domingo, 29 de abril de 2018

O IMORTALISMO DE BRUNO SUNKEY X O ANIQUILACIONISMO DE LUCAS BANZOLI = UMA COMPARAÇÃO



      O objetivo deste artigo é comparar duas posições teológicas sobre o estado pós-morte e o estado final dos ímpios que existem dentro do Cristianismo. Serão apresentados os principais argumentos bíblicos de cada posição para que o leitor possa decidir-se entre uma das duas. A posição mais tradicional e popular do Cristianismo é o Imortalismo, cristalizado nas confissões reformadas, a posição oposta é o Aniquilacionismo, embora menos comum, foi e é adotado por alguns evangélicos, como Oscar Cullman e John Stott.

      Este artigo consistirá não em uma espécie de refutação, mas de apresentação dos argumentos positivos de cada posição. Caberá ao leitor decidir-se por uma ou outra posição. Além disso, a ideia é que o artigo seja apenas um resumo dos principais argumentos e que leve o leitor a buscar mais material de estudo e leitura. A posição imortalista será apresentada e defendida por Bruno dos Santos Queiroz (Sunkey) e a posição aniquilacionista por Lucas Banzoli.

 A VISÃO IMORTALISTA

       O imortalismo defende que Deus criou a alma imortal, que a imortalidade da alma é incondicional, que o homem é constituído de duas substâncias distintas, o corpo e a alma, que a morte é a separação do corpo e da alma e que a alma dos ímpios será atormentada eternamente no inferno. Para o imortalista reformado, depois da morte, há apenas dois destinos para a alma, o céu ou o inferno intermediário (Hades). No entanto, a doutrina imortalista reformada crê que Deus deseja reformar o mundo material e punir também os ímpios não só na alma, mas também no corpo. Por isso, o imortalismo reformado defende a doutrina da ressurreição do corpo e a existência de um mundo reformado e restaurado onde os salvos viverão em corpo e alma e também em um Inferno Eterno onde os ímpios serão punidos em corpo e alma.
         O primeiro argumento a favor do imortalismo é a necessidade de distinguir alma e corpo como substâncias distintas. O pensamento não pode ser explicado como o movimento de moléculas no cérebro, por isso, deve existir no homem uma substância diferente do corpo material, ligada não só ao cérebro, mas a todo o organismo. Essa substância é a alma do corpo. A realidade dos nossos estados mentais seria a base para se afirmar que o homem é uma dicotomia (dualidade de substância) de corpo e alma, embora numa unidade psicossomática (pessoa total).
         O principal texto a favor dessa posição é Mateus 10.28 que diz: “E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.’’ O texto parece comparar dois tipos de morte. Para o imortalista, a palavra ‘morte’ não significa cessação da existência, mas uma separação existencial. O texto fala de duas substâncias ‘corpo’ e ‘alma’ e diz na primeira parte (morte natural) que o corpo morre, mas a alma não morre. De onde se deduz que a morte natural é a separação existencial entre corpo e alma. Na segunda parte, o texto fala sobre a morte eterna que, para o imortalista, significa a separação existencial eterna da bondade de Deus, o Inferno (geena). No Inferno Eterno final, o corpo ressuscitado do ímpio e sua alma serão para sempre atormentados pela Ira de Deus.
       O problema do mortalismo holista é que ele é uma espécie de materialismo. ‘Ao considerar que o homem é apenas matéria (corpo) e energia (espírito), o holismo acaba caindo numa visão materialista da natureza humana. O materialismo, ao reduzir o homem a um amontoado químico e os pensamentos a um fluxo de elétrons, está em forte oposição à antropologia cristã que realça a dignidade humana e sua dimensão espiritual. Os cristãos entendem que o homem é mais do que um mero amontoado de células.’ (escrevi sobre aqui)
         Mas para onde iria a alma depois que o corpo morre? Além de Mateus 10.28, textos como Gênesis 35.18 e 1 Reis 17.21-22 parecem também ensinar que a alma (néphesh ou psykhé) deixa o corpo depois da morte. Para o imortalista dicotomista, alma e espírito (ruach ou pneuma) são duas dimensões de uma mesma substância, de modo que alma e espírito são termos intercambiáveis. Talvez alma se aproxime mais do aspecto mental do espírito e espírito do aspecto consciente da alma. O espírito é a consciência da alma e a alma a mente do espírito. Eclesiastes 12.7 parece indicar que o corpo (pó) volta para a terra para se decompor, enquanto a alma (espírito) volta a Deus, no versículo 14, no contexto de um capítulo que discute a morte, o autor fala que Deus trará nossas obras a juízo. O texto parece dar a entender que logo após a morte, as almas se apresentam diante do tribunal de Deus para serem julgadas. Ainda não é um Juízo Final, pois só as almas, sem o corpo, são objeto do julgamento. Provérbios 15.24 dá a entender que depois desse juízo, as almas dos salvos sobem para o Céu e a dos ímpios descem para o inferno.
       Que as almas justificadas sobem ao céu, esse parece ser o ensino de toda a Bíblia. Desde Gênesis, lê-se que os santos se reuniam aos seus parentes salvos logo após a morte, mesmo que não fossem enterrados no mesmo lugar (Gênesis 25.8), Jacó, quando pensou que seu filho morreu, disse que se morresse iria encontrar com José no além (Seol – Gênesis 37.35). Asafe diz que quando sua jornada na Terra acabasse, ele seria recebido por Deus na glória (Salmos 73.24). O ladrão da cruz disse a Jesus ‘Se lembre de mim quando for voltar para estabelecer seu reino na Terra’, para corrigir o ‘quando’ do ladrão, Jesus diz ‘É hoje que você vai para o paraíso comigo’ (Lucas 23.43).
       Vamos nos deter mais em Lucas 23.43, é comum nos evangelhos o ‘hoje’ sempre se referir ao ‘hoje’ em que vai acontecer o evento. ‘Em verdade te digo’ é o correspondente do Novo Testamento para o ‘Assim diz o Senhor’ do Antigo Testamento. Assim como é sem sentido pensar num ‘Assim diz o Senhor hoje que você estará no paraíso comigo’ é sem sentido ler ‘Em verdade te digo hoje que  estarás comigo no paraíso’. O padrão é ‘Assim diz o Senhor’ que (em um determinado tempo) vai acontecer um evento.
