O QUE A ÉTICA EXIGE DE NÓS?
O objetivo deste texto consiste em apresentar deveres morais que a ética requer de nós enquanto ações individuais. Inspirado no modelo bíblico dos “Dez Mandamentos”, gostaria de propor uma lista de dez deveres morais individuais que a Ética requer de cada um de nós. A lista não pretende ser exaustiva, mas pretende trazer parâmetros, ainda que com certo grau de arbitrariedade, para avaliarmos nossas ações morais. Primeiro apresentarei a lista e depois explicarei cada “mandamento” em detalhes:
1. Busque a verdade, mesmo quando ela não traz conforto.
2. Não espalhe desinformação: não compartilhe notícias falsas e valorize informações precisas.
3. Rejeite a discriminação: não seja racista, LGBTfóbico, misógino ou de qualquer outra forma discriminatório.
4. Pratique a compaixão: ame a si mesmo, ao próximo, à humanidade e aos animais, e demonstre esse amor contribuindo para o bem-estar de todos.
5. Não prejudique os outros: não agrida fisicamente ninguém e não participe de linchamentos físicos ou virtuais.
6. Respeite o consentimento: não tenha relações sexuais na ausência de consentimento ou com pessoas que estejam bêbadas, dormindo ou sob efeito de drogas.
7. Proteja os menores: se você tiver mais de 18 anos, não tenha relações sexuais com ninguém menor de 18 anos
8. Honre seus compromissos: não cometa adultério ao quebrar um acordo feito com seu parceiro sobre o que conta como trair.
9. Reduza o sofrimento dos animais: reduza ao máximo o consumo de carne, ovos e leite, tornando-se ao menos um demi-vegetariano e mantendo o consumo de carne, se possível, apenas quando isso evitar desperdício de alimentos ou em ocasiões sociais especiais em que recusá-la seria culturalmente delicado.
10. Doe recursos para instituições filantrópicas confiáveis: Se receber de 2 a 4 salários mínimos doar pelo menos 5% do salário a instituições filantrópicas confiáveis e se mais de 4 salários mínimos doar pelo menos 10%.
Há deveres que a Ética nos impõe tanto no plano individual quanto no coletivo. No plano coletivo, ela exige a adoção de instituições e políticas que reduzam danos e promovam o bem: por exemplo, o fim de práticas amplamente danosas como a exploração animal pela agroindústria, a mitigação das emissões que contribuem para o aquecimento global, a implementação de mecanismos de redistribuição de renda e o investimento na redução de riscos existenciais, como aqueles associados a pandemias artificiais ou ao mau funcionamento da inteligência artificial. Esse tipo de exigência é amplamente reconhecido na tradição contemporânea ao enfatizar o papel das estruturas institucionais na realização de valores morais.
Contudo, do fato de que a Ética exige mudanças coletivas não se segue que ela dispense deveres individuais. A oposição entre “agir individualmente” e “promover mudanças estruturais” constitui uma falsa disjunção. Por exemplo, o dever de construir um cercado ao redor de um lago perigoso não elimina o dever imediato de salvar uma criança que esteja se afogando. Além disso, reformas institucionais são tipicamente lentas e incertas; enquanto não se concretizam, permanecemos moralmente responsáveis por agir de modo a reduzir danos e promover o bem dentro das condições existentes. Assim, mesmo quando insuficientes como solução final, ações individuais ainda são moralmente requeridas.
A
Ética, entretanto, envolve um grau significativo de vagueza e indeterminação.
Como observa Derek Parfit, ainda que as verdades morais sejam necessárias,
nosso acesso a elas é frequentemente impreciso. Sabemos, por exemplo, que há um
dever de beneficiar outros por meio de doações para instituições confiáveis de
caridade, mas não há um limiar exato que determine quanto devemos doar. De modo
semelhante, reconhecemos a importância do consentimento em relações
interpessoais, mas a fixação de limites precisos (como idades legais) exige, em
parte, decisões convencionais. Nesse contexto, filósofos morais frequentemente
propõem “parâmetros” ou diretrizes práticas, ainda que, em algum grau,
arbitrárias, para orientar a ação em condições de incerteza.
