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INTRODUÇÃO À FILOSOFIA DA MENTE

 

O objetivo deste texto consiste em apresentar uma Introdução à Filosofia da Mente. O texto se divide nas seguintes partes: (i) Dualismo de Substância; (ii) Behaviorismo lógico; (iii) Teoria da Identidade; (iv) Funcionalismo; (v) Materialismo Eliminativo; (vi) Mente estendida. O texto é baseado no curso do filósofo Kane B sobre o assunto.

 

I. DUALISMO DE SUBSTÂNCIA

 

A investigação filosófica sobre a relação entre mente e corpo nasce de uma dificuldade aparentemente simples: como compreender a existência de experiências subjetivas em um mundo descrito pela ciência como composto por entidades físicas? A pergunta adquire uma forma mais precisa quando se considera que seres humanos possuem estados mentais, como pensamentos, sensações e desejos, cuja existência parece apresentar características que não são facilmente encontradas nos objetos materiais.

É nesse contexto que surge o dualismo de substância, uma posição metafísica segundo a qual a realidade humana envolve dois tipos fundamentais de substância: uma dimensão física responsável pela extensão espacial e uma dimensão mental caracterizada pelo pensamento.

A formulação mais influente dessa concepção encontra-se na filosofia de René Descartes. De acordo com o dualismo cartesiano, a essência da matéria consiste na extensão, isto é, na capacidade de ocupar um lugar no espaço e possuir propriedades mensuráveis, como tamanho, forma e movimento. A mente, por sua vez, possui como característica fundamental o pensamento, entendido como a atividade consciente pela qual o sujeito percebe, duvida, deseja e compreende. Essa distinção surge de uma separação ontológica: mente e corpo seriam substâncias cuja natureza fundamental não poderia ser reduzida uma à outra.

O argumento cartesiano encontra força em uma intuição relacionada ao modo como experimentamos nossa própria consciência. Quando alguém sente dor, acredita em uma proposição ou imagina uma situação inexistente, parece estar diante de algo que não possui localização espacial determinada. Não parece haver sentido em perguntar qual é a extensão física de uma crença ou qual a forma geométrica de um pensamento.

Essa dificuldade conduz a uma questão mais profunda: se os estados mentais possuem características que escapam à descrição física comum, talvez eles pertençam a uma dimensão da realidade que não pode ser explicada inteiramente pelos conceitos utilizados para compreender objetos materiais.

Esse problema aparece com maior intensidade na chamada lacuna explicativa, conceito que designa a dificuldade de compreender como processos físicos poderiam dar origem à experiência consciente. A questão não envolve apenas descobrir quais regiões cerebrais participam de determinado estado mental. A neurociência consegue investigar relações entre atividades cerebrais e experiências conscientes, identificando correlações entre processos neuronais e estados psicológicos. A dificuldade filosófica permanece quando se pergunta por que esses processos físicos são acompanhados por uma experiência subjetiva.

O caso da dor permite perceber essa problemática. É possível explicar, em termos fisiológicos, como um estímulo nocivo ativa terminações nervosas, transmite sinais ao sistema nervoso e provoca respostas corporais. Surge, porém, uma pergunta adicional: por que essa atividade neural é acompanhada pela sensação de dor? Por que existe algo que é sentir dor, em vez de ocorrer apenas uma cadeia de processos físicos sem qualquer experiência interior? O argumento da lacuna explicativa explora justamente essa passagem aparentemente difícil entre uma descrição objetiva do cérebro e a existência de uma perspectiva subjetiva.

Essa dificuldade também aparece quando se examina a intencionalidade. De acordo com o conceito de intencionalidade, os estados mentais possuem a característica de serem direcionados a algo, isto é, apresentam conteúdo ou referência. Uma crença possui uma relação com aquilo que representa; um pensamento sobre uma pessoa, um lugar ou uma situação envolve uma espécie de direcionamento mental. O problema consiste em compreender como estruturas físicas compostas por processos materiais poderiam adquirir essa propriedade de representar algo.

A dificuldade torna-se mais evidente quando se observa que pensamentos podem possuir conteúdo mesmo quando aquilo a que se referem não existe. Uma pessoa pode imaginar uma criatura fictícia ou acreditar em algo falso. A mente parece possuir uma capacidade representacional que ultrapassa a simples relação causal entre objetos físicos. Uma configuração de matéria pode provocar efeitos, alterar outros corpos ou produzir movimentos, mas a ideia de que ela seja literalmente “sobre” alguma coisa exige uma explicação adicional.

Outro ponto central da discussão envolve os qualia, termo utilizado na filosofia da mente para designar os aspectos subjetivos da experiência, isto é, aquilo que caracteriza como é vivenciar determinado estado consciente. Ver uma cor específica, experimentar um sabor ou sentir uma emoção envolve uma dimensão fenomenal que parece acessível apenas ao sujeito da experiência.

A investigação filosófica dos qualia levou David Chalmers, a formular o chamado problema difícil da consciência. Segundo essa formulação, mesmo que fosse possível explicar completamente os mecanismos responsáveis pelo comportamento, pela atenção ou pela comunicação, ainda permaneceria a questão de compreender por que esses processos físicos são acompanhados por uma experiência consciente.

