PROTOCOLO PARA TRATAMENTO DO TRANSTORNO DE PÂNICO
O objetivo deste texto consiste em apresentar o protocolo padrão ouro para tratamento do Transtorno do Pânico, que é o Protocolo Craske & Barlow. O texto se divide nas seguintes partes: (i) Modelo de Manutenção do Transtorno de Pânico; (ii) Psicoeducação e Automonitoramento; (iii) Reestruturação Cognitiva; (iv) Exposição in vivo; (v) Exposição Interoceptiva; (vi) Exposição Naturalista; (vii) Exposição Combinada; (viii) Sessões Finais.
I.
MODELO DE MANUNTENÇÃO DO TRANSTORNO DE PÂNICO
A
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) parte do pressuposto de que o transtorno de pânico não é mantido pela
ocorrência isolada dos ataques de pânico, mas pelos processos cognitivos,
comportamentais e fisiológicos que se estabelecem após o primeiro episódio.
Conforme proposto por Craske e Barlow,
o transtorno resulta de um ciclo de retroalimentação entre interpretações catastróficas das sensações corporais, condicionamento
interoceptivo e comportamentos de evitação, mecanismos que impedem a
correção das crenças disfuncionais e favorecem a cronificação do quadro.
O ponto de partida costuma ser um ataque de pânico inicial ocorrido em um
contexto de elevada vulnerabilidade
emocional, frequentemente associado a períodos de intenso estresse ou
mudanças significativas na vida. Do ponto de vista fisiológico, esse episódio
representa uma ativação normal do sistema nervoso autônomo, responsável pela resposta de luta ou fuga. Entretanto,
diferentemente do medo adaptativo, essa resposta ocorre na ausência de uma
ameaça objetiva.
Barlow descreve esse fenômeno como um “alarme
falso”, isto é, a ativação de um sistema biológico originalmente
destinado à proteção diante de perigos reais, mas desencadeado sem um estímulo
externo correspondente. Embora o ataque em si seja intenso e assustador, ele
não é suficiente para explicar a persistência do transtorno. O fator decisivo
reside na forma como o indivíduo interpreta essa experiência.
Após o primeiro episódio, inicia-se um
processo de aprendizagem associativa conhecido como condicionamento
interoceptivo. Sensações fisiológicas que estavam presentes
imediatamente antes ou durante o ataque, como aumento da frequência cardíaca,
leve tontura, falta de ar, calor corporal ou tensão muscular, passam a
funcionar como estímulos condicionados, adquirindo valor de sinal de perigo. Em
outras palavras, o organismo aprende a associar essas sensações internas à
possibilidade iminente de um novo ataque.
Como tais alterações fazem parte do
funcionamento normal do corpo e podem surgir durante atividades cotidianas,
como praticar exercícios, consumir cafeína, subir escadas, experimentar emoções
intensas ou simplesmente levantar-se rapidamente, elas passam a ser monitoradas
de forma constante. Essa hipervigilância
interoceptiva aumenta a probabilidade de detectar alterações fisiológicas
banais, criando a impressão de que os ataques surgem “do nada”, quando, na
realidade, são precedidos por estímulos internos que passaram a ser
interpretados como sinais de ameaça.
Entretanto, o condicionamento interoceptivo, isoladamente, não explica a escalada
da ansiedade. O elemento central do modelo cognitivo é a interpretação
catastrófica das sensações corporais, conceito amplamente desenvolvido
por David Clark e incorporado às formulações contemporâneas da TCC para o
transtorno de pânico. Segundo esse modelo, o indivíduo atribui significados
extremos e ameaçadores a alterações fisiológicas normais. Uma simples
aceleração cardíaca pode ser interpretada como evidência de um infarto
iminente; uma sensação de tontura, como sinal de desmaio; dificuldades
transitórias de concentração podem ser percebidas como indício de perda do
controle mental ou de enlouquecimento.
Essas interpretações elevam rapidamente o
nível de ansiedade, provocando maior ativação fisiológica, o que intensifica as
próprias sensações inicialmente percebidas. Forma-se, assim, um ciclo de retroalimentação no qual a
resposta corporal confirma, de maneira ilusória, a crença de que algo
extremamente perigoso está ocorrendo.
Como consequência desse processo,
desenvolvem-se comportamentos de
proteção destinados a evitar novas crises. Entre eles destacam-se a fuga de
determinadas situações, a busca constante por locais considerados seguros, a
necessidade de estar acompanhado, o monitoramento excessivo do próprio corpo e
a utilização de diversos comportamentos de segurança. Quando essas estratégias
se generalizam para locais onde escapar seria difícil ou onde a ajuda poderia
não estar prontamente disponível, configura-se a agorafobia.
Na agarofobia,
a evitação torna-se progressivamente mais abrangente, restringindo a
autonomia e reduzindo significativamente o espaço funcional do indivíduo. Em
casos graves, a vida cotidiana pode ser limitada a poucos ambientes
considerados seguros, resultando em isolamento social, prejuízo ocupacional e
comprometimento expressivo da qualidade de vida.
Paradoxalmente, embora a evitação produza
alívio imediato da ansiedade, ela constitui o principal mecanismo de manutenção
do transtorno. Sob a perspectiva da teoria
da aprendizagem, esse alívio funciona como um poderoso reforçador negativo,
aumentando a probabilidade de que o comportamento evitativo seja repetido no
futuro. O problema é que, ao evitar as situações temidas, o indivíduo perde a
oportunidade de vivenciar uma informação corretiva essencial: a de que as
sensações corporais são transitórias, suportáveis e não culminam nas
consequências catastróficas antecipadas.
II.
PSICOEDUCAÇÃO E AUTOMONITORAMENTO
A primeira
etapa no tratamento do Transtorno de Pânico consiste na psicoeducação e automonitoramento. As sessões iniciais da Terapia
Cognitivo-Comportamental (TCC) para o transtorno de pânico desempenham papel
decisivo no estabelecimento da aliança
terapêutica e na construção da
compreensão compartilhada do problema clínico. De acordo com Craske e
Barlow, a psicoeducação não constitui apenas uma etapa introdutória do
tratamento, mas uma intervenção
terapêutica em si, cujo objetivo é reduzir a incerteza, corrigir
interpretações equivocadas sobre os sintomas e aumentar a adesão às estratégias
que serão implementadas ao longo do processo.
O primeiro passo consiste na construção colaborativa de um modelo explicativo do pânico. Em vez de
apresentar uma explicação exclusivamente técnica, o terapeuta desenvolve,
juntamente com o paciente, uma formulação baseada na interação entre três
sistemas fundamentais: o fisiológico, o cognitivo e o comportamental. Nesse
modelo, alterações corporais desencadeiam interpretações automáticas de ameaça;
essas interpretações intensificam a ansiedade, que, por sua vez, aumenta ainda
mais a ativação fisiológica, formando um ciclo de retroalimentação responsável
pela manutenção das crises.
