INTRODUÇÃO AO PROBLEMA DO MAL
O objetivo deste texto consiste em apresentar o Problema do Mal contra a existência de Deus. O texto se divide nas seguintes partes: (i) Parado de Epicuro; (ii) abordagens metodológicas do problema do mal; (iii) categorias do mal do mundo; (iv) restrições éticas às ações divinas; (v) Por que as tentativas de responder ao problema do mal falham?
I. PARADOXO
DE EPICURO
Do ponto de vista filosófico
técnico, Deus é compreendido como um
ser detentor de três atributos máximos, conhecidos como atributos “omni”. É importante notar que essa é uma formulação
filosófica adotada por diversas religiões teístas, como o Cristianismo, o
Judaísmo, o Islamismo e o Hinduísmo, e até mesmo por visões não religiosas,
como o Neoplatonismo. Esses três pilares da natureza divina são:
(1) Onipotência:
Significa que Deus é todo-poderoso, ou seja, Ele tem o poder de fazer tudo
aquilo que é metafisicamente possível.
(2) Onisciência:
Significa que Deus possui conhecimento do valor de verdade de todas as
proposições.
(3) Onibenevolência:
Significa que Deus é a bondade suprema, entendida primariamente em sentido de
máxima perfeição ontológica.
O problema do mal (entendido aqui concretamente como “sofrimento”) surge quando tentamos
conciliar a inegável existência de dor e miséria no mundo com os três atributos
citados acima. O filósofo Lactâncio estruturou
esse conflito na forma de um paradoxo, que ele denominou de O paradoxo
questiona: por que o mal existe se Deus
tem os atributos para impedi-lo?
Lactâncio divide o problema
avaliando três possíveis respostas para a existência do sofrimento,
demonstrando que cada uma delas anula obrigatoriamente um dos atributos de
Deus:
Cenário
1: Deus quer acabar com o mal, mas não pode. Se supormos que o mal existe
porque Deus é incapaz de impedi-lo ou preveni-lo, concluímos que acabar com o
sofrimento não está dentro de Suas capacidades. No entanto, acabar com o mal não
é uma ação que implique impossibilidade metafísica. Logo, se Deus não tem poder
para realizar algo possível, Ele perde o atributo da onipotência. Um Deus incapaz não é um Deus todo-poderoso.
Cenário
2: Deus pode acabar com o mal, mas não sabe (ou não sabe como).
Poderíamos supor que Deus tem poder, mas não acabou com o mal porque não está
bem informado, foi pego de surpresa pela corrupção do mundo, ou até sabe que o
mal existe, mas não sabe quais meios utilizar para extingui-lo. Porém,
se Deus desconhece a existência da dor ou os meios corretos para eliminá-la,
Ele perde o atributo da onisciência.
Um Deus que ignora qualquer fato não é onisciente.
Cenário
3: Deus pode e sabe como acabar com o mal, mas não quer. Se
aceitarmos que Deus é de fato onipotente (tem o poder para destruir o mal) e é
de fato onisciente (conhece todo o sofrimento do mundo e sabe exatamente o que
fazer para acabar com ele), a única explicação que sobra para o mal continuar
existindo é que Deus simplesmente não quer eliminá-lo. É aqui que o
paradoxo atinge o terceiro atributo. O mal é uma privação do bem devido;
portanto, um ser perfeitamente bom sempre desejará que o mal não exista e
buscará promover o bem. Se Deus decide cruzar os braços e não acabar com o mal,
Ele perde o atributo da onibenevolência.
Um ser que tolera o mal podendo impedi-lo não é totalmente bom.
O Paradoxo de Epicuro demonstra
que essas possibilidades formam um beco sem saída lógico. A existência empírica
do mal entra em choque direto com a existência conjunta dos três atributos
divinos. A conclusão extraída do paradoxo de Epicuro é direta: dado que as
opções inevitavelmente se anulam (ou Deus não é poderoso, ou não é sábio, ou
não é bom), um Deus com as características absolutas de onipotência,
onisciência e onibenevolência não existe.
