MISSIOLOGIA REFORMADA



        Este artigo foi escrito em conjunto com um irmão e amigo de Luanda na Angola. Suas contribuições teológicas para este artigo foram de grande relevância. Agradeço a David Prata por ter se disposto a contribuir para que nós, reformados, tanto aqui no Brasil, quanto na Angola, possamos pensar e viver missiologia como um calvinista deve viver.

      Missiologia é a sistematização teológica sobre a doutrina do Evangelicalismo e as missões eclesiásticas a ele relacionadas (Marcos 16.15). As Escrituras do começo ao fim mostram que fazer missões é e sempre foi um dever da Igreja, portanto, a igreja peca quando perde seu caráter missiológico. Existem vários textos nas Escrituras que nos incentivam a fazer missões (Génesis 3.9; João 5.17; Gálatas 3.8; Atos 8.40; João 16.1-3; Lucas 20.1; Mateus 28.18-20; Hebreus 6.10; Lucas 24.49-53; Mateus 9.37-38; Lucas 15.7-10; 1Tessalonicenses 2.19-20; Isaias 6.8-9; João 13.16-17; 2Coríntios 5.11).
        A ideia de que calvinistas são contra missões ou que o Calvinismo não estimula missões é falsa e antibíblica. A doutrina da eleição nos estimula a levar o evangelho a todos para que os eleitos de Deus se manifestem. A Bíblia diz que eles estão espalhados em todas as tribos, línguas e nações, por isso, o missionário calvinista sabe que pode sair à procura dos eleitos em todo o mundo. O mundo é seu campo de trabalho.
        Também é mentira que a missiologia calvinista se ocupa só da evangelização. Ela considera a evangelização a missão mais essencial e principal. A ação social e o cuidado do corpo também está incluso na missão da Igreja, mas a ação social nunca pode substituir ou ter mais prioridade do que o Evangelismo. O Catecismo Maior de Westminster (53) diz que Cristo é exaltado no “dever de pregarem o Evangelho a todos os povos”.

A TRINDADE COMO PRINCÍPIO DA MISSIOLOGIA

       É relevante salientarmos que missão não nasceu no coração de algum homem mortal. A missão bíblica e divina nasceu no coração e na vontade de Deus. Deus é a fonte, Deus é quem trouxe a missão à existência. Então, podemos deduzir que a Bíblia é um livro missionário por excelência e Seu Autor é o agente primordial e ativo da obra missionária.
            É impossível de falarmos de missão bíblica, sem nos referirmos à sua origem e à sua importância no mundo. O Deus Trino incumbiu o homem de fazer missão porque isso reflete a própria ação da Trindade. A Trindade Econômica é a ação missionária de Deus no mundo (Gênesis 3.9). 
       A Missão do Pai não terá fim, até que Sua vontade e todos seus filhos estejam no seu Reino (Mateus 24.30-31; 25.16). Desde que o pecado entrou na humanidade, o Criador não cessou de trabalhar. O pecado, é causa primordial de estar Deus trabalhando até agora. Cristo disse: “Meu Pai trabalha até agora, e eu também trabalho”. Logo depois de salvar, curar um homem paralitico no tanque de Betesda, que há 38 anos jazia ali parado, vemos que que a Missão do Filho é a Missão do Pai e concomitantemente a Missão do Espirito.
          Deus o Pai enviou o Filho, e em Cristo o Pai realiza Sua vontade. E o Espirito estava em Cristo desde a o seu batismo nas águas do Jordão.  Cristo foi enviado pelo Pai. (João 4.34; 8.29; 9.4; 11.42; 14.26; 15.20, 26 17.1-3). Deus está trabalhando até agora, enviando os seus eleitos até Cristo para que sejam salvos. E o Espirito está a lavar os pecados dos eleitos (João 4.23; 6.36-39, 40,44; 10.16).
       O pecado trouxe a necessidade de se fazer missão. Infelizmente para alguns cristãos, evangelismo é algo que teve início só depois que Jesus nasceu de Maria e começou a pregar (Mateus 4.12-17) Ledo engano! Jesus ensinou-nos que o Pai nunca deixou de trabalhar, que o pecado entrou ao mundo e com ele a necessidade de missões e que Deus está buscando seus adoradores e anunciando Seu Evangelho para que todos sejam chamados ao arrependimento. O Pai continua a trabalhar "Que Frase Gloriosa". O Pai não cessou, não parou e nem descansou, Ele está em atividade. Chamando, guiando, conduzindo e despertando os seus do Sono da morte espiritual. (Efésios 2.1-3).

A MISSÃO DO FILHO NA TERRA

         Assim como Pai nunca parou de trabalhar desde os céus, assim o Filho começou sua missão terrena trabalhando continuamente. Se aproximando dos homens e habitando entre eles. (João 1.14) Cristo Jesus veio cumprir toda Escritura, desde Gênesis até Malaquias. Ele abriu um novo e vivo caminho. O Novo testamento. A mensagem é única; “Arrependei-vos dos vossos pecados.” O Evangelho pregado por Cristo era cristocêntrico e teocêntrico. (Marcos 1:15). Depois de sua morte e ressurreição vimos a ordem imperativa, dado aos seus discípulos "IDE " (Marcos 16.15).  Temos também o exemplo missionário da mulher samaritana (João 4.28-38).