Durante essa etapa, a explicação fisiológica dos sintomas ocupa posição central. O
terapeuta descreve detalhadamente a função adaptativa da resposta de luta ou
fuga, esclarecendo que manifestações como taquicardia, hiperventilação,
sudorese, tremores, tontura e sensação de irrealidade representam respostas
normais de um organismo preparado para enfrentar uma ameaça percebida. A desrealização
e a despersonalização, por exemplo, frequentemente interpretadas pelos
pacientes como sinais de perda da sanidade, podem ser compreendidas como
consequências transitórias da hiperventilação, das alterações no fluxo
sanguíneo cerebral, da intensa focalização da atenção sobre os estados internos
e da elevada ativação autonômica.
Outro aspecto enfatizado por Craske e
Barlow é a distinção entre os fatores
responsáveis pelo surgimento do transtorno e aqueles que fatores que perpetuam seus sintomas. Muitos
pacientes acreditam que somente poderão melhorar quando descobrirem a causa
original de seus ataques de pânico. Entretanto, os eventos precipitantes, como períodos de estresse intenso, perdas ou
mudanças significativas, frequentemente deixam de exercer influência direta
após o estabelecimento do transtorno. A manutenção do quadro passa a depender
principalmente das interpretações catastróficas, da hipervigilância às
sensações corporais e dos comportamentos de evitação.
Paralelamente à psicoeducação, inicia-se o
treinamento em automonitoramento,
considerado um dos instrumentos centrais da avaliação contínua e da intervenção
cognitivo-comportamental. O paciente recebe registros padronizados para
documentar diariamente os ataques de pânico, os níveis de ansiedade, o humor,
as situações desencadeantes, os sintomas físicos, os pensamentos automáticos e
as respostas comportamentais
É comum que pacientes manifestem receio de
que registrar os ataques aumente sua ansiedade por obrigá-los a pensar
repetidamente no problema. Craske e Barlow diferenciam, entretanto, dois
processos psicológicos distintos: o
automonitoramento e a ruminação. O primeiro consiste em observar e
registrar os acontecimentos de maneira objetiva e descritiva; o segundo envolve
interpretações repetitivas, especulações e tentativas improdutivas de encontrar
significados ameaçadores para a experiência. Enquanto a ruminação tende a
intensificar a ansiedade, o automonitoramento promove distanciamento cognitivo,
organização das informações e desenvolvimento de uma postura mais observacional
diante dos sintomas.
As tarefas atribuídas ao final das sessões iniciais refletem
essa lógica terapêutica. Espera-se que o paciente registre diariamente seus
episódios de ansiedade e pânico, monitore seu estado de humor e realize a
leitura do manual psicoeducativo fornecido pelo terapeuta. Considere o exemplo
abaixo de uma paciente fictícia chamada Ana, 32 anos, que depois de quatro
ataques de pânico, passou a evitar dirigir sozinha e sair de casa sem o marido:
Terapeuta:
Ana, você comentou que, antes da crise, percebeu seu coração acelerar. O que
passou pela sua mente naquele instante?
Ana:
Pensei que estava tendo um infarto.
Terapeuta:
E quando teve esse pensamento, o que aconteceu com seu corpo?
Ana:
Fiquei ainda mais desesperada. Meu coração acelerou mais, comecei a respirar
rápido e senti uma tontura muito forte.
Terapeuta:
Percebe como esses elementos parecem funcionar em um ciclo? Uma sensação
corporal desencadeou um pensamento de ameaça, esse pensamento aumentou sua
ansiedade e a ansiedade intensificou as próprias sensações físicas. Um dos
nossos objetivos será aprender a interromper esse ciclo.
O terapeuta
desenha um esquema simples contendo três elementos: sensações corporais
→ pensamentos catastróficos → aumento da ansiedade, mostrando como
cada componente influencia o outro.
Terapeuta:
É importante entender que sintomas como taquicardia, tremores, falta de ar,
tontura e até a sensação de que o ambiente parece estranho são respostas
normais do organismo quando o sistema de luta ou fuga é ativado. No transtorno
de pânico, esse sistema funciona como um alarme que dispara na ausência de um
perigo real.
Ana:
Então essas sensações não significam que estou morrendo?
Terapeuta:
As sensações são reais, mas a conclusão de que elas representam um infarto ou a
perda do controle é uma interpretação que vamos aprender a investigar. Não
precisamos descobrir exatamente por que seu primeiro ataque aconteceu; nosso
foco será compreender o que mantém esse ciclo acontecendo hoje.
Ao final da
sessão, o terapeuta apresenta o registro de automonitoramento.
Terapeuta:
Para a próxima semana, gostaria que você registrasse cada episódio de ansiedade
ou pânico. Anote onde estava, quais sensações percebeu, quais pensamentos
surgiram e qual foi a intensidade da ansiedade.
Ana:
Tenho receio de ficar ainda mais ansiosa prestando atenção nisso.
Terapeuta:
Essa preocupação é bastante comum. Mas existe uma diferença entre observar e
ruminar. Observar significa registrar os fatos de maneira objetiva; ruminar significa
permanecer tentando encontrar explicações ou antecipando catástrofes. O
registro nos ajudará a compreender melhor o funcionamento das crises e servirá
como base para o tratamento.
Ana:
Entendo. Então não é para analisar o que aconteceu, apenas registrar.
Terapeuta: Exatamente. Com essas informações poderemos
identificar padrões que hoje talvez passem despercebidos e acompanhar, sessão
após sessão, como esses episódios vão mudando à medida que você aprende novas
formas de responder às sensações e aos pensamentos.
III.
REESTRUTURAÇÃO COGNITIVA
Após
as primeiras sessões, a próxima etapa é a
reestruturação cognitiva. Segundo Craske e Barlow, a reestruturação
cognitiva não tem como objetivo convencer o paciente de que seus pensamentos
estão equivocados, mas ensiná-lo a examiná-los criticamente, compreendendo que
pensamentos são hipóteses passíveis de investigação, e não fatos que devam ser
aceitos automaticamente. Essa mudança de postura representa um dos pilares da
TCC, pois reduz a tendência de interpretar sensações fisiológicas benignas como
evidências de uma ameaça iminente.
Uma das primeiras
intervenções consiste na construção de
uma hierarquia de situações temidas, organizada de acordo com o grau de
ansiedade que cada situação desperta. A elaboração dessa hierarquia permite
planejar as exposições de maneira gradual e sistemática, respeitando o ritmo do
paciente e favorecendo experiências sucessivas de aprendizagem.