Por
fim, a Ética requer um método de reflexão que nos permita discernir o que
devemos fazer. Adoto um método que denomino Intuicionismo de Revisão Crítica (Critical Review Intuitionism). Partimos
de intuições morais robustas, que não devem ser confundidas como meros seemings (isto é, simples aparências
psicológicas), mas como juízos com pretensão de evidência normativa, que, prima
facie, se imponham como inegociáveis ou muito difícil de serem rejeitados em
condições de informação e racionalidade ideais.
Essas
intuições, contudo, não são aceitas de modo acrítico. Elas são continuamente submetidas
a exame: confrontamo-las com outras intuições, com as possíveis conclusões
contraintuitivas que delas decorrem, com fatos empíricos e com exigências de
consistência. Além disso, adotamos uma postura cética quanto à sua origem (seja
cultural, evolutiva ou decorrente de vieses cognitivos) e as avaliamos à luz de
uma pluralidade de razões oriundas de diferentes teorias normativas, como o
utilitarismo, a deontologia, a ética das virtudes e a moralidade do senso
comum. Esse processo também é guiado por um ideal de convergência teórica: sob
condições de informação adequada e racionalidade procedimental, devemos esperar
algum grau de convergência entre agentes racionais que partem de diferentes
perspectivas.
Desse modo, as intuições funcionam como pontos de partida com peso epistêmico, mas permanecem abertas à revisão crítica. Ao longo desse processo crítico, elas podem ser derrotadas (abandonadas), revisadas (refinadas) ou substituídas por outras mais bem justificadas, aproximando-nos de um equilíbrio refletido entre nossos juízos, princípios e teorias. Acredito que esse método justifica os dez deveres morais que apresento neste texto. Segue abaixo a explicação de cada um dos dez deveres individuais que a Ética requer de nós:
(1) Buscar a verdade, mesmo quando
ela não traz conforto.
Algumas coisas importam
objetivamente. A felicidade importa e deve ser buscada, o sofrimento importa no
sentido de que ele nos dá razões para evita-lo. Há mais coisas que importam: a
amizade, o amor, a família e o lazer. Chamamos essas coisas de “bem objetivos”
porque elas são coisas dignas de serem buscadas. Entre as coisas dignas de
serem buscadas está a verdade e todos nós temos o dever individual de buscar a
verdade, incluindo as verdades morais. Acreditar de maneira justificada em uma
proposição verdadeira é um bem em si mesmo e digno de ser buscado. A Ética
exige de nós a valorização da verdade.
A exigência de buscar a verdade,
mesmo quando desconfortável, é uma condição básica da racionalidade epistêmica
e moral. Sem esse compromisso, não há deliberação ética genuína, apenas
racionalização de crenças prévias. Temos o dever moral de ajustar crenças,
princípios e julgamentos à luz de coerência e evidência. Recusar verdades
desconfortáveis impede esse processo e cristaliza erros epistêmicos.
Além
disso, a história do progresso moral sugere que sociedades frequentemente
sustentaram práticas profundamente injustas com base em crenças falsas amplamente
aceitas: escravidão, misoginia, perseguição a minorias. Isso indica que a
conformidade com convenções sociais não é um guia confiável para a verdade
moral. Portanto, buscar a verdade exige uma disposição ativa para questionar
normas e crenças estabelecidas.
Temos o dever moral de acreditar no
melhor conhecimento científico disponível, de submeter as nossas crenças ao
escrutínio da dúvida e exigir para elas boa justificação. Temos o dever de amar
a verdade, de buscar sinceramente revisar nossas visões para que elas
correspondam à realidade. A negligência epistêmica (acreditar sem evidência
suficiente ou resistir à revisão) é um erro moral. A Ética requer de nós abertura
à crítica, sensibilidade a evidências contrárias e disposição para abandonar
convicções profundamente arraigadas quando elas se mostram injustificadas.