        Vou dar um exemplo do Antigo e outro do Novo Testamento, Jeremias 2.2 diz ‘Assim diz o Senhor: Lembro-me de ti, da piedade da tua mocidade, e do amor do teu noivado, quando me seguias no deserto, numa terra que não se semeava.’ Percebe o padrão da linguagem profética? Anunciação e Tempo do Evento. Esse é o padrão normal da Bíblia. Jeremias diz que Deus 'Lembra' daquele que ele elege e 'casa' com ele. Isso é chamado na Teologia Reformada de união mística de Cristo,. Ela  acontece quando alguém entra na Igreja. Deus insere o eleito no seu Corpo, a Igreja, sendo Cristo o Noivo e a Igreja a Esposa. No Hoje, o ladrão da cruz se casa com Cristo e entra na Igreja Triunfante no Céu. Agora um exemplo no Novo Testamento, lembrando que Jesus, por ser a própria Verdade, e não um mero porta-voz do Senhor, usa ‘Em verdade te digo’. ‘Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão.’ – João 5.25. Aqui Jesus fala da regeneração que acontece no tempo atual, ela é como uma ressurreição, um nascer de novo, foi isso que aconteceu com o ladrão da cruz no seu 'Hoje', ele nasceu de novo.
        Para o padrão bíblico de linguagem profética o advérbio temporal anuncia quando acontecerá o evento profetizado. ‘No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura.’ – João 4.23 ‘Hora’, ‘Agora’, ‘Hoje’, ‘Em que’, ‘Quando’ são uma referência ao Evento Anunciado, não ao dia em que o evento foi anunciado, mas ao dia em que o Evento Profético acontece no tempo. Jesus disse HOJE vai acontecer o EVENTO  profético. Eu e você iremos para o meu Reino.
       Jesus contou uma parábola cheia de símbolos, nessa parábola, Lázaro morre e é levado ao céu, ao seio de Abraão. Por que Jesus usou um nome em uma parábola, o que ele nunca fez? A parábola que Jesus contou foi inspirada em narrativas já existentes na época, mas para além de ilustrar que os judeus representados pelo Rico iriam perder o Reino para os pobres gentios, Cristo talvez tenha usado o nome Lázaro tendo em mente a morte de um amigo. Lázaro morreu e Jesus chorou por isso, mesmo que o tenha ressuscitado, Jesus sabia que Lázaro um dia morreria (João 11.35). A morte causava dor a Cristo. Mas, ao contar essa parábola, Jesus mostra que sabia que quando Lázaro morresse ele seria levado ao céu (Lucas 11.16). No entanto, estamos diante de uma parábola e não podemos basear nela uma radiografia exata do além.
        Paulo ensinou também que as almas dos justificados sobe ao céu. Em 1 Coríntios 5.1-8, ele compara o corpo a uma casa em que moramos. Isso por si só mostra que nosso ‘eu’ (alma) e nosso corpo, são duas substâncias distintas. Nós moramos no corpo, não somos um corpo. Ele fala que deixamos nossa casa (corpo) para morar com o Senhor. Isso é a morte, a alma deixa o corpo para morar no céu. No entanto, o texto diz que a vontade de Deus não é que a alma viva sempre sem uma casa (corpo) e, por isso, no céu esperamos por uma casa eterna, que é o corpo da ressurreição. A alma dos mortos salvos fica no céu aguardando a ressurreição.
        Em outra ocasião, Paulo relatou que tinha dúvidas se deveria continuar vivendo e pregando ou se a morte forneceria uma esperança melhor. Paulo vivia em um dilema entre a necessidade de continuar vivendo para fazer a obra de Deus na Terra e a esperança da vida no Céu. Então, ele diz claramente que morrer significa ‘partir para estar com cristo’  (Filipenses 1.23).
        Quando Estêvão foi apedrejado, para consolá-lo, a Trindade lhe forneceu uma visão para que ele tivesse esperança que assim que morresse subiria ao céu. O Espírito Santo mostrou o Pai e o Filho diante de Estêvão o esperando para o receber no céu. O texto diz que Estêvão orou pouco antes de morrer entregando seu espírito a Jesus (Atos 7.59).
        Quando João escreveu o Apocalipse, muitos cristãos estavam morrendo como mártires, então João escreve uma mensagem para consolar esses irmãos perseguidos. Em duas ocasiões especiais ele fala das almas dos mártires. Primeiro, ele diz que elas estão no céu clamando por vingança contra aqueles que as mataram e aguardando o Dia em que Deus julgará seus perseguidores. Também é dito que elas são consoladas com a esperança de que um dia Deus acabará de vez com o mal e que devem esperar por esse dia quando o número de eleitos se completará e Deus vai reunir todos os salvos no Paraíso Eterno, os Novos Céus e a Nova Terra (Apocalipse 6.9-11).
       A segunda vez em que as almas dos mártires é mencionada é em Apocalipse 20.4, o Milênio seriam um símbolo do governo que Cristo assumiu no Céu depois que ele morreu, foi ressuscitado e voltou para lá. No Céu, Jesus recebeu toda autoridade sobre o Universo (Mateus 28.18) para que o Evangelho do Reino não fique mais restrito a Israel, mas possa ser espalhado por todo mundo. Essa plenitude do Reino se espalhando pelo mundo é simbolizado pelo número mil, que traz a ideia de totalidade. Agora, Satanás não mais domina o mundo dos gentios enquanto Jeová governasse Israel no passado e Satanás o mundo gentílico, Jesus prendeu Satanás, restringindo sua influência sobre o mundo gentílico para que o Evangelho possa alcançar todas as nações. As almas dos mártires aparecem no Céu, reinando junto com Jesus. A Igreja Triunfante no Céu se alegra com o crescimento da Igreja Militante na Terra.
        As almas no Céu são descritas no Apocalipse de diferentes maneiras, são simbolizadas por 24 anciãos (12 tribos de Israel – Igreja do Antigo Testamento + 12 apóstolos – Igreja do Novo Testamento) adorando a Jesus no Céu (Apocalipse 4.10-11). Pelos 144.000 (12 Tribos de Israel – Igreja do Antigo Testamento X 12 apóstolos – Igreja do Novo Testamento X 1.000 Reino de Cristo no Céu) que aparecem duas vezes, primeiro como mártires na Terra (Apocalipse 7.3-8) e depois que morrem martirizados, como almas cantando no Céu (Apocalipse 14.1 -5). Cristo e os espíritos dos mortos do Céu dirigem a pregação da Igreja na Terra (Apocalipse 14.6), assim, o texto diz que os mortos no céu são ‘bem-aventurados’, isto é, vivem felizes (Apocalipse 14.13).
        Essa Igreja no Céu, portanto, não deixa de estar unida com a Igreja na Terra, por isso, o Novo Testamento diz que os santos na Terra ‘chegaram’ aos espíritos aperfeiçoados no Céu (Hebreus 12.23). Essa é a ‘Catolicidade’ da Igreja, ela é uma só, a mesma Igreja reúne vivos e mortos trabalhando juntos para a expansão do Evangelho do Reino. Claro que isso não tem nada a ver com contato espírita com os mortos.
