quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

RESPOSTA AO QUESTIONÁRIO ANIQUILACIONISTA DE LUCAS BANZOLI


   
        
       Meu objetivo com este texto é apresentar uma breve e introdutória explicação aos textos supostamente aniquilacionistas citados por Lucas Banzoli em seu “Questionário de Interpretação de Textos”. Quero lembrar que meu objetivo não é propriamente fornecer uma exegese dos textos, mas apenas explicações a título de introdução em resposta aos argumentos do aniquilacionismo banzoliano. Em alguns casos eu apenas copiei e colei refutações que apresento no artigo “Refutando o Aniquilacionismo”:

Texto 1 – “Volta-te, Senhor, e livra-me; salva-me por causa do teu amor leal. Quem morreu não se lembra de ti. Entre os mortos, quem te louvará?” (Salmos 6:4-5)
       Essa declaração faz parte de um lamento que vai do verso  3 ao 7, portanto, o texto, estritamente falando, não está fazendo declarações doutrinárias, mas sim declarações de alguém angustiado. O fato de Davi clamar “Não quero ser morto pelos inimigos, pois quero continuar te louvando” é um clamor de um angustiado, não uma declaração doutrinária sobre estado pós-morte. Pode até ser que “em sua situação de angústia”, Davi entendesse que morreria sem esperança de continuar louvando a Deus (ver também comentários ao Texto 2). Sua oração é uma confissão de pecado, é natural que ele estivesse angustiado e com medo de perecer sem esperança de louvar a Deus (vv.1-3), ele revela temer ser castigado com a ira de Deus (v.1). É obvio que alguém nessa condição, consciente dos seus pecados e temendo a ira divina. não esperava morrer e ser levado ao céu. Qualquer um que lê o livro de Salmos perceberá o perigo de se confundir algumas expressões pessoais de oração com doutrinas completas, não que as declarações sejam falsas, mas sim que elas devem ser entendidas com base no significado que elas têm dentro da oração. Um clamor angustiado numa oração não é o mesmo que um texto sobre doutrina nas epístolas de Paulo. Sobre este verso, Charles Spurgeon comentou:

“Agora Davi está em grande temor de morte – morte temporal, e talvez, morte eterna. Leia a passagem como você desejar; o versículo seguinte está cheio de poder: ‘Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro quem te dará louvor?’ Os cemitérios das igrejas são lugares silenciosos; a abóbada dos sepulcros não ecoam sons. Terra úmida cobre bocas mudas. ‘Ó Senhor?’ diz ele, ‘se tiveres misericórdia de mim eu o louvarei. Se eu morrer, então o meu mortal louvor deverá ser suspenso, e eu perecer no inferno, então tu não terás de mim qualquer gratidão. Melodias de gratidão não podem erguer-se do flamejante fosso do inferno. Na verdade tu, indubitavelmente, serás glorificado, mesmo com minha eterna condenação, mas então, Senhor, eu não poderei glorificar-te voluntariamente; e entre os filhos dos homens, haverá um coração a menos para bendizer-te.’[1]

Texto 2 - “Os mortos não louvam o Senhor, tampouco nenhum dos que descem ao silêncio” (Salmos 115:17)
       A morte é retratada como um “lugar de silêncio” no sentido de que ela faz cessar o louvor a Deus. João Calvino observa sobre textos como esse:

