A CIÊNCIA DA NATUREZA HUMANA - ALFRED ADLER (RESUMO)


O que se segue é um resumo do livro A Ciência da Natureza Humana do psicólogo austríaco Alfred AdlerAdler apresenta, neste livro, a sua psicologia do desenvolvimento individual, tratando do processo de desenvolvimento do procedimento humano, considerando a importância do contexto social e formulando uma ciência do caráter, apresentando uma descrição básica dos traços de caráter. O resumo segue a mesma divisão do texto original. É importante colocar que este resumo é apenas uma apresentação do texto original de forma compactada, sem paráfrases ou resenhas críticas. A ideia é de que o texto permaneça do autor original. 

I. O PROCEDIMENTO HUMANO 

1. A ALMA 

Atribuímos alma somente aos organismos vivos que se movem, sendo isso o que distingue os animais das plantas. Desse modo, na evolução da vida psíquica é preciso considerar tudo aquilo que diz respeito ao movimento, o desenvolvimento da vida psíquica está ligado ao movimento. Podemos entender a vida psíquica como um complexo de atividades ofensivas e defensivas que tem como objetivo assegurar a continuidade da existência do organismo vivo na terra e habilitá-lo a melhor realizar o seu desenvolvimento. 
Ao considerar a vida psíquica, não devemos imaginá-la como algo fechado, é preciso entendê-la limitada pelo meio envolvente, recebendo e reagindo a estímulos do mundo externo. O relacionamento do organismo com o mundo acentua as peculiaridades de cada indivíduo, criando suas qualidades e defeitos. 
A vida psíquica do ser humano é determinada por seu objetivo, isso significa que a vida psíquica consiste em um movimento teleológico a uma finalidade. Todos os fenômenos da vida da alma podem ser considerados como preparações para alguma situação futura. Sabemos que a vontade humana não é livre, são as circunstâncias, naturais e socais, que determinam seus fins objetivos, de modo que a vida psíquica é governada por certas leis imutáveis. 

2. ASPECTOS SOCIAIS DA VIDA PSÍQUICA 

Não sendo o ser humano livre, os problemas da atividade humana se acham indissoluvelmente ligados à lógica da vida social. No entanto, as condições presentes de nossa vida social não podem ser consideradas definitivas, são múltiplas e variadas e sujeitas a grandes mudanças e transformações. As condições da nossa vida são determinadas por leis naturais e sociais, as regras da vida social são tão fatais quanto as leis da natureza. 
Todas as regras que servem para assegurar a existência do gênero humano, tais como os códigos de leis, o totem e tabu, a superstição e a educação, devem ser determinadas pelo conceito de comunhão social. Isso significa que os pensamentos e os conceitos, assim como a razão, a inteligência, a lógica, a ética e a estética se originam na vida social do ser humano, sendo elos entre os indivíduos e tendo a finalidade de impedir a desintegração da civilização. 

3. A CRIANÇA E A SOCIEDADE 

A sociedade nos impõe certas obrigações que influenciam as normas e modalidades de nossa vida. Quando observamos o desenvolvimento de uma criança, constatamos que nenhuma evolução da vida humana é possível sem uma comunidade protetora. Na mais tenra idade há a formação de dois tipos humanos, algumas crianças se desenvolvem no sentido da aquisição de poder de modo a impor à atenção enquanto outras parecem prevalecer-se de sua própria fraqueza. A base da educabilidade se acha no esforço da criança em compensar suas fraquezas, é a partir da inaptidão que se despertam os talentos.  
No mundo, a criança se depara, por todos os lados, com obstáculos de modo que suas respostas nem sempre são adequadas. Os obstáculos com os quais uma criança se depara em seu desenvolvimento mental resultam geralmente na atrofia ou desvio de seu sendo de sociabilidade. Podemos distinguir três tipos de obstáculos: (i) os que surgem das deficiências do meio físico da criança; (ii) os que surgem de condições socioeconômicas anormais; (iiios que surgem de defeitos orgânicos no corpo da criança. 
Somente podemos compreender a personalidade de um indivíduo quando a consideramos em seu contexto social. Assim, a atividade psíquica da criança é fortemente influenciada por suas relações sociais. A criança tem um sentimento inato de sociabilidade, sua vida amorosa está sempre dirigida para outras pessoas. 