        A Bíblia descreve a Igreja das almas no céu como formada por uma multidão incontável aguardando a ressurreição do corpo e a restauração do Universo (Apocalipse 7.9-17), são colocados ao lado dos anjos formando uma multidão de milhares de milhares e milhões de milhões (Apocalipse 5.11).
      Quando Jesus voltar, as almas dos mortos virão à Terra o acompanhando. ‘Deus os tornará a trazer com ele.’ (1 Tessalonicenses 4.14), ‘Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos’ (Judas 1.14), são almas que vem do Céu como uma grande multidão cantando em louvor a Cristo (Apocalipse 19.6). A Volta de Jesus é o encontro da Igreja no Céu com a Igreja da Terra para fazerem uma festa como uma só Igreja, as bodas da Noiva de Cristo (Apocalipse 19.7-9). A Igreja dos mortos no Céu é simbolizada como uma Cidade, a Nova Jerusalém que desce do céu como uma Noiva e pousa sobre a Terra. Nesse tempo, o Universo inteiro será restaurado e a Igreja no Céu e na Terra há de ser a mesma grei (Apocalipse 21.1-2).
       A Igreja da Terra sobe e a do Céu desce e elas se encontram no meio do Céu, esse é o arrebatamento bíblico. Os cristãos da Terra tem seus corpos renovados e os dos Céus reencontram seus antigos corpos, agora glorificados (1 Tessalonicenses 4.14-17). Os anjos ‘reunirão os eleitos dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus’ (Mateus 24.31). De lá assistem o Juízo de Deus sobre o mundo, o Amargedom, o fim desse sistema de coisas, o grande e terrível Dia de Jeová onde o mundo será consumido pelo fogo e os ímpios exterminados da face do planeta (Apocalipse 19.15-21).
         A alma dos ímpios, logo após a morte, vai para o inferno intermediário, por vezes, chamado de Seol e Hades. Seol pode tanto se referir ao além (céu e inferno), como ao inferno intermediário. A Bíblia diz que as almas no mundo do além não mantém relação com este mundo material (Eclesiastes 9.5-10), é nesse sentido que devemos compreender os textos que parecem dar a entender uma inconsciência após a morte. Os mortos estão inconscientes do que acontece neste mundo material, estão inativos, no sentido de que não participam nas coisas desta vida (Salmos 146.5). Por isso, a comunicação com os mortos é impossível. No entanto, duas vezes em particular, como fenômenos não-normativos e eventos extraordinários, Deus enviou o espírito de um morto à Terra. O escritor inspirado diz que o espírito de Samuel falou com Saul (1 Samuel 28.15) e na Transfiguração, Moisés que havia morrido e foi sepultado (Deuteronômio 34.6), apareceu falando com Jesus (Mateus 17.3).
           O além (Seol) no sentido de Inferno Intermediário, é o destino das almas dos ímpios após a morte, é um lugar onde arde o fogo da ira de Deus (Deuteronômio 22.32), um lugar de destruição (Jó 26.6; Provérbios 15.11), o destino de todos os iníquos (Salmos 9.17), um local de angústia (Salmos 116.3), o destino dos adúlteros (Provérbios 5.5), ali vivem os espíritos dos mortos que rejeitaram a sabedoria (Provérbios 9.18), um lugar de castigo (Provérbios 23.14), é como um monstro insaciável que nunca se cansa de devorar a alma dos mortos (Provérbios 27.20), a morada dos espíritos dos governantes ímpios que morreram (Isaías 14.9-15), é relacionado à ideia de calamidade destruidora (Isaías 28.15, 18), um lugar de abatimento (Isaías 57.9), um local de julgamento contra os povos soberbos (Ezequiel 31.15-17) e de punição contra os inimigos de Deus (Ezequiel 32.21) e, por fim, um lugar de pragas (Oséias 13.14).
       No Novo Testamento, Hades é o nome geralmente usado para Inferno Intermediário, ele acompanha a morte como um juízo de Deus (Apocalipse 6.8), é um lugar de destruição (Mateus 11.23; Lucas 10.15) e de tormento em fogo (Lucas 16.23). No Juízo Final, quando Jesus retornar, as almas dos ímpios serão retiradas do Hades, reunidas aos seus antigos corpos que receberão ‘existência perene’ (não imortalidade que é um dom exclusivo dos salvos), julgadas no Juízo Final e serão lançados no Inferno Eterno para serem atormentados em corpo e alma (Apocalipse 20.13-15).
        O termo que o Novo Testamento usa para descrever o Inferno Eterno é Geena (Mateus 5.22, 5.29, 10.28, 18.9, 23.15, 23.33; Marcos 9.43, 9.45, 9.47; Lucas 12.5; Tiago 3.6). A Bíblia, desde o princípio dá sinais de um inferno eterno análogo ao paraíso eterno. Cada juízo particular de Deus na História aponta para esse lugar. É dito que Sodoma foi colocada como exemplo do fogo eterno (Judas 1.7), lê-se do juízo de Edom que sua fumaça sobe para todo o sempre (Isaías 34.10). A Bíblia usa o Vale de Hinom como o maior símbolo do Inferno Eterno. Era um depósito nas cercanias de Jerusalém no qual eram queimados lixos e cadáveres de criminosos, enquanto o fogo consumia esses corpos, bichos e vermes se alimentavam deles. O fogo no Vale de Hinom ficava continuamente aceso, nunca se apagava e os moradores de Jerusalém poderiam sair da cidade e ver os corpos queimando (Isaías 66.24). O Inferno final, assim como o paraíso final, não será um lugar de almas sem corpos, nem será um sofrimento temporário. Fogo e vermes são apenas símbolos de um suplício sem fim. Para deixar claro a eternidade do inferno, a Bíblia o coloca em paralelo com o paraíso eterno. Os santos irão para a vida eterna, e os maus para o desprezo e vergonha eternos (Daniel 12.2; Mateus 25.46).
       O argumento a favor da existência eterna dos ímpios é simples. Tudo o que vem a existência não deixa a existência. Nada no mundo material deixa de existir, apenas se transforma, como o fogo transforma a palha em cinzas. Com as almas não é diferente. Se uma coisa cessasse de existir teríamos uma contradição nos próprios termos, porque ela teria que ter voltado ao nada, mas o nada, nada é. Se eu, quando estiver no Paraíso Eterno for conversar sobre um ímpio que viveu nesse mundo e foi queimado até morrer, seria absurdo achar que eu estou falando do nada. Se Deus trouxer alguma coisa a existência, essa coisa nunca poderá deixar de existir, poderá se transformar, mas jamais se aniquilar