Além da identificação das
situações evitadas, o terapeuta investiga os chamados comportamentos de segurança (como portar medicamentos
continuamente, permanecer sempre acompanhado ou evitar determinados trajetos)
que, embora reduzam a ansiedade no curto prazo, impedem que o indivíduo
descubra que é capaz de enfrentar as situações temidas sem que as consequências
catastróficas ocorram. Sob a perspectiva da aprendizagem inibitória, a remoção progressiva desses
comportamentos amplia a oportunidade para o desenvolvimento de novas
associações de segurança, enfraquecendo as expectativas de perigo.
Nesse contexto, o treinamento em respiração diafragmática
é introduzido como uma estratégia de
regulação fisiológica. Contudo, Craske e Barlow enfatizam que essa técnica
não deve ser utilizada como um comportamento de segurança. Quando o paciente
acredita que somente conseguirá evitar uma catástrofe se controlar
perfeitamente sua respiração, a própria técnica passa a reforçar a crença de
vulnerabilidade. Por essa razão, o terapeuta esclarece que a respiração
constitui um recurso para favorecer a tolerância ao desconforto fisiológico, e
não um mecanismo destinado a impedir ou eliminar a ansiedade.
A reestruturação
cognitiva propriamente dita fundamenta-se na identificação e no questionamento
das interpretações automáticas associadas às crises de pânico. Entre as
distorções cognitivas mais frequentemente observadas destacam-se: (i) superestimação da probabilidade de
ameaça: caracterizada pela crença de que eventos graves são muito mais prováveis
do que realmente são; (ii)
catastrofização: na qual o indivíduo interpreta possíveis consequências
como intoleráveis ou irreversíveis.
Para acessar as crenças
centrais subjacentes aos pensamentos automáticos, o terapeuta frequentemente
utiliza a técnica da flecha descendente.
Por meio de perguntas sucessivas acerca do significado atribuído aos
sintomas, procura-se identificar o desfecho mais temido pelo paciente, que
geralmente envolve crenças relacionadas à morte, à perda de controle, ao
enlouquecimento ou ao abandono. Tornar explícitas essas crenças é fundamental
para que possam ser examinadas à luz das evidências empíricas e posteriormente
testadas por meio de experimentos comportamentais e exercícios de exposição.
Ao final dessas sessões,
o paciente é orientado a continuar o automonitoramento, registrar os
pensamentos automáticos associados às situações presentes na hierarquia e
praticar regularmente a respiração diafragmática em contextos de baixa
ansiedade. Essas tarefas consolidam o aprendizado iniciado em sessão e preparam
o indivíduo para as etapas seguintes do tratamento, nas quais a modificação das
crenças será progressivamente fortalecida por meio das exposições
interoceptivas e situacionais. Considere o exemplo abaixo ainda dentro do caso
da paciente fictícia Ana:
Terapeuta:
Ana, olhando seus registros, em quais situações você percebeu mais medo de ter
uma nova crise?
Ana:
Dirigir sozinha, ficar em filas e entrar em supermercados muito cheios.
Terapeuta:
Vamos organizá-las da menos para a mais difícil. Isso nos ajudará a planejar as
exposições de forma gradual.
Após elaborar
a hierarquia, o terapeuta explica que, futuramente, cada situação será
enfrentada progressivamente, reduzindo também os comportamentos de segurança,
como carregar medicamentos “por garantia” ou telefonar constantemente para
familiares.
Em seguida,
realiza-se um exercício de hiperventilação voluntária para demonstrar que
sensações semelhantes às do pânico podem ser produzidas em ambiente seguro.
Terapeuta:
Gostaria que respirasse rapidamente por alguns segundos e observasse apenas o
que acontece em seu corpo.
Após
interromper o exercício, o terapeuta pergunta:
Terapeuta:
O que percebeu?
Ana:
Meu coração acelerou, fiquei um pouco tonta... parecia o começo de uma crise.
Terapeuta:
E o que aconteceu depois?
Ana:
Nada. A sensação diminuiu.
Terapeuta:
Isso sugere que talvez não sejam as sensações, em si, que provocam o medo, mas
a interpretação de que elas anunciam uma catástrofe.
Na sequência,
introduz-se a reestruturação cognitiva por meio do questionamento socrático.
Terapeuta:
Quando sente tontura, qual é o pior desfecho que imagina?
Ana:
Acho que vou perder o controle.
Terapeuta:
E se perdesse o controle, o que significaria?
Ana:
Que vou enlouquecer e nunca mais voltar ao normal.
Terapeuta:
Que evidências você possui de que isso já aconteceu em crises anteriores?
Ana: Na
verdade... nenhuma. Sempre achei que fosse acontecer, mas nunca aconteceu.
O terapeuta
explica que pensamentos automáticos são hipóteses, não fatos, e que o
tratamento consistirá em testá-los sistematicamente por meio das evidências
obtidas nas exposições e nos experimentos comportamentais.
Antes de
encerrar a sessão, ensina a respiração diafragmática como uma estratégia para
favorecer a regulação fisiológica durante momentos de ansiedade.
Ana:
Então, quando eu sentir uma crise, basta respirar para ela desaparecer?
Terapeuta: Não necessariamente. A respiração não existe para
eliminar a ansiedade, mas para ajudá-la a permanecer na situação sem precisar
fugir. O objetivo do tratamento não é impedir que a ansiedade apareça, e sim
aprender que ela pode ser tolerada e diminui naturalmente, sem que a catástrofe
imaginada aconteça.
IV.
EXPOSIÇÃO IN VIVO
Após o desenvolvimento das habilidades de
psicoeducação, automonitoramento, reestruturação cognitiva e regulação
fisiológica, o tratamento avança para a etapa de exposição in vivo,
considerada um dos componentes mais eficazes da Terapia
Cognitivo-Comportamental para o transtorno de pânico com agorafobia. Segundo
Craske e Barlow, o objetivo dessa intervenção não é eliminar imediatamente a
ansiedade, mas proporcionar experiências corretivas capazes de modificar as
expectativas de ameaça que mantêm o transtorno. A exposição permite que o
paciente confronte diretamente as situações evitadas, permanecendo nelas tempo
suficiente para aprender que as consequências temidas não se concretizam e que
a ansiedade, embora desconfortável, é transitória e suportável.
Antes do início das exposições, o
terapeuta revisa o papel das estratégias aprendidas nas sessões anteriores,
especialmente o uso da respiração
diafragmática. Nessa etapa, reforça-se que a respiração não deve ser
utilizada como um recurso para impedir o surgimento da ansiedade ou eliminar
rapidamente os sintomas.