4. O MUNDO EM QUE VIVEMOS 

Devido ao fato de todo ser humano precisar se ajustar ao ambiente em que vive, seu mecanismo psíquico é dotado da faculdade de captar impressões do mundo externo e configurá-las em conformidade com uma dada interpretação da realidade, possibilitando a formação de um panorama cósmico. Os órgãos dos sentidos são essenciais para a determinação das relações do indivíduo com o mundo em que vive. 
O objetivo constante que determina toda a atividade humana influencia também a escolha, a intensidade e a atividade das faculdades psíquicas particulares que servem para dar forma e significação ao panorama cósmico. Essas faculdades psíquicas são: (i) a percepção: as impressões e estímulos do mundo exterior são transmitidos por meio dos órgãos dos sentidos ao cérebro, onde podem ficar gravados certos dos seus traços; (ii) a memória: a capacidade de armazenar e se recordar de determinados fatos cumpre uma necessidade adaptativa; (iii) a imaginação: consiste na reprodução da percepção fora da presença do objeto que lhe deu causa; (iv) fantasia: consiste numa atividade criadora da mente, sempre relacionada com o futuro; (v) sonho: uma forma de fantasia que no entanto se mostra de difícil compreensão; (vi) empatia: capacidade de identificação com outro indivíduo. 

5. O SENSO DE INFERIORIDADE E A LUTA PELA CONSIDERAÇÃO 

As crianças que vieram ao mundo com inferioridades orgânicas ou socioeconômicas, se empenham desde cedo em uma renhida luta pela existência da qual geralmente resulta a asfixia de seus sentimentos sociais. Pais muito exigentes podem levar as crianças acreditarem que são fracas e incapazes, que só servem para agradar ou desagradar os adultos. O tipo de sentimento de inferioridade produzido pelos pais pode ser futuramente intensificados por circunstâncias peculiares da nossa civilização. 
É o sentimento de inferioridade, de incapacidade, de insegurança, que determina o alvo da existência de um indivíduo. A tendência da criança de buscar a atenção dos pais se revela desde cedo. Por meio de um mecanismo de luta por compensação a alma tentar neutralizar o torturante senso de inferioridade, o que pode se traduzir numa luta por dominação. O exagerado anseio por dominação é uma forma de buscar assegurar seu prestígio sobre o ambiente. 

6. A PREPARAÇÃO PARA A VIDA 

Todos os fenômenos psíquicos podem ser entendidos como preparações para um objetivo definido.  O processo da vida espiritual consiste em uma constante preparação para um futuro no qual se realizem os desejos do indivíduo. Um importante fenômeno que na vida da criança evidencia o processo de preparação para o futuro é o brinquedo. Os brinquedos são auxiliares educativos e estímulos para o espírito, para a fantasia e para a técnica de vida da criança. O brinquedo se acha indissoluvelmente ligado à alma, à vida psíquica. 
Entre as conquistas psíquicas da humanidade está a atenção. A atenção exige uma tensão especial de uma parte do nosso aparelho psíquico ou de nosso organismo motor de modo que ao mesmo tempo há uma exclusão das manifestações de outras tensões. Com exceção de enfermos e doentes mentais, todos os seres humanos possuem a capacidade de prestar atenção. 
O mais importante fator para despertar a atenção é um real e profundo interesse pelo mundo. O interesse repousa em uma camada psíquica mais profunda que a atenção. A intenção pode ficar comprometida quando o interesse se volta para coisas errôneas, isto é, para coisas que não são importantes para a preparação da vida. Quando o interesse se volta para o próprio corpo ou o próprio poder pessoal, a pessoa fica atenta sempre que se trate de ganhar algo ou de uma ameaça ao seu poder. 
Uma atenção deficiente consiste em uma pessoa preferir esquivar-se a uma situação em relação ao qual deveria ficar atenta. Em alguns casos, a desatenção se torna uma característica permanente de modo que a desatenção se torna um traço fixo de caráter. Essa desatenção pode se manifestar na negligência culposa, causado pelo interesse deficiente de alguém pelos seus semelhantes ou no esquecimento, como se percebe no caso das pessoas esquecidas. 
Os interesses residem, na maior parte das vezes, no inconsciente. Os seres humanos podem ser classificados em dois tipos: (i) os que conhecem mais a respeito da vida inconsciente do que a média: são pessoas que têm um largo círculo de atividade e grande interesse pelos indivíduos, pelas coisas, fatos e ideias; (ii) os que conhecem menos a respeito da vida inconsciente do que a média: são pessoas que tem um campo de concentração mais limitada da esfera de atividade.  
Os fenômenos inconscientes podem ser compreendidos a partir da interpretação dos sonhos. No sonho, o problema da vida de um indivíduo se exprime por meio de um símile. A maior parte dos sonhos são de difícil compreensão. Os sonhos também são um reflexo simbólico do padrão de atividade e do procedimento de um indivíduo. A significação principal do símile ou comparação é nos permitir o acesso, por analogia, a uma situação na qual desejamos nos encontrar. Um sonho nos mostra não só que a pessoa que sonha se acha preocupada com a solução de um problema de sua vida, como também o modo pelo qual ela enfrenta esse problema. 
Outro elemento psíquico importante diz respeito às faculdades intelectuais. Tem sido chamado de talento a facilidade particular para formar juízos. A psicologia buscou medir a inteligência a partir de testes, mas sem muito sucesso, pois muitas vezes eles não levam em conta questões circunstanciais. 