II. ABORDAGENS
METODOLÓGICAS DO PROBLEMA DO MAL
Os filósofos estruturam o
problema do mal a partir de duas frentes metodológicas principais: os argumentos
lógicos (incompatibilistas) e os argumentos evidenciais (probabilistas).
Os argumentos lógicos operam no campo da razão e da análise de conceitos, sem a
necessidade de investigar a quantidade exata de sofrimento empírico. O objetivo
dessa abordagem é provar que existe uma contradição
lógica e absoluta entre o conceito de Deus e o conceito do mal, ou seja,
eles são "incompossíveis" (não podem existir juntos na mesma
realidade).
Dentro dessa abordagem,
destacam-se três formulações principais:
(1) O Argumento de J.L. Mackie (A
Lógica da Eliminação): Mackie analisa o que está implícito nos conceitos
divinos. Se Deus é onipotente, Ele pode fazer tudo o que é possível. Se Ele é
completamente bondoso, a definição de bondade dita que Ele sempre elimina todo
o mal que estiver ao seu alcance. Juntando as duas coisas: um ser com todo o
poder e com o desejo irrestrito de eliminar o mal obrigatoriamente eliminaria todo
o mal. Portanto, a coexistência de um Deus com esses atributos e do mal é uma
contradição lógica; se o mal existe, esse Deus logicamente não pode existir.
(2) O Argumento de J.L. Schellenberg
(A Lei de Schellenberg): Foca na transição entre o estado de Deus antes da
criação e o estado do mundo após a criação. A premissa é que, antes da criação
(em um sentido lógico), existia apenas Deus, que é a suprema e pura perfeição
sem qualquer mal. Schellenberg argumenta que qualquer “bem puro” (sem mescla de
sofrimento) que existe em Deus excede infinitamente qualquer bem no mundo que
exija ou permita a existência do mal. Logo, Deus nunca teria uma razão lógica e
válida para criar um mundo com mal, pois um cenário apenas com bens puros
sempre será superior. A regra lógica conclui: se não havia mal antes da
criação, não poderia haver mal depois.
(3) O Argumento de Richard La
Croix (A Inferioridade da Criação): Esse argumento analisa a própria
escolha de criar o mundo. La Croix defende que um mundo habitado por criaturas
é inerentemente imperfeito e suscetível à corrupção e ao mal, pois nada criado
pode ser tão perfeito quanto o Criador. Diante de duas escolhas, criar um
universo onde o mal e o sofrimento se manifestarão, ou não criar nada e manter
o cenário onde só existe a bondade perfeita de Deus, a opção lógica de um ser
sumamente perfeito seria não criar nada. A própria decisão
de criar este universo inferior contradiz a perfeição de Deus.
Muitos filósofos contemporâneos,
no entanto, formularam os argumentos
evidenciais. Essa abordagem volta-se para a realidade concreta e empírica. Eles não afirmam que Deus é uma
impossibilidade lógica, mas avaliam as evidências do mundo real (os dados sobre
o sofrimento) para concluir que a existência de Deus é altamente improvável. O raciocínio evidencial baseia-se na
investigação de qualidades factuais do sofrimento:
(1) Evidência
do Mal Gratuito (William Rowe): Rowe afasta-se da teoria e
aponta para casos factuais, como um cervo agonizando até a morte em um incêndio
florestal sem que ninguém aprenda ou tire qualquer proveito disso. A existência
concreta de sofrimentos “em vão” ou desnecessários torna irracional e
improvável a crença em um Deus que, sendo perfeitamente bom, deveria impedir
males que não previnem um mal pior nem produzem um bem maior.
(2) Evidência
do Mal Concreto e Específico (Michael Tooley): Tooley
argumenta que o problema não é apenas que o mal existe no abstrato, mas as
propriedades e a qualidade dos males concretos que observamos. Ele cita o
exemplo real de bebês que passam meses agonizando de câncer antes de morrer.
Argumenta-se que, dada a nossa percepção básica de justiça moral (que dita que
o sofrimento de uma criança deveria ser aliviado), a evidência concreta dessas
mortes lentas torna a existência de um Deus moralmente perfeito altamente
improvável e irracional.