O dualismo de substância surge, nesse cenário, como uma tentativa de preservar a diferença entre processos físicos e experiências mentais. Se a consciência possui características que parecem escapar às explicações materiais disponíveis, uma possibilidade seria admitir que a mente constitui uma realidade distinta do corpo. Essa hipótese possui uma força intuitiva porque leva a sério a singularidade da experiência subjetiva. A história da filosofia da mente, entretanto, mostrou que essa solução enfrenta dificuldades próprias.

A principal objeção ao dualismo cartesiano envolve o problema da interação. Se mente e corpo pertencem a substâncias diferentes, torna-se necessário explicar como uma entidade imaterial poderia produzir efeitos em um organismo físico. A experiência cotidiana parece indicar que existe influência mútua: decisões conscientes orientam ações corporais, enquanto alterações físicas no organismo modificam estados mentais.

A dificuldade está em compreender qual seria o mecanismo dessa relação. Uma substância definida pela ausência de propriedades espaciais parece não oferecer uma explicação clara para sua capacidade de interferir em processos materiais.

Outra dificuldade decorre da dependência entre estados mentais e funcionamento cerebral. As evidências sobre a relação entre cérebro e mente colocam pressão sobre versões fortes do dualismo. Alterações cerebrais provocadas por lesões, doenças ou intervenções químicas podem modificar memória, personalidade, percepção e consciência.

A investigação científica sugere que determinadas capacidades mentais dependem de estruturas neurais específicas. Essa dependência parece indicar que compreender a mente exige examinar profundamente a organização física do cérebro.

 

II. BEHAVIORISMO LÓGICO

 

Uma das questões que atravessam a filosofia da mente consiste em compreender o que fazemos quando atribuímos estados mentais a alguém. Quando dizemos que uma pessoa acredita em determinada proposição, deseja um objeto ou sente dor, parece natural supor que estamos descrevendo algo que ocorre em seu interior.

Essa interpretação, embora bastante difundida, passou a ser alvo de críticas no contexto da filosofia analítica do século XX. A investigação deixou de perguntar qual é a natureza da mente para examinar o significado da própria linguagem mental. É nesse deslocamento que se torna possível compreender o surgimento do behaviorismo lógico.

De acordo com a teoria do behaviorismo lógico, expressões psicológicas não devem ser entendidas como nomes de acontecimentos privados acessíveis apenas ao próprio sujeito. O objetivo consiste em mostrar que o significado desses termos pode ser inteiramente compreendido a partir de critérios públicos de uso. Surge, então, a hipótese de que falar sobre crenças, desejos, intenções ou dores equivale a descrever modos característicos de comportamento ou disposições para agir em determinadas circunstâncias.

Essa referência às disposições desempenha um papel decisivo. Um comportamento isolado dificilmente seria suficiente para explicar o emprego de um conceito mental. Uma pessoa pode suportar a dor em silêncio ou fingir sofrimento sem experimentá-lo.

Diante de casos como esses, o behaviorismo lógico procura ampliar o foco da análise. Em vez de identificar um estado mental com uma única ação observável, propõe compreendê-lo como um conjunto de tendências comportamentais que se manifestariam caso certas condições fossem satisfeitas. Dizer que alguém sente dor envolve atribuir-lhe uma disposição relativamente estável para reagir de maneiras características, como proteger a parte lesionada, evitar novos estímulos nocivos ou buscar alívio.

Essa reconstrução depende de uma concepção específica da análise filosófica. Segundo o behaviorismo lógico, a relação entre estados mentais e disposições comportamentais pertence ao próprio significado dos conceitos psicológicos. A proposta não consiste em formular uma hipótese empírica sobre o funcionamento do cérebro, tampouco em descobrir uma causa oculta do comportamento, o problema é tratado como uma investigação conceitual. A pergunta deixa de ser “o que produz a raiva?” e passa a ser  “o que queremos dizer quando atribuímos raiva a alguém?”.

Esse ponto permite compreender por que os behavioristas não pretendiam eliminar a linguagem cotidiana da psicologia. Frases como “João quebrou o computador porque estava com raiva” continuam fazendo parte da comunicação ordinária. O que muda é a interpretação filosófica dessa atribuição. De acordo com essa perspectiva, a referência à raiva não introduz uma entidade mental privada que posteriormente produz o comportamento, a função da expressão consiste em caracterizar um padrão de conduta e as circunstâncias nas quais esse padrão tende a ocorrer.

A motivação dessa proposta torna-se mais compreensível quando se considera o ambiente intelectual em que ela foi desenvolvida. Grande parte da filosofia analítica da primeira metade do século XX buscava estabelecer critérios rigorosos para o uso significativo da linguagem. Ao mesmo tempo, a psicologia procurava consolidar-se como disciplina científica.

Diante desse contexto, parecia razoável perguntar se conceitos definidos por experiências estritamente privadas poderiam desempenhar algum papel em uma investigação objetiva. Caso ninguém possa observar diretamente os estados mentais de outra pessoa, surge a dificuldade de explicar como esses conceitos poderiam possuir critérios públicos de aplicação. O behaviorismo lógico procura responder precisamente a essa dificuldade ao localizar esses critérios no comportamento observável e nas disposições comportamentais.

