PSICOTERAPIA PARA TOC
Independente da abordagem da psicologia que alguém adote, o único método de tratamento psicoterápico efetivo para TOC (Transtorno-Obsessivo-Compulsivo) é a ERP ( Terapia da Exposição e Prevenção de Resposta). Dado isso, este texto pretende apresentar esse método de tratamento. O texto se divide nas seguintes partes: (i) tratamento das compulsões; (ii) tratamento das obsessões; (iii) tratamento farmacológico.
I.
TRATAMENTO DAS COMPULSÕES
A Terapia
de Exposição e Prevenção de Resposta (ERP,
do inglês Exposure and Response Prevention) é considerada o tratamento
psicológico mais eficaz e amplamente utilizado para pacientes que apresentam
comportamentos compulsivos observáveis, como limpeza excessiva, lavagem
repetitiva das mãos, verificações constantes de portas, janelas e
eletrodomésticos, entre outros rituais característicos do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).
A eficácia dessa abordagem está
fundamentada na ideia de que a ansiedade e os impulsos compulsivos podem
diminuir naturalmente ao longo do tempo, mesmo sem a realização dos rituais que
o indivíduo acredita serem necessários para aliviar seu sofrimento. Dessa
forma, a ERP busca romper o ciclo que mantém as obsessões e compulsões,
promovendo uma redução progressiva dos medos e das respostas compulsivas
associadas a eles. A ERP envolve os seguintes componentes:
(1) Exposição:
O primeiro componente da terapia é a
exposição, que consiste em colocar o paciente em contato direto e sistemático
com os objetos, situações ou pensamentos que desencadeiam desconforto,
ansiedade e vontade de realizar comportamentos compulsivos. Esse processo não
ocorre de forma aleatória, mas sim por meio da construção de uma hierarquia de
estímulos temidos. Para elaborar essa hierarquia, terapeuta e paciente
trabalham em conjunto, identificando os diferentes gatilhos que provocam
ansiedade e classificando-os em uma escala de 0 a 100, de acordo com o nível de
sofrimento e intensidade do impulso compulsivo gerado por cada situação.
Por
exemplo, uma pessoa com medo de contaminação pode atribuir nota 20 ao ato de
tocar em uma mesa de sua própria casa, nota 50 ao contato com corrimãos em
locais públicos e nota 90 ao ato de tocar na tampa de uma lixeira pública. A
exposição normalmente começa em um ponto intermediário dessa lista ou no nível
que o paciente se sente capaz de enfrentar inicialmente, permitindo uma
progressão gradual e controlada.
Além das exposições realizadas em
situações reais, conhecidas como exposições in vivo, a ERP também
utiliza a chamada exposição imaginária (imaginal
exposure). Essa estratégia é empregada quando não é possível ou
prático reproduzir a situação temida no ambiente terapêutico ou no cotidiano do
paciente. Medos relacionados a catástrofes futuras, desastres, acidentes
graves, doenças que ainda não ocorreram ou situações de exposição pública podem
ser difíceis de recriar diretamente.
Nesses casos, o terapeuta ensina o
paciente a construir imagens mentais vívidas e detalhadas dos cenários temidos.
Um indivíduo que teme provocar um acidente fatal ao dirigir, por exemplo, pode
ser orientado a imaginar detalhadamente essa situação, permanecendo em contato
com os pensamentos e emoções associados ao medo. O objetivo continua sendo o
mesmo: permitir que a ansiedade seja ativada e enfrentada sem o uso de
estratégias de neutralização.
Entretanto, a exposição por si só não é
suficiente para produzir mudanças duradouras. O segundo elemento fundamental da
ERP é a prevenção de resposta. Após
entrar em contato com o estímulo desencadeador da ansiedade, o paciente deve
abster-se completamente de realizar seus rituais habituais, comportamentos de
limpeza, verificações ou qualquer outra forma de neutralização. Assim, uma
pessoa que toca em uma superfície considerada contaminada não deve lavar as
mãos imediatamente; da mesma forma, alguém que sente necessidade de verificar
repetidamente uma fechadura deve resistir ao impulso de realizar novas
checagens. Essa etapa é essencial porque impede que o indivíduo obtenha o
alívio imediato proporcionado pela compulsão, permitindo que ele experimente
diretamente a redução natural da ansiedade.