A exposição in vivo é planejada
de forma gradual a partir da hierarquia construída nas sessões anteriores. Cada
situação é definida de maneira específica, contemplando o contexto, a duração
da tarefa e as condições em que deverá ser realizada. Essa precisão é
fundamental para evitar exposições incompletas ou excessivamente breves, que
tendem a reforçar a evitação em vez de promover aprendizagem. O paciente é
orientado a permanecer na situação até que tenha oportunidade de observar o
curso natural da ansiedade, verificando que as sensações diminuem
progressivamente sem a necessidade de fuga ou de comportamentos protetivos.
Outro aspecto central dessa etapa consiste
na identificação e remoção gradual dos comportamentos de segurança.
Esses comportamentos incluem qualquer estratégia utilizada para reduzir a
sensação de ameaça sem enfrentar diretamente a crença catastrófica, como
permanecer constantemente acompanhado, carregar medicamentos “por precaução”,
localizar saídas de emergência ou manter contato permanente com familiares
durante as exposições.
Sob a perspectiva dos modelos
contemporâneos de aprendizagem, particularmente a teoria da aprendizagem
inibitória, a eficácia da exposição depende menos da redução imediata
da ansiedade e mais da violação das expectativas de perigo. O objetivo
terapêutico consiste em criar oportunidades para que o paciente experimente uma
discrepância entre aquilo que prevê e aquilo que efetivamente acontece.
Ao permanecer na situação temida e
constatar que é capaz de tolerar as sensações físicas, manter seu funcionamento
e concluir a tarefa sem que ocorra o desfecho antecipado, novas associações de
segurança passam a competir com as antigas memórias de ameaça. Esse processo
favorece uma diminuição progressiva da ansiedade antecipatória e amplia a
confiança do indivíduo em sua capacidade de enfrentar situações anteriormente
evitadas.
As tarefas domiciliares dessa fase consistem na realização
repetida das exposições previstas na hierarquia, seguindo rigorosamente os
parâmetros estabelecidos em sessão e reduzindo gradualmente os comportamentos
de segurança identificados. Posteriormente, cada experiência é analisada em
conjunto com o terapeuta, comparando-se as previsões iniciais do paciente com
os resultados efetivamente observados. Ainda com o caso da Ana, considere o
exemplo abaixo:
Terapeuta:
Como foi utilizar a respiração quando sentiu ansiedade?
Ana:
Tentei respirar devagar enquanto dirigia, mas fiquei frustrada porque a
ansiedade não passou. Achei que a técnica não estava funcionando.
Terapeuta:
Qual era sua expectativa ao utilizar a respiração?
Ana:
Que ela impedisse a crise.
Terapeuta:
Esse é um ponto importante. A respiração não foi ensinada para impedir que a
ansiedade apareça. Ela serve para ajudá-la a permanecer na situação, mesmo
sentindo ansiedade. Se você acreditar que precisa controlar completamente as
sensações para ficar segura, continuará dependendo desse controle para
enfrentar o medo.
Após esclarecer essa diferença, o terapeuta retoma a
hierarquia de situações evitadas.
Terapeuta:
Na semana passada identificamos que dirigir sozinha por um trajeto curto era
uma das situações que provocavam menor ansiedade. Vamos utilizá-la como
primeira exposição.
Ana:
Tenho medo de passar mal e precisar parar o carro.
Terapeuta:
O que você prevê que acontecerá, exatamente?
Ana:
Acho que vou perder o controle do carro ou desmaiar.
Terapeuta:
E qual será nosso objetivo durante a exposição?
Ana:
Tentar não sentir ansiedade?
Terapeuta:
Não. O objetivo será permanecer na situação tempo suficiente para verificar se
sua previsão realmente acontece. A ansiedade pode aumentar, e isso faz parte do
exercício. O que queremos testar é se você realmente perde o controle ou se
consegue continuar dirigindo apesar do desconforto.
Em seguida, o
terapeuta identifica os comportamentos de segurança utilizados por Ana.
Terapeuta:
O que costuma fazer para sentir que está protegida quando dirige?
Ana:
Sempre aviso meu marido para ficar com o celular ligado e levo um ansiolítico
na bolsa, mesmo sem tomar.
Terapeuta:
Esses recursos diminuem sua ansiedade, mas também impedem que você descubra se
conseguiria enfrentar a situação sem eles. Nas próximas exposições, vamos
reduzir esses comportamentos gradualmente.
Ao final da
sessão, terapeuta e paciente estabelecem um plano detalhado para a tarefa de
casa.
Terapeuta:
Nesta semana, você fará o trajeto de casa até a padaria, sozinha, em três
ocasiões diferentes. Permanecerá dirigindo até concluir o percurso, mesmo que a
ansiedade aumente, desde que esteja em condições seguras para continuar. Após
cada exposição, registrará qual era sua previsão antes de sair, qual foi o
nível máximo de ansiedade e o que realmente aconteceu.
Ana:
Então o sucesso não será dirigir sem medo, mas terminar o percurso e comparar o
que imaginei com o que realmente ocorreu.
Terapeuta: Exatamente. A exposição é um experimento
comportamental. Não estamos tentando provar que você nunca sentirá ansiedade;
estamos investigando se as consequências que você prevê acontecem de fato. É
essa experiência que permitirá construir uma nova forma de compreender o medo.
V.
EXPOSIÇÃO INTEROCEPTIVA
Após o início das exposições in vivo,
o protocolo de Craske e Barlow introduz a exposição interoceptiva,
considerada uma das intervenções mais específicas e empiricamente fundamentadas
para o tratamento do transtorno de pânico. Enquanto a exposição in vivo
busca reduzir o medo de situações externas, a exposição interoceptiva tem como
objetivo diminuir o medo das próprias sensações corporais associadas ao pânico.
Parte-se do pressuposto de que o paciente não teme apenas os ambientes em que
as crises ocorrem, mas, sobretudo, as alterações fisiológicas que interpreta
como sinais de uma catástrofe iminente.
As sessões iniciam-se com a revisão das tarefas de exposição
realizadas durante a semana. Mais importante do que verificar se a ansiedade
diminuiu é compreender como o paciente respondeu ao desconforto. Exposições
interrompidas precocemente, uso de comportamentos de segurança ou estratégias
de evitação são analisados como oportunidades de aprendizagem clínica,
permitindo identificar quais pensamentos ou crenças ainda impedem o
enfrentamento pleno das situações temidas. Dessa forma, o foco da avaliação
desloca-se do sucesso ou fracasso da tarefa para os processos cognitivos e
comportamentais que ocorreram durante sua execução.
