mais diretamente atingiu a
formulação clássica da Teoria da Identidade surgiu a partir do conceito de múltipla realizabilidade. De acordo
com essa tese, desenvolvida inicialmente por Hilary Putnam e posteriormente aprofundada por Jerry Fodor, um mesmo estado mental pode ser realizado por
estruturas físicas muito diferentes entre si. A noção de realização designa
precisamente essa relação entre uma função psicológica e o mecanismo físico que
a torna possível.
O exemplo da dor
ajuda a compreender essa dificuldade. Se a dor fosse idêntica ao disparo das fibras C humanas, qualquer
organismo incapaz de possuir essa estrutura nervosa deveria ser considerado
incapaz de sentir dor. Essa consequência parece pouco plausível diante das
diferenças neurobiológicas existentes entre mamíferos, aves, polvos e outros
animais que exibem comportamentos e mecanismos fisiológicos compatíveis com
experiências dolorosas. O mesmo raciocínio pode ser estendido, ao menos como
possibilidade conceitual, a formas de vida extraterrestres ou sistemas
artificiais cuja organização física difira completamente da neurobiologia
humana.
A investigação conduz então a uma consequência importante. A
identidade estrita entre um tipo mental e um único tipo de estado cerebral
parece impor restrições excessivas às possibilidades de realização da vida
mental. Se estados psicológicos podem ser implementados por diferentes
organizações físicas, a correspondência rígida proposta pela Teoria da
Identidade deixa de oferecer uma descrição suficientemente geral da mente.
IV. FUNCIONALISMO
A dificuldade produzida
pela múltipla realizabilidade alterou profundamente o rumo da filosofia da
mente. Se um mesmo estado mental pode ser encontrado em organismos dotados de
constituições biológicas bastante diferentes, parece haver razões para
abandonar a tentativa de identificá-lo com um tipo específico de estado
cerebral.
Surge então a questão
de saber o que permanece constante quando diferentes estruturas físicas
realizam o mesmo estado psicológico. A resposta proposta pelo funcionalismo consiste em deslocar a
investigação da composição material para a organização
causal responsável pelo funcionamento
da mente.
De acordo com a teoria
funcionalista, um estado mental deve ser definido pelo papel que desempenha no
sistema cognitivo do qual faz parte. A identidade de um estado psicológico não
depende da substância que o realiza, mas das relações que mantém com outros
elementos do sistema.
Para compreender esse
ponto, é preciso considerar que um estado mental ocupa uma posição em uma rede
causal relativamente estável. Certos estímulos do ambiente tendem a produzi-lo,
sua ocorrência influencia outros estados mentais e, em determinadas
circunstâncias, contribui para a produção de comportamentos observáveis. É esse
conjunto de relações que caracteriza funcionalmente um estado mental.
O exemplo da dor permite compreender essa proposta. O funcionalismo
não procura descobrir qual estrutura física constitui a dor em seres humanos. A
investigação dirige-se à função desempenhada por esse estado. A dor costuma ser
desencadeada por lesões corporais ou estímulos potencialmente nocivos que, uma
vez presente, tende a produzir crenças sobre a existência de um dano, desperta
o desejo de interromper a situação que a provoca e contribui para
comportamentos de proteção ou afastamento.
A descrição funcional
procura reconstruir essa posição causal dentro do sistema cognitivo. Caso outro
organismo apresente uma organização equivalente, ainda que construída sobre uma
base física completamente diferente, parece haver razões para atribuir-lhe o
mesmo estado mental.
Essa maneira de
compreender a mente encontrou um modelo explicativo particularmente influente
na teoria da computação. De acordo
com a concepção de máquina de Turing, formulada
por Alan Turing, um sistema
computacional pode ser descrito pela organização formal das operações que
realiza, independentemente do material empregado em sua construção. O
funcionamento da máquina depende da execução de regras que especificam como
determinados símbolos devem ser manipulados em resposta a diferentes entradas.
O interesse filosófico desse modelo reside justamente na possibilidade de
separar a função desempenhada pelo sistema do suporte físico responsável por
sua execução.