É importante destacar que a prevenção de
resposta jamais envolve contenção física ou qualquer forma de coerção. Trata-se
de um princípio ético e clínico fundamental da terapia. O terapeuta não força o
paciente a permanecer sem realizar o ritual; ao contrário, oferece apoio
constante durante os momentos de maior desconforto. Durante a exposição, o profissional
permanece ao lado do paciente, fornecendo empatia, compreensão, incentivo e, em
alguns casos, distrações que ajudem a suportar a ansiedade sem recorrer à
compulsão.
Nas fases iniciais do tratamento, quando
os níveis de sofrimento costumam ser mais intensos, pode ser necessário que o
terapeuta acompanhe o paciente por até duas horas para garantir a prevenção da
resposta. Com o avanço da terapia e o fortalecimento das habilidades de
enfrentamento, esse período tende a diminuir gradualmente, reduzindo-se para
aproximadamente uma hora ou até menos.
Outro recurso frequentemente utilizado
para facilitar o processo de exposição é a modelagem
terapêutica (modelling). Essa técnica baseia-se na aprendizagem
por observação e costuma ser especialmente útil nas fases iniciais do
tratamento, quando o medo do paciente ainda é muito intenso. Nesse
procedimento, o terapeuta realiza primeiro a ação temida, demonstrando que ela
pode ser executada sem que ocorram as consequências catastróficas imaginadas
pelo paciente.
Em um caso de medo de contaminação, por
exemplo, o terapeuta pode tocar deliberadamente em uma maçaneta considerada
suja, em uma lixeira ou em qualquer outro objeto evitado pelo paciente. Em
seguida, pode esfregar as mãos nas próprias roupas ou nos braços, espalhando
simbolicamente a “contaminação” sem demonstrar preocupação. Ao observar que
nada de perigoso acontece, o paciente frequentemente experimenta uma pequena
redução do medo, o que aumenta sua disposição para imitar o comportamento
demonstrado e participar da exposição.
Toda a lógica da Terapia de Exposição e
Prevenção de Resposta está fundamentada no princípio
da redução espontânea da ansiedade. Pessoas com TOC geralmente acreditam
que somente a realização de um ritual é capaz de diminuir seu sofrimento.
Entretanto, a ERP demonstra, na prática, que a ansiedade segue um curso natural
de ascensão e declínio, mesmo quando nenhuma compulsão é executada. Quando o
indivíduo cede ao ritual, ele experimenta um alívio rápido, mas temporário, reforçando a crença de que a
compulsão é necessária. Por outro lado, quando resiste à compulsão, tem a
oportunidade de perceber que o desconforto diminui por conta própria.
Nos estágios iniciais do tratamento, essa
redução espontânea pode levar até duas horas para ocorrer, exigindo grande
persistência por parte do paciente. Entretanto, esse tempo varia
consideravelmente de pessoa para pessoa e depende de fatores como a gravidade
dos sintomas, o tipo de obsessão, a presença de ansiedade associada e o grau de
monitoramento constante dos próprios pensamentos e sensações. Em alguns casos,
a sensação subjetiva de ansiedade pode parecer persistir por períodos ainda
mais longos caso haja hipermonitoramento por parte do paciente de sua ansiedade
fisiológica.
Entretanto, à medida que as exposições são
repetidas e a aprendizagem se consolida, o tempo necessário para que a
ansiedade diminua torna-se cada vez menor. Situações que anteriormente
provocavam intenso sofrimento passam a gerar apenas desconforto moderado ou
leve, e a recuperação emocional ocorre em poucos minutos. Esse processo
evidencia que o medo não é permanente e que o indivíduo possui capacidade para
tolerar a ansiedade sem recorrer aos rituais compulsivos.
Além disso, os efeitos da ERP são
cumulativos. Cada experiência bem-sucedida de exposição e prevenção de resposta
enfraquece progressivamente as associações entre o estímulo temido e a
necessidade de realizar compulsões. Como resultado, os níveis de medo tornam-se
gradualmente menores e os impulsos compulsivos mais fracos e manejáveis. Um
paciente que inicialmente precisava lavar as mãos dezenas de vezes ao dia pode,
após repetidas exposições, sentir cada vez menos necessidade de realizar esse comportamento.
Da mesma forma, uma pessoa que verificava portas e fechaduras inúmeras vezes
antes de sair de casa passa a conseguir tolerar a incerteza sem recorrer às
verificações repetitivas.
II.