Apesar da influência que exerceu durante várias décadas, essa teoria passou a enfrentar objeções que colocaram em dúvida sua capacidade explicativa. Uma delas parte da própria experiência consciente. Quando alguém sente dor, experimenta medo ou recorda um acontecimento da infância, parece haver um aspecto fenomenológico que acompanha essas experiências.

De acordo com essa objeção, reduzir conceitos mentais a disposições comportamentais deixa sem explicação aquilo que torna essas experiências subjetivamente vividas. A crítica não depende da ideia de uma substância imaterial, ela apenas sustenta que existe uma dimensão interna cuja presença continua exigindo esclarecimento.

Outra objeção revelou dificuldades internas na própria estratégia de análise conceitual. A proposta behaviorista pretendia explicar estados mentais recorrendo exclusivamente a disposições para agir. O problema surge quando se procura reconstruir essas disposições de maneira suficientemente precisa.

Suponha-se o caso de alguém que deseja uma laranja. Uma análise inicial poderia dizer que essa pessoa tenderá a dirigir-se até a cozinha para buscá-la. Logo aparece uma complicação. Esse comportamento depende de outras condições, como acreditar que existem laranjas na cozinha, desejar alimentar-se naquele momento ou não possuir objetivos considerados mais urgentes. Cada tentativa de especificar essas condições acaba recorrendo novamente a crenças, desejos, intenções e outras noções mentais.

Ao que tudo indica, essa dificuldade produz uma consequência relevante para a investigação filosófica. Se a análise de um conceito psicológico exige a utilização de outros conceitos psicológicos, torna-se difícil sustentar que o vocabulário mental possa ser inteiramente reconstruído em termos comportamentais.  Foi justamente essa percepção que contribuiu para o enfraquecimento do behaviorismo lógico e abriu espaço para novas teorias da mente.

 

III. TEORIA DA IDENTIDADE

 

O abandono progressivo do dualismo de substância e do behaviorismo lógico deixou uma questão em aberto. Se a mente não constitui uma substância independente do corpo e os conceitos psicológicos não podem ser reduzidos ao comportamento observável, cabe perguntar onde os estados mentais devem ser localizados. A investigação filosófica passou então a acompanhar mais de perto os avanços das neurociências, motivada pela expectativa de que a relação entre mente e cérebro pudesse ser compreendida como um caso de identidade entre fenômenos que inicialmente pareciam distintos.

De acordo com a Teoria da Identidade, cada tipo de estado mental corresponde ao mesmo tipo de estado cerebral. A tese não propõe apenas uma correlação constante entre processos mentais e processos neurais, seu objetivo consiste em sustentar que ambos constituem uma única realidade descrita por vocabulários diferentes. Quando alguém afirma que sente dor, por exemplo, essa descrição psicológica e a descrição neurofisiológica do cérebro referem-se ao mesmo acontecimento, ainda que utilizem conceitos distintos para fazê-lo.

A formulação dessa hipótese foi influenciada por exemplos recorrentes na história da ciência. Durante muito tempo, a água foi identificada por propriedades perceptíveis, como transparência, fluidez e capacidade de dissolver determinadas substâncias. O desenvolvimento da química permitiu compreender que todas essas características pertencem à mesma entidade cuja estrutura molecular é H₂O. Algo semelhante ocorreu com o relâmpago, que deixou de ser tratado como um fenômeno independente para ser compreendido como uma descarga eletrostática.

A Teoria da Identidade procura estender esse modelo explicativo à filosofia da mente. Se descobertas científicas anteriores revelaram que duas descrições aparentemente distintas podiam referir-se ao mesmo fenômeno, parece plausível investigar se a neurociência poderá mostrar que estados mentais também possuem identidade com processos cerebrais específicos.

Essa hipótese encontra apoio em um princípio metodológico amplamente utilizado na investigação científica. De acordo com o princípio da parcimônia, quando duas explicações conseguem dar conta do mesmo conjunto de fenômenos, há razões para preferir aquela que introduz menos entidades ou pressupostos independentes.

A estreita relação entre alterações cerebrais e alterações mentais parece favorecer esse tipo de interpretação. Lesões neurológicas modificam capacidades cognitivas, drogas alteram experiências conscientes e técnicas de neuroimagem permitem identificar padrões relativamente estáveis associados a diferentes atividades mentais. Diante desse conjunto de evidências, parece natural perguntar se a hipótese de identidade não oferece uma explicação mais econômica do que teorias que postulam uma dimensão mental autônoma.

Ainda assim, essa proposta encontrou dificuldades desde suas primeiras formulações. Uma objeção bastante difundida observava que a experiência consciente parece possuir características que não podem ser encontradas em uma descrição neurofisiológica. Quem observa um automóvel vermelho experimenta uma determinada qualidade visual. Se um neurocientista examinasse o cérebro dessa pessoa durante a experiência, dificilmente encontraria qualquer região literalmente vermelha. Essa diferença levou muitos críticos a concluir que estados mentais e estados cerebrais não poderiam ser a mesma coisa.

