segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O ERRO DA IDEIA DE ''MÚSICA DO MUNDO''


        Muitos cristãos ainda cultivam um pensamento dicotômico entre “santo” e “profano”, uma espécie de maniqueísmo na maneira de enxergar a realidade. Embora haja de fato uma distinção entre o sistema mudano e o Reino de Deus (cf. 1 Coríntios 6.14-18), a identificação da ‘cultura secular’ com o profano e da ‘cultura cristã’ com o sagrado, é um erro. Tal concepção tem resultado em muitos legalismos e costumes de homens, tais como a definição de um vestuário exclusivo para os crentes, a proibição do uso de cosméticos, a aversão por práticas esportivas, a condenação do envolvimento com a política e a interdição do uso de certas tecnologias. Essa concepção produziu também uma rejeição da música secular, que passou a receber o epíteto de “música do mundo’’, enquanto os cristãos foram instruídos a ouvir apenas hinos evangélicos.
       Tal concepção, além de produzir um pensamento legalista e farisaico, também é uma ignorância quanto às doutrinas teológicas da Revelação Geral e da Graça Comum. Nesse sentido, o apóstolo Paulo, alerta contra o pensamento dualista da realidade:

Considerando que morrestes com Cristo para as tradições humanas e a falsa religiosidade deste mundo, por que vos sujeitais ainda a tais ordenanças como se pertencêsseis a este sistema de valores? Não mais obedeçais a regras como estas: “Não toques!”, “Não proves!”, “Não manuseies!” Todas essas regras estão destinadas a desaparecer pelo uso, pois se baseiam em ordenanças e ensinos meramente humanos. Esses regulamentos têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e rígida disciplina para com o corpo, mas não têm valor algum para refrear as paixões da carne – Colossenses 2. 20-23

A DOUTRINA DA REVELAÇÃO GERAL


       Deus escolheu se revelar a humanidade de duas formas: por meio da natureza e por meio da Bíblia Sagrada. A Revelação Geral se refere à manifestação de Deus por meio da natureza, e está presente em várias esferas: na natureza física, na natureza humana, na História e nas artes. Na medida em que Deus é Formoso, as produções artísticas e culturais da humanidade são uma amostra da beleza estupenda do Amoroso Criador. Nesse sentido a música humana também é uma manifestação de Deus e uma expressão de sua glória (Geisler, 2015).
       É possível encontrar na música secular, canções que falam de princípios cristãos e expressam verdades divinas. Algumas até mesmo exaltam virtudes morais, como o amor. É evidente, no entanto, que devido à humanidade estar caída em pecado, muitas músicas revelam aspectos negativos e anticristãos. Mas isso não é motivo para generalizar todas as produções musicais humanas como profanas.

A DOUTRINA DA GRAÇA COMUM

       Deus derrama ricas bênçãos e manifesta Sua maravilhosa graça não só aos crentes, mas também aos incrédulos. Jeová não é Deus apenas dos eleitos, mas também de toda a humanidade (cf. Salmos 24.1). É Ele quem sustenta e abençoa os iníquos. O Meigo Jesus ensinou sobre isso em um dos seus sermões:

Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. - Mateus 5.44 – 45

       O homem ímpio só pratica boas obras devido a operação da graça comum. Dessa forma, do coração do Soberano emana um favor imerecido pelo qual o Senhor dá aos homens o raiar do sol, as chuvas, as estações e a própria vida (Lima, 2015). É por meio da graça comum que os homens, mesmo os não-salvos, podem desenvolver a arte, a ciência, a filosofia e a tecnologia. A música secular não deixa ser uma produção humana tornada possível pela operação graciosa de Deus. De acordo com Grudem (1994):

Deus distribuiu medidas significativas de capacidade em áreas artísticas e musicais, assim como em outras esferas nas quais a criatividade e a habilidade podem expressar-se, como praticar esportes, cozinhar, escrever, e assim por diante. Além disso, Deus nos dá a capacidade de apreciar a beleza em muitas áreas da vida. E nessa área, assim como na esfera física e intelectual, as bênçãos da graça comum são às vezes derramadas sobre os descrentes até mais abundantemente que sobre os crentes. Todavia, em todos os casos, ela é resultado da graça de Deus. (cf. pp. 297-304)

O PERIGO DA VISÃO DUALISTA

       Um erro terrível em dividir a música entre profana (secular) e sagrada (gospel), está em achar que toda música secular é ruim e que toda música gospel é santa. Assim, Os crentes, muitas das vezes acabam tomando músicas de cantores como Damares, Thales Roberto, Ludmila Ferber e outros artistas gospels como hinos abençoados. Não raro as letras de muitas músicas do mundo gospel estimulam a vingança e estão permeadas de jargões neopentecostais e da famigerada teologia da prosperidade.
       Sendo assim, o critério para classificar uma música como “do mundo” ou como uma manifestação da graça de Deus, não é identificando se ela é secular ou gospel.  Antes de escutar alguma música, deve-se analisar:
·         Seu conteúdo: Qual é o assunto da música? A Bíblia é clara: “Vocês fazem parte do povo de Deus: portanto qualquer tipo de imoralidade sexual, indecência ou cobiça não pode ser nem mesmo assunto de conversa entre vocês. ” (Efésios 5.3). Não ouça uma música que faça apologia ao sexo vulgar, ao crime ou a ideias contrárias aos padrões bíblicos. No caso da música gospel, cuidado com aquelas cujas letras são um perigoso banquete de heresias. Tome cuidado com certos ritmos, geralmente acompanhados por danças sensuais que desagradam o Senhor.
·         Os pensamentos que ela produz: No que essa música te faz pensar? Será que ouvi-la pode tornar difícil pensar em “...tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama...”(Filipenses 4.8)? Cuidado com músicas que te fazem pensar em coisas que desagradam a Deus (cf. Gálatas 5.19-21).

       Apesar de tudo o que já foi dito aqui, muitos cristãos sinceros ainda cultivam um pensamento maniqueísta e dualista sobre a realidade. Há irmãos que poderiam ficar escandalizados, caso nos vejam ouvindo uma “música do mundo”. Faríamos bem, como uma atitude de respeito, em evitar ouvir músicas não-evangélicas na presença desses irmãos (cf. 1Coríntios 8.13). No entanto, não podemos deixar de falar-lhes com amor sobre as doutrinas cristãs da graça comum e da Revelação Geral e suas implicações na nossa cosmovisão, vida cristã e evangelismos.

REFERÊNCIAS

Geisler, N. (2015). Teologia Sistemática 1. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus.

Lima, E. R. (2015). A Igreja e o seu testemunho. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus.

Grudem, W. (1994). Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Vida. [págs. 297-304. On-line] Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/pneumatologia/graca_comum_grudem.htm Recuperado em 21 de Dezembro de 2015.


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