REPENSANDO O SÍMBOLO DO INFERNO À LUZ DO AMOR DE DEUS


O objetivo deste texto é defender que a crença no inferno no sentido de um lugar de tormento eterno no fogo não é coerente com a crença em um Deus amoroso e não é apoiada por argumentos bíblicos decisivos. Me proponho ainda a apresentar uma compreensão de inferno como um símbolo religioso de uma condição existencial, isto é, de uma disposição afetiva da alma. Por fim, defenderei que a redenção inclui a restauração final e completa de toda a criação e de toda a humanidade nela.  

O INFERNO NO ANTIGO TESTAMENTO 

No Antigo Testamento, não existe a noção de inferno como um lugar de tormento. O termo usado no Antigo Testamento para inferno é שאול (Seol). Seol é o lugar para onde iriam todas as almas depois da morte, um lugar sombrio, mas neutro, em que as almas descansariam numa espécie de sono. A palavra Seol ocorre 66 vezes no Antigo Testamento. Todas as passagens bíblicas em que a palavra Seol aparece são: 

Gn37.35; 42.38; 44.29,31; Nm16.30,33; Dt32.22; 1Sm2.6 ;2Sm22.6; 1Rs2.6,9;Jó7.9;11.8;14.13;17.13,16;21.13;24.19;26.6;SL6.5;9.17;16.10;18.5;30.3;31.17;49.14,15;55.15;86.13;88.3;89.48;116.3;139.8;141.7;Pv1.12;5.5;7.27;9.18;15.11,24;23.14;27.20;30.16;Ec9.10;Ct8.6;Is5.14;7.11;14.9,11,15;28.15,18;38.10,18;57.9;Ez31.15,16,17; 32.21,27;Os13.14;Am9.2;Jn2.2;Hc2.5. 

Sobre o Seol, os eruditos observam: 

“Visto que Seol, nos tempos do Antigo Testamento, se referia simplesmente à habitação dos mortos e não sugeria distinções morais, a palavra ‘inferno’, conforme entendida atualmente, não é uma tradução feliz.” (Enciclopédia da Collier; 1986, Vol. 12, p. 28) 
Seol estava localizado em alguma parte ‘debaixo’ da terra. . . . A condição dos mortos não era de dor nem de prazer. Nem a recompensa para os justos nem o castigo para os iníquos estavam relacionados com o Seol. Tanto os bons como os maus, tiranos e santos, reis e órfãos, israelitas e gentios — todos dormiam juntos sem estarem cônscios uns dos outros.” (Enciclopédia Britânica; 1971, Vol. 11, p. 276) 
apud - Estudo Perspicaz das Escrituras, Vol. 3 Misma-Zuzins pág. 575. 

O INFERNO NO NOVO TESTAMENTO 

A palavra Seol no novo testamento é substituída pela palavra Hades e passa a incorporar alguns elementos gregos. Hades ocorre apenas em dez passagens no Novo Testamento, são elas: 

Mt5.23;16.18; Lc10.15;16.23;At2.27,31; Ap1.18;6.8;20.13,14. 

O Hades acompanha a morte (Apocalipse 6.8) e é um lugar de destruição (Mateus 11.23; Lucas 10.15). Em uma parábola, fala-se de um “tormento de fogo” no Hades. O texto é uma ilustração contada por Jesus para contrapor os fariseus religiosos avarentos e os humildes pecadores. É dito que um homem rico (que representa os fariseus) esbanjava sua riqueza enquanto Lázaro, um pobre homem e símbolos dos humildes pecadores, desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico. Os dois morrem, Lázaro vai para um lugar de bem-aventurança enquanto o rico vai para um lugar de tormento: 

A ilustração do rico e Lázaro é uma das mais incompreendidas do Evangelho, mas se entendermos seu contexto ficará mais fácil entender seu significado. Jesus tem feito um ministério dirigido a pessoas conhecidas publicamente como pecadoras, prostitutas e corruptos cobradores de impostos. Então Jesus inicia uma série de ilustrações para mostrar como Deus busca amorosamente aqueles que se sentem perdidos, é o caso das ilustrações da ovelha e dracma (moeda de pouco valor) perdidas e do filho pródigo. A ilustração do rico e Lázaro é mais uma dentro desse propósito. O rico representa os fariseus, esses líderes religiosos amam o dinheiro, gostam de vestir roupas caras e são orgulhosos. Lázaro, o homem pobre e ferido, simboliza os humildes, excluídos e desprezados que Jesus acolhe em seu Reino. A morte é uma figura da mudança de situação que o Reino de Deus traz, os humildes são levados ao seio de Abraão com todo o simbolismo envolvido em ser filho de Abraão, ser filho da fé. Mas nesse Reino não há espaço para os líderes religiosos ricos e orgulhosos e estar fora do Reino é representado pelo símbolo do inferno. Essa ilustração continua atual se pensarmos em todas as instituições religiosas ditas cristãs revestidas de pompa e seus líderes ricos e orgulhosos que desprezam os pobres e excluem os que consideram pecadores. A situação no Reino de Deus se inverte, são os pobres que desfrutam da alegria celestial e os líderes religiosos ricos que passam a estar em uma situação ruim. (Aprendendo com Jesus) 

