LEIA TAMBÉM (CLIQUE NA IMAGEM)

PROTOCOLO PARA O TRATAMENTO DO TEPT

 

O objetivo deste texto consiste em apresentar a Terapia do Processamento Cognitivo (TPC), que é o protocolo padrão para tratamento do TEPT (Transtorno do Estresse Pós-Traumático). O texto se divide nas seguintes partes: (i) Terapia do Processamento Cognitivo; (ii) estrutura geral das sessões; (iii) TPC centrada no processamento cognitivo.

 

I. TERAPIA DO PROCESSAMENTO COGNITIVO

 

A Terapia de Processamento Cognitivo (TPC) para TEPT (Transtorno do Estresse Pós-Traumático) parte de um modelo cognitivo segundo o qual as pessoas organizam suas experiências por meio de crenças ou esquemas sobre si mesmas, sobre os outros e sobre o mundo. Um acontecimento traumático pode entrar em conflito com esses esquemas, especialmente com crenças relacionadas à segurança, confiança, controle, autoestima e intimidade.

Quando essa discrepância ocorre, a pessoa precisa integrar a nova experiência às suas crenças. Na TPC, dois padrões de processamento podem contribuir para a manutenção do sofrimento: assimilação e sobreacomodação.

Na assimilação, a pessoa modifica a interpretação do acontecimento para conseguir encaixá-lo nas crenças que já possuía. Em vez de revisar sua visão anterior, ela pode distorcer o significado do trauma e atribuir a si mesma uma responsabilidade que não lhe pertence. Por exemplo: “Se eu tivesse agido de outra maneira, isso não teria acontecido; portanto, a culpa foi minha.” A assimilação pode funcionar como uma tentativa de preservar a sensação de que o mundo é previsível e controlável, mesmo que isso implique assumir uma responsabilidade excessiva pelo ocorrido.

Na sobreacomodação, ocorre o movimento contrário. A experiência traumática leva a uma alteração excessivamente ampla das crenças anteriores. A pessoa passa a tirar conclusões generalizadas a partir do acontecimento: “Não posso confiar em ninguém”, “O mundo é sempre perigoso” ou “Nunca mais estarei seguro.” Uma experiência específica passa, assim, a determinar a forma como a pessoa interpreta situações muito mais amplas.

Entre esses dois extremos está a acomodação, considerada o processamento mais equilibrado. Nesse caso, a pessoa modifica suas crenças para incorporar aquilo que aconteceu, mas sem transformar o trauma em uma regra absoluta sobre si mesma ou sobre o mundo. Por exemplo: “Algumas pessoas podem ser perigosas, mas isso não significa que todas sejam” ou “Coisas ruins podem acontecer mesmo quando não fizemos nada para provocá-las.”

Essa distinção é fundamental para compreender a lógica da TPC. O objetivo não é simplesmente convencer a pessoa de que “está tudo bem” ou substituir pensamentos negativos por pensamentos positivos. O tratamento procura identificar os pontos de estagnação (stuck points), interpretações rígidas ou distorcidas que mantêm o sofrimento, e examiná-los de maneira sistemática, permitindo que a pessoa desenvolva interpretações mais equilibradas sobre o trauma, sobre si mesma e sobre o mundo.

Assim, a recuperação não depende de apagar a memória traumática nem de concluir que o acontecimento “não foi tão grave”. O objetivo é conseguir reconhecer o que realmente aconteceu, o que isso significa e o que não significa, evitando tanto assumir responsabilidades que não correspondem aos fatos quanto transformar uma experiência traumática em uma regra absoluta para toda a vida. É justamente essa mudança, da assimilação ou sobreacomodação para uma compreensão mais equilibrada e flexível, que orienta grande parte do trabalho cognitivo da TPC.

 

II. ESTRUTURA GERAL DAS SESSÕES

 

A Terapia de Processamento Cognitivo (TPC) pode ser realizada individualmente ou em grupo, com evidências sugerindo resultados particularmente favoráveis quando conduzido individualmente. A prática entre as sessões ocupa um lugar importante no protocolo, porque as habilidades aprendidas durante o atendimento precisam ser aplicadas diante das situações e pensamentos que mantêm o sofrimento no cotidiano.