(4) Evidência
da Inutilidade Biológica (Paul Draper): Draper compara duas hipóteses
concorrentes frente à biologia do nosso mundo: o Teísmo e o Naturalismo
evolutivo. Ele aponta que o mecanismo de prazer e dor atua no mundo exatamente
da forma cega e desajeitada que esperaríamos se fôssemos fruto de uma evolução
não-guiada focada apenas na sobrevivência. Vemos com frequência dores
biologicamente inúteis e prazeres destrutivos que não cumprem o refinamento ou
o propósito moral que esperaríamos caso fossem projetados por Deus. As
evidências observadas favorecem amplamente o naturalismo, tornando Deus
improvável.
(5) Evidência
do Mal em Excesso (Bruce Russell): Ainda que pudéssemos admitir que
Deus permite uma minúscula fração de sofrimento desnecessário apenas como uma
"margem de segurança", a evidência fática demonstra que o sofrimento
na Terra é absurdamente excessivo. A constatação empírica de que animais e
humanos estão submetidos a escalas gigantescas de dor há bilhões de anos torna
insustentável a crença teísta.
III.
CATEGORIAS DE MAL NO MUNDO
A filosofia contemporânea
considera a presença de diferentes tipos de males no mundo que demonstram que a
existência de um Deus perfeito é altamente improvável. Esses tipos de males
são:
(1) Mal Gratuito: Esta categoria foca no
sofrimento “em vão”, aquele que não produz nenhum bem maior nem atua para
prevenir um mal ainda pior. São exemplos desse tipo:
(1.1) Sofrimento
da Gazela de Rowe: Para ilustrar um sofrimento do qual não se tira
proveito, Rowe propõe o cenário de uma gazela (ou cervo) que fica presa em um
incêndio florestal causado por um raio. O animal agoniza com queimaduras
severas por vários dias até morrer, sozinho. Nenhum humano está lá para
aprender uma lição com isso, e o sofrimento do animal não o beneficia de forma
alguma. Um Deus onipotente e onisciente poderia impedir que o raio caísse ou,
no mínimo, encurtar a dor matando a gazela imediatamente; a ausência de uma
ação divina diante de uma dor tão inútil torna a existência de Deus improvável.
(1.2) O
bebê com câncer de Tooley: Michael Tooley usa o exemplo real de um bebê ou
criança que agoniza por meses com um câncer terminal antes de falecer. Nosso
próprio conceito analítico e básico de justiça indica que, se alguém tem o
poder para isso, o sofrimento prolongado e desnecessário de uma criança
inocente deve ser aliviado. Como não há nenhum mal pior sendo evitado nem um
bem maior sendo alcançado por meio dessa morte lenta, um Deus com poder e
moralidade perfeitos obrigatoriamente a impediria.
(2) Mal Natural: trata-se dos males que fazem
parte da própria estrutura orgânica e geológica do mundo em que fomos
colocados. São exemplos desse tipo de mal:
(2.1) A
Inutilidade Biológica (Paul Draper): Draper compara a hipótese de que
Deus criou o mundo com a hipótese do naturalismo (evolução não-guiada). A
biologia mostra que o mecanismo de prazer e dor atua exatamente como
esperaríamos de uma evolução cega focada apenas em sobrevivência e reprodução.
Devido a isso, encontramos constantemente “dores inúteis”. Por exemplo, se um
animal fica preso numa armadilha e a floresta pega fogo, a dor excruciante das
chamas não lhe serve para nada, pois ele já não pode fugir; logo,
biologicamente, a dor não cumpre nenhum propósito. O prazer também é cego, pois
podemos sentir grande prazer consumindo alimentos nocivos à saúde.
(2.2)
Mecanismo de recompensa moral (Paul Drapper): Se fôssemos criados por um ser
moralmente perfeito, esperaríamos que o mecanismo biológico de prazer e dor nos
guiasse na moralidade, por exemplo, gerando dor inevitável (culpa) quando
fazemos o mal e prazer ao fazermos o bem. Na realidade empírica, pessoas
perversas cometem atrocidades sem sentir nenhum remorso, e pessoas generosas
podem sofrer profundamente, o que não corresponde a um projeto ou “guia moral”
divino.