(2) Não espalhar desinformação: não
compartilhe notícias falsas e valorize informações precisas.
Do dever de valorizar a verdade,
também se segue o dever de não espalhar desinformação. A proibição da
desinformação expressa deveres epistêmicos fundamentais. Temos o dever de verificar a origem das informações antes de
aceitá-las ou compartilhá-las, avaliando sua confiabilidade, bem como o dever
de evitar a propagação de falsidades, o que inclui não compartilhar conteúdos
cuja veracidade seja duvidosa ou não verificada. Além disso, devemos evitar a
apresentação enganosa de informações verdadeiras, pois a distorção de contexto,
a omissão seletiva ou a manipulação de dados podem gerar desinformação tão
grave quanto uma falsidade explícita.
Também
temos o dever de ajustar o grau de crença à força das evidências disponíveis,
evitando tanto a credulidade excessiva quanto o ceticismo injustificado. Em
situações nas quais não dispomos de evidência suficiente, devemos suspender o
juízo, abstendo-nos de afirmar ou disseminar informações que não possuímos
razões adequadas para sustentar. Essa atitude se relaciona diretamente com a
responsabilidade de não amplificar ruído informacional, evitando contribuir
para a circulação de conteúdo sensacionalista, ambíguo ou potencialmente
enganoso.
Além
disso, temos o dever de corrigir ativamente informações falsas que tenhamos
divulgado anteriormente, sempre que isso for possível e benéfico, bem como o dever de
cultivar humildade epistêmica, reconhecendo a possibilidade de erro e
permanecendo abertos à revisão de nossas crenças diante de novas evidências.
Por fim, devemos buscar fontes confiáveis e exercer responsabilidade social
epistêmica, considerando os efeitos de nossas crenças e compartilhamentos no
ambiente informacional e na deliberação coletiva, uma vez que a circulação
irresponsável de informações pode ter consequências morais significativas para
indivíduos e para a sociedade como um todo.
(3) Rejeitar a discriminação: não
seja racista, LGBTfóbico, misógino ou de qualquer outra forma discriminatório.
A
rejeição da discriminação baseia-se no princípio de imparcialidade, segundo o
qual características moralmente irrelevantes não devem afetar a consideração
moral que devemos dispensar aos indivíduos. Esse princípio ocupa um papel
central na explicação do progresso moral: muitas das práticas que hoje
reconhecemos como injustas, como o racismo, o sexismo e outras formas de
exclusão, foram, em seu tempo, amplamente aceitas e justificadas por crenças
que pareciam evidentes. No entanto, o fato de tais crenças terem sido
majoritárias não lhes conferia validade moral. Pelo contrário, como destaca
Will MacAskill, a história mostra que praticamente todas as sociedades
mantiveram pontos cegos morais significativos, frequentemente defendendo
práticas que hoje consideramos profundamente erradas.
Essa
constatação é formalizada por Evan G. Williams por meio do conceito de
“preocupação indutiva”: se gerações anteriores estavam sistematicamente erradas
em questões morais importantes, então é altamente provável que nós também
estejamos equivocados em aspectos ainda não reconhecidos. Diante disso, a
rejeição da discriminação deve ser como uma exigência ética derivada de uma
postura crítica em relação às nossas próprias crenças e convenções. O
mandamento de rejeitar a discriminação implica reconhecer que características
como raça, gênero, orientação sexual, espécie ou outras propriedades
semelhantes não constituem razões moralmente relevantes para diferenciar a
consideração que devemos a diferentes indivíduos.