TRATAMENTO DAS OBSESSÕES
Entre as diversas manifestações do
Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), há pacientes cujo principal sofrimento
não está relacionado a comportamentos compulsivos observáveis, como limpeza
excessiva ou verificações repetitivas, mas sim à presença de obsessões
internas. Essas obsessões consistem em pensamentos, imagens ou impulsos
intrusivos, indesejados e frequentemente repugnantes, que surgem de forma
involuntária e provocam intenso desconforto emocional. Nesses casos, a ERP
desempenha um papel fundamental ao concentrar-se na correção das interpretações
catastróficas que os indivíduos atribuem a esses pensamentos. O tratamento
busca demonstrar que o problema não está na existência dos pensamentos em si,
mas no significado ameaçador que lhes é atribuído.
O processo terapêutico geralmente ocorre
em duas etapas complementares:
(1) Etapa Educativa
A
primeira é uma fase educativa, cujo objetivo é normalizar a experiência do
paciente e reduzir a sensação de anormalidade frequentemente associada aos
pensamentos intrusivos. Muitas pessoas que sofrem com obsessões acreditam que
são as únicas a experimentar ideias violentas, sexualmente inadequadas,
blasfemas ou moralmente perturbadoras. Em razão disso, sentem vergonha, culpa e
medo de serem julgadas pelos outros.
A intervenção inicial do terapeuta
consiste em fornecer informações que demonstrem que praticamente todas as
pessoas experimentam pensamentos indesejados em algum momento da vida. Estudos
e observações clínicas indicam que o conteúdo dos chamados pensamentos
intrusivos normais é muito semelhante ao conteúdo das obsessões encontradas em
pacientes com TOC. A diferença fundamental não está no tipo de pensamento, mas
na forma como ele é interpretado.
Nesse contexto, o terapeuta explica que a
presença de um pensamento não significa que ele represente uma intenção real,
um desejo oculto ou uma previsão do futuro. Além disso, destaca-se que as
estratégias frequentemente utilizadas para lidar com esses pensamentos podem
contribuir para sua manutenção. Muitos pacientes tentam suprimir as obsessões,
afastá-las da mente, monitorar constantemente sua presença ou realizar atos
mentais destinados a neutralizar seu conteúdo. Contudo, essas tentativas
geralmente produzem o efeito contrário ao desejado. Quanto mais o indivíduo
tenta controlar ou eliminar um pensamento, mais atenção lhe dedica e mais
frequentemente ele tende a reaparecer. Consequentemente, a crença de que o
pensamento é perigoso acaba sendo reforçada, perpetuando o ciclo obsessivo.
(2) Etapa de
Tratamento
Após essa etapa de psicoeducação, inicia-se
a segunda fase do tratamento, voltada para a modificação das interpretações
distorcidas associadas aos pensamentos intrusivos. O principal objetivo é
substituir interpretações catastróficas por explicações mais realistas,
equilibradas e benignas. Em vez de concluir que um pensamento indica perigo,
imoralidade ou risco iminente, o paciente aprende a compreendê-lo como um
evento mental comum e sem significado especial. Para alcançar essa mudança
cognitiva, os terapeutas empregam diversas estratégias complementares, são
elas:
(2.1) Utilização de técnicas
cognitivas voltadas para a análise crítica das crenças do paciente: nesse
processo, o indivíduo é incentivado a reunir evidências que apoiem e que
contradigam o significado atribuído aos seus pensamentos. Por exemplo, uma
pessoa que acredita que ter pensamentos agressivos significa que poderá perder
o controle e machucar alguém é encorajada a examinar objetivamente as
evidências disponíveis. O paciente pode ser levado a refletir sobre quantas
vezes teve esse tipo de pensamento, quantas vezes realmente agiu de maneira
violenta e quais elementos demonstram que seus valores pessoais são
incompatíveis com tal comportamento. Esse procedimento favorece a construção de
interpretações mais racionais e menos alarmistas.
(2.1) Realização de experimentos
comportamentais. Esses experimentos têm como finalidade testar diretamente
as previsões catastróficas formuladas pelo paciente. Em vez de simplesmente
discutir teoricamente suas crenças, o indivíduo é convidado a colocá-las à
prova de forma planejada e segura. Um exemplo seria pedir que uma pessoa deixe
de tentar bloquear determinado pensamento por um período específico e observe o
que acontece. Frequentemente, os resultados demonstram que as consequências
temidas não ocorrem, fornecendo evidências concretas contra as interpretações
catastróficas. Dessa maneira, o paciente passa a confiar mais na experiência
direta do que em suas suposições baseadas no medo.