“Nós respondemos que nestas passagens o termo ‘morto’ não é aplicado àqueles que pagaram o comum débito da natureza quando eles partem desta vida: nem é simplesmente dito que os louvores de Deus cessam na morte; mas o significado parcialmente é que ninguém cantará louvores ao Senhor salvo aqueles que sentiram sua bondade e misericórdia; e parcialmente que seu nome não é celebrado depois da morte, porque seus benefícios não são declarados ali entre os homens como na terra.” “O verso, ‘Os mortos não te louvarão’, etc., conclui os louvores do povo, quando dá graças a Deus por ter sido protegido por Suas mãos do perigo. Seu significado é que se o Senhor tivesse permitido que nós fôssemos oprimidos, e cair no poder do inimigo, eles teriam insultado Seu Nome, e se gabariam de ter vencido o Deus de Israel; mas agora, quando o Senhor repeliu e esmagou seu orgulhoso espírito, quando ele nos tem livrado da crueldade deles com mão forte e braço erguido, os Gentios não podem perguntar, ‘Onde está o Deus deles?’ Ele se mostrou ser verdadeiramente o Deus vivo! Nem pode haver qualquer dúvida sobre sua misericórdia, que ele exibiu de forma tão maravilhosa... o significado será que o Senhor não obtém louvores por misericórdia e bondade quando ele aflige, destrói e pune (apesar da punição ser justa), mas então só cria um povo para si mesmo, que canta e celebra os louvores de sua bondade, quando ele livra e restaura as esperanças daqueles que foram aflitos, feridos e em desespero... Eu disse que eles agem erroneamente em concluir, destas passagens, que os santos depois da morte desistem dos louvores de Deus, e que ‘louvores’ pelo contrário significa fazer menção da bondade de Deus, e proclamar seus benefícios entre os outros. As palavras não somente admitem, mas necessariamente requerem este significado. Para anunciar, narrar e fazer conhecido, como um pai a seus filhos, não é meramente ter uma concepção mental da glória Divina, mas celebrá-la com os lábios para que outros possam ouvir.” [2] 

Como também pontua Thomas Tronco:

“Finalmente, o louvor é declarado pelo fato de Deus não tê-los deixado perecer, razão pela qual é possível que eles lhe rendam todo louvor (vv.17,18): ‘Os mortos não exaltam o Senhor, nem aqueles que descem ao lugar de silêncio. Mas nós louvaremos o Senhor de agora até a eternidade. Exaltai ao Senhor!’ (lo’ hammetîm yehallû-yah welo’ kol-yordê dûmâ wa’anahnû nevarek yah me‘attâ we‘ad-‘ôlam hallû-yah). Aqui, o salmista não diz que não há vida após a morte, mas que Deus os preservou de morrer e, por isso, eles o exaltavam e o exaltariam para sempre.”[3]

Texto 3 – “Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, mas a sua memória fica entregue ao esquecimento” (Eclesiastes 9:5)
       Eclesiastes é um livro que descreve como seria a vida sem Deus. Ele diz que tudo seria sem sentido, até trabalhar ou estudar. Em Eclesiastes 9.5-10 Salomão declara que sem Deus nada haveria além desta vida. Na verdade, o texto não diz que com a morte tudo acaba, mas sim que, com a morte não temos mais participação neste mundo ("debaixo do sol"). Depois que morrermos não participaremos mais dos sentimentos, dos trabalhados e das atividades que se fazem na terra.

Texto 4 - “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente” (Gênesis 2:7)
       As expressões “alma” e “espírito” são palavras polissêmicas, podendo se referir a aspectos psicológicos, a princípios vitais, a substância imaterial ou a própria pessoa. É neste último sentido que nephesh é usada nesse texto. Isso não significa que em outras passagens ela não assuma outros significados (veja psyché como elemento substancial e imortal ao lado do corpo, em Mateus 10.28). Para uma avaliação sobre a natureza humana confira meu artigo sobre a antropologia cristã e o problema mente corpo.

Texto 5 – “Se o Senhor não tivesse sido o meu auxílio, já a minha alma estaria habitando no lugar do silêncio” (Salmos 94:17)
Ver explicação sobre o texto 2.

Texto 6 – “O que as suas mãos tiverem que fazer, que o faça com toda a sua força, pois no além, para onde vais, não há atividade alguma e nem planejamento, não há conhecimento e nem sabedoria” (Eclesiastes 9:10)
Ver explicação sobre o Texto 3. Observação: Neste texto, a palavra "além" é Sheol, e pode ser traduzida simplesmente como "sepultura".

