QUAL É A CAUSA DO SEU SOFRIMENTO?

  Quando o sofrimento nos alcança, nós naturalmente - instintivamente - queremos saber quem ou o que o causou. A resposta a essa pergunta geralmente afeta a forma como reagimos à dor. Nós nos concentramos imediatamente nas causas óbvias. Para uma doença, pensamos sobre o que deu errado com a bioquímica do nosso corpo. Depois de um acidente, visitamos e revisitamos o que aconteceu, como aconteceu e de quem foi a culpa. 
       Quando um desastre dito "natural" ocorre, podemos pensar em por que as pessoas estavam morando onde moravam, por que os alertas prévios não deram certo, por que as defesas contra a enchente foram inadequadas e assim por diante. Queremos culpar alguém ou algo. E, se podemos ou não culpar um agente humano, por trás de tudo isso queremos culpar a Deus. Pois Deus - se é que Ele existe - deve ter algo a ver com tudo isso. 
       Depois disso, podemos reagir com amargura, recriminações ou ressentimento. Talvez estes sejam específicos, ou talvez tenhamos apenas uma sensação residual de que fomos injustamente tratados. No início do livro de Jó, Jó sofre quatro terríveis tragédias (Jó 1.13-19) antes de perder a saúde (Jó 2.7-8). Duas das quatro hoje podemos chamar de “desastres naturais” (embora a Bíblia nunca use essa expressão); os outros dois talvez ficassem sob o rótulo de "terrorismo". 

DEUS OU SATANÁS? 

       Uma das questões mais profundas do livro de Jó é esta: quem causou os terríveis sofrimentos de Jó? Há uma resposta clara, dada ou assumida por Jó, pelos seus três chamados “consoladores” e pelo narrador divinamente inspirado. Essa resposta é expressa de forma nítida no final do livro, onde o narrador descreve como a família e os amigos de Jó: "o consolaram de todo o mal que o Senhor lhe havia enviado” (Jó 42.11). 
       O Senhor, o Deus da aliança, é aquele que trouxe esses sofrimentos a Jó. Ele não os permitiu simplesmente; ele fez com que eles viessem a Jó (o verbo hebraico aqui indica causalidade ativa). Jó mostra que ele sabe que isso é verdade quando diz: “...o Senhor o tomou” (Jó 1.21). Ele reitera esta convicção quando diz à sua esposa: “temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? (Jó 2.10). Ao dizer isso, o narrador inspirado indica que "Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma... não pecou Jó com os seus lábios. ” (Jó 1.22; 2.10). Jó crê que Deus fez isso; e ele está certo em crer assim. 
        Tanto em Jó 2.10 como em Jó 42.11, a palavra traduzida como “mal” indica não mal moral, mas desastre - coisas terríveis de experimentar. Os três amigos compartilham essa convicção. O título mais comum para Deus no livro é "o Todo Poderoso" (por exemplo em Jó 5.17). 
        
O ESTRANHO SERVO DE DEUS 

       Mas abaixo e ao lado dessa convicção compartilhada da soberania ativa de Deus, existe uma importante convicção subsidiária: Satanás causa os sofrimentos de Jó. Satanás (ou, mais propriamente, "o Satanás" - isto é mais um título do que um nome, e significa algo como "o adversário") é uma criatura sobrenatural que tem um lugar estranho no conselho dos "filhos de Deus” (ESV) ou “anjos (NIV). Ele é totalmente maligno e malicioso; e ainda assim ele tem uma obra a fazer. É a sua "mão" que ataca Jó ativamente (Jó 1.12; 2.6). Então, de certo modo, ele os causa. Mas, como percebemos se lermos o livro cuidadosamente, ele não é a causa última. 
       Comentaristas liberais mais antigos tomam o caminho fácil de dividir Jó em uma parte na qual Deus causa seus sofrimentos e outra na qual Satanás os causa. Assim, por exemplo, H. Rowley toma as palavras “que o Senhor lhe havia enviado” em Jó 42.11, como simplesmente indicando as suposições (errôneas) compartilhadas por Jó e seus amigos. Mas essas palavras são ditas pelo narrador inspirado da história, por isso não devemos tomar essa saída errônea, embora fácil. 
       Aqueles que rejeitam a soberania de Deus irão ou ignorar versos claros quanto a soberania de Deus sobre o nosso sofrimento (como Jó 1.21; 2.10; 42.11) ou atribuir isso (como Rowley faz) à visão possivelmente equivocada dos personagens humanos. No entanto, quando se refere ao “mal” que veio sobre Jó, fica claro “que o Senhor lhe havia enviado” (Jó 42.11). Isso fica claro em todo o livro e está escrito para nossa instrução. 

O MAL, NO FINAL DAS CONTAS, É PARA NOSSO BEM 

       É de grande importância pastoral que compreendamos o que a Bíblia ensina sobre a causalidade do desastre quando se trata de crentes. Existem dois erros comuns. Por um lado, podemos negligenciar totalmente a Satanás e simplesmente assumir que Deus governa o mundo de maneira simples e direta. Isto é, como me disseram, perto da visão do Islã. Alguns cristãos tacitamente assumem isso, mas não é esse o ensino da Bíblia. Por outro lado, podemos pensar em Satanás como um segundo poder autônomo e independente do mal, caso em que o universo se torna um lugar terrivelmente incerto, uma vez que nunca podemos ter certeza se Deus ou Satanás vencerão qualquer rodada particular de sua disputa.  
       A Bíblia, no entanto, ensina que Deus escolheu exercer seu governo soberano absoluto, direto e intencional do mundo através da agência de seu conselho escolhido de poderes intermediários (os “filhos de Deus” ou “anjos”), alguns dos quais são maus. Esses poderes não têm autonomia alguma. E, no entanto, nos propósitos de Deus, eles são significativos e exercem influência, como Deus escolheu que fariam. 
       Compreender essa profunda verdade sobre o governo do universo dará aos crentes cristãos uma grande confiança - pois a soberania de Deus é incontestável - e também um grande realismo, pois levaremos a sério o papel do mal sobrenatural na infinita sabedoria de Deus, que é ele mesmo intocado pelo mal e, ainda assim, quem escolhe tecer o mal em seus propósitos do bem final. 

Autor: Christopher Ash
Tradução: Bruno dos Santos Queiroz.
Publicação em português autorizada pelo Desiring God.

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