A organização do tratamento pode ser compreendida a partir de três movimentos que se desenvolvem progressivamente. Inicialmente, o paciente aprende como o TEPT se relaciona com pensamentos, emoções e estratégias de evitação. Em seguida, passa a identificar os chamados pontos de estagnação, que correspondem às interpretações sobre o trauma que permanecem rígidas e dificultam a recuperação. Por fim, essas interpretações são examinadas por meio do questionamento socrático e aplicadas aos principais temas afetados pela experiência traumática.

O início do tratamento é dedicado à compreensão do TEPT e da lógica da própria TPC. O paciente aprende como pensamentos relacionados ao trauma podem produzir emoções intensas e como a evitação pode impedir que novas aprendizagens ocorram.  As sessões iniciais também apresentam a relação entre pensamentos e emoções. Um dos objetivos é mostrar que a intensidade de uma emoção não depende exclusivamente do acontecimento, mas também da interpretação atribuída a ele. Essa distinção permite começar a investigar pensamentos relacionados à culpa, vergonha, perigo, responsabilidade ou perda de controle.

A primeira tarefa costuma ser a Declaração de Impacto. O paciente escreve sobre o significado que atribui ao trauma e sobre a maneira como o acontecimento modificou sua visão de si mesmo, dos outros e do mundo. A atividade permite identificar pontos de estancamento que serão trabalhados nas sessões seguintes. A Declaração de Impacto pode ser preenchida com base no modelo abaixo:

 

DECLARAÇÃO DE IMPACTO DO TRAUMA

Nome:__________________________________________
Data: ____ / ____ / ______

1. O que eu acredito sobre o acontecimento?

O que acredito que fez esse acontecimento acontecer?




Acredito que eu poderia ter feito alguma coisa diferente? O quê?



Acredito que alguém foi responsável pelo que aconteceu? Quem?



O que esse acontecimento passou a significar para mim?



2. SEGURANÇA

O que passei a acreditar sobre minha segurança depois do acontecimento?



Acredito que estou em perigo atualmente? Por quê?



O que acredito sobre a possibilidade de algo semelhante acontecer novamente?



Existem situações, lugares ou pessoas que atualmente considero perigosos?



3. CONFIANÇA

O que passei a acreditar sobre as outras pessoas?



Tenho dificuldade para confiar nas pessoas? Em quais situações?



O que acredito que pode acontecer se eu confiar em alguém?



Essa experiência modificou minha maneira de estabelecer relacionamentos? Como?



4. PODER E CONTROLE

O que passei a acreditar sobre minha capacidade de controlar minha própria vida?



Sinto que preciso controlar determinadas situações para impedir que algo ruim aconteça?



Acredito que deveria ter conseguido impedir o acontecimento?



O que penso atualmente sobre minha capacidade de tomar decisões, estabelecer limites e me proteger?



5. ESTIMA

O que passei a acreditar sobre mim mesmo depois do acontecimento?



Passei a me considerar culpado, fraco, incapaz, inadequado ou diferente de alguma maneira?



O acontecimento modificou a maneira como avalio meu próprio valor? Como?



O que acredito que outras pessoas pensam sobre mim por causa do que aconteceu?



6. INTIMIDADE

O que passei a acreditar sobre proximidade emocional e relacionamentos?



Tenho dificuldade para permitir que outras pessoas se aproximem?



O que acredito que pode acontecer se eu demonstrar vulnerabilidade?



Como o acontecimento afetou minha capacidade de construir ou manter relacionamentos próximos?



7. MINHAS PRINCIPAIS CRENÇAS ATUAIS

Complete as frases abaixo com aquilo que realmente passa pela sua cabeça.

"Desde o que aconteceu, eu acredito que..."



"Sobre mim, eu passei a acreditar que..."



"Sobre outras pessoas, eu passei a acreditar que..."



"Sobre o mundo, eu passei a acreditar que..."



"Para evitar que algo parecido aconteça novamente, eu preciso..."