(2.3) Desastres
Naturais (David Hume): Além da dor biológica, a vida na Terra é pontuada
por catástrofes puramente naturais (terremotos, inundações, furacões) que geram
miséria sem que isso seja culpa das vítimas. Animais e humanos receberam uma
distribuição de capacidades insuficiente para uma vida segura, fazendo com que
a vida natural seja uma luta constante de predação e sobrevivência.
3. Mal horrendo: Esta categoria envolve
sofrimentos que apresenta considerável magnitude, proporção e duração histórica
no universo. São exemplos desse tipo de mal:
(3.1) Sofrimentos
além da “Margem de Segurança” (Bruce Russell): Russell
reconhece que, filosoficamente, Deus poderia permitir uma pequena quantia de
sofrimento desnecessário apenas como uma “margem de segurança” (assim como um
juiz pode manter um criminoso um mês a mais na cadeia só por precaução). No
entanto, o sofrimento do mundo ultrapassa infinitamente qualquer margem
compreensível. A vida na Terra envolve centenas de milhões de anos de
atrocidades e dor esmagadora, desde o sofrimento contínuo e excruciante dos
animais até eventos humanos terríveis como a escravidão prolongada e o
holocausto. É um excesso irracional e injustificável.
(3.2)
Agonia extrema gigantesca na história evolutiva (Brian Frances): Imagine
que pudéssemos viajar pelo universo e descobríssemos bilhões de exoplanetas
onde a vida consciente existe num estado de agonia extrema e constante por toda
a sua história. Diante de um universo pontilhado por tamanho inferno cósmico e
dor ininterrupta, seria completamente irracional manter a crença de que um Deus
perfeito tem uma boa justificativa para permitir tais horrores. Ele nos traz de
volta à Terra para mostrar que o nosso próprio planeta se encaixa nessa
descrição de horror: a biologia evolutiva terrestre abriga uma estimativa
assustadora de que cerca de um quintilhão (um bilhão de bilhões, ou 1018)
de animais sencientes tiveram vidas miseráveis de puro medo e sofrimento brutal
ao longo da nossa história.
IV.RESTRIÇÕES
ÉTICAS ÀS AÇÕES DIVINAS
É importante considerar que o desafio do problema do mal não
depende de o seu proponente assumir a crença em valores morais objetivos. Como
se trata de um desafio à consistência da visão teísta, basta que o teísta
acredite em valores morais objetivos para o argumento funcionar. Além disso, o
problema do mal em sua maior parte depende apenas do reconhecimento de que o sofrimento
é ruim, algo que é testemunhado por todo ser senciente em primeira pessoa. No
entanto, a maior parte dos filósofos ateus são objetivistas morais e argumentam
que, se Deus existe, ele viola diversos deveres morais que um agente moralmente
virtuoso não transgrediria.
O filósofo estadunidense James
Sterba formula um argumento lógico do mal focado nas restrições éticas
que um ser perfeitamente bom deve seguir. Ele baseia-se no que chama de “Princípio Paulino”. O nome deriva do
apóstolo Paulo, que na carta aos Romanos
(3:8) condena a ideia de que “devemos
fazer o mal para que venha o bem”. O Princípio Paulino, na ética, dita que não se deve performar (ou permitir) um ato que seja intrinsecamente
errado apenas para trazer boas consequências ou para prevenir
um mal pior.
Sterba reconhece que, para nós, humanos, às vezes é
moralmente justificável violar esse princípio devido à nossa limitação. Por
exemplo, no “Dilema do Bonde”,
podemos ter que sacrificar uma pessoa para salvar cinco, ou focar em fugir de um
torturador em vez de tentar salvar outras vítimas que ele encontra no caminho.
Nós quebramos a regra porque não temos poder para
impedir ambos os males
simultaneamente. No entanto, Deus é onipotente. Para Ele, o Princípio Paulino é
absoluto. Deus nunca precisa permitir que uma pessoa seja torturada para salvar
outras, pois Ele tem o poder de salvar a todos.