De acordo com a análise de Ullin Place, esse argumento decorre, no entanto, de uma confusão conceitual que ele denominou falácia fenomenológica. O equívoco consiste em atribuir ao estado cerebral propriedades que pertencem ao objeto percebido ou ao conteúdo da experiência. Quando alguém vê uma superfície vermelha, a vermelhidão caracteriza o objeto percebido tal como aparece na experiência. Não há motivo para esperar que o tecido cerebral apresente essa mesma propriedade. A identidade proposta pela teoria não exige que descrições psicológicas e descrições neurofisiológicas utilizem o mesmo vocabulário, assim como ninguém espera encontrar moléculas de H₂O examinando a aparência transparente da água.

Embora essa resposta elimine uma objeção relativamente imediata, permanece uma dificuldade mais profunda relacionada à experiência consciente. Surge então a questão de saber se uma descrição física completa do cérebro consegue explicar por que determinados processos neurais são acompanhados por uma perspectiva subjetiva.

Essa problemática tornou-se particularmente influente a partir dos experimentos mentais desenvolvidos por diversos filósofos contemporâneos. Um exemplo amplamente discutido é o zumbi filosófico, formulado por David Chalmers. De acordo com esse experimento mental, deve-se imaginar um indivíduo fisicamente indistinguível de um ser humano. Cada órgão, cada molécula e cada processo cerebral encontram correspondência exata no organismo do zumbi. Apesar dessa identidade física completa, supõe-se que nenhuma experiência consciente acompanhe seu funcionamento. Ele fala, reage, aprende e interage com o ambiente exatamente como qualquer pessoa, embora não exista qualquer sensação subjetiva associada a essas atividades.

 O objetivo desse experimento não consiste em defender que tais seres existam, mas em investigar se sua existência pode ser concebida sem contradição lógica. Caso essa possibilidade seja admitida, parece surgir uma dificuldade para a Teoria da Identidade, pois um mesmo estado físico poderia ocorrer sem a experiência consciente correspondente.

Outro experimento mental que exerceu grande influência foi elaborado por Frank Jackson. O caso de Mary descreve uma cientista que conhece todos os fatos físicos disponíveis sobre a percepção das cores. Ela domina integralmente a neurofisiologia da visão, compreende o funcionamento do sistema nervoso e conhece todas as leis físicas relacionadas ao processamento visual. Apesar disso, vive desde o nascimento em um ambiente onde apenas tons de preto, branco e cinza estão disponíveis. Quando finalmente observa uma superfície vermelha, surge a pergunta que estrutura o experimento: Mary adquiriu algum conhecimento novo?

A força desse argumento depende da resposta oferecida a essa questão. Caso se admita que Mary passa a conhecer como é experimentar o vermelho, parece haver um aspecto da experiência que não estava contido em sua descrição física completa. Jackson utiliza essa hipótese para sustentar que o conhecimento físico não esgota todos os fatos sobre a mente.

A discussão posterior tornou-se bastante complexa, já que muitos fisicalistas (aqueles para os quais a consciência é idêntica a ou surge de processos físicos) contestaram a interpretação proposta pelo experimento. Ainda assim, o caso de Mary permaneceu como uma das principais referências nos debates sobre consciência fenomenal e qualia.

Embora essas discussões tenham colocado dificuldades importantes para o fisicalismo, a objeção que mais diretamente atingiu a formulação clássica da Teoria da Identidade surgiu a partir do conceito de múltipla realizabilidade. De acordo com essa tese, desenvolvida inicialmente por Hilary Putnam e posteriormente aprofundada por Jerry Fodor, um mesmo estado mental pode ser realizado por estruturas físicas muito diferentes entre si. A noção de realização designa precisamente essa relação entre uma função psicológica e o mecanismo físico que a torna possível.

O exemplo da dor ajuda a compreender essa dificuldade. Se a dor fosse idêntica ao disparo das fibras C humanas, qualquer organismo incapaz de possuir essa estrutura nervosa deveria ser considerado incapaz de sentir dor. Essa consequência parece pouco plausível diante das diferenças neurobiológicas existentes entre mamíferos, aves, polvos e outros animais que exibem comportamentos e mecanismos fisiológicos compatíveis com experiências dolorosas. O mesmo raciocínio pode ser estendido, ao menos como possibilidade conceitual, a formas de vida extraterrestres ou sistemas artificiais cuja organização física difira completamente da neurobiologia humana.

A investigação conduz então a uma consequência importante. A identidade estrita entre um tipo mental e um único tipo de estado cerebral parece impor restrições excessivas às possibilidades de realização da vida mental. Se estados psicológicos podem ser implementados por diferentes organizações físicas, a correspondência rígida proposta pela Teoria da Identidade deixa de oferecer uma descrição suficientemente geral da mente.

IV. FUNCIONALISMO

 

A dificuldade produzida pela múltipla realizabilidade alterou profundamente o rumo da filosofia da mente. Se um mesmo estado mental pode ser encontrado em organismos dotados de constituições biológicas bastante diferentes, parece haver razões para abandonar a tentativa de identificá-lo com um tipo específico de estado cerebral.

Surge então a questão de saber o que permanece constante quando diferentes estruturas físicas realizam o mesmo estado psicológico. A resposta proposta pelo funcionalismo consiste em deslocar a investigação da composição material para a organização causal responsável pelo funcionamento da mente.

De acordo com a teoria funcionalista, um estado mental deve ser definido pelo papel que desempenha no sistema cognitivo do qual faz parte. A identidade de um estado psicológico não depende da substância que o realiza, mas das relações que mantém com outros elementos do sistema.