7. O HOMEM E A MULHER 

Duas grandes tendências dominam os fenômenos psíquicos, o senso de sociabilidade e o senso de dominação, a relação entre esses dois fatores condiciona o grau em que cada indivíduo de se subordinar à divisão de trabalho é um fator absolutamente essencial. A bissexualidade da espécie humana determina uma certa divisão de trabalho, em virtude de sua condição física, as mulheres são excluídas de determinadas atividades enquanto os homens se veem excluídas de determinadas atividades por terem de se dedicar a certas tarefas. 
O processo de divisão de trabalho baseado no sexo configurou-se em nossa civilização numa superioridade do homem sobre a mulher. Desse modo, o homem dominador consegue vantagens e dirige a atividade das mulheres tendo em vista que as mais agradáveis formas de vida pertençam sempre ao homem. Todas as nossas instituições, tradições, leis morais e costumes compravam o fato de que tudo se acho determinado pelos homens privilegiados, para glória e predomínio do homem. 
Hoje, no entanto, se vê a insatisfação das mulheres ante a dominação masculina. A dominação masculina não é conforme a ordem natural e é por isso que há a necessidade de numerosas leis e instituições sociais para assegurar o domínio do homem. Alguns psicólogos, partindo de uma certa concepção de superioridade masculina, propõem uma diferenciação entre traços de caráter masculinos e femininos, o que na verdade é usado para legitimar a ideia de que o homem deve dominar e a mulher ser submissa. 
Os homens acostumaram-se não só a declarar como natural a dominação masculina, como em afirmar que essa dominação resulta da inferioridade da melhor, o que, na verdade, é puro preconceito. Esse privilégio masculino, no entanto, tem causado sérias perturbações no desenvolvimento psíquico das mulheres. Na luta contra o papel feminino é possível distinguir três tipos de mulheres: (i) a mulher que se desenvolve num ativo sentido masculino: mulher que se faz energética, ambiciosa, competitiva, interessando-se por atividades predominantemente masculinas; (ii) a mulher que passa a vida em atitude de conformidade: apresenta um comportamento de obediência e humildade; (iii) a mulher que não se defende contra o papel feminino, mas carrega consigo a consciência de ser inferior: aprova conscientemente o privilégio masculino. 
O erro da inferioridade da mulher e da superioridade do homem perturba a harmonia entre os dois sexos de modo que a relação entre eles é marcada por uma tensão. No entanto, há tentativas de reforma e melhoramento dessa relação por meio de medidas educativas. 

8. O QUADRO DA FAMÍLIA 

Não podemos julgar um ser humano sem lhe conhecer a situação em que se desenvolveu. Nesta situação é importante a posição da criança no quadro da família, se é um filho único, primeiro filho ou o filho mais novo. Essa posição na família pode levar ao surgimento de determinados tipos humanos, o filho caçula luta para superar os demais irmãos, muitas vezes excedendo em aptidões os demais membros da família. Já outros caçulas, não conseguem sobrepujar os demais e acabam se esquivando e se tornando medroso. Assim, o que interessa não é a situação em si, mas a interpretação que se faz desta situação. 
filho mais velho também apresenta características bem definidas, tem a vantagem, por ser o primogênito, de uma excelente situação para o desenvolvimento de sua vida psíquica, entende-se, geralmente, que o filho mais velho tem autoridade sobre os demais irmãos. No caso dos filhos segundos, eles geralmente precisam lutar pelo poder e superioridade, vivendo constantemente em estado de tensão nervosa. A atitude do filho segundo assemelha-se à da inveja das classes mais pobres por se sentirem esquecidas e menosprezadas.  Já no caso do filho único, este se torna em alto grau depende dos pais que convergem todo o zelo ao unigênito. 
Entendendo a importância do contexto familiar no desenvolvimento psíquico do indivíduo, devemos ser humildes no julgamento de nossos iguais, jamais façamos julgamentos morais sobre o valor de alguém. Devemos procurar tornar valiosos os nossos conhecimentos sobre o contexto social, tendo uma simpatia compreensiva sobre o outro. 