"Se eu não fizer isso, então..."



8. O QUE MAIS MUDOU?

O que eu fazia antes do acontecimento e deixei de fazer depois dele?



O que comecei a fazer depois do acontecimento para me sentir seguro?



Quais situações atualmente despertam medo, culpa, vergonha ou necessidade de controle?



Existe alguma crença sobre o acontecimento que continua me causando sofrimento?



9. FRASE CENTRAL

Se tivesse que resumir em uma frase aquilo que o acontecimento mudou na minha maneira de enxergar a mim mesmo, os outros ou o mundo, eu diria:



10. O QUE EU ACREDITO HOJE

Depois de responder às perguntas anteriores, complete:

Antes do acontecimento, eu acreditava que...


Depois do acontecimento, passei a acreditar que...


Hoje, minha principal dificuldade está em acreditar que...


Uma pergunta que eu ainda não consigo responder sobre isso é...


Uma crença que gostaria de compreender melhor durante o tratamento é...


 

Na sessão seguinte, a Declaração de Impacto é revisada e utilizada para localizar os pensamentos que parecem manter o sofrimento. A partir daí, o paciente começa a aprender a observar a sequência entre acontecimento, pensamento e emoção, utilizando a folha ABC, como se segue:

FOLHA ABC

A. ACONTECIMENTO

O que aconteceu?

Descreva apenas a situação observável, sem incluir interpretações sobre o que ela significa.

Data: ____ / ____ / ______
Situação: _________________________________________________



Onde eu estava? Quem estava presente? O que aconteceu imediatamente antes?



B. PENSAMENTOS E INTERPRETAÇÕES

O que passou pela minha cabeça naquele momento?



Qual foi o pensamento que mais chamou minha atenção?


O que eu interpretei que essa situação significava?



Qual foi minha previsão sobre o que poderia acontecer?



Quanto eu acreditei nesse pensamento naquele momento?

0% ______ 25% ______ 50% ______ 75% ______ 100%

C. CONSEQUÊNCIAS

Emoções

O que eu senti?

Medo
Ansiedade
Culpa
Vergonha
Tristeza
Raiva
Nojo
Outra: ______________________

Intensidade da emoção:

0% ______ 25% ______ 50% ______ 75% ______ 100%

Sensações físicas

O que aconteceu no meu corpo?



Comportamentos

O que fiz depois que tive esse pensamento?



Evitei alguma coisa?


Procurei alguma garantia, confirmação ou segurança?


Realizei algum ritual ou comportamento para diminuir a ansiedade?



O CICLO

Acontecimento


Pensamento / interpretação


Emoção / sensação


Comportamento ou resposta


O que aconteceu depois?



OBSERVAÇÃO FINAL

Depois de preencher a folha, responda:

O que percebi sobre a relação entre meus pensamentos e minhas emoções?



O que percebi sobre meus comportamentos depois que a emoção apareceu?



Existe algum padrão que se repete em outras situações?



 

O objetivo dessa etapa não consiste em simplesmente substituir pensamentos negativos por pensamentos positivos. O que se procura investigar é a maneira como determinadas interpretações transformam uma experiência passada em uma ameaça permanente no presente.

É também nesse momento que começam a aparecer os pontos de estagnação relacionados à assimilação, especialmente aqueles envolvendo culpa, vergonha e interpretações retrospectivas do acontecimento. A formulação vai sendo construída à medida que esses pensamentos são identificados, em vez de ser imposta previamente pelo terapeuta.

Após trabalhar a folha ABC, as próximas sessões introduzem o relato do trauma. O paciente descreve o acontecimento e posteriormente utiliza esse material para identificar pensamentos e interpretações que permaneceram associados à experiência. O relato do trauma pode ser como se segue:

 

RELATO DO TRAUMA

1. ANTES DO ACONTECIMENTO

O que estava acontecendo antes do evento?



Onde eu estava?


Quem estava presente?


O que eu esperava que acontecesse?



2. INÍCIO DO ACONTECIMENTO

Como o acontecimento começou?



O que aconteceu primeiro?