Texto 7 – “Quando eles morrem, voltam para o pó da terra, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (Salmos 146:4)
       O verso anterior (v.3) diz “não confiem nos príncipes, nem nos filhos dos homens que não podem trazer salvação". Esse Salmo fala de homens de alta posição que soberbamente pensavam que estavam seguros em sua grandeza. O salmista expressa, em sua oração, que não se deve confiar neles para salvação pois, quando eles morrem seu “espírito” sai - v.4 – e que então, seus pensamentos acabam. Ou seja, suas ideias soberbas chegam ao fim com a morte. Não devemos confiar nos grandes da Terra porque seus desígnios (pensamentos) perecem quando eles morrem, isto é, aquilo que os homens podem nos prometer nesta terra só dura até que eles morram, por isso devemos confiar em Deus, cuja salvação é eterna. Pensamentos, neste texto, portanto, não significa “consciência”, mas “desígnios”, como João Calvino observa:

 “Nós somos admoestados a não colocar confiança nos homens. Confiança deve ser imortal. Seria de outra forma incerta e instável, vendo que a vida do homem passa rapidamente. Para sugerir isto, ele disse que ‘seus pensamentos perecem’, ou seja, que o que quer que eles tenham planejado enquanto vivo é dissipado e dado ao vento.”[4]

Texto 8 – “Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior” (Jó 19:25-27)
       Esse texto é difícil no hebraico (“וּ֝מִבְּשָׂרִ֗י אֶֽחֱזֶ֥ה אֱלֹֽוהַּ”) ele pode se referir tanto à visão beatífica de Deus na eternidade (depois da ressurreição – “em minha carne verei a Deus”) quanto ao estado intermediário (“sem carne verei a Deus” - NVI) ou ainda pode estar tão-somente falando da restauração de sua saúde. Em nenhum desses casos o texto contradiz a doutrina da imortalidade da alma.

Texto 9 – “Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face; quando despertar, ficarei satisfeito em ver a tua semelhança” (Salmos 17:15)
      Se “despertar” for uma referência a ressurreição, o texto fala da visão beatifica de Deus no estado eterno, após a ressurreição, mas nada no texto nega o estado intermediário. A ideia de que o texto fala da ressurreição ou de alguma esperança pós-morte é reforçada pelos versos precedentes que falam do materialismo dos ímpios, cuja esperança se restringe a esta vida (v.14). No entanto, devemos lembrar que afirmar o estado eterno não é negar o estado intermediário. Por outro lado, o texto pode estar simplesmente dizendo que o salmista fica satisfeito ao acordar na presença de Deus. Exigir que “despertar” (quwts), aqui, signifique “ressuscitar”, com base em Daniel 12.2 e Isaías 26.19, é cometer a falácia do parelelismo verbal (presumir que uma mesma palavra tenha o mesmo significado quando os contextos são diferentes e não paralelos).

Texto 10 – “Pois Davi não subiu ao céu, mas ele mesmo declarou: ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita’” (Atos 2:34)
       O contexto relaciona isso com a Ressurreição e Ascenção corpóreas de Jesus e o texto ainda observa que Davi continua no túmulo (v.29), uma alusão ao seu corpo que é parte ontológica de seu ser. Contextualmente, o objetivo do apóstolo é provar que é em Jesus que se cumpre a profecia que diz que seu corpo não sofreria decomposição (v.31), e, portanto, como o corpo de Davi se decompôs e não foi levado ao céu, o Salmo 16 não pode ser uma profecia a respeito de Davi. Assim, o contexto mostra que o texto afirma que Davi não subiu ao céu em corpo.

Texto 11 – “E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa. Provendo Deus alguma coisa melhor a nosso respeito, para que eles sem nós não fossem aperfeiçoados” (Hebreus 11:39-40)
       Ninguém, nem as almas que estão no céu alcançaram ainda a promessa final ou o estado eterno, que é a redenção de toda a criação material (“nova Terra”) e do corpo (“ressurreição”). Seguindo a opinião de Tertuliano, Irineu, Crisóstomo e Agostinho, João Calvino observa que o estado final não nega o estado intermediário. Nos céus, as almas dos santos aguardam o momento no qual serão reunidas ao seu corpo, a criação material será restaurada e o reino de Deus será plenamente estabelecido em toda a sua glória:
“As almas dos santos, então, que escaparam das mãos dos inimigos, estão depois da morte em paz. Eles são amplamente supridos com todas as coisas, pois é dito deles, ‘Eles irão de abundância em abundância’. Mas quando a Jerusalém celestial se levantar em sua glória, e Cristo, o verdadeiro Salomão, o Príncipe da Paz, se sentar em seu tribunal, os verdadeiros israelitas irão reinar com seu Rei. Ou - se você escolher pegar emprestada uma semelhança com as coisas dos homens - nós estamos lutando com o inimigo, enquanto nós tivermos nossa disputa com a carne e sangue; nós conquistamos o inimigo quando nós nos despirmos do corpo do pecado, e nos tornamos totalmente de Deus; nós celebraremos nosso triunfo, e nos deleitaremos dos frutos da vitória, quando nossa cabeça se levantar sobre a morte em brilho, ou seja, quando a morte for derrotada na vitória. Este é nosso alvo, este é nosso objetivo” [5]