(2.3) Utilização de pequenas
pesquisas informais (mini-surveys):
Muitos pacientes acreditam que seriam vistos como pessoas perigosas, imorais ou
perturbadas caso revelassem seus pensamentos intrusivos. Para testar essa
hipótese, eles podem conversar com amigos ou familiares de confiança e
perguntar se essas pessoas também experimentam pensamentos indesejados
ocasionalmente. Além disso, podem investigar como esses indivíduos
interpretariam a presença de pensamentos intrusivos em outra pessoa.
Frequentemente, as respostas obtidas mostram que tais experiências são muito mais
comuns do que o paciente imaginava e que a maioria das pessoas não considera
alguém moralmente condenável apenas por ter pensamentos involuntários. Esse
processo ajuda a enfraquecer o medo da rejeição e do estigma.
(2.4) Técnica das “férias dos
pensamentos” (thought holidays): nessa intervenção, o paciente é
incentivado a interromper temporariamente seus esforços constantes de
monitoramento, controle e bloqueio dos pensamentos intrusivos. Durante períodos
previamente estabelecidos, ele deixa de vigiar a própria mente e abandona as
tentativas de neutralização. O objetivo é demonstrar, por meio da experiência
prática, que nenhuma catástrofe ocorre quando a pessoa deixa de exercer
vigilância contínua sobre seus pensamentos. Ao perceber que os cenários temidos
não se concretizam, o indivíduo reduz gradualmente sua dependência das
estratégias de controle mental.
Além dessas intervenções, a ERP dedica
atenção especial à correção de vieses
cognitivos frequentemente presentes em pacientes com obsessões. Um dos mais
importantes é a fusão pensamento-ação (thought-action
fusion). Esse viés refere-se à crença de que pensar em determinado
evento aumenta significativamente a probabilidade de ele ocorrer ou de que
possuir um pensamento moralmente inaceitável equivale, em termos éticos, a
realizar a ação correspondente.
Por exemplo, uma pessoa pode acreditar que
imaginar um acidente aumenta as chances de que ele aconteça ou que ter um
pensamento agressivo seja moralmente tão grave quanto cometer um ato de
agressão. A terapia procura demonstrar que pensamentos e ações são fenômenos
distintos e que a simples ocorrência de uma ideia não produz efeitos diretos
sobre a realidade.
Outro viés frequentemente abordado é o senso inflado de responsabilidade. Muitos
indivíduos com TOC acreditam possuir uma responsabilidade excessiva pela
prevenção de danos e pela segurança das outras pessoas. Como consequência,
sentem-se obrigados a monitorar constantemente seus pensamentos e
comportamentos para evitar qualquer possibilidade de erro ou prejuízo. A ERP
ajuda esses pacientes a desenvolver uma compreensão mais realista dos limites
de sua responsabilidade pessoal, reduzindo a necessidade de controle excessivo
e a culpa associada às obsessões.
Além disso, o tratamento
do TOC também pode ser favorecido por estratégias auxiliares, como o treinamento de relaxamento, que
auxilia no controle da ansiedade e da tensão frequentemente associadas aos
sintomas obsessivo-compulsivos. Nesse contexto, tanto as técnicas de ritmo e
direcionamento comportamental quanto os métodos de relaxamento desempenham
papel importante na recuperação da funcionalidade e da qualidade de vida dos
pacientes.
A lentidão obsessiva primária constitui uma forma específica de TOC
na qual o principal problema não decorre de rituais compulsivos convencionais,
mas da extrema demora na execução de atividades rotineiras. Pacientes com essa
condição podem gastar horas para tomar banho, escovar os dentes, barbear-se,
vestir-se ou realizar outras tarefas de autocuidado que normalmente exigiriam
apenas alguns minutos. Essa demora ocorre porque o indivíduo sente uma
necessidade intensa de executar cada ação de maneira perfeitamente ordenada,
respeitando regras pessoais rígidas e detalhes minuciosos. Como consequência,
atividades simples tornam-se extremamente prolongadas, comprometendo a rotina
diária, os relacionamentos e o desempenho profissional.