O protocolo também recomenda, quando
apropriado, o envolvimento de familiares
ou parceiros nas sessões. O objetivo não é transformá-los em terapeutas,
mas orientá-los quanto ao papel que desempenham na manutenção ou na redução da
evitação. Frequentemente, familiares oferecem ajuda excessiva, modificam suas
rotinas ou permanecem constantemente disponíveis para reduzir a ansiedade do
paciente. Embora essas atitudes sejam motivadas pelo cuidado, acabam
funcionando como acomodações que reforçam a percepção de incapacidade. Após receberem psicoeducação, os familiares
passam a atuar como facilitadores das exposições, incentivando o enfrentamento
e reduzindo gradualmente sua participação à medida que o paciente desenvolve
autonomia.
A exposição
interoceptiva propriamente dita consiste na indução deliberada de sensações
físicas semelhantes às experimentadas durante os ataques de pânico. Para isso,
utilizam-se exercícios como hiperventilação, corrida estacionária, giros sobre
o próprio eixo, prender a respiração, tensão muscular ou movimentos rápidos da
cabeça. Cada exercício é selecionado de acordo com sua capacidade de reproduzir
as sensações mais temidas por aquele paciente específico. Após cada prática,
registram-se a intensidade das sensações, o nível de ansiedade e o grau de
semelhança percebido em relação às crises espontâneas, permitindo identificar
quais exercícios serão incorporados à hierarquia terapêutica.
Durante a exposição, o paciente é
orientado a permanecer em contato com as sensações induzidas sem tentar
suprimi-las ou evitá-las. A repetição sistemática desses exercícios favorece
uma nova aprendizagem: as alterações fisiológicas podem ser experimentadas sem
que resultem nas consequências catastróficas antecipadas. Sob a perspectiva da
aprendizagem inibitória, o principal mecanismo terapêutico não é a simples
habituação, mas a violação das expectativas de perigo. Cada repetição fornece
evidências de que tontura, taquicardia, falta de ar ou sensação de irrealidade
são estados transitórios, toleráveis e incompatíveis com as previsões de morte,
enlouquecimento ou perda de controle formuladas pelo paciente.
Nas sessões subsequentes, o terapeuta
aprofunda essa aprendizagem ao investigar possíveis discrepâncias entre os
exercícios realizados em sessão e as crises vivenciadas no cotidiano. É comum
que o paciente afirme tolerar as sensações induzidas durante os exercícios, mas
continue temendo aquelas que surgem espontaneamente. Nesses casos, o trabalho
cognitivo consiste em demonstrar que a diferença não reside nas sensações em
si, mas na interpretação atribuída ao contexto em que elas ocorrem. Assim,
independentemente de serem desencadeadas por exercícios, ansiedade, esforço
físico ou outras condições fisiológicas, as sensações permanecem essencialmente
as mesmas; o que modifica a intensidade do medo é o significado catastrófico
ainda atribuído a elas.
Outro aspecto relevante abordado nessa
fase é a identificação de formas sutis
de evitação. Alguns pacientes passam a realizar os exercícios apenas quando
se sentem tranquilos ou evitam praticá-los em dias considerados mais difíceis,
acreditando que estarão mais vulneráveis. Embora menos evidente do que
abandonar completamente as exposições, essa estratégia limita o processo de
aprendizagem, pois mantém a crença de que determinadas condições são perigosas
demais para serem enfrentadas. Por essa
razão, o protocolo recomenda ampliar progressivamente a prática dos exercícios
para diferentes contextos e níveis de ansiedade, favorecendo a generalização
das novas aprendizagens.
Como tarefa de casa,
o paciente realiza repetidamente os exercícios interoceptivos selecionados
durante a sessão, registra as sensações experimentadas, as previsões realizadas
antes da prática e os desfechos efetivamente observados. A repetição
sistemática desses experimentos comportamentais fortalece a capacidade de
tolerar as alterações fisiológicas e reduz progressivamente o medo das próprias
sensações corporais, preparando o paciente para enfrentar situações cada vez
mais complexas sem recorrer à evitação ou a comportamentos de segurança.
Voltemos ao exemplo da Ana:
Terapeuta:
Ana, nas últimas semanas você percebeu que conseguiu dirigir apesar da
ansiedade. Hoje vamos trabalhar um passo diferente: enfrentar diretamente as
sensações físicas que mais a assustam.
Ana:
Confesso que isso me preocupa. Parece que vou provocar uma crise de propósito.
Terapeuta:
Esse é justamente o objetivo do exercício. Queremos descobrir se são as
sensações que representam um perigo ou se é a interpretação que você faz delas.
O terapeuta explica que realizará alguns exercícios
capazes de reproduzir sensações semelhantes às experimentadas durante os
ataques de pânico. Inicialmente, pede que Ana gire lentamente sobre a própria
cadeira durante um minuto.
Ao término do
exercício, inicia a avaliação.
Terapeuta:
O que você percebeu?
Ana:
Fiquei tonta e tive aquela sensação estranha, como se o ambiente estivesse um
pouco distante.
Terapeuta:
Em uma escala de zero a dez, qual foi a intensidade dessa sensação?
Ana:
Uns sete.
Terapeuta:
E o quanto ela se parece com a tontura que sente durante uma crise de pânico?
Ana:
Quase igual... talvez oito.
Terapeuta:
O que passou pela sua cabeça quando a tontura apareceu?
Ana:
Pensei que pudesse perder o controle.
Terapeuta:
E isso aconteceu?
Ana:
Não.
Em seguida, o
terapeuta propõe um exercício de hiperventilação por um minuto, reproduzindo
outra sensação frequentemente associada às crises.
Após o
exercício, Ana relata aumento da frequência cardíaca e leve falta de ar.
Terapeuta:
Essas sensações são diferentes das que surgem espontaneamente durante um ataque
de pânico?
Ana: Na
verdade, são muito parecidas.
Terapeuta:
Então por que parecem mais perigosas quando surgem dirigindo ou em um
supermercado?
Ana permanece
em silêncio por alguns instantes.
Ana:
Acho que porque, nesses lugares, interpreto que algo ruim vai acontecer.
Terapeuta:
Exatamente. A sensação física é praticamente a mesma. O que muda é o
significado que você atribui a ela.
Ao final da
sessão, o terapeuta revisa os resultados dos exercícios.
Terapeuta:
Hoje você provocou deliberadamente tontura, aceleração dos batimentos e
sensação de instabilidade. Qual das previsões que fez antes dos exercícios
realmente aconteceu?
Ana:
Nenhuma. As sensações apareceram, ficaram desconfortáveis por alguns instantes
e depois passaram.
Terapeuta: Esse é o aprendizado que queremos fortalecer. O
objetivo da exposição interoceptiva não é fazer as sensações desaparecerem, mas
demonstrar que elas podem ser experimentadas e toleradas sem que a catástrofe
imaginada ocorra.