A representação do Hades nessa parábola é grega. Na realidade, ambos, o Rico e o Lázaro, vão para o Hades. No entanto, na compreensão grega, o Hades era um reino dividido em territórios. O lugar para onde Lázaro vai corresponde aos Campos Elísios, onde a alma dos virtuosos viveria em felicidade. O lugar para onde o rico vai relaciona-se com o Tártaro, um lugar de castigo para as almas impiedosas. O Tártaro aparece explicitamente em outro texto do Novo Testamento, nele se lê:  

“De fato, Deus não se refreou de punir os anjos que pecaram, mas ele os lançou no Tártaro, acorrentando-os em densa escuridão e reservando-os para o julgamento.” - 2 Pedro 2.4 

Vemos, portanto, uma transformação na noção de inferno do Antigo para o Novo Testamento, primeiro de uma sepultura comum da humanidade, onde não haveria nem tristeza ou felicidade, para um Reino dividido em um lugar de felicidade para os virtuosos e de tristeza para as almas impiedosas. O Tártaro é retratado como um reino subterrâneo onde seriam aprisionados “deuses inferiores”, esses deuses podem ser associados no texto de Pedro aos chamados “filhos de Deus” na tradição hebraica, criaturas divinas que teriam tomado forma humana e mantido relações sexuais com as mulheres antes do Dilúvio:  

“As pessoas começaram a multiplicar-se na terra. Então, seres do mundo dos espíritos repararam na beleza das mulheres terrenas, e tomaram para si as que quiseram. Naqueles dias, e mesmo depois, em que aqueles seres do mundo dos espíritos tiveram relações com as mulheres da terra, os filhos que lhes nasceram tornaram-se gigantes, que foram os heróis de grande fama de que nos falam os relatos da antiguidade.” - Gênesis 6.1,4  - O Livro.
 “E aconteceu depois que os filhos dos homens se multiplicaram naqueles dias, nasceram-lhe filhas, elegantes e belas. E quando os anjos, os filhos dos céus, viram-nas, enamoraram-se delas, dizendo uns para os outros: Vinde, selecionemos para nós mesmas esposas da progênie dos homens, e geremos filhos. E as mulheres conceberam e geraram gigantes” - Enoque 7.1,2, 11. 

O Novo Testamento, portanto, apresenta uma noção de inferno que combina elementos hebraicos (a sepultura comum e neutra da humanidade e prisão de criaturas angelicais que se relacionaram com mulheres humanas) e elementos da mitologia grega (prisão subterrânea de deuses inferiores e Reino dividido em um lugar para os bem-aventurados e um lugar para os impiedosos). Em todo caso, a noção não é a mesma do inferno da compreensão cristã posterior como um lugar de tormentos eternos no fogo. 
Outra palavra importante no Novo Testamento para inferno é γέεννα (Geena). A palavra Geena ocorre 12 vezes no Novo Testamento:

Mt5.22,29,30;10.28;18.9;23.15,33; Mc9.43,45,47;Lc12.5;Tg3.6. 

Geena é uma figura de juízo, não se refere a um lugar literal de tormento sem fim, o termo é uma alusão ao Vale de Hinom aos arredores de Jerusalém, no qual se queimavam lixos e cadáveres de criminosos. A figura do vale de Hinom, com fogo e bichos, foi usada como uma ilustração de juízo: 

“Geena era a forma helenizada do nome do vale de Hinom em Jerusalém, no qual se mantinham constantemente fogos acesos para consumir o lixo da cidade. Este é um poderoso quadro da destruição final.” (O Novo Comentário Bíblico - página 779, em inglês apud É Esta Vida Tudo o Que Há? pág. 111-112) 

É esta figura que, no Novo Testamento, se encontra por traz da noção de um lago de fogo. É importante considerar que a tradição hebraica falava de “fogo eterno” ou “fogo que queima para sempre” como figurativos do juízo divino, não significando necessariamente um juízo de duração sem fim. Compare, por exemplo, Apocalipse 14:11 com Isaías 34:9-10: 