"A fumaça do tormento de tais pessoas sobe para todo o sempre. Para todos os que adoram a besta e a sua imagem, e para quem recebe a marca do seu nome, não há descanso, dia e noite" – Apocalipse 14.11.

            O Inferno é uma destruição ou extinção da alma, não no sentido de aniquilação, mas de perdição. A ideia é que o homem condenado perderá sua alma e se tornará um monstro ardendo para sempre nas chamas do Inferno. A alma dele morrerá, nesse sentido, essa é a segunda morte. C.S. Lewis descreveu isso assim:

“O que pode ser então aquilo de que três imagens são símbolo? A destruição, podemos, naturalmente presumir, significa a eliminação ou aniquilação dos destruídos. E as pessoas falam com frequência como se ‘aniquilação’ de uma alma fosse possível. Em nossa experiência, porém, a destruição de uma coisa significa a emergência de outra. Queime um pedaço de madeira e terá gases, calor e cinzas. Ter sido um pedaço de madeira significa agora ser essas três coisas. Se a alma pode ser destruída, não haverá um estado de ter sido uma alma humana? E não é esse, talvez, o estado que é  igualmente bem descrito como tormento, destruição e privação? Você estará lembrado de que, na parábola, os salvos vão para um lugar preparado para eles, enquanto os perdidos vão para um lugar que não foi absolutamente feito para homens. (Mt 25:34,41) Entrar no céu é tornar-se mais humano do que jamais alguém o foi na terra; entrar no inferno é ser banido da humanidade. O que é lançado (ou se lança) no inferno não é um homem: são 'refugos'. Ser um homem completo significa ter as paixões obedientes à vontade e essa vontade oferecida a Deus: ter sido um homem – ser um ex-homem ou um 'fantasma perdido' - iria presumivelmente significar consistir de uma vontade completamente voltada para o Eu e paixões não controladas pela vontade. Torna-se, naturalmente, impossível imaginar com o que a consciência de tal criatura – já então um agregado indefinido de pecados mutuamente antagônicos em lugar de um pecador - poderia comparar-se. Pode haver grande parte de verdade no ditado: 'o inferno é  inferno, não de seu próprio ponto de vista, mas do ponto de vista celestial'. Não acredito que isto interprete mal a severidade das palavras  de Nosso Senhor. Somente aos condenados é que seu destino poderia parecer menos do que insuportável.  E deve ser admitido que, nestes últimos capítulos, à medida que pensamos na eternidade, as categorias de dor e prazer, que nos prenderam por tanto tempo, começam a retroceder, enquanto bens e males mais vastos surgem no horizonte. Nem a dor nem o prazer como tais têm a última palavra. Mesmo se fosse possível que a experiência (se pode ser chamada assim) dos perdidos não contivesse dor mas muito prazer; ainda assim, esse prazer negro seria de um tipo tal que faria qualquer alma, ainda não condenada, voar para as suas orações num terror de pesadelo: mesmo que houvesse sofrimentos no céu, todos os que têm entendimento os desejariam.” (aqui)

            Eu já fui aniquilacionista por um tempo, inclusive leitor de livros e artigos de Lucas Banzoli, no entanto, alguns motivos foram suficientes para eu abandonar o aniquilacionismo, tais como (i) inconsistências exegéticas: a maior parte dos argumentos bíblicos aniquilacionistas são baseados em paralelismo verbais,  prescrições semânticas falaciososas e citações prolixas de passagens descontextualizadas, além de sua falha em fornecer interpretações satisfatórias para passagens obviamente imortalistas. (ii) inconsistências teológicas: o aniquilacionismo é inconsistente com a doutrina ortodoxa da união hipostática de Cristo, podendo desembocar em uma espécie de apolinarianismo, é difícil, também explicar o "estado intermediário" de Jesus, um aniquilacionista consistente teria de dizer que Jesus deixou de ser homem por um tempo ou algo assim, além do aniquilacionismo ser inconsistente com um conceito sadio de justiça divina e com a doutrina da expiação, visto que não há como mudar de crença sobre qual é a punição do pecado sem que isso afete outros aspectos importantes da Teologia Cristã. (iii) inconsistências filosóficas: a antropologia holista desemboca nos mesmos problemas do materialismo e há problemas filosóficos com a ideia de aniquilação como punição. Mas não dá para tratar aqui de todos esses problemas, pois fugiria do escopo do artigo. 
Para complemento, indico os seguintes artigos meus:
Para contato, meu whatsapp 034984236995 e meu email= araguaribrunosqueiroz2gmail.com