O que eu percebi ao meu redor?



O que passou pela minha cabeça naquele momento?



3. DURANTE O ACONTECIMENTO

O que aconteceu em seguida?




O que eu fiz?



O que as outras pessoas fizeram?



O que eu estava sentindo emocionalmente?



O que eu percebi no meu corpo?



O que eu acreditava que poderia acontecer?



4. MOMENTO DE MAIOR INTENSIDADE

Qual foi o momento mais difícil para mim?



O que pensei naquele momento?



O que senti?



O que pensei que aconteceria comigo?



O que pensei sobre mim naquele momento?



5. FINAL DO ACONTECIMENTO

Como o acontecimento terminou?



O que aconteceu imediatamente depois?



Como eu estava me sentindo naquele momento?



O que pensei que aconteceria depois daquele dia?



6. O QUE MUDOU DEPOIS

Depois do acontecimento, passei a acreditar que eu...



Passei a acreditar que outras pessoas...



Passei a acreditar que o mundo...



Passei a acreditar que situações como essa...



7. ESTRATÉGIAS QUE PASSEI A USAR

Depois do acontecimento, comecei a evitar...



Comecei a fazer determinadas coisas para me sentir seguro(a), como...



Quando lembro do acontecimento, costumo...



8. CRENÇAS QUE PERMANECERAM

Complete as frases:

“Depois do que aconteceu, eu acredito que...”


“Para estar seguro(a), eu preciso...”


“Se eu não conseguir controlar __________, então...”


“Se eu confiar em __________, então...”


“O que mais temo que aconteça novamente é...”


“O que esse acontecimento significa sobre mim é...”


9. PONTO QUE MAIS ME PREOCUPA

Quando penso nesse acontecimento hoje, a parte que mais continua me incomodando é:




A principal dúvida ou medo que permanece é:



Se eu pudesse compreender melhor alguma coisa sobre esse acontecimento, seria:



 

As sessões seguintes, por sua vez, envolvem a leitura e o exame desse material. O relato funciona como uma maneira de tornar mais visíveis as interpretações que surgiram durante ou depois do trauma e que continuam influenciando a forma como o paciente compreende a própria experiência.

É importante observar que o relato escrito detalhado não é obrigatório para que a TPC seja eficaz. A versão que utiliza esse componente é denominada CPT+A. Estudos indicam que a CPT sem o relato escrito e a CPT+A apresentam eficácia semelhante, de modo que a escolha pode ser individualizada.

Com os pontos de estancamento identificados, o tratamento passa a concentrar-se no desenvolvimento do questionamento cognitivo. O paciente aprende a examinar uma interpretação considerando as evidências que a sustentam, aquilo que a contradiz e outras explicações que também poderiam ser compatíveis com os acontecimentos.

Para isso, utiliza-se as folhas de questionamento, que ajudam a tornar esse processo mais sistemático. O paciente identifica o pensamento, reconhece o padrão problemático envolvido e formula uma interpretação mais equilibrada. O questionamento é conduzido de maneira socrática: em vez de simplesmente receber uma resposta do terapeuta, o paciente é levado a examinar a própria conclusão. A folha de questionamento é como se segue:

FOLHA DE QUESTIONAMENTO COGNITIVO

Objetivo: examinar uma interpretação relacionada ao trauma, identificar o padrão de pensamento envolvido e construir uma compreensão mais equilibrada.

1. SITUAÇÃO

O que aconteceu ou o que desencadeou esse pensamento?



2. PENSAMENTO

O que passou pela minha cabeça naquele momento?



O que esse pensamento significa para mim?



3. EMOÇÃO

O que senti quando tive esse pensamento?


Intensidade da emoção (0 a 100): ______

4. PADRÃO DE PENSAMENTO

Existe algum padrão problemático nessa interpretação?

Culpa excessiva ou atribuição exagerada de responsabilidade

Pensamento tudo ou nada

Generalização excessiva

Catastrofização

Exagero da probabilidade de algo ruim acontecer

Confusão entre possibilidade e probabilidade

Desconsideração de informações importantes

Interpretação baseada exclusivamente na emoção

Expectativa irrealista sobre controle ou segurança

Outro: _________________________________________________

5. EVIDÊNCIAS

Que informações parecem apoiar esse pensamento?