Texto  12 - “Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e juntamente com ele, aqueles que nele dormiram. Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem. Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois disso, os que estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre. Consolem-se uns aos outros com estas palavras” (1ª Tessalonicenses 4:13-18)
        Paulo os consolou com a ressurreição e com a promessa escatológica da segunda vinda. Ele destacou aspectos escatológicos finais, não porque não cresse na imortalidade da alma, mas sim porque seu objetivo era corrigir, na mente dos leitores, as ideias erradas que eles tinham sobre a Segunda Vinda. Paulo está corrigindo as heresias escatológicas dos tessalonicenses, o texto precisa ser entendido dentro do propósito do livro. É importante observar também que "dormir" é um eufemismo para falar da morte, não uma descrição da condição dos mortos no estado intermediário. O contexto reforça a ideia de que "os que dormem" estão conscientes na presença de Cristo: "...[Jesus] morreu por nós para que, quer estejamos acordados, quer estejamos dormindo, vivamos em união com ele." (1 Tessalonicenses 5.10).

Texto 13 – “Se foi por meras razões humanas que lutei com feras em Éfeso, que ganhei com isso? Se os mortos não ressuscitam, ‘comamos e bebamos, porque amanhã morreremos’” (1ª Coríntios 15:32-32)
       No capítulo 15, Paulo está se opondo a ideia gnóstica de que a matéria é má e que por isso a ressurreição não existiria. Paulo diz aos coríntios que a implicação lógica disso seria a negação da ressurreição de Cristo. Ele então liga a ressurreição a todo plano de salvação, de modo que negá-la tem como implicação negar a salvação. O objetivo da ressurreição é redimir o corpo. As almas dos salvos que morreram estão justamente aguardando a redenção de seus corpos. A ressurreição é profundamente importante. Paulo argumenta que se não houvesse ressurreição, não haveria redenção alguma: “também Cristo não ressuscitou” (1 Coríntios 15.13-14), o que tornaria nossa existência neste mundo totalmente sem sentido (1 Coríntios 15.29-34). A ressurreição é essencial para o processo de regeneração, justificação e glorificação (Romanos 4.25; 5.10; 6 4-9; 8.11; 1 Coríntios 6.14; 15.20-22; 2 Coríntios 4.10-14; Efésios 1.20; Filipenses 3.10; Colossenses 2.12; 1 Tessalonissenses 4.14; 1 Pedro 1.3). Sem ressurreição, não há redenção. As almas não poderiam nem mesmo gozar de um estado intermediário no céu sem a redenção, a regeneração, a justificação e a esperança da glorificação. Portanto, é um mito achar que crer no estado intermediário consciente das almas signifique negligenciar a verdade da ressurreição, ao contrário, o estado intermediário depende da ressurreição. João Calvino observou:
 “...nós somos mais miseráveis que todos os homens se não há Ressurreição, porque, apesar de nós sermos felizes antes da Ressurreição, nós não somos felizes sem a Ressurreição. Pois nós dizemos que os espíritos dos santos são felizes no que eles descansam na esperança de uma bendita Ressurreição, o que eles não poderiam ter, se toda esta bênção perecesse. Verdade há na declaração de Paulo que nós somos mais miseráveis que todos os homens se não houver Ressurreição, e não há repugnância destas palavras ao dogma que os espíritos dos justos são benditos antes da Ressurreição, já que é por causa da Ressurreição.” [6]

Texto 14 – “A qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, e único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores; ao único que possui a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém” (1ª Timóteo 6:15-16)
       O texto mostra que Deus é o único que possui imortalidade inerente, todos os outros seres que não morrerão recebem a imortalidade como dom de Deus. É importante colocar que “existência eterna” não é o mesmo que “vida eterna”, pois a existência continuada no inferno não pode ser chamada corretamente de “vida”. Desse modo, somente os salvos recebem de Deus o dom da imortalidade, mas só Deus possui “vida em si mesmo”, imortalidade inerente e não imortalidade doada (João 5.26).