Diante dessa
característica específica, utiliza-se uma intervenção terapêutica baseada em
técnicas de ritmo, direcionamento e modelagem comportamental. O objetivo
principal é ajudar o paciente a reduzir gradualmente o tempo gasto nas tarefas
diárias e recuperar padrões funcionais de comportamento. O tratamento começa
com o estabelecimento de metas realistas
relacionadas à duração de determinadas atividades. Terapeuta e paciente
trabalham em conjunto para definir limites de tempo adequados para tarefas
específicas, criando objetivos progressivos de velocidade. Em vez de exigir
mudanças abruptas, o profissional estimula continuamente o paciente a reduzir
gradualmente o tempo necessário para concluir suas rotinas de autocuidado.
Por exemplo, uma pessoa
que leva duas horas para se vestir pode inicialmente estabelecer como meta
reduzir esse tempo para uma hora e quarenta e cinco minutos. Após alcançar esse
objetivo, novas metas são definidas, permitindo avanços sucessivos. Esse
processo de redução gradual torna a mudança mais acessível e aumenta a
probabilidade de sucesso terapêutico. Ao estabelecer metas concretas e
mensuráveis, o paciente desenvolve uma percepção mais realista sobre o tempo
necessário para executar suas atividades.
Outro recurso importante
nesse tratamento é a modelagem
comportamental. Como muitos pacientes mantêm padrões extremamente lentos
durante anos, acabam perdendo a referência do que seria uma velocidade
considerada normal para determinadas tarefas. Frequentemente, perguntam ao
terapeuta quanto tempo uma pessoa sem dificuldades levaria para escovar os
dentes, pentear os cabelos ou vestir-se. Para responder a essas dúvidas e
fornecer um modelo concreto de comportamento, o terapeuta demonstra a execução
das atividades em ritmo considerado funcional. Por exemplo, pode mostrar que
escovar os dentes adequadamente leva aproximadamente dois minutos ou que
pentear os cabelos pode ser feito em poucos instantes. Em seguida, o paciente é
incentivado a observar cuidadosamente essas demonstrações e reproduzir os
comportamentos apresentados.
A observação direta do
modelo ajuda a corrigir percepções distorcidas sobre o tempo necessário para
completar as tarefas e oferece uma referência prática para a mudança
comportamental. Além disso, a modelagem reduz a insegurança do paciente, que
passa a ter exemplos concretos de desempenho adequado em vez de depender
exclusivamente de suas próprias estimativas.
Durante a realização das
tarefas, o terapeuta também utiliza técnicas
de direcionamento e fornecimento contínuo de feedback. Nesse processo, são oferecidos lembretes, orientações
e verificações periódicas do tempo transcorrido. Por exemplo, caso o objetivo seja
escovar os dentes em dois minutos, o profissional pode informar o paciente
sobre o tempo decorrido a cada trinta segundos, ajudando-o a manter o ritmo
estabelecido. Ao longo da atividade, são fornecidas informações constantes
sobre o progresso alcançado e reforços positivos sempre que o paciente consegue
aproximar-se da velocidade considerada adequada.
Esse acompanhamento
contínuo permite que o indivíduo tome consciência de seu ritmo de execução e
aprenda gradualmente a regular seu comportamento de forma mais eficiente. À
medida que o tratamento avança, as habilidades adquiridas em uma atividade
passam a ser generalizadas para outras tarefas de autocuidado, promovendo
melhorias progressivas em diferentes aspectos da rotina diária. Como resultado,
muitos pacientes conseguem recuperar níveis adequados de funcionamento,
reduzindo problemas como atrasos constantes, dificuldades familiares e até
mesmo riscos de perder o emprego devido à lentidão crônica.
Paralelamente às
intervenções voltadas para os sintomas específicos do TOC, o treinamento de relaxamento constitui
uma ferramenta complementar importante para o manejo da ansiedade. O estresse e
a tensão emocional tendem a agravar obsessões e compulsões. Dessa forma,
aprender estratégias eficazes para reduzir a ativação fisiológica pode
contribuir tanto para o alívio imediato do desconforto quanto para a diminuição
indireta da intensidade dos sintomas obsessivo-compulsivos.
O método mais utilizado
nesse contexto é o relaxamento muscular
progressivo. Essa técnica baseia-se na alternância sistemática entre tensão
e relaxamento muscular, permitindo que o paciente desenvolva maior consciência
das sensações corporais associadas ao estresse. O treinamento é realizado em
ambiente tranquilo, onde o indivíduo é orientado a concentrar-se em grupos
musculares específicos, um de cada vez.