Para compreender esse ponto, é preciso considerar que um estado mental ocupa uma posição em uma rede causal relativamente estável. Certos estímulos do ambiente tendem a produzi-lo, sua ocorrência influencia outros estados mentais e, em determinadas circunstâncias, contribui para a produção de comportamentos observáveis. É esse conjunto de relações que caracteriza funcionalmente um estado mental.

O exemplo da dor permite compreender essa proposta. O funcionalismo não procura descobrir qual estrutura física constitui a dor em seres humanos. A investigação dirige-se à função desempenhada por esse estado. A dor costuma ser desencadeada por lesões corporais ou estímulos potencialmente nocivos que, uma vez presente, tende a produzir crenças sobre a existência de um dano, desperta o desejo de interromper a situação que a provoca e contribui para comportamentos de proteção ou afastamento.

A descrição funcional procura reconstruir essa posição causal dentro do sistema cognitivo. Caso outro organismo apresente uma organização equivalente, ainda que construída sobre uma base física completamente diferente, parece haver razões para atribuir-lhe o mesmo estado mental.

Essa maneira de compreender a mente encontrou um modelo explicativo particularmente influente na teoria da computação. De acordo com a concepção de máquina de Turing, formulada por Alan Turing, um sistema computacional pode ser descrito pela organização formal das operações que realiza, independentemente do material empregado em sua construção. O funcionamento da máquina depende da execução de regras que especificam como determinados símbolos devem ser manipulados em resposta a diferentes entradas. O interesse filosófico desse modelo reside justamente na possibilidade de separar a função desempenhada pelo sistema do suporte físico responsável por sua execução.

Foi nesse contexto que ganhou força a metáfora segundo a qual o cérebro corresponde ao hardware e a mente ao software. A analogia não pretende afirmar que o cérebro seja literalmente um computador digital. Seu objetivo consiste em ilustrar uma ideia mais geral.  Um mesmo programa pode ser executado por computadores fabricados com componentes distintos, desde que todos sejam capazes de implementar a organização funcional exigida pelo programa.

O funcionalismo sustenta que algo semelhante pode ocorrer com a mente. Estados mentais dependeriam da estrutura causal do sistema, e não da matéria específica utilizada para realizá-la. Essa hipótese permite compreender por que organismos biologicamente diferentes ou mesmo sistemas artificiais poderiam, ao menos em princípio, compartilhar estados mentais funcionalmente equivalentes.

A força dessa proposta decorre justamente de sua capacidade de acomodar a múltipla realizabilidade. O problema que comprometia a Teoria da Identidade deixa de existir quando a constituição material deixa de definir o que é um estado mental. Ao mesmo tempo, essa ampliação do conceito de mente produz novas dificuldades. Se apenas a organização funcional importa, cabe perguntar até onde essa conclusão pode ser levada.

Essa preocupação aparece de forma particularmente clara no experimento mental conhecido como cérebro da China, desenvolvido por Ned Block. O exemplo convida a imaginar que cada habitante da China receba instruções para desempenhar a função de um neurônio individual. Utilizando rádios transmissores para trocar informações, todos reproduziriam exatamente a organização causal de um cérebro humano. A hipótese pressupõe que as conexões entre os participantes preservam integralmente a estrutura funcional presente no cérebro original.

Se a definição funcionalista for suficiente para caracterizar a mente, parece seguir-se que esse gigantesco sistema coletivo deveria possuir estados mentais equivalentes aos de um ser humano. Surge então uma dificuldade intuitiva. Muitos filósofos consideram extremamente improvável que uma organização dessa natureza dê origem a uma experiência consciente unificada. O problema não está na complexidade do sistema, mas na impressão de que a reprodução da organização causal talvez não seja suficiente para produzir aquilo que caracteriza a consciência fenomenal. O experimento procura mostrar que uma descrição exclusivamente funcional pode atribuir mente a sistemas cuja existência de qualia permanece altamente questionável.

Outra crítica influente foi formulada por John Searle a partir do experimento mental conhecido como quarto chinês. De acordo com esse exemplo, imagine-se uma pessoa que desconhece completamente a língua chinesa e permanece isolada em um quarto. Ela recebe textos escritos em chinês e possui um manual contendo regras detalhadas para manipular esses símbolos.  Seguindo rigorosamente essas instruções, consegue produzir respostas indistinguíveis das respostas fornecidas por um falante nativo, embora continue sem compreender o significado de qualquer palavra que utiliza.

A investigação proposta por Searle procura distinguir dois conceitos cuja diferença tende a desaparecer quando a mente é identificada com o processamento computacional. De acordo com o conceito de sintaxe, um sistema manipula símbolos exclusivamente em virtude de suas propriedades formais e das regras que determinam sua combinação. De acordo com o conceito de semântica, esses mesmos símbolos possuem significado e referem-se a objetos, acontecimentos ou estados de coisas.

O argumento sustenta que a execução correta de regras sintáticas não produz, por si só, compreensão semântica. O ocupante do quarto realiza exatamente as operações exigidas pelo programa, mas permanece incapaz de compreender o conteúdo das mensagens que processa.