“E a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre; e não têm repouso nem de dia nem de noite os que adoram a besta e a sua imagem, e aquele que receber o sinal do seu nome.” - Apocalipse 14:11 
“E os seus ribeiros se tornarão em pez, e o seu pó em enxofre, e a sua terra em pez ardente. Nem de noite nem de dia se apagará; para sempre a sua fumaça subirá; de geração em geração será assolada; pelos séculos dos séculos ninguém passará por ela” - Isaías 34:9,10 

O texto profético de Isaías não pretende descrever um inferno eterno, mas sim apresentar de maneira figurativa e hiperbólica o juízo divino. Lucas Banzoli observa: 

Ambos os textos falam de condenações divinas, de fogo e enxofre e de uma fumaça que sobe para sempre. Mas em Edom não há nenhuma fumaça literalmente “subindo para sempre” até os dias de hoje, e muito menos pessoas ímpias queimando até hoje naquele lugar. Evidentemente, a descrição de Isaías e João é hiperbólica, relatando os efeitos destrutivos irreversíveis do fogo, que é para sempre, e não de uma fumaça que literalmente não apaga nunca ou de um fogo que literalmente está aceso para todo o sempre. (O Apocalipse e o Tormento Eterno) 

Pela análise que fizemos do Antigo e do Novo Testamento, parece não ser possível encontrar na Bíblia a noção de inferno como um local de tormento em que Deus atormentaria as almas por incontáveis bilhões de anos. Percebemos que Seol, Hades e Tártaro são símbolos míticos de um além, não descrições literais. Vimos ainda que tanto a noção de Geena quanto a ideia de um fogo que queima para sempre são imagens bíblicas figurativas e hiperbólicas de juízo, que não devem ser tomadas como literais.  

O INFERNO E O AMOR DE DEUS 

A Bíblia diz que “Deus é Amor” (1João 4.8). Seria amoroso um Deus que exigesse de nós que o servíssemos sob a pena de sermos atormentados por séculos sem fim num inferno de fogo? Será que já paramos para imaginar o que isso significa? Pense numa alma que viveu na Terra por poucos anos, talvez que morreu aos 10 anos, nesse tempo essa alma cometeu alguns erros: mentiu, desobedeceu seus pais, mas não seguiu a religião cristã, embora tenha cometido pequenas falhas. O ensino cristão tradicional é que essa alma será torturada por incontáveis bilhões de anos como castigo pelas pequenas falhas de seus 10 anos de vida, e quando esses incontáveis bilhões de anos findarem, haverá ainda mais incontáveis bilhões de anos pela frente e assim para sempre. 
Será que salva a imagem de Deus dizer que ele é eterno e que quem erra contra ele merece ser punido para sempre? Um inferno eterno torna Deus pior do que qualquer coisa que se possa imaginar. Hitler fez milhões de pessoas sofrerem por anos em um campo de concentração, mas mesmo esse ato terrível durou um tempo. Deus, por outro lado, torturaria bilhões de almas por incontáveis anos sem fim. Não só isso, Deus faria isso dizendo que está fazendo “justiça”. Jonathan Edwards assim descreve a situação dos vivos que serão condenados ao inferno quando morrerem: 

Assim sendo, eles são objetos da ira e da indignação de Deus, que se manifesta através dos tormentos do inferno. E a razão de não descerem ao inferno agora mesmo não é pelo fato do Senhor, em cujo poder se encontram, estar menos irado com eles no momento, ou, pelo menos, não tão encolerizado como está com aquelas miseráveis criaturas a quem ele atormenta no inferno, as quais experimentam e sofrem ali a fúria de sua indignação. Sim, Deus se acha muito mais furioso com um grande número de pessoas que está vivendo na terra agora, talvez de modo mais tranquilo e confortável, do que com muitos daqueles que estão experimentando as chamas do inferno. Portanto, a razão porque Deus ainda não abriu a sua mão e os liquidou, não é por ele não se importar com suas iniquidades, ou não se ofender. O Senhor não se parece com eles, embora pensem que sim. A fúria de Deus arde contra eles, sua condenação não demora. O abismo está preparado, o fogo está pronto, a fornalha incandescente está ardendo, pronta para recebê-los. As chamas vermelhas queimam. A espada luminosa foi afiada e pesa sobre suas cabeças. O inferno abriu a sua boca debaixo deles. (Pecadores nas mãos de um Deus irado)