A VISÃO ANIQUILACIONISTA

A visão mortalista ou aniquilacionista entende o homem como uma unidade em que corpo, alma e espírito são características de uma mesma pessoa, e não um dualismo platônico onde o corpo é uma prisão da alma que dele se liberta após a morte. Esta visão é consistente com o relato da criação do homem, que nos diz que “Deus criou o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem tornou-se uma alma vivente” (Gn 2:7). Observe que Deus não implantou uma “alma” dentro do corpo de Adão. Em vez disso, ele criou Adão com um fôlego de vida (espírito), que o fez ser uma “alma vivente”. Em outras palavras, de acordo com o relato bíblico da criação do homem, este não “possui” uma alma, mas é uma alma. Uma “alma vivente” é o que o ser humano é enquanto possui o espírito (fôlego de vida) que lhe faz respirar. Consequentemente, quando o homem morre o espírito volta para Deus que o deu (Ec 12:7), e o homem, que era uma “alma vivente”, se torna uma “alma morta”.
Isso explica as centenas de passagens que no hebraico e no grego expressamente afirmam a morte da alma, como, por exemplo, “que minha alma morra a morte dos justos” (Nm 23:10), “morra a minha alma com os filisteus” (Jz 16:30), “sua alma morrerá na própria infância” (Jó 36:14), “a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18:4), “a espada virá e lhes tirará a alma” (Ez 33:6), “ninguém jamais preservará viva a sua própria alma” (Sl 22:29), “sua alma se chega à cova” (Jó 33:22), “essa alma terá que ser decepada” (Nm 19:13), etc. Embora nem sempre as versões vernáculas mantenham o vocábulo “alma”, é nephesh que aparece nessas e em outras centenas de passagens do hebraico que afirmam a morte da alma por todos os meios possíveis. A alma-nephesh é golpeada fatalmente (Lv 24:17), é destruída (Lv 23:30), é exterminada (At 3:23), é morta à espada (Js 10:28), é devorada (Ez 22:25), é decepada (Nm 19:13), é golpeada (Dt 19:11), é assassinada (Dt 22:26), falece (Lv 19:28), é entregue à morte (Jo 13:37), corre risco de morte (At 15:26), sofre decomposição (Sl 49:8-9), vai para a cova (Jó 33:22) e expira (Jó 11:20). Como costumo brincar às vezes, a alma é o “imortal” que mais morre no mundo!
Herodes e seus comparsas “buscavam a alma-psiquê da criancinha” (Mt 2:19-20) para assassiná-la; Jesus veio para “dar a sua alma em resgate de muitos” (Mt 20:28), indagou se era lícito “salvar ou matar uma alma” (Mc 3:4) no sábado e garantiu que “o pastor excelente entrega a sua alma em benefício das ovelhas” (Jo 10:11). Pedro assegurou a Cristo que “entregarei a minha alma em benefício de ti” (Jo 13:37) e alertou que toda alma que não o ouvisse seria “completamente exterminada dentre o povo” (At 3:23). Lucas em Atos nos relata que Paulo e Barnabé “arriscaram as suas almas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (At 15:26). Quando estava prestes a sofrer o naufrágio, Paulo tranquilizou os tripulantes dizendo que “não se perderá a alma de nenhum de vós, mas somente o navio” (At 27:22), embora na teologia imortalista a alma não poderia ser morta em nenhuma hipótese, naufragando ou não. Elias exclama que “mataram os teus profetas, só eu sobrei, e eles estão procurando a minha alma” (Rm 11:3), e João no Apocalipse registra a morte de toda alma vivente no mar (Ap 16:3) e vê as almas dos que foram degolados pelo testemunho de Jesus reviverem por ocasião da ressurreição dos mortos (Ap 20:4).
Em 1ª Reis 19:4, quando Elias diz “tira a minha alma”, um imortalista poderia interpretar que o profeta estava pedindo a Deus para que tirasse um “fantasminha” de dentro do corpo e o trouxesse à Sua presença. Mas o contexto diz exatamente o contrário – “tirar a alma” significava a morte da alma, e não a sua sobrevivência! O texto diz: “E ele mesmo entrou no ermo, sentou-se debaixo de certo zimbro. E começou a pedir que a sua alma morresse a dizer: ‘Já basta, Senhor, agora tira a minha alma, pois não sou melhor que os meus pais’” (1Rs 19:4). Este é um pequeno exemplo de como devemos tomar cuidado ao interpretar a Bíblia sob as lentes platônicas dualistas, quando os hebreus dos tempos bíblicos tinham uma ótica completamente diferente, mesmo quando usavam terminologias que mais tarde seriam apropriadas pelos platônicos em um sentido distinto.
Até mesmo o único texto usado pelos imortalistas para sustentar a sobrevivência da alma após a morte (Mt 10:28) narra a destruição dela no geena. Não há a menor lógica em dizer que os homens podem matar apenas o corpo e não a alma se Deus também só matasse o corpo e não a alma. A mensagem sobre temer a Deus mais do que temer aos homens só faria sentido caso Deus matasse mais do que os homens são capazes de fazer, isto é, se os homens pudessem dar fim à existência apenas do corpo enquanto Deus dá fim à existência do corpo e da alma. Aqui a destruição está claramente no sentido de aniquilação, e não apenas de “fazer perder” ou de “lançar”, como vertem algumas traduções e como entendem muitos imortalistas. “Alma”, neste texto, está no sentido de vida póstuma (a vida que se obtém com a ressurreição), como muitas vezes ocorre nos evangelhos (Mt.16:26; Lc.21:19; Jo.12:25), e não no sentido primário de um ser vivo (Gn.2:7). O sentido do texto é que os homens podem dar um fim somente a esta vida terrena (representada pelo corpo), mas não podem fazer nada em relação à outra vida (a vida eterna). Deus, contudo, tem o poder tanto para dar um fim à existência terrena, como à eterna. Um ímpio pode matar um crente nesta vida, mas não pode tirar a vida eterna dele. Deus, porém, pode destruir um ímpio nesta vida e por toda a eternidade. Essa é a razão pela qual Lucas, ao incluir este texto em seu evangelho sinóptico, concorda com essa interpretação e sequer usa o vocábulo “alma” no texto (cf. Lc 12:4-5). Enquanto Mateus registra as palavras literais de Jesus, Lucas vai direto ao seu significado, em consonância com o entendimento aniquilacionista do texto.
Este entendimento da alma como uma pessoa que morre ao sair-lhe o fôlego da vida torna possível os muitos textos bíblicos que mostram cristalinamente a inexistência de vida consciente entre a morte e a ressurreição. Por exemplo, Salomão diz que “os mortos não sabem coisa nenhuma” (Ec 9:5), e para aqueles que pensam que ele estava se referindo apenas ao corpo no túmulo ou a esta vida ele complementa, cinco versos depois, que “no além, para onde vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (Ec 9:10). O salmista faz a impressionante confissão de que “mortos não louvam o Senhor, nem os que descem à região do silêncio” (Sl 115:17), e diz que “na morte não há lembrança de ti [Deus]; no Sheol, quem te louvará?” (Sl 6:5). Se depois da morte eles não se lembrariam nem mesmo do próprio Deus, é bastante razoável pensar que eles não estariam com o próprio!
