sábado, 16 de abril de 2016

REALISMO X IDEALISMO E A PROPOSTA FENOMENOLÓGICA

       A Fenomenologia é sobretudo um modo de pensar que surge no contexto da crise das ciências, em especial como uma anti-teoria, que se contrapõe ao cientificismo positivista e ao psicologismo e que supera o dilema filosófico de ênfases no sujeito ou no objeto das tradições idealistas e realistas. Na medida em que Husserl usou conceitos da tradição filosófica, doando-lhes um novo sentido dentro do olhar fenomenológico, é importante resgatar, num primeiro momento, a tradição filosófica no meio da qual Husserl desenvolve seu pensamento.
       No contexto filosófico em que a Fenomenologia surge, havia duas grandes correntes na Tradição Filosófica em relação ao sujeito e ao objeto. A primeira poderia ser denominada de Realismo, caracterizada pela concepção de que o locus de conhecimento e sentido estava nas coisas em si, em uma essência substancial aristotélica/platônica na realidade anterior ao sujeito. Tal posicionamento foi representado por empiristas, como Francis Bancon, cuja doutrina concebia a origem do conhecimento na manipulação da natureza pela experimentação. Em sua ênfase na objetividade, a Ciência positivista buscou banir o máximo possível a influência da subjetividade na construção de um conhecimento válido. A visão epistemológica do sentido habitando nas coisas, também propiciou uma concepção popperiana de verdade, e uma busca de se aproximar através do teste da teoria pelo erro cada vez mais da essência praticamente inalcançável que habitaria na realidade.
        Outra corrente, por sua vez, via o sentido ou o conhecimento como representações mentais ou cognitivas, sendo que o conhecimento ou o sentido estava na construção representacional que a Consciência fazia da realidade. O conhecimento, neste caso, seria uma construção do sujeito.  O filósofo representativo desta corrente seria René Descartes, que através da dúvida metódica estabeleceu o Cogito como fundamento gnosiológico primordial. O grande equívoco do idealismo cartesiano teria sido o solipsismo filosófico, que isolou o ego cogito do mundo.
       O filósofo que buscou conciliar a disputa epistemológica entre o Realismo e o Idealismo, mas que acabou adotando uma espécie de Idealismo, foi o prussiano Immanuel Kant. Kant partiu da ideia de que o conhecimento vem da experiência, mas tem origem na Consciência. Ele concebeu a Consciência como categorial, na qual o mundo seria ‘encaixado’ nas categorias da consciência, composta de estruturas lógicas apriorísticas. O conhecimento, então, consistiria em apreender os elementos do mundo empírico por meio da aplicação dos processos racionais da consciência, na união da intuição da ordem do empírico com a razão. A razão pura seria aquela que contém os princípios para conhecer algo absolutamente ‘a priori’. Kant fala, então, de uma ‘forma do fenômeno a priori’, que estaria presente no espírito em geral, independente da sensação. Neste ponto, a filosofia kantiana acaba por cair num certo idealismo, e a ideia de categorias gerais da consciência vai ter reverberações na Psicanálise, no conceito de representantes pulsionais e na Psicologia Analítica, na ideia de estruturas arquetípicas da psique universal.
       Dentro de toda essa discussão do que seria a Consciência e de onde estaria o locus de significado, sentido e conhecimento, a Fenomenologia traz dois conceitos importantes: a ideia de consciência intencional e a do a priori da correlação intencional. Enquanto a tradição filosófica empirista reduzia a consciência ao sentido psicológico, os cartesianos a colocavam como constructo isolado do mundo e os kantianos a viam como estrutura categorial, Husserl concebia a consciência como inerentemente intencional. A ideia de intencionalidade já estava presente no Psicologismo de Brentano que concebia a intencionalidade no sentido do voltar-se da consciência para os objetos representados para e na consciência. Brentano falava de um objeto intencional, isto é, o objeto é presente para a consciência no processo em que ele se apresenta a mesma. Toda experiência psíquica se refere a um objeto. No entanto, a psicologia intencional de Franz Brentano, concebia a intencionalidade no sentido do direcionamento das representações, insistindo numa espécie de idealismo.
       Husserl é profundamente inovador. Diferente das teses psicologistas, Husserl concebe a consciência como um ato, e não uma estrutura psicológica, pois a consciência é transcendental. A consciência não é estrutural, mas um verbo. Conhecer é direcionar à consciência para o objeto. É nesse sentido que a Fenomenologia vai falar de Consciência Intencional. Cada Cogito tem em si como visado o seu cogitatum. A propriedade fundamental da Consciência é sempre ser consciência de alguma coisa. A intencionalidade da Consciência é uma reorientação até a coisa, e isso é um traço constitutivo, o ser da própria consciência. A Consciência, portanto, não é uma estrutura fechada separada do mundo exterior, ela é aberta ao mundo e sempre direcionada ao objeto. Pode-se falar então, de uma consciência pública, não existe uma cisão entre “interior” e “exterior”, a experiência é vivida no mundo.
     Mas Edmund Husserl não cai no Idealismo tradicional, como se só a Consciência estivesse direcionada para o mundo. O objeto também é objeto em referência a uma consciência. Para todo ato de ver existe uma coisa vista, para todo observar há um observado, para todo olhar há um olhado, para todo ouvir um ouvido, para todo cheirar um cheirado, e para todo lembrar um lembrado. Assim, não basta falar numa consciência intencional, é preciso identificar também a natureza constitutiva dos objetos intencionais. É nesse sentido que se pode falar de uma análise noético-noemática. Os atos de consciência (noeses) e a coisa visada (noema), encontram-se numa correlação noético-noemática apriorística. A intencionalidade faz com que o ego puro projete atos intencionais que incidem no objeto, que por sua vez está direcionado a consciência que o visa.
       Husserl vai falar, então de um a priori da correlação intencional, isto é, o sujeito e objeto surgem como inseparáveis, não numa relação de duas anterioridades separadas, nem numa dialética de antagônicos, mas como uma correlação de emergências simultâneas e inseparáveis. O foco não está mais na ênfase idealista no sujeito, nem na ênfase realista do objeto, mas sim na correlação universal e apriorística eu-mundo. Existe uma vinculação universal inexorável de correlação sujeito-objeto, sem o qual não existiria nem “eu”, nem “mundo”. Essa correlação, portanto, está posta antes de qualquer coisa, por isso a priori – anterior a qualquer experiência. Isso não significa que as ‘coisas’ (embora essa não seja a melhor palavra) não existiriam se não houvesse nenhum sujeito, mas sim que só pode haver objeto se houver um sujeito que lhe doe sentido. Mas esse sentido não é dado arbitrariamente por uma consciência idealista, antes é constituído na própria aparição do fenômeno à consciência. Não existe, portanto um objeto visado sem uma consciência intencional que o vise, nem consciência intencional sem um objeto intencional visado.

FONTES

Goto, Tommy Akira (2007). A (Re) constituição da Psicologia Fenomenológica em Edmund Husserl. Tese de Doutorado. PUC Campinas: Campinas

Goto, Tommy Akira (2008). Introdução à Psicologia Fenomenológica. São Paulo:  Paulus.

Husserl, Edmund (1929). Conferências de Paris. Edições 70.

Kant, Immanuel (1781). Crítica da Razão Pura. Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia) – versão eletrônica.

Ponty, Merleau Maurice (1999). Fenomenologia da Percepção - prefácio. São Paulo: Martin Fontes.

*Anotações de aula.



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