Além
disso, a aplicação consistente do princípio de imparcialidade conduz à extensão
da crítica para além das discriminações tradicionais entre seres humanos. Como
argumenta Peter Singer, se aceitamos que diferenças moralmente irrelevantes não
justificam discriminação entre humanos, então devemos também questionar a
exclusão de consideração moral baseada na espécie. Esse é o núcleo da crítica
ao especismo: a ideia de que não há justificativa moral adequada para atribuir
menor peso aos interesses de animais apenas por pertencerem a outra espécie. O
princípio de que “o sofrimento igual deve contar igualmente” implica que a
capacidade de sofrer, e não a espécie, é o critério moral relevante.
Quando
uma pessoa condena a homossexualidade, exclui pessoas LGBTs, busca dificultar o
acesso ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, não reconhece uma mulher
transgênero como uma mulher de verdade, trata pessoas negras como se fossem
inferiores, exige submissão feminina em relação ao homem ou exclui animais
não-humanos do círculo de consideração moral, tal pessoa está fazendo algo
moralmente errado. Ao falhar em reconhecer o valor moral igual dos indivíduos
afetados, a pessoa incorre em uma forma de erro moral que é uma violação grave
dos fundamentos da ética.
(4) Praticar a compaixão: ame a si
mesmo, ao próximo, à humanidade e aos animais, e demonstre esse amor
contribuindo para o bem-estar de todos.
O amor, no contexto ético, pode ser
compreendido como uma disposição ativa de se importar com o bem do outro,
acompanhada de uma forma de atenção perceptiva que reconhece esse outro como
portador de valor moral e digno de consideração. Nesse sentido, não se trata de
um mero sentimento passivo, mas de uma atitude prática orientada para o
cuidado, que se manifesta em ações voltadas à promoção do bem-estar e à redução
do sofrimento. A compaixão, assim entendida, expressa o reconhecimento da
relevância moral dos outros e fornece uma base para os deveres de beneficência.
O
tipo de amor exigido pela ética não deve ser restrito a vínculos pessoais
estreitos, como aqueles com familiares ou amigos próximos. Pelo contrário, ele
deve ser compreendido de forma ampliada e universalizante: uma disposição de
consideração que se estende a todos os seres capazes de sofrer. Essa exigência
aponta para uma forma de amor imparcial, que não privilegia arbitrariamente
alguns indivíduos em detrimento de outros com base em proximidade,
familiaridade ou convenções sociais.
A
noção de “empatia radical” pode ser entendida como a disposição de levar a
sério o sofrimento de todos os seres sencientes, independentemente de sua
espécie, localização ou relação conosco. Isso implica não apenas reagir a
formas evidentes de sofrimento, mas também desenvolver sensibilidade para
reconhecer formas menos visíveis ou negligenciadas. Tal postura exige
investigação ativa, abertura epistêmica e disposição para revisar nossas
prioridades morais à luz de novas evidências sobre onde o sofrimento ocorre e
como ele pode ser reduzido.
Essa
ampliação do escopo da compaixão nos conduz a áreas frequentemente ignoradas,
como o sofrimento de animais em ambientes naturais, bem como o impacto de
nossas ações sobre as gerações futuras. Em ambos os casos, a ética da compaixão
nos impele a considerar seriamente o sofrimento de indivíduos que estão fora do
nosso campo imediato de percepção, mas que são moralmente relevantes. Assim, a
prática da compaixão se torna não apenas uma virtude pessoal, mas um princípio
expansivo que orienta a ampliação contínua do nosso círculo moral e o
aprimoramento das nossas ações em direção à redução do sofrimento.
(5) Não prejudicar os outros: não
agrida fisicamente ninguém e não participe de linchamentos físicos ou virtuais.
O
dever de não prejudicar os outros expressa um princípio central da ética
normativa: a proibição de causar dano injustificado. Esse princípio se aplica
tanto a formas diretas de agressão física quanto a danos indiretos, incluindo
práticas sociais que comprometem a justiça e a integridade das interações
humanas. Linchamentos físicos ou virtuais, por exemplo, constituem formas de
violência sempre injustificadas – toda pessoa, por mais hediondo seus crimes ou
por mais horrendas suas ideias, merece ser julgada por um tribunal justo com
amplo direito de defesa antes de ser punida.