Caso esse argumento seja bem-sucedido, a identificação entre mente e programa computacional torna-se insuficiente. Um sistema pode reproduzir com perfeição a organização funcional exigida para responder adequadamente a perguntas, resolver problemas ou manter uma conversa, sem que disso decorra a existência de compreensão genuína.

 

V. MATERIALISMO ELIMINATIVO

 

Grande parte das teorias materialistas procura preservar a existência dos estados mentais, embora proponha uma nova maneira de compreendê-los. A Teoria da Identidade identifica esses estados com processos cerebrais, enquanto o funcionalismo procura defini-los pelo papel causal que desempenham. O materialismo eliminativo segue um caminho bastante diferente. A investigação deixa de perguntar como crenças, desejos e dores podem ser explicados cientificamente e passa a questionar um pressuposto anterior: será que esses estados realmente existem tal como a linguagem cotidiana os descreve?

De acordo com a tese do materialismo eliminativo, os conceitos centrais da psicologia do senso comum não correspondem aos processos que efetivamente ocorrem no cérebro. Quando alguém explica uma ação dizendo que determinada pessoa acreditava em algo, desejava certo resultado ou agiu motivada pela raiva, costuma supor que esses estados constituem componentes reais da arquitetura mental.

 O eliminativismo coloca justamente essa suposição em dúvida. A hipótese consiste em tratar esse vocabulário como parte de uma teoria empírica sobre a mente, e não como um conjunto de conceitos cuja validade estaria garantida pela experiência imediata.

Essa teoria empírica recebe o nome de psicologia popular (folk psychology). De acordo com esse conceito, os seres humanos compreendem e antecipam o comportamento dos outros recorrendo à atribuição de crenças, desejos, intenções, medos e emoções. Quando alguém vê uma pessoa caminhando até a cozinha, por exemplo, tende a explicar essa ação dizendo que ela acredita haver comida disponível e deseja alimentar-se.

Esse modo de interpretar o comportamento parece tão espontâneo que dificilmente é percebido como uma teoria. Paul Churchland procura justamente modificar essa perspectiva. Para ele, a psicologia popular deve ser avaliada da mesma maneira que qualquer outra tentativa de explicar um conjunto de fenômenos naturais.

Essa mudança de perspectiva permite compreender por que Churchland recorre frequentemente à história da ciência. Ao longo do desenvolvimento científico, diversas teorias deixaram de existir porque seus conceitos fundamentais mostraram-se incapazes de explicar adequadamente os fenômenos investigados.

A teoria do calórico atribuía o calor à presença de um fluido invisível que circulava entre os corpos. A medicina hipocrática e galênica interpretava as doenças como resultado de desequilíbrios entre os quatro humores corporais. A cosmologia aristotélica compreendia o movimento dos corpos celestes por meio da hipótese das esferas cristalinas.

Nenhum desses conceitos foi preservado após o surgimento de teorias mais bem fundamentadas. Segundo Churchland, pode ser que a psicologia popular ocupe posição semelhante. Sua permanência ao longo da história não constitui evidência suficiente de que seus conceitos correspondam à estrutura real da mente.

Esse argumento ganha força quando a investigação se aproxima da neurociência contemporânea. A linguagem da psicologia popular descreve a cognição por meio de atitudes proposicionais. De acordo com esse conceito, uma atitude proposicional consiste em um estado mental cujo conteúdo pode ser expresso por uma proposição. Afirmar que alguém acredita que a neve é branca ou teme que chova são exemplos desse tipo de descrição. Churchland questiona se essa maneira de representar a atividade mental corresponde efetivamente ao funcionamento do cérebro.

O problema torna-se mais evidente quando se observa que atitudes proposicionais pressupõem capacidades linguísticas relativamente sofisticadas. Bebês muito pequenos e diversos animais exibem comportamentos complexos, aprendem com a experiência, adaptam-se ao ambiente e resolvem problemas práticos. Se a cognição dependesse da manipulação de proposições semelhantes a frases, pareceria difícil explicar essas formas de inteligência. Surge então a hipótese de que a estrutura conceitual da psicologia popular talvez reflita características da linguagem humana muito mais do que características da organização cerebral.

Essa hipótese parece encontrar apoio em modelos atuais das neurociências e das ciências cognitivas. Em vez de representar informações por meio de sentenças internas organizadas sintaticamente, muitos modelos descrevem o cérebro como um sistema distribuído de processamento.

A informação é codificada em padrões de ativação que envolvem populações de neurônios conectadas por redes sinápticas extremamente complexas. O desempenho cognitivo depende da dinâmica dessas conexões e das transformações produzidas pela atividade conjunta de inúmeras unidades neurais. Nessa descrição, torna-se difícil localizar algo que desempenhe exatamente o papel atribuído pelas categorias tradicionais de crença ou desejo.

Apesar da força dessa crítica, o eliminativismo encontrou resistência significativa. Uma das objeções mais conhecidas foi desenvolvida por William Lycan mediante a utilização da chamada mudança mooreana (Moorean shift), inspirada na estratégia argumentativa de G. E. Moore.

A ideia central consiste em comparar o grau de confiança que atribuímos a diferentes tipos de afirmação. A existência de crenças, desejos e experiências conscientes parece fazer parte do conjunto de convicções mais fundamentais que orientam nossa vida cotidiana. Já a tese segundo a qual toda a psicologia popular constitui uma teoria científica equivocada depende de uma cadeia bastante sofisticada de pressupostos filosóficos. Diante dessa diferença, Lycan sustenta que parece mais razoável revisar a teoria do que abandonar aquilo que experimentamos como parte imediata da vida mental.