II. A CIÊNCIA DO CARÁTER 

1. CONSIDERAÇÕES GERAIS 

Chamamos de traço de caráter todo modo especial de expressão, por meio do qual um indivíduo busca se adaptar ao mundo em que vive. O caráter é um conceito social, não é possível falar de caráter sem considerar as relações entre o indivíduo e o seu meio. O caráter é o padrão de procedimento que condiciona, dentro do senso de sociabilidade do indivíduo, a sua luta para conseguir predomínio social. Os traços de caráter não são geneticamente herdados, mas surge de condicionantes sociais. 
O caráter se desenvolve a partir da luta pela dominação e do senso de sociabilidade, isto é, a partir da luta por importância e consideração. Todos os traços de caráter estão de acordo com a direção que o desenvolvimento mental de uma pessoa tomou desde a infância, tendo a ver com o modo como as crianças lida com os obstáculos com os quais se depara, diante disso uma pessoa pode se tornar medrosa ou corajosa, otimista ou pessimista, agressiva ou defensiva. É importante considerar que o caráter de um ser humano nunca deve servir como base de um julgamento moral, e sim como índice da atitude desse ser humano para com o seu ambiente e de suas relações com a sociedade em que vive. 

2. TRAÇOS AGRESSIVOS DE CARÁTER 

Podemos considerar os seguintes traços agressivos de caráter(i) vaidade: esforçando-se por consideração, o indivíduo passa a se preocupar excessivamente com a aparência, passa a pensar constantemente em si mesmo e acaba por perder o contato com a realidade; (ii) ciúme: a luta pela superioridade pode se manifestar na forma de um zelo num contexto de hostilidade e rivalidade; (iii) inveja: aparece quando o contrates entre um indivíduo e seu objetivo elevado toma a forma de um complexo de inferioridade de modo que o indivíduo passa a ocupar-se com o que os outros pensam dele e com o que realizam; (iv) avareza: o avaro constrói em torno de si barreiras para assegurar a posse daquilo que ele considera valioso; (v) ódio: pode se manifestar na cólera ou no gosto de implicar e maldizer. 

3. TRAÇOS NÃO AGRESSIVOS DE CARÁTER 

Os traços não agressivos de caráter são aqueles que, não sendo claramente hostis à humanidade, dão a impressão de isolamento e fuga. São eles: (i) retraimento: aparece em pessoas que falam pouco ou absolutamente nada, não olham nos olhos da pessoa com quem conversam e não ouvem ou ficam desatentos quando alguém fala; (ii) ansiedade: pode consistir no medo tanto do mundo exterior quanto do mundo interior, podendo aparecer como a perda da esperança ou a privação das relações humanas; (iii) desânimo: é o traço característico daqueles que acham que todos os trabalhos com os quais se defrontam são particularmente difíceis ou dos que não têm confiança em suas forças para fazerem qualquer coisa. 

4. OUTRAS MANIFESTAÇÕES DE CARÁTER 

Outros traços de caráter que podemos considerar, por fim, são: (i) jovialidade: é o caso das pessoas que estão dispostas a servir, auxiliar e proporcionar contentamento às outras pessoas; (ii) mentalidade de colegial: são pessoas que se comportam como estudantes, estando sempre atentos a ouvir, opinar e fazer perguntas; (iii) pedante: é o “homem de princípio” que intenta julgar todos os atos e acontecimentos consoante a algum princípio que presume aplicável a todas as situações; (iv) subserviência: é o traço das pessoas que  não conseguem tomar iniciativa e que se sentem bem em receber e seguir ordens; (v) autoritarismo: é a característica daqueles que querem dominar e se sentem ansiosos por exercer o papel de liderança. 

5. SENTIMENTOS E EMOÇÕES 

afetividade e a emoção são estados intensos dos traços de caráter, manifestam-se em súbitas descargas sob o impulso de alguma necessidade. Podemos classificar as emoções em dois grupos: (i) emoções dissociativas: são os sentimentos que tem um caráter desagregadoras, isto é, que não servem para incentivar a aproximação humana, são elas, a cólera, a tristeza, a repugnância, o medo e a ansiedade; (ii) sentimentos associativos: são aqueles que promovem a associação com os demais, são eles, a alegria, a simpatia e a modéstia. 


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