PRESSUPOSTOS DE ALGUMAS ABORDAGENS DA PSICOLOGIA
O objetivo deste texto é apresentar os pressupostos de algumas das abordagens da Psicologia. Foram escolhidas para este intento as seguintes teorias: (i) Psicanálise; (ii) Psicologia Cognitiva, (iii) Psicologia Humanista; (iv) Construcionismo Social; (v) Psicologia Evolucionista. Em geral, serão considerados os pressupostos ontológicos, metodológicos e antropológicos de cada uma dessas abordagens.
É impossível fornecer
uma visão unificada do campo psicanalítico. No entanto tomaremos a psicanálise
freudiana como referência. No que diz respeito ao seu pressuposto ontológico, a
natureza do mental é material. Esta seria justamente a significação da
metapsicologia freudiana, mas devido entre outros fatores, à deficiência do
conhecimento neurológico disponível, a Psicanálise seria uma neuropsicologia de
vocação fortemente especulativa, formulada predominantemente em linguagem
psicológica.
Para a Psicanálise, os estados mentais
inconscientes são, em última instância estados, estados cerebrais. O ponto de vista
mecânico deve ser levado tão longe quanto possível, apenas recorrendo ao ponto
de vista biológico. Esgotadas as possibilidades de explicações mecânicas, estas
precisam ser completadas com referência às exigências específicas impostas aos
acontecimentos físicos que ocorrem no âmbito do organismo. Para Freud, os processos conscientes
seriam paralelos aos processos inconscientes. Haveria, assim, uma espécie de
paralelismo residual entre o inconsciente e a consciência.
O pressuposto
epistemológico central da Psicanálise é seu naturalismo científico, a
Psicanálise é uma ciência natural. Esse reducionismo freudiano não conduz a um
projeto eliminativo. Não há nenhuma indicação de que Freud acreditasse que,
algum dia, o progresso da ciência faria com que a Psicanálise deixasse de
existir. O que ele parece acreditar é que esse desenvolvimento permitiria
esclarecer os pontos obscuros que estivessem presentes na teoria psicanalítica.
Em termos de pressupostos metodológicos, há duas dimensões do método
psicanalítico: produção e aplicação do conhecimento: o método de conhecimento e
investigação e o método de intervenção. A técnica utilizada pela Psicanálise é
a da associação livre. Quanto ao modelo de homem, a antropologia freudiana só
pode ser uma antropologia naturalista. A Psicologia deve ser uma ciência da
natureza como as demais. A espécie humana deve ser concebida como uma espécie
biológica.
A antropologia freudiana assume o
pessimismo terapêutico, que se relaciona com o questionamento da crença na
possibilidade da felicidade. Contribuem para esse pessimismo o conceito de
pulsão de repetição, que compromete o esforço de uma mudança psíquica, e o de pulsão de morte, tendência inerente ao mental para a auto-aniquilação. A conclusão é que a satisfação é inviável em qualquer caso.
PSICOLOGIA COGNITIVA2
Quanto aos pressupostos ontológicos do
Cognitivismo, ele pressupõe que os processos para os quais constrói modelos
ideais têm existência real na mente dos sujeitos, assumindo uma postura que é
realista. A Psicologia Cognitiva considera que os processos cognitivos se
desenvolvem de acordo com leis, mas esta crença só existe em relação aos
processos mais automáticos.
Pode-se distinguir no Cognitivismo dois
tipos de posição: o Compatibilismo, segundo o qual causas e razões não são
ontologicamente distintas, uma forma de determinismo absoluto e o Voluntarismo,
que defende a distinção ontológica entre causas e razões, dando ao homem a
condição de agente.
É geral no Cognitivismo a defesa de que
grande parte do processamento cognitivo de informações obedece a rígidos
padrões e é sobre esses que se podem formular leis e fazer pesquisa nomotética.
A Cognição, o objeto de estudo do Cognitivismo, é definido como processamento
de informação, da extração, estocagem, recuperação e utilização de informação.
Assim, o objetivo da Psicologia Cognitiva é estabelecer regras de transformação
da informação que entra no sujeito como input e sai como output.
A posição neurofilosófica do
Cognitivismo é fruto do funcionalismo, cuja ideia central, é entender estados
mentais funcionalmente, e não estruturalmente. O funcionalismo defende a teoria
de que as mentes são sistemas causais que executam funções na forma de
programas de instruções. A analogia básica é: computador-input-programa-output
e mente-estímulo-processo-resposta.