Outra dificuldade frequentemente apontada envolve a própria formulação do eliminativismo. Quando um filósofo afirma que crenças não existem, parece inevitável interpretar essa afirmação como a expressão de uma crença acerca da natureza da mente. Muitos críticos sustentam que essa consequência produz uma forma de autoderrota.  

O eliminativista responde que a linguagem ordinária continua sendo utilizada por razões pragmáticas e comunicativas, embora seus conceitos não integrem uma descrição científica adequada da cognição. Ainda assim, a tensão permanece como um dos principais pontos de debate em torno dessa teoria.

As críticas ao eliminativismo também assumiram outra direção. De acordo com a teoria da simulação, os seres humanos não interpretam o comportamento alheio aplicando uma teoria psicológica composta por leis gerais. A compreensão dos outros depende da capacidade de utilizar a própria mente como modelo para reconstruir internamente os estados que provavelmente estão sendo vivenciados pelo interlocutor. Essa reconstrução ocorre por meio da imaginação, da empatia e de mecanismos cognitivos que permitem simular perspectivas diferentes da própria.

Essa abordagem altera significativamente o modo como a psicologia popular é compreendida. Se ela não constitui uma teoria científica comparável às antigas teorias do calórico ou dos humores, torna-se menos plausível esperar que seja simplesmente refutada por descobertas neurocientíficas. Sua função passa a ser entendida como uma competência prática envolvida na interação social. Pesquisas sobre dificuldades de atribuição de estados mentais em alguns transtornos do neurodesenvolvimento, assim como estudos sobre sistemas neurais relacionados à observação das ações de outras pessoas, foram frequentemente utilizados para explorar essa hipótese, embora seu alcance permaneça objeto de intenso debate.

Uma crítica ainda mais fundamental foi desenvolvida por Stephen Stich ao examinar a teoria da referência pressuposta pelo eliminativismo. A argumentação de Churchland parece depender da ideia de que um conceito deixa de referir-se a qualquer entidade quando as descrições tradicionalmente associadas a ele se revelam falsas. Stich questiona precisamente esse pressuposto.

De acordo com a teoria causal-histórica da referência, desenvolvida sobretudo por Saul Kripke, a referência de um termo não depende exclusivamente das descrições que lhe são atribuídas pelos falantes. Uma palavra continua referindo-se ao mesmo objeto porque existe uma cadeia histórica de transmissão que remonta ao momento em que aquele objeto foi inicialmente identificado na comunidade linguística. O funcionamento da linguagem não exige que os usuários possuam uma teoria científica correta sobre aquilo de que falam.

Um exemplo ajuda a compreender essa diferença. Imagine uma comunidade que utiliza a palavra sherkpara designar os pontos luminosos observados no céu durante a noite. Seus integrantes acreditam que essas luzes são pequenas aberturas na estrutura do universo. A astronomia moderna mostra que essa descrição está profundamente equivocada. Ainda assim, parece pouco plausível concluir que a palavra “sherk” nunca se referiu às estrelas. O erro encontra-se na teoria utilizada para descrevê-las, e não na referência do termo.

Aplicada à filosofia da mente, essa consideração produz uma consequência importante. Mesmo que futuras teorias neurocientíficas revelem que crenças, desejos e dores possuem uma estrutura muito diferente daquela imaginada pela psicologia popular, disso não decorre automaticamente que esses conceitos deixem de referir-se a aspectos reais da vida mental. Pode ser que a descrição tradicional necessite de revisão profunda.

 Essa possibilidade, por si só, não basta para justificar a eliminação completa do vocabulário psicológico. O debate desloca-se, então, para uma questão ainda mais fundamental: em que condições uma revisão científica da mente exige abandonar nossos conceitos ordinários e em que condições exige apenas reinterpretá-los.

 

VI. MENTE ESTENDIDA

 

Ao longo da filosofia da mente, uma suposição permaneceu relativamente constante mesmo quando diferentes teorias discordavam sobre a natureza dos estados mentais. Dualistas, teóricos da identidade, funcionalistas e eliminativistas costumam partir da ideia de que a cognição ocorre inteiramente no interior do organismo. As divergências concentram-se naquilo que existe dentro da cabeça, seja uma substância imaterial, um cérebro, um sistema funcional ou uma rede neuronal.

A hipótese de que os limites físicos da mente coincidam com os limites do crânio raramente é colocada em questão. É justamente esse pressuposto que Andy Clark e David Chalmers procuram examinar.

De acordo com a tese da mente estendida, determinados processos cognitivos podem incluir elementos localizados fora do cérebro e até mesmo fora do corpo. A proposta não consiste em afirmar que o ambiente apenas influencia o pensamento, essa afirmação dificilmente despertaria controvérsia. O objetivo é mais ambicioso. Clark e Chalmers sustentam que, em certas circunstâncias, componentes externos integram literalmente o processo cognitivo, tornando-se partes constitutivas da mente.