A ética dita que existem atos tão intrinsecamente perversos e
horrendos (como abusos, colocar bebês em câmaras de gás (como no nazismo) ou
fervê-los (como na bomba atômica), que jamais devem ser permitidos, nem mesmo
como meio para se atingir um bem maior. Como vemos que esses males absurdos e
horrendos acontecem na realidade, Sterba conclui que a existência de um Deus
perfeitamente moral e onipotente é altamente improvável, pois esse Deus jamais
quebraria essa restrição ética fundamental permitindo atrocidades.
Michael Martin,
por sua vez, apela para o Princípio do Bom-samaritano. O "Princípio do Bom Samaritano" dita que: se uma pessoa (X) pode ajudar alguém (Z)
para impedir a sua morte ou um dano sério, e pode fazer isso sem correr nenhum
risco (para X), sabendo que nenhuma outra pessoa virá em socorro de Z, então X
tem a obrigação moral de agir diretamente ou persuadir alguém a ajudar. Para
ilustrar esse princípio na prática, podemos recorrer ao exemplo da criança afogando de Peter
Singer, que levanta a questão: "O
que você faria se visse uma criança se afogando e pudesse ajudá-la?"
A implicação lógica contra o teísmo é direta: se nós,
humanos, reconhecemos a obrigação moral inegável de salvar uma criança se
afogando quando não há riscos para nós, Deus deveria agir da mesma forma. Como
Deus é onipotente (não corre absolutamente nenhum risco ao agir) e onisciente
(sabe exatamente quando alguém precisa de ajuda e que ninguém mais vai ajudar),
Ele teria um dever moral perfeito de intervir para impedir mortes e danos
sérios. A ausência dessa intervenção divina viola essa obrigação moral básica.
Os filósofos Patrick
Monaghan e John Lemos, por sua
vez, focam no desrespeito à autonomia humana no próprio ato da criação e na
permissão de desastres. O filósofo Immanuel Kant estabeleceu que seres racionais nunca devem ser tratados meramente como meios
(instrumentos), mas sempre como fins em si mesmos.
Respeitar alguém como "fim em si mesmo" significa respeitar sua
autonomia, sua capacidade de fazer escolhas e de dar (ou negar) o seu
consentimento bem informado.
Patrick Monaghan argumenta que Deus, ao criar os seres
humanos e dotá-los de autonomia, cometeu um ato de desrespeito ao não pedir permissão
para isso. Ele compara a situação a alguém que usa uma varinha mágica para
mudar seus gostos pessoais (fazer você odiar chocolate e amar baunilha) ou te
teleportar para dentro de um filme de terror como “Jogos Mortais”, tudo isso
sem te consultar. Ser colocado num roteiro cósmico sem escolha é uma profunda
violação da nossa autonomia moral.
John Lemos expande
essa ideia focando nos desastres naturais (inundações, terremotos, doenças),
que não são culpa do livre-arbítrio humano. Ele argumenta que colocar seres
racionais e autônomos num mundo inerentemente perigoso e repleto de
sofrimentos, sem que antes eles tenham dado um consentimento
prévio e bem informado, é tratá-los como meros peões num
tabuleiro divino. Se Deus nos colocou neste cenário hostil para cumprir Seus
próprios propósitos (como nos testar ou exigir adoração), Ele está nos
reduzindo a “meros meios”. Como tratar pessoas meramente como instrumentos é
uma falha ética gravíssima segundo a Fórmula da Humanidade.
V.
POR QUE AS TENTATIVAS DE RESPONDER AO PROBLEMA DO MAL FALHAM?
Os defensores da existência de
Deus argumentam frequentemente que o sofrimento não é um fim em si mesmo, mas
um subproduto necessário de um projeto divino maior. Alvin Plantinga argumenta, por exemplo, que Deus desejou criar um
mundo com criaturas livres, o que é considerado um grande bem. No entanto, ter
liberdade genuína de escolha significa que as criaturas podem optar por fazer o
mal. Sem o livre-arbítrio, seríamos meras marionetes; com ele, o sofrimento
torna-se uma consequência das escolhas morais ruins dos seres humanos.