     Ficamos pensando em que sentido o Deus de Edwards pode ser chamado de “Amor”. Certamente que essa imagem é monstruosa e oposta a qualquer concepção ética de um Deus amoroso. Albert Timm pontua: 

Além de conflitar com os ensinos do Antigo e do Novo Testamento, a teoria de um inferno eterno também conspira contra a justiça e o poder de Deus. Por que uma criança impenitente, que viveu apenas doze anos, deveria ser punida nas chamas infernais por toda a eternidade? Não seria essa uma pena desproporcional e injusta (ver Ap 20:11-13)? Se o mal teve um início, mas não terá fim, não significa isso que Deus é incapaz de erradicá-lo, a fim de conduzir o Universo à sua perfeição original? Cremos, portanto, que a teoria de um tormento eterno no inferno é antibíblica e conflitante com o caráter justo e misericordioso de Deus. (Mito Abrasador) 

INFERNO COMO SÍMBOLO 

Há, no entanto, um sentido em que a simbologia cristã pode manter a imagem do inferno: como uma figura de uma condição existencial. O Credo Apostólico diz:  

“Creio em Jesus Cristo o qual padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos e ressuscitou ao terceiro dia” 

A descida de Cristo aos infernos pode ser entendida figurativamente como representando seu sofrimento na cruz. Cristo entrou em contato com as dores mais profundas do espírito, sentiu em sua alma o abandono de Deus Pai e o peso dos pecados de toda a humanidade. Esse sofrimento que Cristo experimenta é similar ao que Martin Heidegger chama de “angústia”, um cair para sempre no nada da morte. Søren Kierkegaard descreve esse sentimento como “desespero”, para ele o desespero é uma tortura agonizante que não se deixa acabar, é a impossibilidade da última esperança. O desespero é um eternamente morrer que nuca acaba, que nunca morre (Desespero Humano). 
É em Cristo, como representante da Humanidade e com quem o Cosmos está ligado de maneira mística e íntima, que o inferno é vivido. Na Cruz, toda a Criação “morre”, nela toda a Humanidade é declarada culpada e, com Cristo, todos nós descemos ao inferno. Mas assim como Cristo ressuscitou, todos nós ressuscitamos com ele e com Cristo toda a criação renasce.  
A doutrina do inferno como um lugar de tormentos eternos desonra o amor e a onipotência de Deus. Deus sempre cumpre seus desígnios, se é verdade que ele criou a humanidade para viver para sempre numa terra paradisíaca, então essa humanidade não pode se perder para sempre. Além disso, um Deus que atormenta suas criaturas por incontáveis bilhões de anos num inferno de fogo, não tem nada de amoroso. O amor redentivo de Deus envolve o Cosmos inteiro e cada ser humano nele. O inferno nada mais é do que um símbolo de uma condição da alma, de um descer no abismo profundo de angústia. Lemos no Credo que Cristo desceu aos infernos. Com Cristo todos nós descemos ao inferno da angústia para ressuscitar com ele para a vida eterna. Os supralapsarianos, entendendo que os propósitos de Deus não podem fracassar, dizem que desde a eternidade desejou Deus que parte das suas criaturas fossem eternamente atormentadas no inferno, Deus teria criado alguns humanos só pra satisfazer seu ódio e ira. Esse Deus é contrário ao Deus a respeito do qual lemos "Deus é amor" e em outro lugar "Deus deseja que todos sejam salvos." Deus ama a humanidade e a totalidade de sua criação. Dizer que parte da humanidade será condenada aos tormentos eternos é dizer que Deus fracassou em seu propósito original para a humanidade e para a criação. Em oposição a isso, lemos nas Escrituras que Deus restaurará a totalidade da criação, a redenção abrange todo o Cosmos, desde o menor átomo até a maior das estrelas. Apocalipse promete-nos "novos céus e nova terra", a criação inteira restaurada. Lemos ainda que em Cristo toda a humanidade será vivificada. No final dos tempos, a criação inteira será renovada e não haverá lugar algum onde ainda possa persistir tormentos e sofrimentos. Não haverá nenhum inferno ardendo para sempre. 
Ellen White  descreve a restauração final de todas as coisas da seguinte forma: 

 “O grande conflito terminou... O universo inteiro está purificado. Uma única palavra de harmonioso júbilo vibra por toda a vasta criação. Daquele que tudo criou emana vida, luz e alegria por todos os domínios do espaço infinito. Desde o minúsculo átomo até ao maior dos mundos todas as coisas, animadas e inanimadas, em sua serena beleza e perfeito gozo, declaram que Deus é amor.” (O Grande Conflito) 


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