O salmista diz ainda que “se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar do silêncio” (Sl 94:17). Este “lugar do silêncio”, para o qual o salmista diz que a sua alma habitaria (e não apenas o seu corpo), dificilmente seria uma vívida descrição do inferno com seus muitos gritos ou do Céu com seus altos louvores. É, antes disso, uma descrição da sepultura ou do Sheol, a “sepultura coletiva” dos mortos, onde “descansam” até a ressurreição. E que o Sheol não é uma “morada de almas incorpóreas” como apregoam os imortalistas, isso é evidente pelos textos que retratam o Sheol como um lugar onde vão os corpos mortos, ossos (Sl 141:7), defuntos ensanguentados (1Rs 2:9), igualado ao pó da terra (Jó 17:16) e onde “não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (Ec 9:10).
Um dos textos que melhor expressa o sentido mortalista da consciência perecer com o espírito sendo-lhe retirado na morte é o Salmo 146:4, que reza: “Quando o espírito deles se vai, eles voltam ao pó, e naquele dia perecem os seus pensamentos”. Ele não diz que os pensamentos são transportados para uma outra dimensão por supostamente serem uma atribuição da alma que não morre, mas sim que deixam de existir na morte. Talvez o leitor esteja propenso a imaginar este espírito que volta para Deus como sendo uma alma imortal, mas Salomão extingue a possibilidade quando diz que “o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo espírito [ruach, no original hebraico], e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (Ec 3:19-20). O escritor bíblico inspirado não apenas confirma que os animais possuem espírito-ruach tanto quanto os homens, como ainda diz que tem o mesmo espírito, e não espíritos de categoria diferente, como se o de um fosse imortal e o de outro não (o que faria toda a diferença).
É por isso que “entraram na arca de dois a dois de toda carne em que há um espírito vivo” (Gn 7:15, de acordo com o hebraico), e que depois do dilúvio “expirou toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de gado e de fera, e de todo réptil que se roja sobre a terra, e todo homem, tudo o que tinha fôlego de espírito [ruach] de vida em seus narizes, tudo o que havia na terra seca, morreu” (Gn 7:21-22). Como vemos, a saída do fôlego de vida (espírito) implica na morte, e não no ‘teletransporte’ da alma consciente a uma outra dimensão, e é assim que entendemos os textos de Jesus (Lc 23:46) e de Estevão (At 7:59) entregando o espírito (e jamais entregando a alma). É importante destacar que logo após Estêvão entregar o espírito, não é dito que uma alma lhe saiu do corpo e foi direto à presença de Deus antes mesmo da ressurreição, mas sim que “dizendo isso, adormeceu” (v. 60).
Essa linguagem de inexistência de vida inconsciente após a morte antes da ressurreição também é familiar ao Novo Testamento, que diz que “Davi não subiu aos céus” (At 2:34), que os mortos só serão lançados no inferno na consumação deste mundo (Mt 13:40), que o reencontro entre os vivos se dará por ocasião da ressurreição (2Co 4:14), que a salvação do espírito é somente no “dia do Senhor” (1Co 5:5), que os ímpios não estão sendo punidos ainda, mas estão reservados “para o dia do juízo, para serem castigados” (2Pe 2:9), que Deus é “o único que possui a imortalidade” (1Tm 6:16) e que nós humanos devemos buscá-la (Rm 2:7) – porque nem todos a obterão. Paulo ensinou que “da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados. Mas cada um por sua vez: Cristo, o primeiro; depois, quando ele vier, os que lhe pertencem” (1Co 15:22-23). É só na ressurreição que “isso que é corruptível se revestirá de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revestirá de imortalidade” (1Co 15:53).
Para o apóstolo, “se os mortos não ressuscitam, ‘comamos e bebamos, porque amanhã morreremos’” (1Co 15:32). A sugestão de viver de maneira hedonista no caso de não haver a ressurreição se confronta com o ensino de que já estaríamos como almas no Céu antes disso e a despeito disso, e que tudo o que aconteceria se não existisse a ressurreição seria a permanência no Céu do mesmo jeito, embora sem o revestimento de um corpo. Em vez disso, para Paulo a ressurreição era tão importante quanto absolutamente necessária e fundamental: sem ela, “os que dormiram em Cristo já pereceram” (1Co 15:18), e esta presente vida seria a única que desfrutaríamos (1Co 15:19). É, portanto, a ressurreição que tira o homem do estado de “não-vida” para o estado de “vida”, o que explica satisfatoriamente o porquê que sem ela Paulo teria lutado com feras em Éfeso à toa (1Co 15:32). Sem a ressurreição, esta vida seria tudo o que existiria. Não haveria uma “outra” vida.
Foi por isso que Jesus ensinou que “a sua recompensa virá na ressurreição dos justos" (Lc 14:14), e não imediatamente após a morte. Mesmo quando Paulo parece indicar uma vida póstuma antes da ressurreição em 2ª Coríntios 5:8, o contexto desmonta totalmente essa pretensão. Poucos versos antes Paulo disse que “gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida” (v. 4). Paulo já havia sido claro em sua epístola anterior ao dizer que este momento em que “o mortal será absorvido pela vida” é na ressurreição (1Co 15:51-54), que ele chamava de “revestimento” (1Co 15:53-54). Portanto, ao expressar que não queria ser despido, mas sim revestido, o que ele estava dizendo é que seu propósito em morrer não era pela morte em si, e muito menos para estar com Cristo em um estado incorpóreo e “despido”, mas sim porque sabia que ressuscitaria em seguida, onde ele estaria revestido do corpo glorioso da ressurreição.