Foi nesse contexto que
ganhou força a metáfora segundo a qual o cérebro corresponde ao hardware
e a mente ao software. A analogia não pretende afirmar que o cérebro seja
literalmente um computador digital. Seu objetivo consiste em ilustrar uma ideia
mais geral. Um mesmo programa pode ser
executado por computadores fabricados com componentes distintos, desde que
todos sejam capazes de implementar a organização funcional exigida pelo
programa.
O funcionalismo
sustenta que algo semelhante pode ocorrer com a mente. Estados mentais
dependeriam da estrutura causal do sistema, e não da matéria específica
utilizada para realizá-la. Essa hipótese permite compreender por que organismos
biologicamente diferentes ou mesmo sistemas artificiais poderiam, ao menos em
princípio, compartilhar estados mentais funcionalmente equivalentes.
A força dessa proposta decorre justamente de sua capacidade
de acomodar a múltipla realizabilidade.
O problema que comprometia a Teoria da Identidade deixa de existir quando a
constituição material deixa de definir o que é um estado mental. Ao mesmo
tempo, essa ampliação do conceito de mente produz novas dificuldades. Se apenas
a organização funcional importa, cabe perguntar até onde essa conclusão pode
ser levada.
Essa preocupação aparece de forma particularmente clara no
experimento mental conhecido como cérebro
da China, desenvolvido por Ned
Block. O exemplo convida a imaginar que cada habitante da China receba
instruções para desempenhar a função de um neurônio individual. Utilizando
rádios transmissores para trocar informações, todos reproduziriam exatamente a organização causal de um cérebro humano.
A hipótese pressupõe que as conexões entre os participantes preservam
integralmente a estrutura funcional presente no cérebro original.
Se a definição funcionalista for suficiente para caracterizar
a mente, parece seguir-se que esse gigantesco sistema coletivo deveria possuir
estados mentais equivalentes aos de um ser humano. Surge então uma dificuldade
intuitiva. Muitos filósofos consideram extremamente improvável que uma
organização dessa natureza dê origem a uma experiência consciente unificada. O
problema não está na complexidade do sistema, mas na impressão de que a
reprodução da organização causal talvez não seja suficiente para produzir
aquilo que caracteriza a consciência fenomenal. O experimento procura mostrar
que uma descrição exclusivamente funcional pode atribuir mente a sistemas cuja
existência de qualia permanece
altamente questionável.
Outra crítica influente foi formulada por John Searle a partir do experimento
mental conhecido como quarto chinês.
De acordo com esse exemplo, imagine-se uma pessoa que desconhece completamente
a língua chinesa e permanece isolada em um quarto. Ela recebe textos escritos
em chinês e possui um manual contendo regras detalhadas para manipular esses
símbolos. Seguindo rigorosamente essas
instruções, consegue produzir respostas indistinguíveis das respostas
fornecidas por um falante nativo, embora continue sem compreender o significado
de qualquer palavra que utiliza.
A investigação proposta por Searle procura distinguir dois
conceitos cuja diferença tende a desaparecer quando a mente é identificada com
o processamento computacional. De acordo com o conceito de sintaxe, um sistema manipula símbolos exclusivamente em
virtude de suas propriedades formais e das regras que determinam sua
combinação. De acordo com o conceito de
semântica, esses mesmos símbolos possuem significado e referem-se a
objetos, acontecimentos ou estados de coisas.
O argumento sustenta que a execução correta de regras
sintáticas não produz, por si só, compreensão semântica. O ocupante do quarto
realiza exatamente as operações exigidas pelo programa, mas permanece incapaz
de compreender o conteúdo das mensagens que processa.
Caso esse argumento seja bem-sucedido, a identificação entre
mente e programa computacional torna-se insuficiente. Um sistema pode
reproduzir com perfeição a organização funcional exigida para responder
adequadamente a perguntas, resolver problemas ou manter uma conversa, sem que
disso decorra a existência de compreensão genuína.
