TRATADO DA CRIAÇÃO CORPÓREA - TOMÁS DE AQUINO (RESUMO)


O que se segue é um resumo das questões 65 a 74 da primeira parte da Suma Teológica de Tomás de Aquino. Nestas Questões, Aquino discute sobre a semana da Criação dos seres visíveis, apresentando a obra de cada dia de modo que essas questões se reúnem sobre o título de Tratado da criação corpórea. É importante colocar que este resumo é apenas uma apresentação do texto original de forma compactada, sem paráfrases ou resenhas críticas. A ideia é de que o texto permaneça do autor original. 

 

QUESTÃO 65: DA OBRA DA CRIAÇÃO DA CRIATURA CORPÓREA  

 

(1) Vários heréticos opinam que os seres visíveis não foram criados por Deus, mas pelo mau princípio. Mas tal opinião é absolutamente inadmissível. Pois, se seres diversos para algo se unificam é necessário que essa unificação tenha alguma causa, pois não se unificam por si mesmos. Donde, sempre que se encontra alguma unidade em seres diversos, é necessário recebam estes de alguma causa una a sua unidade. Logo, é forçoso haver um princípio do ser, em virtude do qual exista tudo o que de qualquer modo existe: seres invisíveis e espirituais ou visíveis e corporais. Assim, as criaturas corpóreas também procedem de Deus. (2) A totalidade do universo se constitui de todas as criaturas, como o todo das partes. Todo o universo, com as suas partes, se ordena para Deus como para o fim. E assim é claro que a bondade divina é o fim de todos os seres corporais. 

(3) É impossível que alguma coisa seja criada a não ser por Deus. Nenhuma causa segunda pode produzir nada, sem que se pressuponha, na coisa produzida, algo causado pela causa superior. Ora, a criação é a produção de uma coisa na sua substância total, sem se pressupor nada de incriado ou de criado por outrem. Donde se conclui que ninguém pode criar nada, salvo Deus, causa primeira. (4) Na criação primeira da criatura corporal não há a considerar nenhuma transmutação da potência para o ato. Por onde, as formas corporais que os corpos, na primeira criação, tiveram, foram imediatamente produzidas por Deus, a cuja única vontade a matéria obedece como à causa própria. 

 

QUESTÃO 66: DA ORDEM DA CRIAÇÃO QUANTO À DISTINÇÃO 

 

(1) A obra criada por Deus nunca foi informe, pois, toda obra de Deus é perfeita. Além disso, a formação da criatura corporal foi realizada pela obra da distinção. Ora, à esta se opõe a confusão como, à formação, a informidade. Se, pois, a informidade precedeu no tempo à formação da matéria, segue-se que, no princípio, houve a confusão, na criatura corporal, a qual os antigos chamavam Caos. Quanto à expressão de Gênesis, de que a Terra era “sem forma”, ela pode significar que lhe faltava uma tríplice formosura(i) a beleza da luz; (ii) a beleza de estar descoberta pela água e; (iiia beleza das ervas para orná-la.  

(2) Não é a mesma a matéria dos corpos corruptíveis e a dos incorruptíveis. Pois, sendo pelo que é, potencial, em relação à forma, é forçoso que, em si, a matéria também o seja quanto à forma de todos os corpos dos quais é a matéria comum. Portanto, atualizada por uma forma, ela é atual só quanto à essa forma, permanecendo, portanto, potencial, quanto às formas de todos os corpos. Portanto, a matéria, unida à forma do corpo incorruptível; e não estando unida a esta, atualmente, será simultaneamente forma e privação; pois, a privação não é senão a carência da forma, naquilo que, em relação à forma, é potencial. Ora, esta disposição não é senão a do corpo corruptível; é, logo, impossível que seja a mesma, por natureza, a matéria do corpo corruptível e a da incorruptível. (3) O céu empíreo foi criado simultaneamente com a matéria informe. O céu empíreo é o lugar dos bem-aventurados, como os anjos beatos. (4) Por fim, devemos dizer que o tempo foi concriado com a matéria informe. 

 

QUESTÃO 67: DA OBRA DA DISTINÇÃO EM SI MESMA 

 

(1) Pode-se considerar qualquer nome de duplo ponto de vista: segundo a sua imposição primeira segundo o seu uso. O vocábulo luz, imposto, primeiramente, para significar a causa da manifestação, no sentido da vista; e estendido, em seguida, para significar tudo o que causa a manifestação, em qualquer conhecimento. Se, pois, se considerar tal nome na sua imposição primeira, a luz se atribui metaforicamente aos seres espirituais. Se, porém, for considerado conforme o uso corrente e estendendo-se a todas as manifestações, então predica-se propriamente dos seres espirituais.  

(2) Dois corpos não podem estar simultaneamente no mesmo lugar. Ora, a luz está no mesmo lugar, simultaneamente com o ar. Logo, não é corpo. (3) Assim como o calor é uma qualidade ativa, resultante da forma substancial do fogo; assim a luz é uma qualidade ativa resultante da forma substancial do sol ou de qualquer outro corpo por si lúcido, se porventura existe. (4) A luz foi criada no primeiro dia. Era necessário fosse criado no primeiro dia aquilo sem o que não pode existir o dia. Ora, este não pode existir sem a luz. Logo, era necessário se fizesse a luz no primeiro dia. 