Que informações podem indicar que essa interpretação não explica completamente a situação?



Estou tratando uma possibilidade como se fosse uma certeza?


6. OUTRAS INTERPRETAÇÕES

Existe outra maneira de compreender o que aconteceu?



O que eu diria a outra pessoa que estivesse interpretando essa situação dessa mesma maneira?



7. RESPONSABILIDADE

Estou atribuindo a mim uma responsabilidade maior do que aquela que realmente estava sob meu controle?



O que estava sob meu controle naquele momento?


O que não estava sob meu controle?


8. NOVA INTERPRETAÇÃO

Depois de examinar essas informações, qual seria uma maneira mais equilibrada de compreender a situação?




9. EMOÇÃO APÓS O QUESTIONAMENTO

O que sinto agora?


Intensidade da emoção (0 a 100): ______

O que mudou na minha maneira de compreender a situação?



 

Uma parte importante desse processo consiste em trabalhar a diferença entre possibilidade e probabilidade. Depois de um trauma, uma pessoa pode concluir que, porque algo ruim aconteceu uma vez, a mesma ameaça permanece presente em todas as situações semelhantes. O tratamento procura investigar se essa conclusão corresponde realmente às evidências disponíveis.

À medida que a terapia avança, os pontos de estagnação passam a ser examinados dentro de cinco áreas que frequentemente sofrem alterações após experiências traumáticas:

(1) Segurança: envolve crenças relacionadas à percepção de perigo e à capacidade de permanecer protegido. Após o trauma, podem surgir conclusões como “o mundo é completamente perigoso”, “nunca mais estarei seguro” ou “preciso estar sempre atento para evitar que algo ruim aconteça”. Essas interpretações podem levar ao aumento da vigilância, da evitação e de comportamentos destinados a prevenir qualquer possibilidade de ameaça.

(2) Confiança: refere-se às crenças sobre a possibilidade de confiar em outras pessoas e nas próprias relações. Uma experiência traumática pode produzir conclusões generalizadas, como “não posso confiar em ninguém” ou “se eu confiar em alguém, serei machucado novamente”. O questionamento procura examinar até que ponto essas conclusões correspondem às experiências atuais ou representam uma generalização produzida pelo trauma.

(3) Poder e controle: envolve interpretações relacionadas à responsabilidade pessoal, à capacidade de influenciar acontecimentos e à sensação de impotência produzida pelo trauma. Alguns pacientes passam a acreditar que deveriam ter conseguido impedir o acontecimento ou que precisam controlar completamente as situações ao seu redor para evitar que algo semelhante volte a ocorrer. O trabalho cognitivo procura diferenciar aquilo que estava efetivamente sob controle da pessoa das circunstâncias que estavam além de sua capacidade de intervenção.

(4) Estima: examina mudanças na maneira como a pessoa avalia a si mesma e aos outros. O trauma pode favorecer pensamentos de vergonha, culpa, inadequação ou desvalor, como “isso aconteceu porque há algo errado comigo” ou “eu deveria ter sido capaz de impedir”. Essas interpretações podem transformar um acontecimento específico em uma conclusão global sobre o próprio valor ou sobre o caráter de outras pessoas.

(5) Intimidade: envolve crenças relacionadas à proximidade emocional, aos relacionamentos e à capacidade de estabelecer vínculos depois do trauma. A pessoa pode passar a interpretar a vulnerabilidade como perigosa, evitar relações próximas ou acreditar que confiar emocionalmente em alguém inevitavelmente resultará em sofrimento. O tratamento procura examinar essas expectativas e compreender de que maneira o trauma passou a influenciar a forma como a pessoa se relaciona no presente.

 

Esses temas não precisam ser tratados como compartimentos completamente separados. Um mesmo ponto de estancamento pode atravessar várias áreas. Uma pessoa que conclui “eu deveria ter percebido o perigo”, por exemplo, pode passar a questionar sua própria competência, sua capacidade de controlar situações futuras e sua possibilidade de confiar em outras pessoas.