O objeto de investigação primário do psicólogo
cognitivo não é o registro físico dos dados, mas sim o funcionamento dos
“programas”. A atividade cognitiva deve ser descrita em formas de representação
mental, mas há um desacordo entre os cognitivistas se há uma única forma ou não
de representações mentais, ou se elas devem ser formalizadas como sentenças ou
como um padrão vetorial de atividade. Para o Cognitivismo, o comportamento são
os dados através do qual podemos inferir os processos cognitivismo.
Quanto aos seus pressupostos
epistemológicos, o cognitivismo busca a verdade, não a eficácia. Adotando a tese
popperiana, o Cognitivismo descreve a verdade como um ideal normativo, do qual
podemos nos aproximar, mas nunca estarmos seguros de possuir, uma espécie de
otimismo epistemológico. Quanto à origem do conhecimento, o Cognitivismo adota
o construtivismo, para o qual, o sujeito constrói suas representações de mundo
e não recebe passivamente as impressões causadas pelos objetos, e se compromete
com o inatismo, mas os cognitivistas discordam amplamente quanto ao grau em que
os processos cognitivismo são inatos e sobre o significado do termo “inato”.
Uma das principais teses do Cognitivismo
é o racionalismo científico, para o qual não existe observação neutra da
realidade, pois toda observação se faz contra ou a favor de uma teoria. A
garantia de acesso a realidade vem dos nossos erros, a prova de que nossas
teorias sobre o objeto não o determinam.
Quanto aos seus pressupostos
metodológicos, a psicologia cognitiva não tem um método exclusivo. Podemos citar,
no entanto, o solipsismo metodológico, que adota os processos mentais do
indivíduo, e não o ambiente externo, como unidade de análise.
Quanto ao Modelo
de Homem (pressuposto antropológico), a imago homini do
Cognitivismo é de um ser humano ativo orientado a metas, concebido como um
processador de informações, mas que constrói as regras de sua cognição e possui
tendências inatas para desenvolver os processos básicos de sua cognição. É importante pontuar, por fim, que para os
cognitivistas, o processamento de informação é majoritariamente inconsciente
(inconsciente cognitivo).
PSICOLOGIA HUMANISTA3
Na Psicologia Humanista o principal
pressuposto ontológico, depois da admissão da realidade objetiva, é a liberdade
humana. Valoriza-se a liberdade pessoal, entendida teoricamente até o limite do
viável. Cabe-nos enfrentar lucidamente a oposição da realidade impedindo a
satisfação de nossos desejos. O pressuposto da liberdade na Psicologia
Humanista é o da liberdade subjetiva e não o da liberdade social. A primeira é
a autonomia proporcionada pelo nosso pensamento e capacidade de tomada de
decisões; a segunda tem seus limites estabelecidos por normas sociais.
Sair do estado de alienação é condição
necessária a uma existência saudável. A liberdade subjetiva opõe-se ao
determinismo e ao desencantamento produzido pela racionalidade científica. O
Homem é alguém dotado de condições subjetivas que o habilitam a pensar o devir
pessoal, a porfiar no sentido de realizá-lo, concedendo para si um sentido para
a existência. A concepção de um projeto de vida é essencial para a autorrealizarão.
É muito importante para os psicólogos
humanistas o conceito de pessoa. A pessoa é uma substância, um ser-no-mundo
concreto, mas dotado de uma natureza própria, de liberdade, autoconsciência,
responsabilidade, abertura a valores, e resistência a aculturação forçada.
No que diz respeito aos seus
pressupostos epistemológicos e metodológicos, os psicólogos humanistas
sustentam uma posição de otimismo quanto a possibilidade de obtenção de
conhecimento. Na Psicologia Humanista, o ponto de vista predominante é o estudo
do singular, das peculiaridades de cada pessoa. Embora nela utiliza-se o método
fenomenológico, limita-se seu emprego à análise dos conteúdos mentais,
incluindo a introspecção.
Em relação ao seu pressuposto antropológico, a Psicologia Humanista compreende-se a pessoa,
enquanto objeto de estudo teórico, prisma de sua globalidade e na perspectiva
antirreducionista. O interesse dos psicólogos humanistas reside na busca de
compreensão de pessoas comuns, não prejudicadas por graves transtornos
psíquicos, ajudando-as a dar um sentido para a sua vida.
