domingo, 1 de janeiro de 2017

OBSERVAÇÕES AO "COMENTÁRIO SOBRE 'UM ENSAIO ANALÍTICO SOBRE O MOLINISMO'"

                 O site “Soberania e Salvação”[1] fez algumas observações sobre meu artigo “Ensaio Analítico Sobre o Molinismo”[2] . Como o molinismo não é um tema que eu tenho muito estudo e por isso fiz somente um ensaio para futuras avaliações, os comentários foram de grande relevância para mim.
       Desse modo, sou profundamente grato às observações do “Salvação e Soberania”. Embora não seja minha pretensão refutar o molinismo, mas apenas apresentar um ensaio para futura avaliações, acho importante fazer apontamentos sobre dois comentários:

1.      Esse é o primeiro ponto a ser discutido. Dificilmente um Molinista afirmaria que a providência divina depende de alguma coisa. O que o Molinismo afirma é que Deus escolheu exercer sua providência através de sua Onisciência.”

       Na verdade, a única coisa que pretendo com essa afirmação é dizer que a escolha de Deus sobre o mundo que Ele trará a existência e controlará seus eventos por Sua Providência, é baseada no conhecimento médio de Deus sobre as ações livres de suas criaturas em diferentes circunstâncias (conforme Molina: “Logicamente antes do decreto divino de criar um mundo, Deus possuía não apenas conhecimento de tudo o que poderia acontecer (conhecimento natural), mas também de tudo o que iria acontecer em qualquer conjunto apropriadamente específico de circunstâncias (conhecimento médio)[…] Deus, então decretar criar certas criaturas livres em certas circunstâncias e, assim, baseado em seu conhecimento médio e no conhecimento de seu próprio decreto – ou seja, se decreto de criar o mundo –, Deus tem presciência de tudo o que acontecerá (conhecimento livre).” [3] ) e que, a meu ver, isso implica numa dependência da Providência em relação a um conhecimento dependente. Parece-me que James Anderson está correto ao avaliar que "O princípio que define o Molinismo é a afirmação de que Deus possui o chamado conhecimento médio e de que Ele baseia Seu eterno decreto nesse conhecimento prévio."[4] Na Teologia tradicional, os condicionantes futuros já fazem parte do conhecimento necessário de Deus, conforme Herman Bavinck: "Uma coisa sempre pertence a uma área ou a outra. se ela é somente uma possibilidade e nunca será realizada, ela é objeto do conhecimento ‘necessário’ de Deus e se, um dia, ela realmente será realizada, ela é conteúdo de seu conhecimento ‘livre’. Não há um terreno médio entre os dois, não há conhecimento ‘médio’."[5] No final das contas, ainda que um molinista dificilmente diga que a Providência divina depende de Sua Onisciência, a questão colocada é se essa visão consegue fugir do problema da “independência ontológica” apontado pelo artigo. Embora o comentarista tente afirmar que o conhecimento médio não é dependente porque existe na mente  de Deus, o problema da independência ontológica ainda permanece nesta declaração: "...ele [o conhecimento médio] se baseia em duas coisas: (1) Nas criaturas livres e; (2) Nas situações onde elas se encontram." Como disse François Turretini:


“Se todos os atos de vontade criada estão sob a providência divina, de modo que nenhum deles é independente e indeterminado, não se pode admitir um conhecimento indeterminado (que se supõe ter por objeto a livre determinação da vontade, não dependendo de nenhuma causa superior). Ora, que há tal sujeição da vontade criada é evidente à luz da dependência entre a causa primária e as causas secundárias, entre o Criador e as criaturas. Nem seria suficiente, para evitar essa dependência, dizer que ela é criada, e sua liberdade dada por Deus, pois não cessaria de ser esse o princípio de sua determinação se seus atos não dependessem de algum decreto. Não seria deveras o primeiro a existir, mas ainda serio o operador primário (nem de modo algum a causa secundária, mas a primária, porque, se dependesse de Deus no ser, não dependeria dele na operação).” 
       “Nada houve desde a eternidade que pudesse ser a causa da determinação de uma coisa indiferente a não ser a vontade de Deus; não sua essência ou seu conhecimento, pois nenhum deles pode operar ad extra separadamente da vontade. Portanto assim como nenhum efeito pode ser entendido como futuro (absolutamente ou hipoteticamente  sem o decreto divino (porque nenhuma criatura pode estar no mundo sem a causalidade divina), nenhuma coisa condicional futura pode ser conhecível antes do decreto.”
       “Esse conhecimento intermediário elimina o domínio de Deus sobre os atos livres, porque, segundo ele, supõe-se que os atos da vontade são anteriores ao decreto, e por isso têm sua futurição, não em Deus mas em si próprios. Aliás, Deus parece antes depender da criatura, não podendo decretar ou dispor nada, a não ser que uma determinação da vontade humana postule o que Deus veria em tal conexão das coisas.” [6]

2.      “As objeções que seguem no artigo se baseiam, principalmente, no conceito de ‘Simplicidade Divina’. Qualquer molinista poderia evitá-las por completo ao dizer simplesmente que rejeita o conceito de 'simplicidade divina'. De fato, eu mesmo rejeito qualquer noção do tipo pois, primeiramente ela não tem evidência bíblica, segundo pois ela apresenta uma série de problemas filosóficos extremamente difíceis de serem conciliados com crenças básicas do cristianismo. A própria noção de ‘Deus Triuno’ é um forte argumento contra a ‘simplicidade divina’.“O argumento parece reduzir a simplicidade divina a uma ‘ausência de matéria’ quando na verdade o argumento para a simplicidade é baseado em uma noção de indivisibilidade de Deus, ou seja, Deus não pode ser dividido (de acordo com esse pensamento) em partes diferentes de si mesmo.”

       Sobre essa questão, tenho em mente especialmente a indivisibilidade da essência (e não só a ausência de matéria), quero lembrar ao comentarista deste trecho do artigo: “Essa identidade faz com que todos os atributos possam qualificar um ao outro, visto que eles não são ‘partes’ que formam um conjunto de propriedades, mas são designações que se referem a uma e a mesma essência indivisível da deidade.”. A noção de simplicidade de Deus não contradiz a Trindade (que afirma uma diversidade de pessoalidades na unidade indivisível da essência, e não uma composição de partes na natureza divina), nem contradiz as Escrituras que afirmam claramente a unidade da essência divina (Deuteronômio 6.4; 1 Timóteo 2.5; Marcos12.32; 2 Samuel 7.22; Romanos3.30; Tiago 2.19), bem como sua imaterialidade (Deuteronômio 4.12; João 4.24; 1 Timóteo 1.17). Embora eu tenha apresentado um argumento tomista baseado na ideia de ato/potência para a simplicidade de Deus (que o comentarista, sabe se lá o porquê, acha que o argumento só trata de ausência de matéria), essa é a posição histórica da Igreja, não apenas uma perspectiva tomista: “Agostinho (“Pois Deus é o Ser Absoluto”, “Esta Trindade é indivisível”), Tomás de Aquino (“Deus…deve ser puro ato”), Irineu (“Ele é um Ser simples, não-composto, sem membros diversos”), Clemente de Alexandria (“Pois o Um é indivisível’), Orígenes (‘Deus… é uma natureza intelectual não-composta’), Apolinário (‘o espírito divino… é um, de forma simples, substância simples, indivisível’), Gregório de Nazianzeno (‘natureza primeira e não – composta’), Gregório de Nissa (‘livre de toda natureza composta’), Anselmo (‘A Natureza de Deus de forma alguma é composta’), Calvino (“Deus se entende uma essência única e simples’).” “O concílio de Lateranense IV diz que a Trindade é ‘uma só essência, uma só substância ou natureza absolutamente simples’. A Confissão de Fé de Westiminster declara que a Trindade é ‘uma mesma substância, poder e eternidade’. A Confissão Belga também afirma: ‘cremos em um só Deus, que é um único ser’. ‘Deus (não) está dividido em três’.” [7]  Também não há contradição entre a doutrina da união hipostática e a simplicidade da essência divina, pois a única pessoa de Cristo teve adicionado à natureza divina simples, a natureza humana composta, mas sem quaisquer alterações na natureza divina, que é simples. Isso porque, embora inseparáveis, elas permanecem distintas, O  próprio Alvin Plantinga (molinista) respondendo o argumento da improbabilidade de Dawkins, observou que:

“Primeiro, Deus é complexo? De acordo com muitos teólogos clássicos (Tomás de Aquino, por exemplo) Deus é simples, e simples num sentido forte, nele não há distinção entre matéria e substância, atualidade e potencialidade, essência e existência. Alguns pontos da discussão da simplicidade divina são bastante complicados, para não dizer misteriosos. (Não é apenas a teologia católica que diz que Deus é simples, de acordo com a confissão Belga, uma expressão esplendida do Cristianismo Reformado, Deus é ‘um simples e singular ser espiritual.’) Então primeiro, de acordo com a teologia clássica, Deus é simples, não complexo. Mais notável, talvez, é que de acordo com a própria definição de complexidade de Dawkins, Deus não é complexo. De acordo com sua definição (afirmada em O Relojoeiro Cego), algo é complexo se tiver partes colocadas de tal forma que não parecem ter chegado a tal ponto por puro acaso.’ Mas é claro, Deus é um espírito, não um objeto material, e por isso não tem partes. A fortiori (como os filósofos gostam de dizer) Deus não tem partes arranjadas de forma que parecem ter surgido por puro acaso. Logo, pela definição de complexidade de Dawkins, Deus não é complexo.
Então primeiro, não é nada óbvio que Deus é complexo.” [8]

     O texto argumenta ainda que isso é um mero jogo de palavras, ao tentar sugerir que uma soteriologia universalista poderia de algum modo ser deduzida da ideia simplicidade de Deus defendida no meu artigo. É verdade que Deus é Infinita Misericórdia (a Bíblia afirma isso explicitamente: Lamentações 3.22), mas também Deus é Infinita Justiça, por isso não se segue universalismo da simplicidade de Deus. A simplicidade de Deus significa que em Deus a essência é a existência, de modo que Deus propriamente dizendo não tem atributos, Ele É. O próprio artigo parece admitir isso mais adiante:

“De fato, Molinistas como Craig negam a própria existência real de propriedades, reduzindo a questão de 'propriedades' a uma mera questão linguística. É como falar que o formato redondo é uma propriedade da bola, ou que o Hemisfério Norte fica no Norte. São divisões que fazemos meramente em nossas cabeças de forma a ordenar o pensamento sobre algo. Não existe algo como um hemisfério norte real, esse é somente uma definição que damos a uma porção arbitrária do planeta Terra. Nesse mesmo raciocínio, falar que onisciência é uma propriedade de Deus não é afirmar que a onisciência possa existir antes ou depois, ou independente, de qualquer outro atributo divino.”

       A fé na simplicidade de Deus é essencial para qualquer visão ortodoxa dos atributos de Deus. Deus só pode ser Infinito, se for simples, pois um ser de infinitas partes é logicamente impossível, já que não se pode tirar nem acrescentar partes ao infinito. A eternidade de Deus só faz sentido se Deus for simples, pois um ser complexo pode ser decomposto. A asseidade de Deus também exige Sua simplicidade, pois os seres compostos dependem logicamente de uma causa simples que sustente suas existências contingentes. Também, o fato de Deus ser necessário e independente requer a simplicidade da essência divina, pois em um ser complexo, o todo é ontologicamente dependente de suas partes. Pelo jeito o molinismo não só tem consequências sérias em termos de metafísica e soteriologia, mas também de teontologia. O molinismo compromete os atributos de Deus ao priorizar uma noção indeterminista de liberdade do homem. Alguns molinistas parecem flertar com conceitos estranhos a Teologia histórica e conservadora.[9]

       Como o texto é um "ensaio", minha pretensão é apenas sistematizar elementos iniciais e não fornecer uma análise exaustiva, nem mesmo conclusiva ou satisfatória do molinismo. Nesse sentido, é verdade que alguns aspectos do artigo ainda precisam ser mais bem desenvolvidos, trabalhados e aperfeiçoados e por isso agradeço ao comentarista pela colaboração.

*ARTIGO ORIGINAL (atualizado): http://brunosunkey.blogspot.com.br/2016/12/um-ensaio-analitico-do-molinismo_30.html

*COMENTÁRIOS DO SALVAÇÃO E SOBERANIA: https://molinismo.wordpress.com/2016/12/31/comentario-sobre-um-ensaio-analitico-sobre-o-molinismo-de-bruno-queiroz/

FONTES:

[7] A maior parte das citações foram tiradas de Teologia Sistemática Vol 1 – Norman Geisler, CPAD, 2015 Confira: http://brunosunkey.blogspot.com.br/2015/12/a-unidade-absolutamente-simples-da.html, nesse link ainda mostro como essa concepção está em harmonia com a noção do Deus Triúno.

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