Nas últimas sessões, o objetivo passa a ser consolidar a habilidade de reconhecer e examinar pontos de estancamento sem depender constantemente do terapeuta. O paciente revisita as crenças que foram modificadas ao longo do tratamento e pratica sua aplicação às situações atuais. A lógica permanece a mesma: uma experiência traumática pode ter alterado profundamente a maneira como a pessoa interpreta a realidade, mas essas interpretações podem ser examinadas à luz de novas evidências. A TPC procura construir essa capacidade de avaliação de maneira progressivamente mais autônoma.

Considere o exemplo abaixo de um trecho de uma sessão fictícia de TPC para TEPT:

Terapeuta: Na sua Declaração de Impacto, você escreveu: “Se eu tivesse prestado mais atenção, isso não teria acontecido”. O que essa ideia significa para você?

Paciente: Que eu fui irresponsável. Eu deveria ter percebido que aquele lugar era perigoso.

Terapeuta: E, se você não tivesse sido irresponsável, o que acredita que teria acontecido?

Paciente: Eu teria evitado o assalto.

Terapeuta: Então parece existir uma relação entre responsabilidade e controle. Se você tivesse agido corretamente, poderia ter controlado o que aconteceu.

Paciente: Sim. E é por isso que hoje eu preciso estar sempre atento.

Terapeuta: Vamos examinar essa conclusão. Quais evidências mostram que você realmente poderia ter previsto o assalto?

Paciente: Eu não tinha nenhuma informação específica de que aquilo aconteceria.

Terapeuta: E existe alguma evidência de que prestar mais atenção garantiria que o assalto não acontecesse?

Paciente: Não. Eu poderia estar atento e ainda assim acontecer.

Terapeuta: Então talvez seja útil separar duas coisas. Você gostaria de ter percebido algum sinal de perigo, mas isso é diferente de afirmar que tinha controle suficiente para impedir o acontecimento.

Paciente: Eu nunca tinha pensado dessa forma. Eu tratava o fato de ter acontecido como prova de que eu deveria ter feito alguma coisa diferente.

Terapeuta: Esse pode ser um dos pontos de estancamento que estamos investigando. A experiência levou você a concluir que precisa controlar completamente as situações para permanecer seguro.

Paciente: E é por isso que eu fico observando tudo quando saio.

Terapeuta: Exatamente. Essa estratégia produz alguma sensação de segurança naquele momento, mas também pode manter a ideia de que você só estará seguro se conseguir controlar tudo ao seu redor. Podemos começar a testar essa interpretação.

Paciente: Então o objetivo não é simplesmente pensar que nada ruim vai acontecer?

Terapeuta: Não. Seria impossível garantir isso. O objetivo é construir uma avaliação mais equilibrada: existem riscos que não podemos eliminar completamente, mas isso não significa que você esteja constantemente em perigo ou que seja responsável por impedir todos os acontecimentos ruins.

 

III. TPC CENTRADA NO PROCESSAMENTO COGNITIVO

 

A existência de diferentes componentes dentro da Terapia de Processamento Cognitivo levantou uma questão importante para a compreensão de seu mecanismo de ação: quanto do efeito terapêutico depende especificamente do relato escrito do trauma? Essa pergunta levou Resick e colaboradores a realizar um estudo de desmantelamento no qual a TPC completa foi comparada com uma condição de terapia cognitiva sem relato escrito, denominada TPC-C, e com uma condição composta exclusivamente pelo relato escrito do trauma.

O estudo incluiu 150 mulheres com TEPT relacionado a violência interpessoal e acompanhou os resultados ao longo do tratamento e no seguimento. As três condições produziram melhora substancial nos sintomas de TEPT e depressão, mas a TPC-C apresentou uma redução dos sintomas de TEPT superior à observada na condição de relato escrito durante o curso do tratamento.