John
Hick, por sua vez, foca no desenvolvimento moral e espiritual. Hick diferencia
“bens de primeira ordem" (como
o simples prazer e a felicidade) de "bens de segunda ordem"
(como os valores de caráter: misericórdia, compaixão, perdão, coragem e
generosidade). Argumenta-se que o mal é estritamente necessário para que esses
bens de segunda ordem existam na formação da alma humana. Por exemplo, a
misericórdia só pode existir como uma resposta compassiva onde já existe o
sofrimento de alguém.
Apesar de populares, essas
defesas encontram severas limitações empíricas. O apelo ao livre-arbítrio não
consegue explicar o mal natural
(terremotos, doenças, furacões), que ocorrem independentemente de qualquer
escolha humana (e mesmo que fossem causados por seres demoníacos afetam humanos
que não são culpados por essas escolhas), nem o contínuo e histórico sofrimento
dos animais na natureza, seres que não possuem livre-arbítrio nem ética. Ademais,
filósofos questionam se os bens de segunda ordem realmente exigem o mal extremo
para existirem; afinal, a coragem pode ser manifestada na investigação
intelectual ou no esporte, e a generosidade pode se manifestar perfeitamente no
amor de uma mãe, sem a necessidade de dor excruciante.
Michael Martin, ao analisar a Teodiceia da Formação da Alma de John Hick,
divide a experiência humana em uma hierarquia de quatro categorias morais e
físicas:
(1) Bens
de Primeira Ordem: Estados positivos diretos, como o prazer e a
felicidade.
(2) Males
de Primeira Ordem: Estados negativos e dores diretas, como o
sofrimento e a doença.
(3) Bens
de Segunda Ordem: Virtudes morais superiores que surgem como
resposta ou superação aos males. Incluem a misericórdia, a compaixão, o perdão,
a coragem e a generosidade.
(4) Males
de Segunda Ordem: Vícios e falhas de caráter que também surgem nesse
contexto de provação moral, exemplificados pela crueldade e covardia.
A teodiceia clássica argumenta
que os males de primeira ordem (sofrimento) e até os males de segunda
ordem (a crueldade humana fruto do livre-arbítrio) devem ser tolerados por
Deus porque formam o "palco" necessário para que os humanos
desenvolvam os preciosos bens de segunda ordem (virtudes e caráter). É
exatamente aqui que a refutação da "Aparência de Mal" se torna
letal para a defesa teísta.
Michel
Martin observa, no entanto, que para que um ser humano desenvolva compaixão
(bem de segunda ordem), ele só precisa acreditar que o outro está
sofrendo e ser movido a ajudá-lo. A mera aparência de sofrimento já seria
totalmente suficiente para gerar os sentimentos de compaixão e misericórdia.
Como Deus é onipotente, Ele não
possui as mesmas limitações que nós. Ele poderia criar um mundo onde as pessoas
não ficassem genuinamente doentes nem fossem cruelmente torturadas na realidade.
Em vez disso, Ele poderia submeter a humanidade a cerimônias regulares induzidas por psicodélicos ou alucinações
perfeitamente realistas.
Nesse
cenário
hipotético criado por Deus, os seres humanos passariam por simulações mentais
nas quais acreditariam estar enfrentando grandes perigos ou vendo o sofrimento
alheio. Eles tomariam a decisão de ser corajosos ou generosos dentro da
simulação, forjando suas almas e alcançando o "Bem Maior". Ao fim da
cerimônia/alucinação, acordariam com as virtudes morais plenas, mas sem que nenhum mal de primeira ordem (doença real)
ou mal de segunda ordem (crueldade real
de um torturador) tivesse de fato acontecido no mundo físico. Como um
Deus supremamente bondoso e capaz de fazer isso preferiu criar um mundo com
sofrimento e crueldades reais e agonizantes, a Teodiceia do Bem Maior falha em
justificar a realidade do nosso sofrimento.
O Teísmo
Cético, por sua vez, defende que, sendo Deus onisciente
e tendo um conhecimento infinitamente superior ao nosso, a mente humana é
simplesmente limitada demais para compreender as grandiosas e elevadas razões
que Deus tem para permitir o sofrimento. Para o teísmo cético, se há
sofrimento, Deus tem um bom motivo, mesmo que seja impossível para nós
enxergá-lo.