Além
disso, o mandamento inclui a proibição de prejudicar outros com o objetivo de
obter vantagem pessoal, como ocorre em fraudes, trapaças ou manipulações em
processos de seleção. Tais práticas violam a equidade e comprometem a confiança
nas instituições, além de causarem dano direto aos indivíduos que são
prejudicados por elas. A condenação de toda forma de agressão física inclui
violência contra crianças e animais, que jamais devem ser corrigidos
fisicamente. A ética exige que levemos a sério o impacto das nossas ações sobre
o bem-estar dos outros, independentemente de justificativas culturais ou
contextuais.
(6) Respeitar o consentimento: não
tenha relações sexuais na ausência de consentimento ou com pessoas que estejam
bêbadas, dormindo ou sob efeito de drogas.
Tratar alguém como agente moral
implica reconhecer seu direito de decidir sobre aspectos fundamentais de sua
vida, especialmente em contextos íntimos. Uma relação sexual só é moralmente
permissível se envolve consentimento válido, livre de coerção e intoxicação. Contudo,
a noção de consentimento válido é mais exigente do que uma simples manifestação
externa de acordo. Ela requer condições como informação adequada, ausência de
coerção e capacidade racional. Situações envolvendo intoxicação, inconsciência,
manipulação ou pressão comprometem essas condições, tornando o consentimento
inválido.
Além
disso, em um contexto de incerteza moral, uma postura cautelosa em relação ao
consentimento é racionalmente exigida. Quando há dúvida razoável sobre sua
validade, a ação deve ser evitada, pois o custo de violar a autonomia de alguém
é moralmente significativo. Assim, agir de forma ética envolve não apenas
respeitar o consentimento quando ele é claramente dado, mas também reconhecer
situações em que ele é insuficiente, ambíguo ou comprometido, e abster-se de
agir nessas circunstâncias.
(7) Proteger os menores: se você
tiver mais de 18 anos, não tenha relações sexuais com ninguém menor de 18 anos.
A
ética frequentemente lida com limites que não são perfeitamente nítidos: há
casos claros de consentimento válido e casos claramente inválidos, mas também
há uma zona de indeterminação em que não é óbvio se o consentimento é
plenamente autêntico. Essa vagueza torna necessário recorrer a parâmetros
normativos que organizem a prática moral, mesmo que tais parâmetros não
capturem perfeitamente todas as nuances dos casos individuais.
Por
isso, na ética é importante estabelecer um limite etário de consentimento
sexual para relações sexuais com adultos. A idade de 18 anos é um limite etário
razoável. Como regra geral, nenhuma pessoa adulta (com mais de 18 anos) deve
ter relações sexuais com uma pessoa menor de 18 anos. Em vez de tentar
determinar caso a caso se um indivíduo possui plena capacidade de
consentimento, o que seria epistemicamente difícil e moralmente arriscado,
estabelecemos um critério público, simples e amplamente aplicável. Mesmo que o
limite seja, em algum grau, convencional ou arbitrário, ele se justifica como
uma medida prudencial para salvaguardar a autonomia e evitar exploração sexual
de menores.
Além
disso, o desenvolvimento da capacidade de consentir não ocorre de maneira
uniforme ou abrupta, mas ao longo de um processo gradual de maturação
psicológica, emocional e social. Na prática, há diferenças relevantes na fase
de desenvolvimento entre menores e adultos, especialmente em termos de
autonomia prática e estabilidade de preferências. Em contextos de incerteza
moral e epistêmica, a prudência exige que adotemos critérios que priorizem a
proteção dos mais vulneráveis, mesmo que isso implique aceitar certo grau de
arbitrariedade normativa.
(8) Honrar seus compromissos: não
cometa adultério ao quebrar um acordo feito com seu parceiro sobre o que conta
como trair.