V. MATERIALISMO
ELIMINATIVO
Grande parte das teorias
materialistas procura preservar a existência dos estados mentais, embora
proponha uma nova maneira de compreendê-los. A Teoria da Identidade identifica esses estados com processos
cerebrais, enquanto o funcionalismo procura defini-los pelo papel causal que
desempenham. O materialismo eliminativo
segue um caminho bastante diferente. A investigação deixa de perguntar como
crenças, desejos e dores podem ser explicados cientificamente e passa a
questionar um pressuposto anterior: será que esses estados realmente existem
tal como a linguagem cotidiana os descreve?
De acordo com a tese do
materialismo eliminativo, os conceitos centrais da psicologia do senso comum
não correspondem aos processos que efetivamente ocorrem no cérebro. Quando
alguém explica uma ação dizendo que determinada pessoa acreditava em algo,
desejava certo resultado ou agiu motivada pela raiva, costuma supor que esses
estados constituem componentes reais da arquitetura mental.
O eliminativismo coloca justamente essa
suposição em dúvida. A hipótese consiste em tratar esse vocabulário como parte
de uma teoria empírica sobre a mente, e não como um conjunto de conceitos cuja
validade estaria garantida pela experiência imediata.
Essa teoria empírica recebe o
nome de psicologia popular (folk psychology). De acordo com esse
conceito, os seres humanos compreendem e antecipam o comportamento dos outros
recorrendo à atribuição de crenças, desejos, intenções, medos e emoções. Quando
alguém vê uma pessoa caminhando até a cozinha, por exemplo, tende a explicar
essa ação dizendo que ela acredita haver comida disponível e deseja
alimentar-se.
Esse modo de interpretar o
comportamento parece tão espontâneo que dificilmente é percebido como uma
teoria. Paul Churchland procura
justamente modificar essa perspectiva. Para ele, a psicologia popular deve ser
avaliada da mesma maneira que qualquer outra tentativa de explicar um conjunto
de fenômenos naturais.
Essa mudança de perspectiva
permite compreender por que Churchland recorre
frequentemente à história da ciência. Ao longo do desenvolvimento científico,
diversas teorias deixaram de existir porque seus conceitos fundamentais
mostraram-se incapazes de explicar adequadamente os fenômenos investigados.
A teoria do calórico atribuía o calor à presença de um fluido
invisível que circulava entre os corpos. A medicina
hipocrática e galênica interpretava as doenças como resultado de
desequilíbrios entre os quatro humores corporais. A cosmologia aristotélica compreendia o movimento dos corpos celestes
por meio da hipótese das esferas cristalinas.
Nenhum desses conceitos foi
preservado após o surgimento de teorias mais bem fundamentadas. Segundo
Churchland, pode ser que a psicologia popular ocupe posição semelhante. Sua
permanência ao longo da história não constitui evidência suficiente de que seus
conceitos correspondam à estrutura real da mente.
Esse argumento ganha força quando
a investigação se aproxima da neurociência
contemporânea. A linguagem da psicologia popular descreve a cognição por
meio de atitudes proposicionais. De
acordo com esse conceito, uma atitude proposicional consiste em um estado
mental cujo conteúdo pode ser expresso por uma proposição. Afirmar que alguém
acredita que a neve é branca ou teme que chova são exemplos desse tipo de
descrição. Churchland questiona se essa maneira de representar a atividade
mental corresponde efetivamente ao funcionamento do cérebro.
O problema torna-se mais evidente
quando se observa que atitudes proposicionais pressupõem capacidades
linguísticas relativamente sofisticadas. Bebês muito pequenos e diversos
animais exibem comportamentos complexos, aprendem com a experiência, adaptam-se
ao ambiente e resolvem problemas práticos. Se a cognição dependesse da
manipulação de proposições semelhantes a frases, pareceria difícil explicar
essas formas de inteligência. Surge então a hipótese de que a estrutura
conceitual da psicologia popular talvez reflita características da linguagem
humana muito mais do que características da organização cerebral.