A fundamentação dessa hipótese depende do chamado princípio de paridade. De acordo com esse princípio, imagine-se um processo realizado externamente ao organismo que desempenhe exatamente a mesma função cognitiva que um processo interno. Se esse procedimento fosse executado no cérebro, dificilmente haveria hesitação em classificá-lo como parte da cognição. Surge então a pergunta que orienta o argumento: por que o simples fato de o processo ocorrer fora do crânio deveria alterar sua natureza?

Clark e Chalmers ilustram essa ideia recorrendo ao exemplo do jogo Tetris. Durante a partida, o jogador pode imaginar mentalmente a rotação de uma peça antes de posicioná-la. Também pode pressionar um botão para que o próprio jogo realize essa rotação, observando imediatamente o resultado na tela. Nos dois casos, o objetivo cognitivo permanece o mesmo: explorar diferentes possibilidades de encaixe antes da decisão final. A diferença reside apenas no local em que parte do processamento ocorre.

Se a rotação mental pertence à atividade cognitiva, parece razoável perguntar por que a rotação produzida por um mecanismo externo, continuamente integrado ao processo de resolução do problema, deveria ser tratada de maneira completamente distinta.

Essa linha de raciocínio torna-se mais sofisticada no experimento mental conhecido como o caso de Inga e Otto. Inga deseja visitar um museu. Para descobrir seu destino, consulta sua memória biológica e recorda o endereço. Otto possui doença de Alzheimer e, justamente por isso, utiliza um caderno onde registra informações importantes sobre sua vida cotidiana. Quando decide visitar o mesmo museu, consulta o caderno, encontra o endereço e segue para o local.

A princípio, pode parecer que apenas Inga utiliza memória genuína, enquanto Otto apenas consulta uma fonte externa de informação. Clark e Chalmers procuram mostrar que essa diferença talvez seja menos significativa do que parece. O caderno acompanha Otto continuamente, é utilizado de maneira habitual, contém informações nas quais ele confia e desempenha exatamente a função que a memória biológica desempenha para outras pessoas. O comportamento cognitivo resulta da interação constante entre o indivíduo e esse recurso externo. Em vez de considerar o caderno como um simples instrumento, a hipótese da mente estendida sugere compreendê-lo como parte do próprio sistema cognitivo.

Esse exemplo revela que a discussão não gira em torno da localização física da informação, mas da organização funcional do processo cognitivo. Caso um componente externo participe de maneira suficientemente estável das atividades de recordar, decidir e agir, parece possível descrevê-lo como integrante da arquitetura mental. O sujeito deixa de ser compreendido como uma unidade cognitiva isolada, passando a constituir um sistema acoplado ao ambiente em que opera.

Essa conclusão, contudo, produz uma dificuldade imediata. Se qualquer objeto capaz de auxiliar o pensamento for considerado parte da mente, a cognição parece expandir-se indefinidamente. Livros, telefones celulares, motores de busca, bibliotecas e praticamente qualquer tecnologia de armazenamento de informação poderiam tornar-se componentes da vida mental. Essa consequência ficou conhecida como problema do inchaço cognitivo (cognitive bloat).

A objeção levou Clark e Chalmers a especificar as condições em que um recurso externo pode integrar um processo cognitivo. A relação entre sujeito e ferramenta precisa apresentar um grau elevado de estabilidade. O recurso deve estar disponível de forma confiável, ser facilmente acessível, desempenhar papel recorrente na atividade cognitiva e conter informações que o usuário aceite espontaneamente, sem submetê-las a uma verificação constante.

Essas condições procuram distinguir um caderno utilizado diariamente por Otto de uma enciclopédia esquecida em uma estante ou de uma pesquisa ocasional realizada em um mecanismo de busca. O ponto central consiste em mostrar que a integração cognitiva depende da maneira como o recurso participa da vida mental, e não apenas de sua existência física.

O desenvolvimento dessas ideias conduziu a uma ampliação ainda maior da investigação. Se processos cognitivos podem estender-se para além do organismo, cabe perguntar se algo semelhante ocorre com os estados afetivos. A chamada afetividade estendida procura explorar precisamente essa possibilidade.

De acordo com essa perspectiva, emoções não devem ser compreendidas exclusivamente como acontecimentos internos produzidos pelo cérebro. Em determinadas circunstâncias, sua constituição depende da interação contínua entre o organismo, o corpo em movimento e os elementos materiais presentes no ambiente.

Um exemplo frequentemente discutido na literatura é o do músico de jazz cuja improvisação modifica continuamente a própria experiência emocional. A execução musical não funciona apenas como expressão de um sentimento previamente formado. O contato corporal com o instrumento, os sons produzidos, a resposta auditiva e a dinâmica da improvisação participam da constituição da experiência afetiva ao longo de seu desenvolvimento. A tristeza experimentada pelo músico não antecede completamente a performance. Ela é parcialmente moldada e sustentada pela interação causal estabelecida com o saxofone e com a atividade musical em curso.

A hipótese da mente estendida modifica, assim, uma das pressuposições mais persistentes da filosofia da mente. O problema deixa de consistir apenas em identificar o mecanismo responsável pela cognição e passa a incluir outra pergunta, cuja resposta permanece objeto de intenso debate: quais são os critérios que permitem determinar onde termina o organismo e onde termina, efetivamente, a própria mente?

 


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Bruno dos Santos Queiroz

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