CONSTRUCIONISMO SOCIAL4
O Construcionismo Social é um movimento
ideológico bastante heterogêneo, abrigando, sem considerar um problema, teorias
distintas e até mesmo contraditórias. O CS é uma teoria de Berger Luckmann, mas
identificar o CS com a sociologia de Berger e Luckmann é ignorar que a
epistemologia social de Gergen é marcada por um silêncio quanto aos componentes
marxianos da sociologia de Berger e Luckmann.
O CS é uma teoria sociológica da
ciência, que analisa as estruturas institucionais da prática científica per se, mas a verdade é que o CS
raramente é empregado nesse sentido. Além do mais é um erro grave limitar o CS
a análise do conhecimento científico, já que ele defende todo saber partilhado
socialmente, incluindo o conhecimento ordinário (senso comum).
Vale observar, também, que o CS não é
uma teoria sociológica, mas uma metateoria do conhecimento sociológico, um
metadiscurso sobre a natureza de uma boa teoria sociológica. O CS é uma teoria
relativista, negando a realidade empírica e objetiva, embora o CS admita a realidade da
própria linguagem e a realidade da interação linguística.
O CS é uma teoria pós-moderna,
criticando os pressupostos ontológicos, metodológicos e epistemológicos da
Modernidade. É também uma teoria politicamente engajada, que não se abstém de
fazer juízo de valor. O CS é uma nova epistemologia, mas, por outro lado, a
própria epistemologia lhe é um completo engano filosófico.
O Construcionismo Social toma a linguagem
humana como seu pressuposto ontológico. Quanto a seus pressupostos
epistemológicos, entende que todo conhecimento é expresso por uma linguagem
particular, resultado de processos microssociológicos de interação, produzido e
reproduzido por um grupo particular para atender as suas necessidades sociais.
Quanto aos seus pressupostos metodológicos, o CS é eclético, mas há uma clara
preferência por métodos qualitativos de análise, pelo método hermenêutico, pela
análise pragmática da linguagem e pela análise micro-histórica, além de uma recusa por
métodos quantitativos e sínteses teóricas identificadas ao totalitarismo e ao
fascismo intelectuais. Por fim, cabe dizer que em relação ao pressuposto antropológico, o CS possui como Modelo de HOMEM uma imagem sociológica
e relacional do ser humano.
PSICOLOGIA EVOLUCIONISTA5
No que diz respeito aos
seus pressupostos ontológicos, o ponto em questão da psicologia evolucionista é
determinar se há padrões universais de comportamento para a espécie. A
Psicologia Evolucionista só explica os comportamentos que têm função
adaptativa. Os comportamentos adaptativos são respostas dadas pelos nossos
antepassados e que solucionaram os recorrentes problemas relacionados à
reprodução e sobrevivência.
Há quatro níveis diferentes de análise do
comportamento: a investigação das causas imediatas (mecanismos proximais) do
comportamento, a pesquisa sobre a ontogênese do comportamento, a questão da
história evolutiva do comportamento e o foco na função evolutiva (causa final)
desse comportamento para os indivíduos da espécie.
Quanto aos seus pressupostos
epistemológicos e metodológicos, a PE assume que o processo de evolução natural
ajuda na compreensão do que somos. Em linhas gerais, a Teoria da Evolução por
Seleção Natural assenta-se sobre três pilares: variação (mutação); herança
genética e seleção.
Quanto ao pressuposto antropológico, o Modelo de Homem da PE é de uma mente humana resultante das
pressões sofridas por nossos ancestrais no seu Ambiente de Adaptação Evolutiva
(AAE), localizado no Pleistoceno (2,5 milhões à 10 mil anos atrás). A PE
considera importantes as contribuições trazidas pela Etologia, visto que o
estudo do comportamento animal poderia ser útil para entender o funcionamento
mental.
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Fonte: Este texto é na verdade
uma condensação de alguns capítulos do livro Araújo, S. (Orgs.) (2012). História e filosofia da psicologia:
perspectivas contemporâneas. Juiz de Fora: Editora da UFJF.
1 Freud e a Psicanálise: Uma visão de Conjunto –Richard Theisen Simanke
& Fátima Caropreso
2 Cognitivismo-Gustavo Arja Castañon, Francis Ricardo
dos Reis Justi & Saulo de Freitas Araujo.
3 Psicologia Humanista – Helmuth Krüger.
4 Construcionismo Social – Felipe Boechat & Francisco Teixeira Portugal.
5 Problemas e Limites da Psicologia Evolucionista – Saulo de Freitas
Artaujo & Richard Theisen Simanke.
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