VI.
EXPOSIÇÃO NATURALISTA
Após o paciente aprender a tolerar as
sensações corporais induzidas durante a exposição interoceptiva, o tratamento
evolui para a exposição naturalista, etapa em que essas mesmas
sensações passam a ser enfrentadas em atividades cotidianas que costumam ser
evitadas por despertarem medo. Diferentemente da exposição in vivo,
cujo foco principal recai sobre locais ou situações evitadas, a exposição
naturalista concentra-se em atividades capazes de produzir espontaneamente
alterações fisiológicas ou perceptivas semelhantes às experimentadas durante os
ataques de pânico. O objetivo permanece o mesmo: demonstrar que tais sensações
podem ser vivenciadas sem que ocorram as consequências catastróficas antecipadas
pelo paciente.
As atividades são selecionadas de forma
individualizada, considerando quais contextos reproduzem, de maneira mais
intensa, os sintomas que o paciente teme. Exercícios físicos, ambientes com
iluminação intensa, locais fechados, tarefas que exigem concentração prolongada
ou situações que provocam leve tontura ou sensação de irrealidade podem compor
a hierarquia terapêutica. Diferentemente dos exercícios interoceptivos, que
geralmente possuem curta duração e ocorrem em ambiente controlado, as
exposições naturalistas estendem-se por períodos maiores, permitindo que o
paciente pratique, em tempo real, as habilidades cognitivas desenvolvidas ao
longo do tratamento.
Antes de cada exposição, realiza-se uma preparação cognitiva sistemática. O terapeuta
solicita que o paciente identifique as previsões catastróficas relacionadas à
atividade, estime a probabilidade de que essas consequências ocorram e elabore
interpretações alternativas baseadas nas evidências discutidas nas sessões
anteriores. Esse planejamento permite que o paciente entre na situação com
objetivos claramente definidos, compreendendo que o propósito da tarefa não é
evitar a ansiedade, mas testar empiricamente suas expectativas de ameaça.
Outro componente essencial dessa fase
consiste na identificação de comportamentos
de segurança sutis, frequentemente menos evidentes do que as formas
clássicas de evitação. Alguns pacientes verificam repetidamente os próprios
sinais vitais, procuram confirmar constantemente que estão “bem”, mantêm atenção
excessiva às rotas de fuga ou realizam pequenos comportamentos destinados a
assegurar que continuam no controle da situação. Embora discretas, essas
estratégias mantêm a crença de que algum recurso especial é necessário para
evitar uma catástrofe. Por essa razão, o terapeuta orienta sua redução gradual
durante as exposições, permitindo que o paciente atribua o sucesso da
experiência às próprias capacidades de enfrentamento, e não à utilização desses
recursos.
Ao final de cada atividade, terapeuta e paciente analisam
conjuntamente as previsões formuladas antes da exposição e os acontecimentos
efetivamente observados. Essa comparação sistemática fortalece a reestruturação
cognitiva iniciada nas sessões anteriores e amplia a generalização das novas
aprendizagens para diferentes contextos da vida cotidiana. Assim, a exposição
naturalista representa uma etapa de transição entre o ambiente protegido da
terapia e as demandas reais enfrentadas pelo paciente, favorecendo o
desenvolvimento de autonomia e reduzindo progressivamente a dependência de
estratégias de evitação e de comportamentos de segurança. Voltemos ao exemplo
da Ana:
Terapeuta:
Ana, nos exercícios anteriores você percebeu que consegue sentir tontura,
aceleração dos batimentos e sensação de estranhamento sem que a catástrofe
aconteça. Agora vamos levar esse aprendizado para situações reais do seu dia a
dia.
Ana: Eu
ainda fico com medo de sentir isso fora daqui. Na terapia parece mais fácil
porque eu sei que estou segura.
Terapeuta:
Essa observação é importante. Por isso vamos praticar em situações reais, para
que você descubra que as mesmas sensações podem ser toleradas em diferentes
contextos.
O terapeuta
retoma a hierarquia construída anteriormente.
Terapeuta:
Qual situação você percebe que evita não porque ela seja perigosa, mas porque
teme as sensações que podem aparecer?
Ana: Ir
ao supermercado cheio. Quando tem muita gente, começo a sentir que vou ficar
presa, que vou passar mal e ninguém vai conseguir me ajudar.
Terapeuta:
Vamos analisar essa previsão. Qual é o pior cenário que você imagina?
Ana:
Que eu fique tonta, perca o controle e precise sair correndo.
Terapeuta:
E qual evidência temos de que isso realmente acontece quando a ansiedade
aparece?
Ana: Eu
sinto muita vontade de sair, mas quando consigo ficar, nada acontece.
Terapeuta:
Exatamente. A exposição será uma oportunidade para testar essa previsão.
Antes da
atividade, o terapeuta identifica possíveis comportamentos de segurança.
Terapeuta:
O que você costuma fazer quando vai ao supermercado para se sentir mais
protegida?
Ana:
Procuro ficar perto da saída, olho o tempo todo para o relógio e mando mensagem
para meu marido avisando que estou lá.
Terapeuta:
Esses comportamentos reduzem sua ansiedade no momento, mas também podem manter
a ideia de que você só consegue enfrentar a situação porque tem esses recursos.
Vamos experimentar reduzir esses apoios gradualmente.
Durante a
exposição, Ana entra no supermercado acompanhada inicialmente pelo terapeuta
como parte do planejamento terapêutico. Após alguns minutos, relata aumento da
ansiedade.
Ana:
Minha ansiedade está em oito. Estou sentindo aquela sensação de irrealidade.
Terapeuta:
Observe essa sensação sem tentar eliminá-la. O que você aprendeu nas exposições
anteriores sobre ela?
Ana:
Que ela parece assustadora, mas passa.
Terapeuta:
Exatamente. Continue observando. A pergunta agora não é "como faço para
essa sensação desaparecer?", mas "consigo permanecer aqui enquanto
ela está presente?".
Após
permanecer no ambiente pelo tempo planejado, Ana percebe redução gradual da
ansiedade.
Ana: Eu
achei que iria piorar até eu não aguentar mais, mas ficou mais forte por um
tempo e depois diminuiu.
Terapeuta:
Essa é a aprendizagem que buscamos. A ansiedade aumenta, atinge um ponto máximo
e depois diminui sem que você precise fugir ou usar todos os recursos de
proteção.
Ao final da
sessão, terapeuta e Ana revisam a experiência.
Terapeuta:
Antes da exposição, o que você acreditava que aconteceria?
Ana:
Que eu perderia o controle e precisaria sair imediatamente.
Terapeuta:
E o que realmente aconteceu?