Esses resultados ajudam a compreender por que a TPC pode ser aplicada sem transformar o relato escrito em um componente obrigatório. Na TPC-C, o tratamento mantém sua estrutura cognitiva e concentra-se na identificação dos pontos de estagnação. O trabalho terapêutico consiste em examinar essas interpretações, investigar as evidências que parecem sustentá-las e considerar se outras interpretações também são compatíveis com aquilo que efetivamente aconteceu.

A TPC procura investigar como as conclusões de assimilação e sobreacomodação foram construídas e se continuam sendo sustentadas pelas evidências disponíveis. O objetivo não consiste em substituir uma crença negativa por uma afirmação artificialmente positiva, ao invés disso, o paciente é levado a examinar o raciocínio que sustenta o ponto de estancamento, considerando informações que haviam sido ignoradas, confundidas ou generalizadas de maneira excessiva.

Nesse contexto é importante distinguir emoção natural e emoção produzida por interpretações disfuncionais. A tristeza diante de uma perda, o medo diante de uma ameaça real ou a raiva diante de uma injustiça podem ser respostas compreensíveis ao acontecimento. O sofrimento pode se prolongar quando essas emoções passam a ser mantidas por interpretações como “isso prova que sou culpado”,eu deveria ter previsto tudo” ou “nunca mais poderei confiar em ninguém”. A intervenção cognitiva procura justamente examinar essas interpretações e verificar se elas correspondem ao que as evidências permitem concluir.

Nesse sentido, parece plausível que os pontos de assimilação recebam atenção particular no início do tratamento. Quando a pessoa atribui a si mesma uma responsabilidade que não corresponde às circunstâncias do trauma, examinar essa interpretação pode modificar a maneira como o próprio acontecimento é compreendido. A partir dessa revisão, torna-se possível investigar crenças mais abrangentes que surgiram posteriormente, como aquelas relacionadas à segurança, confiança, poder e controle, estima e intimidade.

As evidências disponíveis sustentam a TPC como uma intervenção eficaz para o TEPT. A American Psychological Association a inclui entre os tratamentos fortemente recomendados para o transtorno, ao lado de outras intervenções psicológicas focadas no trauma. O estudo de Resick et al. também mostra que os diferentes componentes examinados podem produzir mudanças clínicas relevantes, oferecendo evidência importante para a hipótese de que o processamento cognitivo possui papel central no tratamento.

As comparações diretas entre tratamentos focados no trauma, por sua vez, sugerem que diferentes protocolos podem alcançar reduções importantes dos sintomas, sem que isso implique a existência de um único mecanismo responsável por toda a recuperação. A TPC-C é particularmente relevante nesse contexto porque permite estudar de maneira mais precisa quanto da mudança clínica pode ocorrer por meio do exame sistemático das interpretações relacionadas ao trauma, sem depender necessariamente da elaboração de um relato escrito detalhado.

            Considere abaixo o exemplo de uma sessão fictícia de TPC-C para TEPT:

Terapeuta: Na última sessão, você disse: “Eu deveria ter percebido que aquilo ia acontecer”. O que essa conclusão significa para você?

Paciente: Que eu fui ingênua. Se eu tivesse prestado mais atenção, talvez tivesse percebido algum sinal.

Terapeuta: E, se você tivesse percebido esse sinal, o que acredita que teria conseguido fazer?

Paciente: Teria ido embora antes.

Terapeuta: Então parece existir uma ideia de que, se você tivesse sido suficientemente cuidadosa, poderia ter impedido o que aconteceu.

Paciente: Sim. É isso que mais me incomoda. Eu penso que foi culpa minha por não ter percebido.

Terapeuta: Vamos investigar essa conclusão. Que evidências você tem de que havia algum sinal claro naquele momento de que uma agressão aconteceria?

Paciente: Pensando agora, eu não tinha nenhum sinal claro. A situação parecia normal.

Terapeuta: E você acredita que uma pessoa razoavelmente cuidadosa teria necessariamente previsto o que aconteceria?

Paciente: Não necessariamente. Acho que alguém poderia estar no mesmo lugar e não perceber nada.

Terapeuta: Então existe uma diferença entre dizer “eu gostaria de ter percebido o perigo” e dizer “eu tinha condições de saber que aquilo aconteceria”.