O dever de honrar compromissos é
fundamental para a vida moral e social, pois promessas e acordos geram razões
normativas que sustentam práticas de confiança, cooperação e coordenação entre
indivíduos. Sem a expectativa de que compromissos serão cumpridos, essas
práticas se tornam instáveis, comprometendo a previsibilidade e a segurança das
interações sociais. Em relações pessoais, como as afetivas, esse princípio
adquire especial relevância, pois a confiança é um elemento central para o
vínculo e para a estabilidade do relacionamento.
No
contexto de relações monogâmicas, quando há um acordo sobre o que conta como traição, esse acordo estabelece os limites normativos da
relação. A quebra desses limites, como no caso do adultério, constitui uma
violação desse compromisso e, portanto, um erro moral sério, na medida em que
rompe a confiança que sustenta a relação. Mesmo que existam diferentes modelos
de relacionamento, incluindo relações abertas, a moralidade da ação depende do
cumprimento dos termos acordados entre as partes. O adultério é grave violação
de nossos compromissos éticos.
É
importante notar que o valor moral dos compromissos não implica que eles sejam absolutos
em todos os casos. Compromissos podem ser revisados, renegociados ou, em
situações excepcionais, superados quando entram em conflito com outros valores
morais mais fundamentais. No entanto, essa superação exige justificação
rigorosa, pois compromissos têm um peso moral significativo precisamente porque
estruturam relações de confiança e previsibilidade.
(9) Reduza o sofrimento dos animais:
reduza ao máximo o consumo de carne, ovos e leite, tornando-se ao menos um
demi-vegetariano e mantendo o consumo de carne, se possível, apenas quando isso
evitar desperdício de alimentos ou em ocasiões sociais especiais em que
recusá-la seria culturalmente delicado.
Existe uma forte razão moral para
reduzir o sofrimento animal tanto quanto possível. Essa razão pode ser
articulada em termos de um princípio de consideração moral pelos seres
sencientes, segundo o qual o sofrimento importa moralmente independentemente da
espécie que o experimenta. Sofrimento imerecido é ruim independentemente de
quem sofre, seja um homem ou mulher, um branco ou negro, um humano ou um animal
não-humano. É arbitrário qualquer distinção com base em raça, sexo, gênero,
orientação sexual ou espécie para anular o valor moral do sofrimento.
Uma forma ideal de cumprir esse
dever de reduzir o sofrimento animal é a adoção do veganismo, na medida em que
tal prática elimina, ou reduz drasticamente, a demanda por produtos de origem
animal. No entanto, reconhece-se que, para alguns indivíduos, fatores contextuais,
como limitações sociais, culturais, econômicas ou de saúde, podem dificultar a
adoção plena dessa prática.
Nesses casos, pode ser moralmente
exigível adotar uma dieta que reduza significativamente o consumo de produtos
de origem animal, como o vegetarianismo ou o flexitarianismo
(demi-vegetarianismo). O ponto central não é a pureza dietética, mas sim a minimização do sofrimento causado por
meio da redução da demanda de mercado. Uma pessoa que não é pelo menos
flexiteriana/demi-vegetariana está vivendo de modo imoral.
Dentro desse enquadramento, o
consumo de carne ou outros produtos de origem animal não é necessariamente intrinsecamente imoral em todos os casos,
mas torna-se moralmente relevante na medida em que contribui para aumentar a
demanda e, consequentemente, a produção e o sofrimento animal associado. Em
contrapartida, o consumo de produtos que seriam descartados ou que não alteram
a demanda marginal pode ser considerado moralmente neutro, dado que não
influencia a estrutura de incentivos do mercado. Assim, não é imoral consumir
carne que de outro modo seria desperdiçada.