OS MISSIONÁRIOS DE CRISTO

       O imperativo IDE serve para toda igreja, mas naquele momento estavam simplesmente os seus discípulos 'os Onze" Antes de "ficarem em Jerusalém até que do alto sejam revestido de Poder (Espirito Santo -João 15.26-27) 
         Em Lucas 24.49-53 aprendemos que é impossível fazer missão, sem ser cheio do Santo Espirito e sem saber que mensagem deve-se pregar aos perdidos. O Evangelho é a única mensagem que pode salvar os pecadores condenado ao inferno.
          O apóstolo Paulo é um dos maiores exemplos de vida missionária. Nasceu em Cerca de 1 d.C. na cidade de Tarso capital de Cecilia (Atos 9.11), procedente da tribo de Benjamin (Filipenses 3.5). Teve uma irmã e um sobrinho e foi discípulo de Gamaliel (Atos 22.3),era Fariseu antes de sua conversão (Atos 28.6 Filipenses 3.5), andou a perseguir a igreja de Cristo (2 Coríntios. 15.9. Gálatas 1.13; Filipenses 3.6; 1Timóteo 1.3) e até apreciou o apedrejamento de estevão (Atos 7.58; 9.4). Mas quando se converteu, mesmo perseguido, soprou o evangelho sobre a Ásia e a Europa com suas viagens missionárias. Assim como Paulo, nós somos missionários de Cristo e cheios do Espírito Santo devemos levar a mensagem do Evangelho a toda criatura.

CRÍTICA À TEOLOGIA DA MISSÃO INTEGRAL

       Fazer ação social é uma missão essencial da Igreja, mas distribuir sopa não é evangelizar. A missão da Igreja tem como foco pessoas de todas as tribos, povos, línguas, nações e classes sociais, não as minorias, os oprimidos e os explorados. A missão da Igreja não é prestar assistência social a minorias oprimidas, mas pregar a mensagem espiritual ao mundo em pecado. A Igreja não existe para trazer o Reino de Cristo à Terra, mas para orar para que Ele venha, seu objetivo é salvar almas da opressão do pecado, não minorias das opressões das estruturas sociais de exploração.
        Para a Bíblia Deus está salvando pessoas individualmente e de maneira particular e pessoal (Ezequiel 18), mas para Ed René Kivtz “A eclesiologia da missão integral é o novo homem coletivo. Deus não está salvando pessoas” (aqui). Ariovaldo Ramos considera que a Filosofia marxista e a Teologia da Missão Integral têm muito em comum: “...nós vivemos num mundo profundamente influenciado pelo marxismo. Então, é impossível dialogar com o mundo sem dialogar com o marxismo num nível ou noutro. O marxismo mudou a face do Ocidente por, pelo menos, setenta anos. Estabeleceu-se como fato histórico, vimos surgirem blocos socialistas no mundo todo. E a grita do marxismo era a de que o capitalismo estava na contramão do que produziria felicidade humana... Você pode dizer que aqui ou ali nós esbarraremos em conceitos marxistas, mas eu preciso lembrar a você de que Marx veio depois da Igreja Primitiva, veio depois de Jesus, o Cristo. Não somos nós que estamos buscando conceitos em Marx, foi Marx que buscou os conceitos dele na tradição judaico-cristã, e tentou criar um projeto de uma vida semelhante ao que a Igreja primitiva viveu.” (aqui)

        Contra a Teologia da Missão Integral, a Missiologia Reformada abraça os princípios do Pacto de Lausanne (5):

Afirmamos que Deus é o Criador e o Juiz de todos os homens. Portanto, devemos partilhar o seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão. Porque a humanidade foi feita à imagem de Deus, toda pessoa, sem distinção de raça, religião, cor, cultura, classe social, sexo ou idade possui uma dignidade intrínseca em razão da qual deve ser respeitada e servida, e não explorada. Aqui também nos arrependemos de nossa negligência e de termos algumas vezes considerado a evangelização e a atividade social mutuamente exclusivas. Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão. Pois ambos são necessárias expressões de nossas doutrinas acerca de Deus e do homem, de nosso amor por nosso próximo e de nossa obediência a Jesus Cristo. A mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. Quando as pessoas recebem Cristo, nascem de novo em seu reino e devem procurar não só evidenciar mas também divulgar a retidão do reino em meio a um mundo injusto. A salvação que alegamos possuir deve estar nos transformando na totalidade de nossas responsabilidades pessoais e sociais. A fé sem obras é morta.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

      Para a Fé Calvinista todo cristão tem o dever de pregar o evangelho a todo o mundo, o chamado de Deus é universal, o Senhor não faz acepção de pessoas e seu desejo é salvar pessoas de todo tipo. Contra a Teologia da Missão Integral, a Teologia Reformada não se mistura com a Filosofia Secular, não dialoga dialeticamente com nenhuma ideologia, mas responde satisfatoriamente a todas as filosofias com a mesma Fé de sempre:

"...quando os cristãos do primeiro século se lançaram pelo mundo a proclamar o evangelho, eles eram acusados de ateus e ignorantes. E era verdade que eles não tinham deuses que pudessem ser vistos ou apalpados, como os pagãos tinham. Em resposta a estas acusações alguns cristãos apelaram às pessoas que a antiguidade considerava sábios por excelência, isto é, os filósofos... Era grande a possibilidade de os cristãos em seu afã de mostrar como sua fé e a filosofia eram compatíveis chegaram a convencer a si mesmos que a melhor maneira de conceber Deus não era a dos profetas e outros autores das Escrituras, mas a de Platão, Plotino e outros."
Justo Gonzalez. A Era dos Gigantes, p.89.






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