quarta-feira, 27 de abril de 2016

TRINDADE E INTERSUBJETIVIDADE

      Este artigo apresenta a teontologia trinitária, ou seja, a crença em um só Deus subsistindo em três Pessoas distintas (o Pai, o Filho e o Espírito Santo) dentro das discussões filosóficas sobre o uno e o múltiplo e da resposta tomista no interior do debate metafísico entre o monismo e o pluralismo. Por fim, este estudo introduzirá a contribuição gnosiológica da Trindade para as discussões sobre as relações intersubjetivas.
      O dogma da Trindade refere-se à crença religiosa cristã na unidade e pluralidade da imanência divina (Pai, Filho e Espírito Santo), estabelecendo a unidade essencial da substância e a pluralidade pessoal das subsistências da deidade. A diversidade e pluralidade do divino (Deus) percorre de maneira latente o monoteísmo e as descrições plurais de Deus no Antigo Testamento e é revelada nas fórmulas trinitárias neotestamentárias. Foi formulada ao longo da história da Igreja Cristã, tendo profundo significado para as discussões teológicas da ontologia divina (SILVA, 2014).
      O dogma da Trindade envolve o problema metafísico geral do uno e do múltiplo. O enigma aparece no monoteísmo trinitário na formulação da tripessoalidade divina e na unidade monoteística do Teísmo cristão. A grande questão está no fato de que a unidade do plural no divino não é compreendida simplesmente no âmbito do gênero, da espécie ou da união, mas num sentido de consubstancialidade. Logo, o problema filosófico-teológico não é tão simples como quando se diz que três seres estão unidos e por todos possuírem uma natureza humana. A unidade e pluralidade da imanência trinitária assume um sentido mais estrito e profundo em que no Uno indivisível, o Trino habita mutuamente na mesmíssima substância (CLARK, 2005).
      A questão do uno e do múltiplo se dá na discussão filosófica da própria metafísica do real, em que a cosmovisão da realidade pode se assumir como uma unidade absoluta, a diversidade absoluta ou a diversidade na unidade (FERREIRA & MYATT, 2007). O dilema entre o monismo e o pluralismo metafísico é de grande importância. Parmênides, por exemplo, argumentado que as coisas precisariam se diferir pelo não-ser, sendo o não-ser um nada ser, chegou a um monismo rígido compreendendo não haver uma pluralidade de seres no real (GEISLER, 2015).
      Disso, várias alternativas foram apresentadas contra o monismo rígido, entre elas o atomismo, o platonismo e o aristotelismo, mas nenhuma delas logrou êxito em fornecer uma resposta satisfatória à proposta parmenêdiana. Para o atomismo as coisas diferiam pelo não ser-absoluto, o platonismo defendia a multiplicidade com base no não-ser relativo e o aristotelismo entendia que as coisas se diferenciavam como seres simples, a solução inovadora, no entanto, aparece com Tomás de Aquino, que apresenta a ideia de que os seres finitos são compostos de ato e potência e que as coisas se diferenciam entre si na medida em que são portadoras de diferentes potencialidades ou formas de ser. O raciocínio continua até a afirmação de que só pode haver um Ser Simples ou Ato Puro não – composto. Desse modo, ficaria estabelecido o Uno Indivisível e Absoluto do divino e a pluralidade metafísica da realidade (GEISLER, 2015).
     Não obstante Deus seja essencialmente uma unidade absoluta, Ele é subsistencialmente plural. A relação de pessoas na imanência divina pode ser levantada para pensar nas relações de intersubjetividade como modelo relacional. Neste caso, estamos diante de uma ênfase para o modelo social de Trindade, tendo de tomar cautela para não valorizar a diversidade sobre a unidade, a fim de não desembocar no triteísmo (SILVA, 2014). O modelo social da triunidade divina é refletida na ideia da unidade de pessoas no Corpo eclesiástico místico do Cristo, no reflexo da analogia da Trindade econômica nas subordinações funcionais das relações humanas e na representação da filiação geracional refletida nas relações paternais. Desse modo, a relação intertrinitária apresenta um importante modelo para pensar a tripessoalidade do divino como uma “comunidade de amor” para ponderar a interpessoalidade (DUARTE & BOFF, 2013).  Tendo em vista isso, podemos citar alguns exemplos para mostrar como a Trindade é o modelo perfeito para que os cristãos vivam relações intersubjetivas de acordo com a Vontade Divina:


A Trindade e as relações matrimoniais: A maneira como Cristo voluntariamente se submete a autoridade amorosa do Pai, serve de modelo para o modo pelo qual as esposas podem ser submissas aos maridos. "Quero, porém, que entendam que o cabeça de todo homem é Cristo, e o cabeça da mulher é o homem, e o cabeça de Cristo é Deus." - 1 Coríntios 11.3


A Trindade e a relação pai-filho: O relacionamento entre Deus, o Pai e Deus, o Fiho é o arquétipo perfeito das relações entre pais e filhos. O Pai e o Filho vivem em uma unidade eterna de amor filial tão perfeito, que pais e filhos não podem negligenciar esse modelo.  "E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo." - Mateus 3.17


A Trindade e as relações de amor: O Espírito Santo enquanto procedendo do Pai e do Filho deve nos levar a viver nossas relações interpessoais nos revestindo sobretudo com o vínculo perfeito do amor divino. "Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito" (Colossenses 3.14). "E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu." - Romanos 5.5


A Trindade e a unidade da Igreja: A unidade perfeita da Trindade deve ser refletida na comunhão da Igreja, em um só corpo, uma só fé e um só Espírito. "Não ficarei mais no mundo, mas eles ainda estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um" (João 17.11). "Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos." - Efésios 4.4-6


     Dessa forma, a Trindade tem uma importância, não só teórica, mas também prática para os cristãos. Unitaristas e unicistas não podem ser verdadeiros cristãos na unidade da fé, justamente porque falta-lhes o modelo perfeito para a vivência religiosa autêntica da comunhão cristã. Assim, confessamos junto a O Credo de Atanásio: "Mas todas as três pessoas co-eternas são co-iguais entre si; de modo que em tudo o que foi dito acima, tanto a unidade em trindade, como a trindade em unidade deve ser cultuada. Logo, todo aquele que quiser ser salvo deve pensar desse modo com relação à Trindade."


REFERÊNCIAS


CLARCK, Gordon Haddon. A Trindade. Cuiabá: Monergismo, 2005. Disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/trindade/A_Trindade_Gordon_Clark.pdf>. Acesso em: 04 de Março de 2016.


DUARTE, Pedro Pereira & BOFF, Clodovis. A Trindade Santa: Modelo Supremo da  Família como comunidade de amor. Caderno Teológico da PUCPR, Curitiba, v.1, n.1, pp.163-191, 2013.


FERREIRA, Franklin & MYATT, Alan. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007.


GEISLER, Norman. Teologia Sistemática 1. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2015.


O Credo de Atanasio. Disponível em: < http://www.monergismo.com/textos/credos/credoatanasio.htm> Acesso em: 27 de Abril de 2016.


SILVA, André de Aloísio de Oliveira da. A Trindade Imanente: Unidade de essência e diversidade de pessoas como igualmente fundamentais em Deus. Teresinha: Seminário Teológico do Nordeste Memorial Igreja Presbiteriana da Coreia – Monografia, 2014.

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