Para orientar decisões práticas sob incerteza moral é útil recorrer a modelos comparativos aproximativos do sofrimento associado a diferentes produtos. Tais modelos não fornecem medidas exatas de sofrimento fenomenal, mas funcionam como índices comparativos de dano moral, úteis para deliberação racional. As estimativas apresentadas a seguir foram construídas de forma combinada, utilizando diferentes sistemas de inteligência artificial como ferramenta auxiliar de modelagem. Os critérios utilizados na construção do índice incluem a intensidade do sofrimento, o número de indivíduos afetados, o nível de cognição e a complexidade psicológica dos animais, a duração e a frequência dos eventos de sofrimento:
O “ov” funciona como uma unidade
de referência moral comparativa, calibrada a partir do ovo. Assim, 1 ov ≈ dano
moral/sofrimento estimado associado a 1 ovo Por exemplo, o modelo sugere que,
em termos agregados de dano moral estimado, o consumo de 200g de frango
corresponde aproximadamente a 50 vezes o impacto associado ao consumo de um
ovo. Embora seja uma estimativa subjetiva, a ideia é ter algum parâmetro para
que a pessoa possa calcular o impacto moral de sua dieta e formas de reduzir
esse impacto.
(10) Doar recursos para instituições
filantrópicas confiáveis: Se receber de 2 a 4 salários mínimos doar pelo menos
5% do salário a instituições filantrópicas confiáveis e se mais de 4 salários
mínimos doar pelo menos 10%.
O dever de compartilhar recursos
baseia-se em uma intuição moral amplamente aceita: se podemos ajudar outros de
maneira significativa a um custo relativamente baixo para nós, temos razões
morais para fazê-lo. Essa ideia está no centro de muitas teorias éticas
contemporâneas, especialmente aquelas que enfatizam deveres de beneficência. No
entanto, como nossos recursos (tempo,
dinheiro e atenção) são limitados, surge a necessidade de decidir não apenas se
devemos ajudar, mas como ajudar da melhor forma possível.
Nesse
contexto, a exigência de doar para instituições confiáveis deve ser entendida à
luz da importância do impacto real. Não basta agir com boas intenções; é
moralmente relevante considerar a eficácia das nossas ações. Diferenças entre
intervenções podem ser enormes: com a mesma quantia de recursos, é possível
ajudar poucas pessoas ou centenas, dependendo de como esses recursos são
alocados. Se levamos a sério a ideia de que todas as vidas têm igual valor moral,
então há uma forte razão para direcionar nossos recursos para onde eles
produzem o maior benefício possível.
Ao
mesmo tempo, a ética deve reconhecer as limitações psicológicas humanas.
Tendemos a reagir mais fortemente a casos concretos e próximos do que a grandes
números abstratos, um fenômeno frequentemente descrito como insensibilidade de
escopo. Além disso, muitas vezes buscamos o conforto emocional de ajudar de
maneira visível e imediata, mesmo quando isso não maximiza o impacto real. Uma
abordagem mais racional não exige abandonar completamente essas motivações, mas
sim distingui-las: é possível manter práticas que alimentam nossa motivação
moral no cotidiano, ao mesmo tempo em que direcionamos recursos significativos
de forma mais eficaz.
Não
há diferença moral relevante entre ajudar uma pessoa em situação de rua próxima
de nossa casa ou uma pessoa em situação semelhante em outro continente. Assim,
devemos priorizar a ação mais efetiva. Por isso, é preciso adotar o princípio de
doação baseada em evidência, ao invés de doação baseada em emoções, como
aquelas feitas com base em conforto pessoal, proximidade ou resultado visível. Instituições
filantrópicas confiáveis para fazer doações podem ser acessadas (aqui).
Diante
do problema da vagueza na Ética, ainda que com certo grau de arbitrariedade, é
importante estabelecer parâmetros práticos que orientem a ação. Embora seja
verdade que, ceteris paribus, quanto
mais uma pessoa doa, melhor, também é plausível sustentar que doar abaixo de
certo limite constitui uma falha moral, isto é, não fazer o suficiente para não
estar em dívida com a moral. Nesse sentido, a fixação de faixas de doação
funciona como uma forma de tornar mais concreta uma obrigação que, de outro
modo, permaneceria excessivamente indeterminada:

Comentários