Ana: Eu senti medo, mas consegui ficar.
VII.
EXPOSIÇÃO COMBINADA
A etapa de exposição combinada
representa um dos momentos mais avançados e relevantes do protocolo de Craske e
Barlow, pois integra os diferentes componentes trabalhados ao longo do
tratamento: as situações externas temidas, as sensações corporais associadas ao
pânico e as interpretações cognitivas de ameaça. Essa abordagem parte do
princípio de que a aprendizagem obtida em um único contexto pode não se
generalizar automaticamente para outras situações. Assim, um paciente que
aprende a permanecer em determinado ambiente sem sentir medo pode continuar
vulnerável quando a mesma sensação corporal surge inesperadamente nesse ou em
outro contexto.
A exposição combinada busca justamente
reproduzir a interação entre os fatores que sustentam o transtorno: os
estímulos externos relacionados à agorafobia e as sensações internas
interpretadas como perigosas. Segundo os modelos contemporâneos de
aprendizagem, a modificação mais significativa ocorre quando o paciente tem
oportunidade de experimentar aquilo que mais teme, permanecendo na situação até
perceber que a consequência antecipada não acontece. Dessa forma, a exposição
deixa de trabalhar apenas o medo do local ou apenas o medo das sensações
físicas, passando a abordar o ciclo completo que mantém o pânico.
Na prática clínica, o paciente escolhe uma
situação presente na hierarquia
agorafóbica e acrescenta deliberadamente um elemento capaz de provocar as
sensações temidas. Por exemplo, uma pessoa que teme aceleração cardíaca pode
realizar uma atividade social após consumir uma bebida estimulante; alguém que
teme tontura pode permanecer em um ambiente movimentado enquanto observa as
alterações corporais sem tentar interrompê-las. O objetivo não é provocar
sofrimento desnecessário, mas criar uma oportunidade controlada para que o
paciente teste suas previsões mais ameaçadoras.
Durante essas exposições, o terapeuta
continua utilizando os princípios da reestruturação cognitiva, auxiliando o
paciente a identificar pensamentos automáticos e compará-los com as evidências
observadas. A pergunta central deixa de ser
“como evitar que a ansiedade aconteça?” e passa a ser “o que acontece quando a ansiedade aparece e eu permaneço na situação?”.
Essa mudança representa uma transformação fundamental na relação do paciente
com o medo, pois substitui a busca por controle absoluto pela capacidade de
tolerância e enfrentamento.
Outro aspecto essencial dessa etapa é a
consolidação de uma nova regra comportamental: permanecer na situação até completar a
experiência planejada, e não abandonar a tarefa em função do aumento da
ansiedade. A permanência permite que o paciente descubra que a ansiedade
possui um curso natural e que as sensações, embora desconfortáveis, não
conduzem automaticamente às consequências imaginadas. Com repetição suficiente,
as antigas associações entre sensação corporal e perigo começam a perder força,
enquanto novas associações de segurança são fortalecidas.
As tarefas dessa fase consistem na repetição das exposições
combinadas fora da sessão, com aumento progressivo da dificuldade e redução
contínua dos comportamentos de segurança. Cada experiência é posteriormente
analisada pelo terapeuta, comparando as previsões iniciais do paciente com os
resultados reais observados. Dessa maneira, a exposição combinada funciona como
uma integração final das estratégias aprendidas anteriormente, promovendo uma
aprendizagem mais ampla e generalizável, essencial para a recuperação e prevenção
de recaídas. Voltemos ao exemplo da Ana:
Terapeuta:
Ana, nas últimas semanas você aprendeu que consegue sentir tontura, aceleração
dos batimentos e sensação de irrealidade sem que algo grave aconteça. Também
conseguiu permanecer em algumas situações que antes evitava. Hoje vamos
combinar esses dois aprendizados.
Ana:
Quer dizer que vou tentar sentir essas coisas justamente no lugar que eu tenho
medo?
Terapeuta:
Exatamente. Porque muitas vezes a pessoa aprende que consegue lidar com a
sensação em um ambiente seguro, mas ainda acredita que ela será perigosa quando
aparecer em uma situação real. Vamos testar essa previsão.
O terapeuta
revisa a hierarquia de Ana e escolhe uma situação intermediária: permanecer em
um supermercado movimentado, uma situação que ela costumava evitar por medo de
sentir pânico e não conseguir sair.
Terapeuta:
Antes de entrarmos, qual é a sua previsão?
Ana:
Acho que vou começar a ficar tonta, sentir que vou perder o controle e precisar
abandonar o lugar.
Terapeuta:
E se a ansiedade aumentar, qual será nosso objetivo?
Ana:
Tentar fazer ela diminuir?
Terapeuta:
Não necessariamente. O objetivo será permanecer e observar o que acontece. A
ansiedade pode estar presente, mas queremos descobrir se ela realmente leva
àquilo que você imagina.
Antes da
exposição, o terapeuta introduz um elemento interoceptivo combinado: Ana
realiza uma breve caminhada rápida antes de entrar no supermercado para
provocar aumento da frequência cardíaca e perceber as sensações corporais.
Ana:
Meu coração está acelerado. Parece exatamente o começo de uma crise.
Terapeuta:
Observe essa sensação. Qual era sua antiga interpretação quando isso acontecia?
Ana:
Que eu estava em perigo e precisava sair.
Terapeuta:
E qual explicação alternativa você tem aprendido?
Ana:
Que meu corpo está ativado, mas isso não significa que estou perdendo o
controle.
Ao entrarem
no supermercado, Ana relata aumento da ansiedade.
Ana:
Minha ansiedade está em oito. Estou com vontade de ir embora.
Terapeuta:
Vamos observar esse impulso. Sair agora seria uma necessidade real ou uma
tentativa de aliviar a ansiedade?
Ana:
Acho que seria para aliviar.
Terapeuta:
Então vamos testar uma coisa diferente: permanecer por mais alguns minutos e
observar se a ansiedade muda sem que você fuja.
Após permanecer
no local pelo tempo combinado, Ana percebe que as sensações diminuem
gradualmente.
Ana: Eu
achei que ia ficar cada vez pior. Mas chegou num ponto e começou a baixar.
Terapeuta:
O que essa experiência mostra sobre a previsão inicial?
Ana:
Que sentir ansiedade não significa que vou perder o controle. Eu consigo
continuar mesmo sentindo medo.
Ao final da
sessão, o terapeuta revisa a aprendizagem obtida.
Terapeuta: O objetivo de hoje não era provar que você nunca mais
sentirá ansiedade em um supermercado. O objetivo era descobrir que você pode
sentir ansiedade, ter sensações desconfortáveis e ainda assim permanecer capaz
de agir.
