quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

REFLEXÕES EXISTENCIAIS SOBRE A ANGÚSTIA

"Quando não podemos mais mudar uma situação,
 somos desafiados a mudar a nós mesmos."
 - Viktor Frankl

       Algumas questões na vida parecem sem significado, e ficamos assustados e confusos diante delas. Podemos definir significado como as interpretações que fazemos dos fenômenos existenciais a partir de uma Weltanschauung. A Cosmovisão cristã (Christliche Weltanschauung) é a única que fornece os elementos corretos para elaborar uma interpretação correta das coisas, por isso, em sofrimento, devemos recorrer à interpretação que as Escrituras fornecem sobre o mesmo.


A LINGUAGEM VAZIA DE SIGNIFICADO

       Iniciemos por Isaías 22.7-13:

“Os vales mais férteis de Judá ficaram cheios de carros, e cavaleiros tomaram posição junto às portas das cidades; Judá ficou sem defesas. Naquele dia vocês olharam para as armas do palácio da Floresta e viram que a cidade de Davi tinha muitas brechas em seus muros. Vocês armazenaram água no açude inferior, contaram as casas de Jerusalém e derrubaram algumas para fortalecer os muros. Vocês construíram um reservatório entre os dois muros para a água do açude velho, mas não olharam para aquele que fez estas coisas, nem deram atenção àquele que há muito as planejou. Naquele dia o Soberano, o Senhor dos Exércitos, os chamou para que chorassem e pranteassem, arrancassem os seus cabelos e usassem vestes de lamento. Mas, ao contrário, houve júbilo e alegria, abate de gado e matança de ovelhas, muita carne e muito vinho! E vocês diziam: ‘Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos’".

        Vemos que Judá, diante da turbulência, buscou com diversos esforços lutar contra a mesma. Sim, fizeram tudo, menos o que deviam - buscar a Deus. O resultado foi a desesperança "Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos". De fato, a angústia nos confunde muito, justamente, talvez, por sua marca ser aquilo que nenhuma palavra pode abarcar.
       A linguagem da angústia é o silêncio. Nesse sentido, vale considerar o pensamento do fenomenólogo existencial Martin Heidegger, segundo o qual, a angústia (angst) é a condição que emerge da experiência de rompimento da trama semântica do mundo. Ela é a disposição afetiva da indeterminação de nós mesmos e da realidade colocada pelo rompimento com o mundo, a suspensão (epokhé) do mundo e dos significados a ele doados e a percepção da incerteza da existência a partir da perspectiva humana. A angústia é a condição de desalojamento existencial que emerge de uma ruptura do mundo semântico. A angústia surge quando o mundo e as nossas vivências perdem o significado, daí dizemos "Meu mundo caiu".
       Existem duas formas de lidar com "o sofrimento de uma vida sem sentido", para usar o título de um livro do logoterapeuta Viktor Frankl (as frases dele citadas neste artigo foram extraídas desse livro). Podemos nos paralisar e ficar presos e desalojados do mundo, ou podemos aproveitar a angústia para romper com um modo impróprio de existir e construir um novo significado para a existência, uma apropriação da nossa condição de ser. Quando o mundo ilusório que construímos perde o significado, é que podemos encontrar o verdadeiro significado da vida. Geralmente, o desejo de se matar expressa, na verdade, o desejo de matar a vida inautêntica ou o mundo impróprio no qual se vive (Beisichselbstsein). O suicídio impõe o fim das possibilidades existenciais, mas a mente atenta aproveita as possibilidades que se abrem ante a ruptura com o seu modo impróprio de viver.
       Mas são necessárias algumas observações sobre essa elaboração de uma nova trama significativa autêntica a partir do rompimento com o mundo impróprio. Não devemos pensar como poderia imaginar um seguidor de Sartre, que esse significado é criado arbitrariamente pelo homem. Também não podemos pensar que esse significado está em uma hermenêutica subjetiva-etimológica a la Heidegger. Também não quero apoiar as ideias de uma teologia existencialista que rompe com a ortodoxia conservadora, como em Rudolf Bultmann e Paul Tillich. A vida autêntica cristã está fundamentada em fatos existenciais reais, históricos e objetivos, como a morte e ressurreição de Cristo, e não em símbolos mitológicos. Assim, o significado da existência não pode ser separado da Heilsgeschichte, isto é, dos atos salvíficos de Deus na História, no tempo e no espaço literais. 
       Assim, o significado existencial, já está dado. Ele é doado pela Consciência absoluta, isto é, Deus. Ao nos depararmos com a angústia, devemos romper com a nossa vida imprópria e nos apropriar de uma vida autêntica (eigentlich), cujo significado existencial está na união mística com Cristo Jesus. Quando o homem faz de si mesmo o criador do seu significado existencial, ele está vivendo na impropriedade.

O SENTIDO EXISTENCIAL É CRISTOLÓGICO

       Falta, agora, uma interrogação acerca do sentido. Enquanto o significado (Bedeutung) é a interpretação existencial dos fenômenos do mundo, o sentido (Sinn)  diz respeito a direção (Richtung) de nossa trajetória existencial. É verdade que na angústia há uma ruptura com o significado, mas não há com o sentido. Pode parecer que a angústia é sem sentido, apenas quando nos esquecemos de Cristo. Assim, como toda seta aponta para um sentido, todos os eventos do Universo tem um sentido teleológico que se direciona a Cristo. É por isso que, de acordo com Guilherme de Carvalho, o Universo é um sorriso de Deus Pai para o Filho, de modo que as coisas só fazem sentido em Cristo. O mundo foi criado pelo Pai para a glória de Deus Filho, manifestando o amor intertrinitário. A criação tem como origem e fim a Trindade. Somente numa Cosmovisão Trinitária (Trinitarischen Weltanschauung) é possível compreender o sentido existencial de nossa trajetória.
       O apóstolo Paulo expressa isso assim: "Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente." (Romanos 11:36). A angústia faz parte do plano de Deus para nós, as palavras do apóstolo dos gentios são fortalecedoras: "E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito." (Romanos 8:28). Agora que a trama significativa que nos aprisionava foi rompida, é necessário um redirecionamento existencial rumo ao nosso sentido teleológico: "...uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus." -Filipenses 3.13-14.
       O sentido de uma coisa precisa estar além dessa coisa, pois a flecha não pode ser seu próprio alvo. É por isso que o sentido do Universo está além do Universo. Como disse Viktor Frankl:

"Tomemos o exemplo de um macaco em que se aplicam injeções dolorosas com o intuito de obter um soro capaz de curar numerosas doenças. O macaco pode compreender por que tem de sofrer? A partir do seu ambiente ele é incapaz de compreender as intenções do homem empregadas em seus experimentos, uma vez que o mundo humano lhe é inacessível. Ele não alcança esse mundo, não consegue penetrar em sua dimensão; não podemos então supor que o mundo humano é também, por seu turno, superado por outro mundo, que, por sua vez, não é acessível ao homem, um mundo, cujo suprassentido, é o único capaz de dar sentido à sua dor?" 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Podemos finalizar nossas reflexões com uma passagem bíblica:

“Amados, não se surpreendam com o fogo que surge entre vocês para os provar, como se algo estranho lhes estivesse acontecendo. Mas alegrem-se à medida que participam dos sofrimentos de Cristo, para que também, quando a sua glória for revelada, vocês exultem com grande alegria. Se vocês são insultados por causa do nome de Cristo, felizes são vocês, pois o Espírito da glória, o Espírito de Deus, repousa sobre vocês. Se algum de vocês sofre, que não seja como assassino, ladrão, criminoso ou como quem se intromete em negócios alheios. Contudo, se sofre como cristão, não se envergonhe, mas glorifique a Deus por meio desse nome. Pois chegou a hora de começar o julgamento pela casa de Deus; e, se começa primeiro conosco, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus? E, ‘se ao justo é difícil ser salvo, que será do ímpio e pecador?’ Por isso mesmo, aqueles que sofrem de acordo com a vontade de Deus devem confiar suas vidas ao seu fiel Criador e praticar o bem.” - 1 Pedro 4.12-19

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