Texto 15. “Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade” (Romanos 2:7)
       Novamente, imortalidade é um dom somente para os salvos, que será consumado na ressurreição glorificada, em que todo o ser (corpo e alma) não estará mais sujeitos à morte. Os ímpios terão existência continuada, mas não imortalidade ou vida eterna.

Texto 16. “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2ª Timóteo 4:7-8)
       Em certo sentido, é verdade que os salvos só estarão no céu após a segunda vinda de Cristo. Se “céu” for entendido como o estado final em que todas as coisas, corpo, alma e criação, já estarão restaurados, de fato, estaremos lá só quando Cristo vier segunda vez. No entanto, não se deve confundir a expressão “céu” em referência ao estado intermediário e a expressão “céu” em referência ao estado eterno. Do mesmo modo que não se pode confundir a ideia de inferno intermediário (Hades) com a de inferno eterno (Geena). O “céu” no qual as almas estão sem corpo, é provisório, o estado final em que os santos viverão eternamente em alma e corpo numa terra renovada é eterno. Essa é a coroa final.

Texto 17“Porque sabemos que aquele que ressuscitou ao Senhor Jesus dentre os mortos, também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará com vocês” (2ª Coríntios 4:14)
       Paulo simplesmente diz que, na ressurreição, Deus apresentará os salvos juntos.  O encontro dos salvos no estado final não anula seu encontro provisório no estado intermediário.

Texto 18“Houve mulheres que, pela ressurreição, tiveram de volta os seus mortos. Alguns foram torturados e recusaram ser libertados, para poderem alcançar uma ressurreição superior” (Hebreus 11:35)
Ver comentário ao texto 13.

Texto 19. “Mas, quando der um banquete, convide os pobres, os aleijados, os mancos, e os cegos. Feliz será você, porque estes não têm como retribuir. A sua recompensa virá na ressurreição dos justos" (Lucas 14:13-14)
      Novamente, o estado intermediário não é a recompensa final, ele é provisório e incompleto. A recompensa final, com a redenção plena inclusive do universo e corpos materiais, só se dará com a ressurreição.

Texto 20. “Todos estes ainda viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-nas de longe e de longe as saudaram, reconhecendo que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Os que assim falam mostram que estão buscando uma pátria. Se estivessem pensando naquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, pois preparou-lhes uma cidade” (Hebreus 11:13-16)
       Ver comentário ao texto 11. João Calvino também observou: “Aqui nossos oponentes argumentam como se segue: ‘Se eles desejam uma pátria celestial, eles não a possuem ainda.’ Nós, pelo contrário argumentamos que se eles desejam, eles devem existir, pois não pode haver desejo sem um sujeito onde ele reside.” [7] O argumento de Calvino é confirmado no grego em que o verbo “ὀρέγω” é usado no presente do indicativo: “Mas agora desejam uma melhor, isto é, a celestial” (v.16)

Texto 21. “Aquele servo que conhece a vontade de seu senhor e não prepara o que ele deseja, nem o realiza, receberá muitos açoites. Mas aquele que não a conhece e pratica coisas merecedoras de castigo, receberá poucos açoites” (Lucas 12:47-48)
       A Bíblia também diz que haverá, em algum sentido, gradação de recompensas no céu sem que isso negue a eternidade da bem-aventurança dos eleitos (1 Coríntios 3.8), portanto, é perfeitamente possível que haja gradação de castigos no inferno sem que isso negue a sua eternidade. Nesse caso, a diferença estaria na intensidade da percepção subjetiva do castigo e não na duração objetiva do castigo.

