sexta-feira, 22 de abril de 2016

MASTURBAÇÃO - CONSIDERAÇÕES MORAIS, BÍBLICAS E REFLEXIVAS


Bruno dos Santos Queiroz

     

     Creio que quase todo jovem cristão já enfrentou ou enfrenta problemas nessa área. Por isso creio poder me familiarizar com muitos jovens (e também adultos) que lerão este artigo. Vamos tratar da questão em quatro fases: (i) definição da masturbação, (ii) considerações morais, (iii) considerações bíblicas e (iv) reflexões especiais.

DEFINIÇÃO DE MASTURBAÇÃO

       O termo masturbação é usado aqui num sentido mais restritivo, para se referir a estimulações eróticas conscientes e de livre agência, com sentido erótico-genital, que podem ser praticadas solitariamente ou mutuamente, no último caso distinguindo-se da relação sexual em especial pela inexistência de penetração. Nessa definição exclui-se: (i) “masturbações” sem sentido erótico-genital na primeira e segunda infância, (ii) sonambulismo sexual; (iii) sonho erótico (iv) polução noturna e (v) excitação sexual não estimulada[*].

CONSIDERAÇÕES MORAIS

       A masturbação assim definida possui diversos problemas éticos, sendo, portanto uma prática objetivamente imoral. Se olharmos do ponto de vista ético, perceberemos que a masturbação é um desvio do ideal da sexualidade. O orgasmo seria algo como um "pedacinho do céu", do gozo eterno da união mística entre Cristo e a Igreja. O sexo é o símbolo da "união agápica-erótica"[9] entre os cônjuges. Por isso, onde há sexualidade em seu sentido genital deve haver o Eros matrimonial, a conexão mística com "o outro", em que a diferença de gênero sinaliza a alteridade, e a marca da conjugabilidade aduz à intimidade. Na masturbação, a alteridade é quebrada, o prazer é destinado a satisfazer a "si mesmo", e não a compartilhar-se com o amado. Nela resta a estimulação narcísica e egoica do autoerotismo. Quando a prática envolve fantasias sexuais com uma pessoa ou a instrumentalidade da pornografia, está incluso o problema da coisificação do corpo do outro e do desrespeito envolvido na atitude imoral de tomar sem autorização a imagem de uma pessoa como um estímulo para satisfazer seus próprios desejos.

CONSIDERAÇÕES BÍBLICAS

       Existe um erro grave quando se argumenta a favor da masturbação com base no silêncio das Escrituras em torno do assunto. Quando a Bíblia não menciona explicitamente uma prática, isso não significa que a Escritura a autorize. Em casos assim, o que se deve examinar é o conjunto global principiológico da Palavra de Deus e a relação da prática com esse contexto principiológico geral. A Bíblia apresenta muitos princípios importantes, em geral feridos pela prática masturbatória, tais como (i) a pureza moral da mente e dos pensamentos (Filipenses 4.8); (ii) a mortificação de apetites sexuais impuros (Colossenses 3.5); (iii) a castidade no olhar (Jó31.1; Mateus 5.28) e; (iv) o domínio próprio e o controle sobre os desejos da carne (Gálatas 5.22-23; Tito 3.3).
       Precisamos ser sinceros em reconhecer que a masturbação fere os princípios de castidade das Escrituras, por mais que nossa mente depravada busque sempre escusas para recusar a verdade. Quando observamos o Ensino do Cristo percebemos que ele pregava uma moral que excede o mero legalismo dos religiosos da sua época. Em Cristo, como percebemos a partir de uma leitura de Mateus 5.21-37, as intenções e desejos do coração tem um grande valor para Deus, de modo que não só a prática é pecaminosa, mas também a estimulação de pensamentos e desejos imorais ferem o padrão de Deus. Sendo que a fé cristã considera o sexo antes do casamento pecado, do mesmo modo a estimulação de pensamentos e desejos nesse sentido deve ser evitada, de modo que o Cristianismo considera a prática masturbatória como pecado.

REFLEXÕES ESPECIAIS
       A trama significativa do estruturalismo anímico[7] do recalque[2], a naturalização [1] do reducionismo afetivo[3] e a degradação dos princípios ético-morais constroem um pensamento que coloca o sujeito casto dentro de um campo de significações e categorizações que lhe roubam a subjetividade[5]. Para o pensamento mundano, aquele que se abstêm de prazeres sexuais por princípios morais, é alguém que baniu sua subjetividade pelo recalcamento das afetações prazerosas. A Revolução Afetiva[4] elevou de tal forma o sentimento, que o colocou como o resumo da construção indenitária, e deslocou o próprio Ser do campo da Existência para o mundo dos afetos. Nega-se aos 'abstêmicos' a própria felicidade, como se o gozo sexual fosse a arkhé da eudaimonia. Não só são excluídos dos afetos positivos, como também são aos abstêmicos atribuídos os sentimentos patológicos de angústias advindos da repressão neurótica.
       O que se põe é - não pode haver felicidade plena sem uma sexualidade livre, e aqueles que não seguem essa regra, são os que a dominação social infundiu-lhes a ojeriza pelo sexo - são os reprimidos, alienados da subjetividade. Mas será mesmo assim? Não pode a busca do desenvolvimento do autodomínio e da continência significar uma vivência subjetiva legítima de contatar a própria sexualidade? Não há por que ver no exercício vivencial da continência um necessário recalcamento da sexualidade ao mundo do Inconsciente, ao contrário, controlar os próprios desejos sexuais e direcionar a própria libido é uma atitude da Consciência em contato com a própria sexualidade. Ou mesmo se falarmos do recalque, não seria a sublimação[6] e o direcionamento da libido sexual para atividades de "latência" de práticas excelsas uma atitude louvável? Ainda, não estaria o verdadeiro sentido da dignidade humana na possibilidade de transcendência sobre os domínios instituais? E não fazem parte de uma profunda vivência subjetiva os próprios conflitos, dificuldades e angústias que podem daí emergir?
       A luta contra a masturbação ajudará um jovem (ou mesmo adulto) cristão a conhecer melhor sua própria sexualidade. Por isso, os que lutam contra esse pecado devem observar qual é maneira que seu corpo, uma parte do si mesmo, lida com a sexualidade. Avalie quais são os padrões de comportamento, os tipos de estímulos, ambientes que costumam te levar a se masturbar. Observe também qual a forma que você costuma se masturbar, bem como as fantasias sexuais ligadas ou não ao ato. Conhecer todos esses aspectos na luta contra a masturbação, lhe ajudará a desenvolver não só melhores meios de cultivar autodomínio como também o levará a vivenciar de perto seus conflitos éticos-morais e a conhecer sua própria sexualidade. Se esforce em desenvolver autodomínio, e em evitar certos padrões de comportamento e ambientes sexualmente estimulantes. Conheça a si mesmo, vivencie seus conflitos morais e desenvolva autodomínio. Saber controlar e administrar seus próprios desejos sexuais é uma manifestação da dignidade humana, enquanto imagem do Criador.
       Lidar com o sentimento de culpa nesse processo pode também ser difícil. Mas a culpa também é, na medida certa, positiva, para a vivência subjetiva de nossos conflitos ético-morais, mas em exagero é um mal. Por isso, não se esqueça das inspiradas palavras do apóstolo do amor: “Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo. Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados de todo o mundo.” (1 João 2:1,2) e ainda: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. ” (1 João 1:9).



GLOSSÁRIO

      [1]Naturalização: É quando passamos a entender as interpretações que fazemos das coisas como se elas realmente fizessem parte das coisas em si. Por exemplo, a interpretação “pessoas que não se masturbam são infelizes” (uma interpretação da nossa cabeça) pode acabar sendo entendida por nós como algo que diz respeito à realidade em si ou ao modo como as coisas realmente são. Às vezes, por sempre termos pensado de uma forma, podemos achar que as coisas são realmente da forma que estamos acostumados a pensar. Mas podemos, na verdade, estar introduzindo informações às coisas como sendo naturais das mesmas.
         [2]Recalque: Na Psicanálise, o termo é usado para se referir a um mecanismo de defesa que leva representações para o inconsciente. Seria como levar para o “porão da alma”, ou para o “fundo da nossa mente”, as ideias sexuais que são censuradas por nossa consciência moral. Nesse caso, o nosso inconsciente seria semelhante a um grande esgoto que vai se enchendo das nossas ideias sexuais consideradas imorais. Seguindo essa analogia, todo esgoto que vai ficando cheio, uma hora começa a dar sinais ou até mesmo ameaça estourar. Assim, pessoas que procuram manter no inconsciente, ideias sexuais, ao invés de descarregar os desejos ligados a essas ideias, desenvolveriam sintomas neuróticos, em especial sentimentos de angústia sem explicação aparente.
       [3]Reducionismo afetivo: É uma forma de pensamento surgida na Idade Moderna e que enxerga a afetividade, os sentimentos e as emoções como as dimensões mais importantes da existência humana. Para esse modo de pensar, a identidade de uma pessoa é definida por aquilo que ela sente e o sentimento de uma pessoa deve ser considerado de valor sagrado. Verdades racionais não são relevantes, o que importa é se “sentir bem”. Em acordo com essa concepção, é um ato de enorme gravidade ofender os sentimentos de alguém.
     [4]Revolução Afetiva: Refere-se a uma “revolução” ocorrida na Idade Moderna que teria levado a uma maior consideração da dimensão afetiva do ser humano, seus aspectos psicológicos, suas emoções e sua subjetividade, acima de sua dimensão cognitiva e racional.
        [5]Roubar a subjetividade: Diz respeito ao ato de classificar uma pessoa de acordo com categorias teóricas que impedem de enxergá-la como ela realmente é. Ocorre quando usamos nossa teoria para rotular os sujeitos de acordo com a nossa forma de pensar, estabelecendo falsas relações de causa e efeito e deixando de enxergar cada indivíduo como singular, livre, diferente, responsável e sujeito de escolhas próprias.
      [6]Sublimação: Mecanismo de defesa pelo qual um desejo de natureza sexual é canalizado ou redirecionado para atividades não-sexuais. Por exemplo, um jovem pode, ao invés de gastar sua energia no prazer sexual da masturbação, usar essa energia para obter prazer no esporte, na arte, na religião, etc. 
        [7]Trama significativa do estruturalismo anímico: Se refere ao conjunto de conceitos teóricos que enxergam a mente como uma grande e dinâmica estrutura. Na Psicanálise, a mente é vista como um aparelho com três instâncias id (desejos instituais), ego (eu) e superego (consciência moral). Existiria um conflito entre as exigências dos nossos desejos sexuais advindos do id e nossas restrições morais presentes no superego. Caso uma pessoa tenha uma consciência moral muito forte e restrinja muito seus desejos sexuais, ela se tornará neurótica e problemática. Uma pessoa feliz seria aquela que é mais “livre” em relação aos seus desejos.

         [8]União agápica-erótica: A ideia nessa expressão é a união de dois tipos ou formas de amor. O amor Eros refere-se a um tipo de amor que carece de algo que o complete. Eros está especialmente associado à ideia de desejar algo. Na medida em que só é possível desejar aquilo que não se tem e na medida em que o amor deseja o bom e o belo, o amor Eros carece do que é belo e bom. O amor ágape, por sua vez, é pleno e completo. É o amor sacrifical, que ao invés de buscar receber aquilo que lhe falta, se dá em sacrifício por outrem. Quando unidos em relação, o amor ágape completa a carência do amor Eros, tornando-o pleno. Uma ilustração que ajuda nessa compreensão é a da árvore e do sol. A árvore carece da luz do sol para sobreviver e é o sol o que vivifica a árvore. Assim como a árvore, o amor Eros é vivificado pela plenitude do amor agápico. É a luz plenificadora do amor agápico que cultiva e não deixa morrer o rebento do amor Eros. No casamento, o amor paixão (Eros) só pode sobreviver e continuar vívido se for plenificado pelo amor sacrifical e divino (Ágape).


[*] A exclusão dessas modalidades da definição estrita de masturbação, não significa que esses atos, sejam eles conscientes, inconscientes ou semi-conscientes, estejam totalmente livres da mancha do pecado. Pelo contrário, não se pode excluir a pecaminosidade de um ato com base em distinções, diga-se de passagem, psicanalíticas, sobre a fase do desenvolvimento psicossexual ou sobre a ideia de "inconsciente" como algo que não tem a ver, total ou quase nada, com o ego.



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