Os críticos apontam que essa
postura gera um problema teológico grave: se as razões de Deus para permitir
horrores estão tão além da nossa compreensão, julgá-lo como "bom"
torna-se impossível, o que dificulta
considerar esse Deus digno de adoração. O filósofo Michael Tooley expande essa crítica usando o conceito analítico de
justiça: a nossa própria noção básica de justiça moral dita que um ser
perfeitamente bom aliviaria o sofrimento prolongado e inútil de uma criança com
câncer terminal. Apelar para a limitação do conhecimento humano não apaga o
fato de que permitir tal atrocidade choca-se frontalmente com a própria
definição de moralidade e justiça.
Além disso, o teísmo cético
tiraria as restrições que impedem um ceticismo
global. René Descartes evita o
ceticismo global argumentando que se Deus é bom, ele não nos enganaria, mas se o
teísmo cético for correto, pode ser o caso que nossa limitação epistêmica nos
impeça de saber se Deus não possui boas razões até mesmo para nos enganar sobre
os conhecimentos que nos parecem mais firmes. Como sabemos que Deus não tem uma
razão moralmente suficiente para permitir esse mal epistêmico?
Somando-se ao silêncio moral de
Deus, Schellenberg levanta a questão
do "ocultamento divino".
Questiona-se por que, havendo tanto sofrimento no mundo, Deus permanece
escondido, especialmente diante da existência de ateus não-resistentes, ou seja, pessoas que buscam a Deus
sinceramente, investigam sua existência e adorariam acreditar se fossem
convencidas, mas permanecem ateias pura e simplesmente por falta de evidências
que Deus se recusa a fornecer.
Para demonstrar a extrema
fragilidade de todas essas teodiceias que justificam o sofrimento, o filósofo Wes Morriston criou um brilhante
experimento mental conhecido como a paródia
do "Demonismo". Morriston nos convida a imaginar a figura de um
"demonista", alguém que acredita firmemente que o universo foi criado
e é governado por um "Grande
Demônio" que possui os mesmos atributos do Deus clássico, com uma
única diferença: em vez de ser todo-bondoso, ele é totalmente mal e perverso (onimalevolente).
Assim como o teísta enfrenta o
problema do mal (por que há dor num mundo criado por um ser bom?), o demonista
enfrenta o "problema do bem":
se o criador é supremamente perverso, por que existe felicidade, amor,
compaixão e coisas boas no mundo em vez de um inferno constante?.
Para responder ao problema do
bem, o demonista usa os mesmíssimos argumentos do teísta, mas invertidos:
(1) Livre-Arbítrio: O Grande
Demônio nos deu o livre-arbítrio porque é muito pior quando as criaturas
escolhem fazer o mal de forma totalmente livre e voluntária do que se fossem
meras marionetes determinadas. Além disso, só dando a opção de escolher o bem é
que a escolha pelo mal se torna verdadeiramente perversa.
(2) O Mal Maior (O
Espelho do Bem Maior): As coisas boas só existem no mundo para causarem
um sofrimento muito maior depois. Por exemplo, o Grande Demônio permite a
alegria de gerar um filho unicamente para que o sofrimento dos pais seja devastador
quando ele morrer.
(3) Demonismo Cético: A mente
humana é limitada demais para compreender os desígnios profundamente malévolos
do Grande Demônio ao permitir atos de caridade (como os de Madre Teresa). O que
parece um bem gratuito hoje, faz parte de um plano perverso superior que não
conseguimos entender.
O argumento de Morriston expõe
que o mundo empírico abriga uma vasta mistura tanto de bem quanto de mal. Tanto
a hipótese de um Deus puramente bom quanto a de um Demônio puramente mau enfrentam
os mesmos problemas lógicos e se utilizam exatamente das mesmas desculpas
("teodiceias") para explicar os dados contrários. Portanto, tentar provar que o mundo é governado por um
ser infinitamente bondoso é tão irracional e implausível quanto tentar provar
que é governado por um ser infinitamente maldoso.

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