VIII.
SESSÕES FINAIS
As
sessões finais da Terapia Cognitivo-Comportamental para o transtorno de pânico
têm como principal objetivo consolidar as aprendizagens adquiridas durante o
tratamento e preparar o paciente para lidar de maneira autônoma com possíveis
oscilações futuras. Segundo Craske e Barlow, a conclusão do protocolo não
representa apenas a ausência dos sintomas, mas a aquisição de um conjunto de
habilidades que permite ao indivíduo responder de forma diferente às sensações
corporais, aos pensamentos ameaçadores e às situações anteriormente evitadas.
Ao
final do tratamento, é esperado que ocorram mudanças significativas nos padrões
comportamentais e cognitivos que mantinham o transtorno. O paciente tende a
apresentar redução na frequência dos ataques de pânico, menor medo das
sensações fisiológicas, ampliação das atividades realizadas e diminuição dos
comportamentos de evitação. Entretanto, a melhora não significa necessariamente
que todas as situações temidas tenham sido completamente eliminadas. Algumas
experiências podem continuar exigindo prática, especialmente aquelas associadas
a maior vulnerabilidade, como contextos de alta ansiedade, longas distâncias ou
situações previamente muito evitadas.
Um
princípio fundamental trabalhado nessa etapa é a compreensão de que recaídas
ou oscilações de sintomas não representam fracasso terapêutico. O
reaparecimento temporário de ansiedade, especialmente durante períodos de
estresse elevado, deve ser interpretado como uma oportunidade de aplicar
novamente as habilidades aprendidas, e não como uma confirmação de que o
transtorno retornou. Durante a prevenção
de recaída, o terapeuta revisa com o paciente que sensações físicas
semelhantes às antigas crises podem voltar a ocorrer, mas seu significado foi
modificado: elas deixam de representar uma ameaça inevitável e passam a ser
compreendidas como experiências desconfortáveis, porém manejáveis.
A
prevenção envolve a revisão dos principais componentes do tratamento:
identificação de pensamentos catastróficos, questionamento das interpretações
ameaçadoras, exposição às situações evitadas e tolerância às sensações
corporais. O paciente é incentivado a continuar praticando exposições quando
necessário, especialmente diante de situações que possam reativar padrões
antigos de evitação. A manutenção dessas práticas funciona como uma forma de
fortalecimento contínuo da aprendizagem construída ao longo da terapia.
Outro
aspecto importante é a elaboração de um
plano individualizado para situações futuras de risco. O paciente
identifica possíveis sinais de alerta, como aumento da evitação, retorno de
comportamentos de segurança ou aumento da vigilância corporal, e estabelece
quais estratégias utilizará caso esses padrões apareçam novamente. Além disso, sessões de acompanhamento (booster
sessions) podem ser utilizadas como recurso preventivo, permitindo
revisar habilidades e ajustar estratégias conforme novas demandas surgem.
Craske
e Barlow destacam que a recuperação não ocorre de maneira idêntica para todos
os pacientes. Mesmo indivíduos com alto nível de compreensão intelectual sobre
o modelo cognitivo-comportamental podem apresentar dificuldades em aplicar esse
conhecimento durante experiências reais de ansiedade intensa. Assim, o
tratamento para alguns pode levar alguns meses enquanto para outros alguns
anos. Esse aspecto demonstra que a mudança terapêutica não depende apenas da
compreensão racional do transtorno, mas principalmente da aprendizagem
experiencial adquirida por meio das exposições e da repetição de novas formas
de responder ao medo. Voltemos ao exemplo da Ana:
Terapeuta: Ana,
quando começamos, qual era sua maior preocupação quando sentia seu coração
acelerar ou percebia alguma tontura?
Ana: Eu tinha
certeza de que algo grave estava acontecendo. Achava que poderia desmaiar,
perder o controle ou não conseguir sair da situação.
Terapeuta: E como
você interpreta essas mesmas sensações hoje?
Ana: Ainda
são desconfortáveis, mas agora consigo pensar que é ansiedade. Eu não preciso
fugir imediatamente.
O
terapeuta revisa os principais aprendizados adquiridos ao longo das sessões:
identificação de pensamentos automáticos, questionamento das interpretações
catastróficas, exposição às situações evitadas e tolerância às sensações
corporais.
Terapeuta: Quais
estratégias você percebe que foram mais importantes para sua melhora?
Ana: Acho que
entender o ciclo do pânico foi essencial. Antes eu achava que a sensação
significava perigo. Depois, nas exposições, percebi que podia sentir medo e
continuar fazendo as coisas.
Terapeuta: Esse é
um ponto central. O objetivo do tratamento nunca foi eliminar completamente
qualquer sensação de ansiedade, mas mudar a forma como você responde a ela.
Em
seguida, o terapeuta introduz o plano de prevenção de recaída.
Terapeuta: Vamos
pensar em uma situação futura em que você esteja mais estressada e perceba que
alguns sintomas antigos começam a aparecer. O que você imagina que poderia
acontecer?
Ana: Talvez
eu pense que estou voltando ao início de tudo.
Terapeuta: Essa
será uma ideia importante para questionar. O retorno de uma sensação não
significa que você perdeu todo o progresso. Pode ser apenas um sinal para
retomar as habilidades que você aprendeu.
O
terapeuta e Ana elaboram um plano:
(1)
Reconhecer o aumento da vigilância corporal;
(2)
Identificar pensamentos automáticos de ameaça;
(3)
Retomar exposições caso volte a evitar situações;
(4)
Reduzir novamente comportamentos de segurança;
(5)
Procurar acompanhamento caso perceba dificuldade em aplicar as estratégias.
Ana: Então,
se eu sentir ansiedade novamente, não significa que o tratamento falhou.
Terapeuta:
Exatamente. A ansiedade faz parte da experiência humana. A diferença agora é
que você tem evidências de que consegue enfrentá-la. Antes, a sensação
controlava suas escolhas; hoje, você consegue escolher como responder a ela.
Antes do encerramento, o terapeuta revisa uma das
primeiras previsões de Ana e compara com sua experiência atual.
Terapeuta: No
início, você acreditava que sentir pânico significava perder o controle. O que
sua própria experiência mostrou?
Ana: Que eu
posso sentir medo, sentir as sensações no corpo e ainda assim continuar
funcionando.
Referência: BARLOW, David H. (Org.). Manual clínico de trastornos psicológicos: tratamento passo a passo. Tradução de María Elena Ortíz Salinas. Revisão
técnica de Michel André Reyes Ortega. 5. ed. Ciudad de México: Editorial El
Manual Moderno, 2018. 790 p. Tradução de: Clinical handbook of psychological
disorders: a step-by-step treatment manual.

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