Ou seja, Paulo desejava morrer porque sabia que isso o levaria à ressurreição onde encontraria a Cristo. Para nós, os vivos, a ressurreição pode parecer demorada, porque estamos sujeitos à passagem do tempo. Mas para quem já voltou ao pó (Gn 3:19), o tempo deixa de contar na sua própria perspectiva. Consequentemente, a ressurreição vem para ele em “um piscar de olhos”, imediatamente, ainda que tenham se passado longos séculos entre os vivos na terra. É isso, e não uma suposta “alma imortal”, que explica o desejo de Paulo em “partir e estar com Cristo” (Fp 1:23), o que se concretiza na ressurreição. Tanto é assim que o salmista era claro ao dizer que só esperava ver a Deus quando despertasse, usando a mesma palavra hebraica para “ressuscitar” (em Dn 12:2): “Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face; quando despertar ficarei satisfeito ao ver a tua semelhança” (Sl 17:15). O salmista não estava dizendo que num belo dia de manhã acordaria de sua cama e de repente veria a Deus, mas sim que veria a Deus quando despertasse dos mortos, o que mostra claramente que é na ressurreição, e não em um “estado intermediário” anterior, que os mortos – inclusive Paulo – verão a Deus.
Cabe destacar ainda que Paulo não disse que receberia a coroa da justiça logo após a morte, mas “naquele dia” – o dia do juízo, que ele mesmo disse que só ocorre na volta de Jesus (1Co 15:23; 2Tm 4:1). Até lá, a coroa lhe estaria “guardada”: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Desde agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda” (2Tm 4:6-8). Ademais, se após a morte vem o juízo (Hb 9:27) – e não o Céu ou o inferno – e a Bíblia é perfeitamente clara ao afirmar que o juízo só ocorre na segunda vinda de Cristo e jamais menciona um juízo anterior a isso ou mais de um juízo, então os mortos não podem estar já no Céu ou no inferno antes mesmo de serem julgados. É por isso que nem mesmo os herois da fé alcançaram a concretização da promessa, mas a alcançarão juntamente conosco, os vivos, na ressurreição da volta de Jesus: “Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (Hb 11:39-40).
Qual era essa promessa, que os herois da fé ainda não obtiveram? A resposta está versos antes: “Todos estes ainda viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-nas de longe e de longe as saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Os que assim falam mostram que estão buscando uma pátria. Se estivessem pensando naquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, pois preparou-lhes uma cidade” (Hb 11:13-16). Ele não apenas confirma que se trata da pátria celestial, como ainda garante que eles “estão buscando uma pátria”, o que mostra que não estão nela ainda. A cidade celestial está preparada a eles por Deus, como um mestre de cerimônias que prepara uma grande festa que ainda está por acontecer. A conclusão só pode ser uma: eles não estão no Céu!
O próprio Senhor Jesus foi enfático a este respeito, quando disse que seus discípulos estariam com ele quando ele voltasse para os levar onde ele está, e não quando as almas individuais de cada discípulo subisse para a presença de Cristo no Céu: “Quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também” (Jo 14:2-3). Essa é a razão pela qual Paulo, ao consolar os tessalonicenses que tinham parentes falecidos, em momento nenhum usa dos clichês modernos dizendo que já estão com Jesus no Céu e por isso não há razão para lamentos, mas os consola inteiramente apenas com a esperança da ressurreição (veja 1ª Tessalonicenses 4:13-18).
Em relação ao estado final dos ímpios, há mais de 150 versículos bíblicos que ensinam que os ímpios serão eliminados (ex: Pv 2:22), destruídos (ex: 2Pe 2:3), arrancados (ex: Pv 2:22), mortos (ex: Jo 8:24), exterminados (ex: Sl 37:9), executados (ex: Lc 19:14,27), devorados (ex: Ap 20:9), se farão em cinzas (ex: 2Pe 2:6), não terão futuro (ex: Sl 37:38), perderão a vida (ex: Lc 9:24), serão consumidos (ex: Sf 1:18), perecerão (ex: Jo 10:28), serão despedaçados (ex: Lc 20:17-18), virarão estrado para os pés dos justos (ex: At 2:34-35), desvanecerão como fumaça (ex: Sl 37:20), terão um fim repentino (ex: Sf 1:18), serão como a palha que o vento leva (ex: Sl 1:4-6), serão como a palha para ser pisada pelos que vencerem (ex: Ml 1:1,3), serão reduzidos ao pó (ex: Sl 9:17), desaparecerão (ex: Sl 73:17-20), deixarão de existir (ex: Sl 104:35), serão apagados (ex: Pv 24:20), serão reduzidos a nada (ex: Is 41:11-12), serão como se nunca tivessem existido (ex: Ob 1:16), serão evaporados (ex: Os 13:3), lhes será tirada a vida (ex: Pv 22:23) e não mais existirão (ex: Sl 104:35). Só no hebraico há dúzias de substantivos diferentes usados para empregar o aniquilacionismo final, contra nenhuma passagem de “tormento eterno”.
Um dos textos que expressa o sentido aniquilacionista é o de 2ª Pedro 2:6, que diz: “Também condenou as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos ímpios”. Se pela simples menção de serem “reduzidos às cinzas” um imortalista poderia interpretar em um sentido “espiritual” ou “alegórico”, Pedro faz questão de traçar uma analogia com as cidades de Sodoma e Gomorra, que foram literalmente reduzidas às cinzas com o fogo que caiu do céu, e não apenas espiritualmente ou de forma alegórica. Pedro poderia ter usado como analogia centenas de coisas que não foram destruídas literalmente mas que foram “arruinadas espiritualmente”, e usá-las como um exemplo do estado final dos ímpios. Em vez disso, fez questão de pegar como exemplo duas cidades que foram literalmente e completamente destruídas pelo fogo que caiu do céu, e ainda disse que acontecerá o mesmo com os ímpios, sendo reduzidos às cinzas da mesma forma. Se Pedro quisesse ser aniquilacionista, dificilmente haveria maneira de ser mais claro e contundente como isso.
É evidente que isso ocorrerá depois de um tempo justo e proporcional onde cada um pagará pelos seus pecados no geena, e não um “pagamento eterno”. O próprio Jesus fez menção a esse tempo finito quando disse que “você não sairá de lá enquanto não pagar o último centavo" (Mt 5:26). Ele não disse que o servo mau não sairia da prisão “nunca”, mas sim “até pagar o último centavo”, o que presume um fim. Em outro texto, Jesus diz que “o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia” (Mt 18:34). Mais uma vez, Cristo não diz que o ímpio ficou sendo atormentado “para sempre”, mas sim até um momento, que é até completar o pagamento da sua “dívida” (neste caso, os pecados cometidos em vida). Tampouco faria sentido um sofrimento infinito por pecados finitos, como Jesus aponta no texto que diz:
“Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, receberá muitos açoites. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito mais será pedido” (Lucas 12:47-48)