Texto 22. “Também condenou as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos ímpios” (2ª Pedro 2:6-6)
       É importante notar que "destruir" e "aniquilar" são coisas distintas. Por exemplo, quando o fogo destrói algo, esse algo deixa de ser o que ele era e se torna cinzas, mas não deixa de existir.  Ele continua existindo como cinzas. Na aniquilação as coisas deixam de existir. O texto fala de “destruição”, não de “aniquilação”. Aqui vale colocar o que C. S. Lewis escreveu sobre a destruição no inferno:

“O que pode ser então aquilo de que três imagens são símbolo? A destruição, podemos, naturalmente presumir, significa a eliminação ou aniquilação dos destruídos. E as pessoas falam com frequência como se ‘aniquilação’ de uma alma fosse possível. Em nossa experiência, porém, a destruição de uma coisa significa a emergência de outra. Queime um pedaço de madeira e terá gases, calor e cinzas. Ter sido um pedaço de madeira significa agora ser essas três coisas. Se a alma pode ser destruída, não haverá um estado de ter sido uma alma humana? E não é esse, talvez, o estado que é  igualmente bem descrito como tormento, destruição e privação? Você estará lembrado de que, na parábola, os salvos vão para um lugar preparado para eles, enquanto os perdidos vão para um lugar que não foi absolutamente feito para homens. (Mt 25:34,41) Entrar no céu é tornar-se mais humano do que jamais alguém o foi na terra; entrar no inferno é ser banido da humanidade. O que é lançado (ou se lança) no inferno não é um homem: são 'refugos'. Ser um homem completo significa ter as paixões obedientes à vontade e essa vontade oferecida a Deus: ter sido um homem – ser um ex-homem ou um 'fantasma perdido' - iria presumivelmente significar consistir de uma vontade completamente voltada para o Eu e paixões não controladas pela vontade. Torna-se, naturalmente, impossível imaginar com o que a consciência de tal criatura – já então um agregado indefinido de pecados mutuamente antagônicos em lugar de um pecador - poderia comparar-se. Pode haver grande parte de verdade no ditado: 'o inferno é  inferno, não de seu próprio ponto de vista, mas do ponto de vista celestial'. Não acredito que isto interprete mal a severidade das palavras  de Nosso Senhor. Somente aos condenados é que seu destino poderia parecer menos do que insuportável.  E deve ser admitido que, nestes últimos capítulos, à medida que pensamos na eternidade, as categorias de dor e prazer, que nos prenderam por tanto tempo, começam a retroceder, enquanto bens e males mais vastos surgem no horizonte. Nem a dor nem o prazer como tais têm a última palavra. Mesmo se fosse possível que a experiência (se pode ser chamada assim) dos perdidos não contivesse dor mas muito prazer; ainda assim, esse prazer negro seria de um tipo tal que faria qualquer alma, ainda não condenada, voar para as suas orações num terror de pesadelo: mesmo que houvesse sofrimentos no céu, todos os que têm entendimento os desejariam.”[8]


Observações: Eu já fui aniquilacionista por um tempo, inclusive leitor de livros e artigos de Lucas Banzoli, no entanto, alguns motivos foram suficientes para eu abandonar o aniquilacionismo, tais como (i) inconsistências exegéticas: a maior parte dos argumentos bíblicos aniquilacionistas são baseados em paralelismo verbais,  prescrições semânticas falaciososas e citações prolixas de passagens descontextualizadas, além de sua falha em fornecer interpretações satisfatórias para passagens obviamente imortalistas. (ii) inconsistências teológicas: o aniquilacionismo é inconsistente com a doutrina ortodoxa da união hipostática de Cristo, podendo desembocar em uma espécie de apolinarianismo, é difícil, também explicar o "estado intermediário" de Jesus, um aniquilacionista consistente teria de dizer que Jesus deixou de ser homem por um tempo ou algo assim, além do aniquilacionismo ser inconsistente com um conceito sadio de justiça divina e com a doutrina da expiação, visto que não há como mudar de crença sobre qual é a punição do pecado sem que isso afete outros aspectos importantes da Teologia Cristã. (iii) inconsistências filosóficas: a antropologia holista desemboca nos mesmos problemas do materialismo e há problemas filosóficos com a ideia de aniquilação como punição. Mas não dá para tratar aqui de todos esses problemas, pois fugiria do escopo do artigo. Sou grato a Deus por ter me livrado da heresia aniquilacionista.


FONTES:
[2] João Calvino. Psychopannychia, pp.80, 83, 84
[4] João Calvino. Psychopannychia, p.74.
[5] João Calvino. Psychopannychia, pp. 65-66.
[6] João Calvino. Psychopannychia, p.71.
[7] João Calvino. Psychopannychia, p.71.



Nenhum comentário: