A IGREJA VISÍVEL COMO MÃE DOS FIÉIS

       Ninguém pode ter Deus por Pai se não tiver a Igreja por Mãe. Essa frase pode ser muito mal interpretada se entendida por óculos romanistas, no entanto, quando compreendida de forma correta, ensina uma verdade especial sobre como devemos ver a Igreja, não só a Igreja invisível, mas também a Igreja Visível e organizada. Deus estabeleceu na Terra, não só a Igreja Universal, mas estabeleceu uma organização visível com ministros devidamente ordenados. Essa Igreja é nossa Mãe e pecamos se dela nos afastarmos.

FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO

Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe. Como ninguém se pôde salvar fora da arca de Noé, assim ninguém se salva fora da Igreja.[1]

       Quando dizemos que não se pode ter Deus por Pai fora da Igreja, estamos dizendo que fora da Igreja não há salvação. Tal expressão só é válida absolutamente se referida à Igreja Universal (Católica) e Invisível que reúne todos os crentes de todos os tempos e em todo lugar.
        Quando o ladrão da cruz aceitou a Cristo, ele não foi excluído da Igreja, ao contrário, naquele mesmo dia ele foi recebido na Igreja Triunfante no Céu. Há cristãos que são salvos fora da igreja organizada, mas mesmos esses não ficam fora da Igreja Invisível e serão recebidos na triunfante Igreja no Céu assim que morrerem.
       No entanto, do ponto de vista normativo, ninguém pode querer ter Deus por Pai sem fazer parte de uma igreja local organizada. Todo cristão deve se submeter a uma estrutura eclesiástica, deve se juntar a uma congregação local que preserve pelo menos as doutrinas e práticas básicas do Cristianismo. Viver como um desigrejado é viver em rebeldia contra Deus, se separar da igreja organizada por causa de seus problemas é separar-se de Deus.

BASTA QUE A MÃE SEJA SUFICIENTEMENTE BOA

 A 'mãe' suficientemente boa ... é aquela que efetua uma adaptação ativa às necessidades do bebê, uma adaptação que diminui gradativamente, segundo a crescente capacidade deste em aquilatar o fracasso da adaptação e em tolerar os resultados da frustração.[2]

       Donald Winnicott, um médico que cuidava de crianças, diz que nenhuma mãe é perfeita. Ele dizia que na realidade não era necessário que uma mãe fosse perfeita para que os filhos fossem bem cuidados e se desenvolvessem. Winnicott dizia que uma mãe não precisa ser perfeita, basta que ela seja suficientemente boa.
       É suficiente que uma igreja abrace as doutrinas centrais do Cristianismo (Credo Apostólico), pratique corretamente a disciplina eclesiástica e administre corretamente o batismo e a Santa Ceia. Do mesmo modo que não podemos exigir perfeição de nossa mãe, não podemos exigir mais do que isso para reconhecer como cristã uma igreja.
        Devemos amar nossa mãe, mesmo que ela seja imperfeita e não deixar seu regaço mesmo que ela falhe. O mesmo se diz da Igreja. Desde os tempos apostólicos a igreja foi e é problemática. Em Corinto havia divisões, cultos defeituosos e pessoas em pecado grave; na igreja em Pérgamo, havia hereges e na igreja de Tiatira havia uma falsa profetiza. Os profetas no Antigo Testamento não se apartavam da Igreja Visível, embora denunciassem sua idolatria em tempos de apostasia.
       Sonhar com uma igreja perfeita é utopia. Esperar uma Igreja onde não haja erros no culto, pregadores ruins, pessoas em pecado grave, corrupções, desvios e contendas, é esperar uma igreja que nunca existirá na Terra. A Igreja Militante é uma igreja imperfeita em processo de santificação. A menos que uma igreja organizada abandone as doutrinas básicas da ortodoxia e a correta administração dos sacramentos e da disciplina, estamos proibidos de dela nos apartar.
      Muitos erram por deixarem suas igrejas locais por uma “igreja mais pura’’, sem antes tentar trabalhar para melhorar sua igreja. Outros cristãos falham em não se submeter a sua liderança porque ela erra. Mas somos ensinados a amar nossa igreja com todos os seus defeitos e lutar por ela.
       Também devemos lembrar que a Igreja Visível é composta por pessoas imperfeitas. Existem diferentes tipos de pessoas, lutando com diferentes tipos de pecados em diferentes estágios de santificação. Alguns talvez tenham problemas com pecados sexuais, outros já venceram seus pecados sexuais e outros nunca tiveram problemas nessa área. Talvez alguns sejam fofoqueiros, outros mentirosos, alguns orgulhosos e outros iracundos. A Igreja é lugar de gente imperfeita. Além de cristãos sinceros lutando contra seus pecados, há na Igreja Visível cristãos apenas professos e nominais, alguns um dia se converterão e outros nunca foram, nem serão salvos. Além disso, há igrejas cristãs que são mais ou menos puras que outras igrejas, seja em doutrina, seja na prática.

UMA MÃE QUE DÁ A LUZ

Contudo, uma vez que agora nosso propósito é discorrer acerca da Igreja visível, aprendamos, mesmo do mero título mãe, quão útil, ainda mais, quão necessário nos é seu conhecimento, quando não outro nos é o ingresso à vida, a não ser que ela nos conceba no ventre, a não ser que nos dê à luz, a não ser que nos nutra em seus seios, enfim, sob sua guarda e governo nos retenha, até que, despojados da carne mortal, haveremos de ser semelhantes aos anjos .[3]

        Como nos tornamos membros da Igreja Invisível, Católica e Universal? Tornamos-nos membros da Noiva de Cristo, quando nascemos de novo. Isso acontece por obra exclusiva do Espírito Santo, que nos dá um novo coração. Não importa se não fazemos parte de uma igreja organizada, se fomos regenerados pelo Espírito, somos parte da Igreja Invisível.
       No entanto, Deus deseja que sejamos filhos da Igreja organizada. Deseja que façamos parte da organização visível que Ele estabeleceu na Terra. O meio pelo qual nos tornamos filhos da Igreja Visível chama-se batismo. Por meio do Batismo nos tornamos membros da Igreja Visível. Cremos que Deus não exclui de Sua Igreja Visível as crianças, porque delas é o Reino dos Céus. Se Cristo não nega aos bebês o Céu, não devemos negar a eles o fazer parte de Sua Igreja.
       Ser membro da Igreja Visível não implica necessariamente em salvação. Nem todos que são membros de uma igreja organizada, são filhos de Deus. Por isso, o Batismo não tem poder de salvar, nem todos que são batizados são ou serão salvos. No entanto, o Batismo não é um mero símbolo, ele realmente dá vida à pessoa, ele é um meio de graça. Assim como uma mãe dá a luz a um filho trazendo-o à vida, o batismo torna o catecúmeno filho da Igreja Visível. Não é um mero símbolo, é um nascimento real para fazer parte de um povo real em uma Aliança real com um Deus real.

UMA MÃE QUE NUTRE

Um sacramento é uma santa ordenança instituída por Cristo em sua Igreja, para significar, selar e conferir àqueles que estão no pacto da graça os benefícios da mediação de Cristo; para os fortalecer e lhes aumentar a fé e todas as mais graças, e os obrigar à obediência; para testemunhar e nutrir o seu amor e comunhão uns para com os outros, e para distingui-los dos que estão fora. [4] 

        Qual a mãe que tendo dado luz a um filho, deixa-o morrer de fome? Uma mãe suficientemente boa antes cuidará de amamentá-lo com leite e depois com comida sólida. A Igreja Visível faz isso por meio da pregação fiel das Sagradas Escrituras e por meio do sacramento da eucaristia (Santa Ceia).
          Por meio da pregação da Palavra, que deve ser confiada somente àqueles que têm vocação ao ministério, a Igreja Visível alimenta seus filhos. Deus também incumbiu seus ministros ordenados a alimentarem os fiéis por meio do sacramento da Santa Ceia.
       A Santa Ceia, assim como o Batismo, é mais do que um símbolo, é um meio de graça. Por meio dela, Deus alimenta Seus filhos. Assim como o leite materno nutre e preserva a vitalidade, a Santa Ceia nutre espiritualmente o cristão lhe sustentado a vitalidade de sua alma. O Batismo introduz o cristão à vida na Igreja Visível, a Santa Ceia o preserva vivo.

UMA MÃE QUE DISCIPLINA

 As censuras eclesiásticas são necessárias para chamar e ganhar para Cristo os irmãos ofensores para impedir que outros pratiquem ofensas semelhantes, para purgar o velho fermento que poderia corromper a massa inteira, para vindicar a honra de Cristo e a santa profissão do Evangelho e para evitar a ira de Deus, a qual com justiça poderia cair sobre a Igreja, se ela permitisse que o pacto divino e os seios dele fossem profanados por ofensores notórios e obstinados. [5]

      A mãe que não ama seus filhos não os disciplina, mas a mãe que os ama os disciplina com carinho. A disciplina eclesiástica não é somente um ato para aplacar a Ira de Deus, não é o ato de um Juiz, mas de uma Mãe. É um ato antes de amor do que de justiça, antes de misericórdia do que de ira. Deus é um Juiz Severo para os que estão fora de Sua Igreja, mas um Pai amoroso para os que estão dentro dela. Um Juiz pune com severidade, um Pai corrige com amor. No entanto, quando a disciplina eclesiástica é aplicada contra aqueles que não são verdadeiros cristãos, a Ira de Deus é aplacada.
      Mas devemos lembrar que nossa mãe não é perfeita, mas apenas suficientemente boa. Por vezes ela erra em seu juízo, exagera na correção, em outras, como toda mãe faz, pode dar carinho demais ao filho, não corrigir suficientemente suas falhas e não ser tão rigorosa quanto deveria. Por vezes, também, uma mãe pode corrigir mais um filho do que outro.
     O filho pode se sentir injustiçado quando disciplinado, pode, no momento não entender o porquê a mãe o está corrigindo, pode ser que fique revoltado e ache ter razão. Por vezes, pode até ser verdade que a mãe tenha errado, mas é sábio permanecer submisso a ela, antes que confiarmos que temos melhor condições do que nossa mãe para determinar o que deveria ser feito.
       É sábio como Agar voltar e se humilhar perante Sara, do que fugir dela, mesmo quando Agar havia sido injustiçada. É sábio permanecer em submissão aos ministros que Deus ordenou, mesmo que esses não sejam perfeitos. É sábio entender que acima do nosso juízo subjetivo existe uma estrutura que o próprio Deus instituiu e sob a qual devemos nos submeter.
      Existem casos muito particulares em que a Escritura autoriza não se submeter aos ministros ordenados. É correto não obedecer a homens sempre que a obediência a eles implicar em desobediência a Deus. Cristão algum deve fazer o que é contrário à sua consciência. No entanto, assim como é difícil estabelecer os limites em que é correta a desobediência civil ao Estado, é difícil estabelecer os limites da desobediência eclesiástica legítima. Sempre que possível, é sábio se submeter ao juízo dos ministros, mesmo quando achamos que eles erraram.
      Por vezes, um filho se rebela contra sua mãe. Se tal rebeldia persiste por muito tempo, sua mãe pode ter que ser cada vez mais rigorosa em discipliná-lo. Um longo tempo de rebeldia persistente e grave pode exigir de uma mãe que expulse seu filho de casa até que ele retorne arrependido de sua rebeldia. Assim, é com a Igreja, em casos extremos e particulares, em que um membro impenitente persiste em pecados graves sem demonstrar arrependimento, pode ser preciso que os ministros adotem medidas disciplinares cada vez mais duras. Mas tudo isso deve ser feito em espírito de candura e amor, sempre visando o arrependimento do disciplinado.
         Quando o bom filho a casa torna, ele deve ser recebido com alegria assim como o filho da parábola do filho pródigo. O desejo de uma mãe é reunir seus filhos em seu regaço de amor, e não deixar que nenhum deles se perca, é sarar as feridas que o mundo lhes causou e perdoar-lhes as faltas que ele cometeu. Nada há que um filho de verdade possa ter feito que leve uma mãe suficientemente boa a odiá-lo, não há pecado que um cristão tenha cometido que impeça que ele seja reintegrado à comunhão quando arrependido.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

              Eu vejo minha relação com a igreja organizada como similar à minha relação com minha mãe. Por vezes minha mãe me corrigiu e doeu na hora e só depois fui entender o motivo. Outras vezes, fui um filho rebelde e desobediente. Houve momentos em que achei que era melhor ser independente, não estar mais sob a tutela da mãe. Outras vezes minha mãe pareceu má na maneira como lidou comigo, mas sempre considerei o seio de amor materno o lugar mais aconchegante de se estar. Mãe acolhe como ninguém o faz e ama melhor do que qualquer um pode fazer. Assim é a Igreja Visível e a relação de seus filhos com ela.

***
[1] Cipriano de Cartago. Sobre a Unidade da Igreja, 1.6.
[2] Donald Winnicott. O Brincar e a Realidade, p.24.
[3] João Calvino. Institutas da Religião Cristão. 4.1.4.
[4] Catecismo Maior de Westminster, 162.
[5] Confissão de Fé de Westminster, 30.3.


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