Essa hipótese parece encontrar
apoio em modelos atuais das neurociências e das ciências cognitivas. Em vez de
representar informações por meio de sentenças internas organizadas
sintaticamente, muitos modelos descrevem o cérebro como um sistema distribuído
de processamento.
A informação é codificada em
padrões de ativação que envolvem populações de neurônios conectadas por redes
sinápticas extremamente complexas. O desempenho cognitivo depende da dinâmica
dessas conexões e das transformações produzidas pela atividade conjunta de
inúmeras unidades neurais. Nessa descrição, torna-se difícil localizar algo que
desempenhe exatamente o papel atribuído pelas categorias tradicionais de crença
ou desejo.
Apesar da força dessa crítica, o eliminativismo encontrou resistência
significativa. Uma das objeções mais conhecidas foi desenvolvida por William Lycan mediante a utilização da
chamada mudança mooreana (Moorean shift), inspirada na estratégia
argumentativa de G. E. Moore.
A ideia central consiste em
comparar o grau de confiança que
atribuímos a diferentes tipos de afirmação. A existência de crenças, desejos e
experiências conscientes parece fazer parte do conjunto de convicções mais
fundamentais que orientam nossa vida cotidiana. Já a tese segundo a qual toda a
psicologia popular constitui uma teoria científica equivocada depende de uma
cadeia bastante sofisticada de pressupostos filosóficos. Diante dessa
diferença, Lycan sustenta que parece mais razoável revisar a teoria do que
abandonar aquilo que experimentamos como parte imediata da vida mental.
Outra dificuldade frequentemente
apontada envolve a própria formulação do eliminativismo. Quando um filósofo
afirma que crenças não existem, parece inevitável interpretar essa afirmação
como a expressão de uma crença acerca da natureza da mente. Muitos críticos
sustentam que essa consequência produz uma forma de autoderrota.
O eliminativista responde que a
linguagem ordinária continua sendo utilizada por razões pragmáticas e
comunicativas, embora seus conceitos não integrem uma descrição científica
adequada da cognição. Ainda assim, a tensão permanece como um dos principais
pontos de debate em torno dessa teoria.
As críticas ao eliminativismo
também assumiram outra direção. De acordo com a teoria da simulação, os seres humanos não interpretam o
comportamento alheio aplicando uma teoria psicológica composta por leis gerais.
A compreensão dos outros depende da capacidade de utilizar a própria mente como
modelo para reconstruir internamente os estados que provavelmente estão sendo
vivenciados pelo interlocutor. Essa reconstrução ocorre por meio da imaginação,
da empatia e de mecanismos cognitivos que permitem simular perspectivas
diferentes da própria.
Essa abordagem altera
significativamente o modo como a psicologia popular é compreendida. Se ela não
constitui uma teoria científica comparável às antigas teorias do calórico ou
dos humores, torna-se menos plausível esperar que seja simplesmente refutada
por descobertas neurocientíficas. Sua função passa a ser entendida como uma
competência prática envolvida na interação social. Pesquisas sobre dificuldades de atribuição de estados
mentais em alguns transtornos do neurodesenvolvimento,
assim como estudos sobre sistemas neurais relacionados à observação das
ações de outras pessoas, foram frequentemente utilizados para explorar essa
hipótese, embora seu alcance permaneça objeto de intenso debate.
Uma crítica ainda mais
fundamental foi desenvolvida por Stephen
Stich ao examinar a teoria da
referência pressuposta pelo eliminativismo. A argumentação de Churchland parece depender da ideia de
que um conceito deixa de referir-se a qualquer entidade quando as descrições
tradicionalmente associadas a ele se revelam falsas. Stich questiona
precisamente esse pressuposto.
De acordo com a teoria causal-histórica da referência,
desenvolvida sobretudo por Saul Kripke,
a referência de um termo não depende exclusivamente das descrições que lhe são
atribuídas pelos falantes. Uma palavra continua referindo-se ao mesmo objeto
porque existe uma cadeia histórica de transmissão que remonta ao momento em que
aquele objeto foi inicialmente identificado na comunidade linguística. O
funcionamento da linguagem não exige que os usuários possuam uma teoria
científica correta sobre aquilo de que falam.
Um exemplo ajuda a compreender
essa diferença. Imagine uma comunidade que utiliza a palavra “sherk”
para designar os pontos luminosos observados no céu durante a noite. Seus
integrantes acreditam que essas luzes são pequenas aberturas na estrutura do
universo. A astronomia moderna mostra que essa descrição está profundamente
equivocada. Ainda assim, parece pouco plausível concluir que a palavra “sherk” nunca se referiu às estrelas. O
erro encontra-se na teoria utilizada para descrevê-las, e não na referência do
termo.
Aplicada à filosofia da mente,
essa consideração produz uma consequência importante. Mesmo que futuras teorias
neurocientíficas revelem que crenças, desejos e dores possuem uma estrutura
muito diferente daquela imaginada pela psicologia popular, disso não decorre
automaticamente que esses conceitos deixem de referir-se a aspectos reais da
vida mental. Pode ser que a descrição tradicional necessite de revisão
profunda.
Essa possibilidade, por si só, não basta para
justificar a eliminação completa do vocabulário psicológico. O debate
desloca-se, então, para uma questão ainda mais fundamental: em que condições
uma revisão científica da mente exige abandonar nossos conceitos ordinários e
em que condições exige apenas reinterpretá-los.
VI. MENTE
ESTENDIDA
Ao longo da filosofia
da mente, uma suposição permaneceu relativamente constante mesmo quando
diferentes teorias discordavam sobre a natureza dos estados mentais. Dualistas,
teóricos da identidade, funcionalistas e eliminativistas costumam partir da
ideia de que a cognição ocorre inteiramente no interior do organismo. As divergências concentram-se naquilo que
existe dentro da cabeça, seja uma substância imaterial, um cérebro, um sistema
funcional ou uma rede neuronal.
A hipótese de que os limites físicos da mente coincidam com
os limites do crânio raramente é
colocada em questão. É justamente esse pressuposto que Andy Clark e David Chalmers procuram examinar.
De acordo com a tese da
mente estendida, determinados processos cognitivos podem incluir elementos
localizados fora do cérebro e até mesmo fora do corpo. A proposta não consiste
em afirmar que o ambiente apenas influencia o pensamento, essa afirmação
dificilmente despertaria controvérsia. O objetivo é mais ambicioso. Clark e
Chalmers sustentam que, em certas circunstâncias, componentes externos integram
literalmente o processo cognitivo, tornando-se partes constitutivas da mente.
A fundamentação dessa
hipótese depende do chamado princípio de
paridade. De acordo com esse princípio, imagine-se um processo realizado externamente ao organismo que
desempenhe exatamente a mesma função
cognitiva que um processo interno. Se esse procedimento fosse executado no
cérebro, dificilmente haveria hesitação em classificá-lo como parte da
cognição. Surge então a pergunta que orienta o argumento: por que o simples fato de o processo ocorrer fora do crânio deveria
alterar sua natureza?
Clark e Chalmers ilustram essa ideia recorrendo ao exemplo do jogo Tetris. Durante a
partida, o jogador pode imaginar mentalmente a rotação de uma peça antes de
posicioná-la. Também pode pressionar um botão para que o próprio jogo realize
essa rotação, observando imediatamente o resultado na tela. Nos dois casos, o
objetivo cognitivo permanece o mesmo: explorar diferentes possibilidades de
encaixe antes da decisão final. A diferença reside apenas no local em que parte
do processamento ocorre.
Se a rotação mental pertence à atividade cognitiva,
parece razoável perguntar por que a rotação produzida por um mecanismo externo,
continuamente integrado ao processo de resolução do problema, deveria ser
tratada de maneira completamente distinta.
Essa linha de
raciocínio torna-se mais sofisticada no experimento mental conhecido como o caso de Inga e Otto. Inga deseja
visitar um museu. Para descobrir seu
destino, consulta sua memória biológica e recorda o endereço. Otto possui doença de Alzheimer e, justamente por
isso, utiliza um caderno onde registra informações importantes sobre sua vida
cotidiana. Quando decide visitar o mesmo museu, consulta o caderno, encontra o
endereço e segue para o local.
A princípio, pode
parecer que apenas Inga utiliza memória genuína, enquanto Otto apenas consulta
uma fonte externa de informação. Clark e Chalmers procuram mostrar que essa
diferença talvez seja menos significativa do que parece. O caderno acompanha
Otto continuamente, é utilizado de maneira habitual, contém informações nas
quais ele confia e desempenha exatamente a função que a memória biológica
desempenha para outras pessoas. O comportamento cognitivo resulta da interação
constante entre o indivíduo e esse recurso externo. Em vez de considerar o
caderno como um simples instrumento, a hipótese da mente estendida sugere
compreendê-lo como parte do próprio sistema cognitivo.
Esse exemplo revela que
a discussão não gira em torno da localização física da informação, mas da
organização funcional do processo cognitivo. Caso um componente externo
participe de maneira suficientemente estável das atividades de recordar,
decidir e agir, parece possível descrevê-lo como integrante da arquitetura
mental. O sujeito deixa de ser compreendido como uma unidade cognitiva isolada,
passando a constituir um sistema acoplado ao ambiente em que opera.
Essa conclusão,
contudo, produz uma dificuldade imediata. Se qualquer objeto capaz de auxiliar
o pensamento for considerado parte da mente, a cognição parece expandir-se
indefinidamente. Livros, telefones celulares, motores de busca, bibliotecas e
praticamente qualquer tecnologia de armazenamento de informação poderiam
tornar-se componentes da vida mental.
Essa consequência ficou conhecida como problema do inchaço cognitivo (cognitive
bloat).
A objeção levou Clark e
Chalmers a especificar as condições em que um recurso externo pode integrar um
processo cognitivo. A relação entre sujeito e ferramenta precisa apresentar um
grau elevado de estabilidade. O recurso deve estar disponível de forma
confiável, ser facilmente acessível, desempenhar papel recorrente na atividade
cognitiva e conter informações que o usuário aceite espontaneamente, sem
submetê-las a uma verificação constante.
Essas condições
procuram distinguir um caderno utilizado diariamente por Otto de uma
enciclopédia esquecida em uma estante ou de uma pesquisa ocasional realizada em
um mecanismo de busca. O ponto central consiste em mostrar que a integração
cognitiva depende da maneira como o recurso participa da vida mental, e não
apenas de sua existência física.
O desenvolvimento dessas ideias conduziu a uma ampliação
ainda maior da investigação. Se processos cognitivos podem estender-se para
além do organismo, cabe perguntar se algo semelhante ocorre com os estados
afetivos. A chamada afetividade estendida procura explorar precisamente essa
possibilidade.
De acordo com essa perspectiva, emoções não devem ser
compreendidas exclusivamente como acontecimentos internos produzidos pelo
cérebro. Em determinadas circunstâncias, sua constituição depende da interação
contínua entre o organismo, o corpo em movimento e os elementos materiais
presentes no ambiente.
Um exemplo frequentemente discutido na literatura é o do
músico de jazz cuja improvisação modifica continuamente a própria experiência
emocional. A execução musical não funciona apenas como expressão de um
sentimento previamente formado. O contato corporal com o instrumento, os sons
produzidos, a resposta auditiva e a dinâmica da improvisação participam da
constituição da experiência afetiva ao longo de seu desenvolvimento. A tristeza
experimentada pelo músico não antecede completamente a performance. Ela é
parcialmente moldada e sustentada pela interação causal estabelecida com o
saxofone e com a atividade musical em curso.
A hipótese da mente estendida modifica, assim, uma das
pressuposições mais persistentes da filosofia da mente. O problema deixa de
consistir apenas em identificar o mecanismo responsável pela cognição e passa a
incluir outra pergunta, cuja resposta permanece objeto de intenso debate: quais são os critérios que permitem
determinar onde termina o organismo e onde termina, efetivamente, a própria mente?

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