Note que nenhum servo leva “infinitos” açoites, ou é açoitado para sempre. Em vez disso, uns levam muitos, e outros poucos açoites. O “pouco”, evidentemente, presume um fim. Ninguém pode levar açoites eternamente, pelos séculos dos séculos, até nunca mais, e mesmo assim se dizer a respeito desse indivíduo que ele levou apenas poucos açoites. Isso seria uma subversão grosseira da lógica. Portanto, o tempo de sofrimento no geena não é o mesmo para todo mundo (“eterno” para Hitler e “eterno” também para o ladrão de frangos), e é finito para ambos.
Em acréscimo, é preciso observar que Mateus 25:46 (o “carro-forte” dos imortalistas na questão do tormento eterno) não ensina um tormento eterno, mas sim uma punição eterna, que é o significado do termo grego kolasin, que muitos léxicos apontam como sendo uma punição no sentido de pena capital ou despedaçamento. Ou seja, Jesus não estava contradizendo a si mesmo, mas apenas traçando o destino eterno do ímpio pecador, cuja punição eterna é a morte eterna, e não um sofrimento eterno. Isso está totalmente de acordo com 2ª Tessalonicenses 1:9, que fala de destruição eterna, e não de tormento ou sofrimento eterno. A punição/destruição eterna é a morte eterna, não um sofrimento sem fim. Ela consiste justamente no fato de que a pessoa destruída nunca mais voltará à existência, porque é para sempre. É isso o que difere o aniquilacionismo cristão do aniquilacionismo dos estoicos, que acreditavam que a pessoa era destruída em um momento, mas depois de uma era voltava à existência novamente (ou seja, uma destruição temporária, enquanto o aniquilacionismo cristão é uma destruição eterna, sem volta).
Semelhantemente, a linguagem de “fogo eterno” significa em toda a Bíblia apenas uma destruição total com efeitos irreversíveis, e não um processo eterno. Por exemplo, Isaías diz que “os ribeiros de Edom se transformarão em piche, e o seu pó, em enxofre; a sua terra se tornará em piche ardente. Nem de noite nem de dia se apagará; subirá para sempre a sua fumaça; de geração em geração será assolada, e para todo o sempre ninguém passará por ela” (Is 34:9-10). A linguagem aqui é ainda mais contundente e enfática que os textos que falam do geena como um local de “fogo eterno”, e, no entanto, não há em Edom um fogo literalmente queimando até hoje. O fogo é eterno pelos efeitos, e não pelo processo.
Há ainda o texto do “bicho que não morre” (Mc 9:48), que é por vezes mal utilizado por imortalistas que ignoram completamente o fato de que isso é uma alusão explícita ao texto de Isaías, que diz que “sairão e verão os cadáveres dos que se rebelaram contra mim; o seu verme não morrerá, e o seu fogo não se apagará, e causarão repugnância a toda a humanidade” (Is 64:24). Como se vê, o verme não está consumindo uma alma imortal e consciente, mas sim um cadáver, o que mostra que aquelas pessoas já estavam mortas (aniquiladas) quando o “verme” ou “bicho” (do grego skolex, que significa “um verme do tipo que depreda cadáveres” – #4663 de Strong) o ataca.
Em síntese, podemos resumir a ótica aniquilacionista assim: (1) Uma “alma vivente” é apenas um “ser vivo”, que morre; (2) Uma alma é “vivente” enquanto animada pelo “fôlego da vida” (espírito). Quando o sopro volta a Deus, torna-se apenas alma morta; (3) Na ressurreição, Deus sopra novamente o espírito em nossas narinas, ressuscitando um corpo glorioso, e voltamos a ser almas viventes; (4) Esse período entre a morte e a ressurreição é um estado inconsciente (sem vida), como os textos bíblicos nos indicam. Não existe vida fora do corpo. O corpo não é uma parte dispensável que se possa viver sem ele, e muito menos a prisão da alma; (5) Após a ressurreição, os justos herdam a vida eterna na nova terra, e os ímpios são castigados por um tempo proporcional aos seus pecados no geena até serem aniquilados (a morte ou destruição eterna), e assim o mal e o pecado serão completamente eliminados para sempre. Então se consumará o que Paulo escreveu: Deus “será tudo em todos” (1Co 15:28), o que ainda não é pelo simples fato de ainda existirem ímpios – os quais continuarão existindo para sempre na visão imortalista.
Talvez você entenda melhor se passarmos isso para a forma de analogia. Pensemos no corpo como um notebook, que só funciona se estiver conectado ao cabo de energia (=espírito). Enquanto há a fusão do cabo com a entrada do notebook, há um computador ligado (=alma vivente). Mas se você tirar o cabo, o computador simplesmente desliga (=morte). Você não pode acessar as informações do notebook sem o cabo, e muito menos só com o cabo sem o notebook, pela mesma razão que não há vida fora do corpo, sem a fusão de espírito e corpo. Mas se você conecta novamente o cabo ao notebook, o computador volta a funcionar (é o que ocorre na ressurreição). O importante a se observar é que não há vida fora do corpo, pois é somente por meio dele que a vida se manifesta, e que o espírito não é uma “alma imortal” pessoal com consciência e personalidade que nem precisa do corpo para viver, mas apenas o fôlego cuja funcionalidade é dar animação (vida) ao corpo.
Não há espaço aqui para lidar adequadamente com cada texto usado pelos imortalistas para o seu ponto – a parábola do rico e Lázaro, a “vírgula” de Lucas 23:43, a “sessão espírita” de Moisés no monte e de Samuel em En-Dor que são refutadas em grande parte pelos próprios teólogos imortalistas, dentre outros textos que extrapolariam o limite de escopo deste artigo se fossem examinados particularmente. Para isso recomendo a leitura do meu livro A Lenda da Imortalidade da Alma e dos apêndices do meu livro Os Pais da Igreja contra a Imortalidade da Alma, ou então simplesmente entre em contato comigo deixando um comentário em qualquer artigo do meu blog pessoal (http://www.lucasbanzoli.com), onde são todos respondidos prontamente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

       Este artigo fez uma comparação entre os argumentos do Imortalismo e do Aniquilacionismo. Imortalistas e Aniquilacionistas concordam com a verdade do Paraíso eterno e os autores têm a esperança de estarem juntos nos Novos Céus e na Nova Terra, quer os ímpios tenham sidos aniquilados da existência, quer ainda continuem existindo sendo atormentados. Cremos que o debate sobre a morte é importante para o Cristianismo e nós dois lamentamos o pouco valor que a Igreja Evangélica Brasileira dá à doutrina da Ressurreição do corpo. Cabe ao leitor orar a Deus e decidir-se pela posição que julgar estar mais em harmonia com as Sagradas Escrituras.

Um comentário:

Luiz disse...

Olá Bruno Queiroz

Boa tarde

Eu entendo que a Bíblia não é clara nesse assunto. Ambos os lados recorrem a Bíblia para fundamentar suas crenças.

Um grande abraço

Luiz