Inicialmente, ele contrai intensamente
determinado grupo muscular durante aproximadamente seis a oito segundos,
direcionando sua atenção para a sensação de tensão produzida. Em seguida, relaxa
completamente essa musculatura e permanece nesse estado por cerca de quarenta e
cinco a cinquenta segundos, observando atentamente o contraste entre tensão e
relaxamento.
O procedimento segue uma
sequência organizada ao longo do corpo. Geralmente, inicia-se pelas mãos e
pelos braços, avançando para a face, pescoço, ombros e região abdominal.
Posteriormente, o trabalho estende-se para as pernas e os pés, garantindo que
todos os principais grupos musculares sejam incluídos no treinamento. Essa
progressão sistemática permite que o paciente desenvolva gradualmente maior
controle sobre as respostas físicas associadas ao estresse.
Outro elemento
fundamental da técnica é o controle
respiratório. A contração muscular é sincronizada com a respiração, de modo
que o indivíduo inspira profundamente e prende o ar enquanto tensiona os
músculos. Durante o relaxamento, o ar é liberado lentamente, favorecendo uma
sensação adicional de calma e redução da ativação fisiológica. A combinação
entre respiração controlada e relaxamento muscular potencializa os efeitos da
técnica e facilita o desenvolvimento de um estado geral de tranquilidade.
Nas etapas finais do
treinamento, o paciente é orientado a tensionar e relaxar todo o corpo
simultaneamente, formando aquilo que alguns terapeutas descrevem como uma “bola
de tensão”. Após essa contração global, ocorre o relaxamento completo da
musculatura. Com a prática regular, os indivíduos tornam-se progressivamente
mais habilidosos na identificação e redução da tensão corporal. Eventualmente,
muitos conseguem alcançar estados profundos de relaxamento apenas
concentrando-se em deixar os músculos soltos, sem necessidade de realizar
previamente as contrações.
Os benefícios desse
aprendizado vão além do contexto terapêutico imediato. O relaxamento muscular progressivo constitui uma habilidade que pode
ser utilizada ao longo de toda a vida como estratégia de enfrentamento diante
de situações estressantes. Ao reconhecer precocemente sinais de tensão e
utilizar técnicas de relaxamento para controlá-los, o indivíduo reduz a
probabilidade de agravamento dos sintomas obsessivo-compulsivos e fortalece sua
capacidade de lidar com desafios cotidianos. Além disso, essa habilidade pode
desempenhar papel importante na prevenção de recaídas, diminuindo o risco de
que eventos estressantes desencadeiem novos episódios graves do transtorno.
III.
TRATAMENTO FARMACOLÓGICO
Embora
muitos casos leves e moderados apresentem boa resposta à terapia psicológica da
EPR, o tratamento medicamentoso desempenha um papel fundamental em situações de
maior intensidade da ansiedade. Além disso, a utilização de medicamentos
torna-se particularmente relevante quando os sintomas obsessivo-compulsivos
estão associados a quadros significativos de depressão. Por isso, o psicólogo deve
recomendar ao paciente que busque um psiquiatra para aliar a ERP com a
medicação. Entre os principais medicamentos utilizados encontram-se:
(1) Clomipramina
(Anafranil®): antidepressivo tricíclico considerado um dos
medicamentos clássicos para o tratamento do TOC. As doses terapêuticas costumam
variar entre 100 mg e 250 mg por dia, sendo iniciadas gradualmente para reduzir
efeitos colaterais.
(2) Fluoxetina
(Prozac®, Daforin®, Fluxene® e genéricos): um dos ISRSs mais prescritos.
No tratamento do TOC, as doses geralmente situam-se entre 40 mg e 80 mg por
dia.
(3) Fluvoxamina
(Luvox®): medicamento amplamente estudado para TOC. As doses terapêuticas
normalmente variam entre 100 mg e 300 mg por dia.
(4) Paroxetina
(Aropax®, Cebrilin® e genéricos): geralmente utilizada em doses
entre 40 mg e 60 mg por dia.
(5) Sertralina
(Zoloft®, Tolrest®, Assert® e genéricos): uma das medicações mais
utilizadas atualmente para TOC, com doses habituais entre 100 mg e 200 mg por
dia.
(6) Citalopram
(Cipramil® e genéricos): pode ser utilizado em doses entre 20 mg e 40 mg
por dia.
(7) Escitalopram
(Lexapro®, Reconter® e genéricos): amplamente utilizado na prática
clínica brasileira para TOC, geralmente em doses entre 20 mg e 40 mg por dia.

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