 

QUESTÃO 68: DA OBRA DO SEGUNDO DIA 

 

(1) Como a divina Escritura pode ser exposta em muitos sentidos, ninguém deve aderir a uma exposição com absoluta certeza. Lemos em Gênesis que o firmamento foi criado no segundo dia. É preciso saber-se que a lição sobre ter sido o firmamento feito no segundo dia pode ter duplo sentido. Num, trata-se do firmamento em que estão os astros, quanto a este sentido não se pode admitir que o firmamento, na sua substância, fosse produzido no segundo dia, pois o céu, incorruptível por natureza, é de matéria que não pode ser sujeita a outra forma. Por onde, é impossível que o firmamento fosse feito da matéria existente, anteriormente, no tempo. Por isso, a produção da substância do firmamento pertence à obra da criação. Se, porém, esses dias não designam a sucessão do tempo, ma somente a ordem da natureza, nada impede, dizer-se, que a formação do firmamento, na sua substância pertence ao segundo dia. Mas também se pode, de outro modo, entender que o firmamento, do qual se lê como feito no segundo dia, não é onde estão fixas as estrelas, mas a parte do ar onde se condensam as nuvens. E se chama firmamento por causa da espessura do seu ar. Nesse sentido, podemos dizer que o firmamento foi criado no segundo dia. 

(2) As Escrituras ensinam que no segundo dia Deus dividiu as águas que estavam por baixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento. (3) Assim, o firmamento divide umas de outras águas. (4) Nas Escrituras, a palavra Céu pode ter três sentidos: (i) céu próprio: chama-se céu qualquer corpo sublime e luminoso, atual ou potencialmente, e incorruptível por natureza; (ii) céu diáfano: céu aquoso e cristalino; (ii) céu sidéreo: é dividido em oito esferas, a das estrelas fixas e as sete esferas dos planetas. 

 

QUESTÃO 69: DA OBRA DO TERCEIRO DIA 

 

(1) De acordo com as Escrituras, cuja autoridade é suficiente, a congregação das águas foi feita no terceiro dia. (2) No terceiro dia foi removida a informidade da terra e as plantas foram produzidas. Mas podemos entender isso no sentido de que a terra produziu a erva e as árvores, casualmente, isto é, recebeu a virtude de produzir. 

 

QUESTÃO 70: DA OBRA DO ORNATO, QUANTO AO QUARTO DIA  

 

(1) De acordo com as Escrituras, cuja autoridade é suficiente, os astros foram criados no quarto dia. 

 

QUESTÃO 71: DA OBRA DO QUINTO DIA 

 

(1) A ordem da obra do ornato corresponde à ordem da distinção. Por onde, assim como dentre os três dias deputados à distinção, o dia médio, que é o segundo, o foi à distinção do corpo médio, isto é, as águas; assim, dentre os dias deputados à obra do ornato, o dia médio, isto é; o quinto, o foi ao ornato do corpo médio, pela produção das aves e dos peixes. Por onde, assim como no quarto dia, Gênesis menciona os astros e a luz, para designar que o quarto dia corresponde ao primeiro, em que disse ter sido feita a luz; assim, neste quinto dia, menciona as águas e o firmamento do céu, para designar que o quinto dia corresponde ao segundo. 

 

QUESTÃO 72: DA OBRA DO SEXTO DIA 

 

(1) A Escritura, cuja autoridade é suficiente, Deus fez as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e também, criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. 

 

QUESTÃO 73: DAS COISAS PERTENCENTES AO SÉTIMO DIA  

 

(1) Dupla é a perfeição de uma coisa: a primeira e a segunda. A perfeição primeira torna perfeitas as coisas, na sua substância. Porém a perfeição segunda é fim. Como a forma é o princípio da operação, a perfeição primeira é a causa da segunda. A perfeição última, porém, fim de todo o universo, é a perfeita beatitude dos santos, que existirá na consumação última do século. Ora, a perfeição atribuída ao sétimo dia, e que foi a da primeira instituição das coisas, é a primeira, consistente na integridade do universo. 

 (2) De acordo com a Escritura, Deus descansou no sétimo dia de toda a obra que tinha feito. O repouso se opõe propriamente, ao movimento e, por consequente, ao trabalho, resultante do movimento. Mas, embora este, em acepção própria, seja próprio aos corpos, todavia aplica-se também às coisas espirituais na medida em que toda operação é chamada movimento, assim, mesmo a bondade divina, de certo modo, se move e dirige para as coisas porque a elas se comunica. O repouso pode ser tomado em dupla acepção; como cessação das obras ou como satisfação do desejo. Ora, de ambos os modos se diz que Deus descansou no sétimo dia. Do primeiro, por ter cessado, nesse dia, de criar novas criaturas; do segundo, porque Deus tendo a sua beatitude no gozo de si mesmo não precisava das coisas que criou. Por isso não se diz que, feitas as obras, nelas repousou, como se delas precisasse, para a sua beatitude; mas, sim que repousou delas, isto é, em si mesmo, pois a si se basta e satisfaz o seu desejo. 

(3) Assim, o repouso de Deus, no sétimo dia, se compreende em dupla acepção. Pela primeira, significa que cessou Deus de fazer novas obras, conservando e governando, apenas as criaturas já criadas. Pela segunda, repousou em si mesmo, depois das obras. Assim, pela primeira, a bênção é própria do sétimo dia; pois, ela supõe a multiplicação. Por onde, foi dito às criaturas abençoadas: Crescei e multiplicai–vos.  Pela segunda, é própria ao sétimo dia a santificação. E a santificação máxima de um ser, consistindo no repousar em Deus, chamam–se santas as coisas consagradas a Deus. 

 

QUESTÃO 74: DE TODOS OS SEIS DIAS EM COMUM 

 

(1) A razão da distinção dos seis dias consiste em que era necessário distinguir, primeiro, as partes do mundo; e em seguida, orná-las, pelo como povoamento, de seus habitantes. (2) Assim, Deus não criou todas as coisas em um só dia. (3) Portanto, devemos entender que a Escritura usa de palavras convenientes para exprimir as obras dos seis dias.  



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