Paciente: Sim. Eu nunca tinha separado essas duas coisas.

Terapeuta: Quando você pensa “a culpa foi minha”, qual emoção aparece?

Paciente: Culpa. E muita vergonha também.

Terapeuta: Essa culpa parece estar relacionada diretamente ao que aconteceu ou à interpretação de que você deveria ter conseguido prever o acontecimento?

Paciente: À segunda coisa. Se eu não tivesse essa ideia, acho que sentiria mais tristeza e medo pelo que aconteceu, mas não tanta culpa.

Terapeuta: Isso nos ajuda a diferenciar duas experiências. O medo e a tristeza podem estar relacionados ao próprio acontecimento. A culpa parece estar sendo mantida por uma conclusão sobre sua responsabilidade.

Paciente: Então a culpa pode estar vindo da maneira como estou interpretando o trauma?

Terapeuta: É uma possibilidade que podemos investigar. Não precisamos concluir agora que você não teve nenhuma responsabilidade. Podemos examinar se a responsabilidade que você está atribuindo a si mesma corresponde às informações que realmente estavam disponíveis naquele momento.

Paciente: Quando penso dessa forma, parece que estou me julgando com informações que só tenho agora.

Terapeuta: Esse é um ponto importante. Você sabe hoje que a agressão aconteceu. Naquele momento, você não tinha essa informação. O que aconteceria se aplicássemos a mesma regra a outras pessoas?

Paciente: Eu provavelmente não diria que outra pessoa foi culpada simplesmente porque não conseguiu prever uma agressão.

Terapeuta: Então podemos formular uma pergunta para continuar investigando esse ponto de estancamento: “Estou atribuindo a mim uma capacidade de prever o acontecimento que eu não esperaria de outra pessoa em circunstâncias semelhantes?”

Paciente: Acho que sim.

Terapeuta: E perceba que não estamos tentando substituir “eu sou culpada” por “não preciso ter medo de nada”. Estamos tentando descobrir uma interpretação que corresponda melhor aos fatos.

Paciente: Talvez seja: “Eu passei por uma situação que não consegui prever. Isso foi assustador, mas não significa que eu tivesse capacidade de impedir.”

Terapeuta: Essa interpretação parece levar em consideração mais informações do que a conclusão inicial?

Paciente: Sim. Ainda sinto culpa, mas parece menos absoluta.

Terapeuta: É justamente essa diferença que queremos continuar examinando. O objetivo não é obrigar você a acreditar em uma frase positiva. É aprender a investigar as conclusões que surgem depois do trauma e verificar se elas realmente são sustentadas pelas evidências.

 

 

 

Referência: BARLOW, David H. (Org.). Manual clínico de trastornos psicológicos: tratamento passo a passo. Tradução de María Elena Ortíz Salinas. Revisão técnica de Michel André Reyes Ortega. 5. ed. Ciudad de México: Editorial El Manual Moderno, 2018. 790 p. Tradução de: Clinical handbook of psychological disorders: a step-by-step treatment manual.


Comentários

FAÇA UMA DOAÇÃO

Se você gostou dos textos, considere fazer uma doação de qualquer valor em agradecimento pelo material do blog. Você pode fazer isso via PIX!

Chave PIX: 34988210137 (celular)

Bruno dos Santos Queiroz

VEJA TAMBÉM

FÉDON - PLATÃO (RESUMO)

EXEGESE: SÃO JOÃO 1, 1 - 3

O QUE É A SOCIOLOGIA? - ANTHONY GIDDENS

SER E TEMPO (RESUMO)

TRATADO DOS ANJOS - TOMÁS DE AQUINO (RESUMO)

CULTURA E SOCIEDADE - ANTHONY GIDDENS

TEXTOS BÍBLICOS ABSURDOS

LISTA DE AUTORES IMPORTANTES DE FILOSOFIA, TEOLOGIA E PSICOLOGIA

O MITO DA LIBERDADE - SKINNER (RESUMO)

O SER E O NADA (RESUMO)