quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

JOÃO1.1 E A DEIDADE DO FILHO

       O texto de João 1.1 parece ser um dos mais claros a respeito da deidade de Jesus. Nele lemos:


“No início era a Palavra, e a Palavra estava com o Deus, e Deus era a Palavra. ”

       Em geral, ninguém discorda que o Pai ao ser chamado de “ton Theón” (o Deus), seja identificado com a essência divina absoluta. Alguns discordariam, no entanto, em dizer que a aplicação de Theós ao Filho assuma esse sentido. Sabemos que a palavra “Deus”, na Bíblia, possui 4 sentidos:

·         Metafórico: Esse sentido aparece em Êxodo 7.1: “O Senhor disse a Moisés: Vê: vou fazer de ti um deus para o faraó, e teu irmão Aarão será teu profeta ”. Nesse caso Moisés aparece chamado de "deus". Na realidade a metáfora é simples. Moisés seria "deus" e Arão "profeta" para faraó. Uma comparação da relação DEUS-PROFETA-OUVINTES com MOISÉS-ARÃO-FARAÓ. Nada que implique natureza. Não parece sensato pensar que “Deus” tenha esse sentido em João1.1.

·         Idolátrico: O termo também é usado para falar dos ídolos, ou mesmo do “deus deste século” (2 Coríntios 4.4). É evidente que Jesus não é um “ídolo” ou um “deus falso”. Certamente não é esse o significado que devemos pensar ter o termo em João 1.1.

·         Representacional: O termo “deus” também é usado para falar daqueles que representam a Deus ou Sua Justiça. “Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo. ” (Salmos 82:6).  Se diz dos juízes como “deuses”. Não há porque pensar que isso implique natureza já que ser juiz não tem a ver com a natureza de alguém. Na realidade os juízes eram "representantes da justiça divina" ou "representantes de Deus". Parece ser também esse o sentido que se chama os anjos que representam a Deus “Prostrai-vos diante dele (Jeová), todos os deuses. ” (Salmos 97.7). Jesus parece assumir esse significado, mas transcendê-lo. Ele raciocina com os fariseus, com o argumento mais ou menos assim: “Se os juízes foram chamados de deuses, quanto mais eu posso ser chamado assim” (cf. João10.34-37). Salmos 97.7: “todos os deuses se prostrem diante de Jeová” também é aplicado a Jesus, mas agora para dizer “Todos os anjos adorem a Jesus” (Hebreus1.6). Assim embora o termo “Deus” aplicado a Jesus signifique “representante de Deus”, o termo requer ainda um sentido mais profundo.

·         Ontológico: O termo Deus é usado para fala do Ser que possui “natureza divina” ou “essência divina”. Evidentemente só pode haver uma essência ou natureza divina (Deuteronômio 6.4; 1 Timóteo 2.5; Marcos12.32; 2 Samuel 7.22; Romanos3.30; Tiago 3.19). Assim Deus seria aquele que reúne os atributos essencialmente divinos, como onipotência, onipresença e onisciência. João 1 favorece esse sentido. Isso porque pela ordem das palavras o texto parece exigir uma unidade de significado no uso da palavra Deus. Dificilmente um leitor entenderia a mesma palavra aparecendo lado a lado numa construção como não tendo o mesmo significado. Ainda mais no caso de termos "estava com o Deus e Deus era”: “a Palavra estava com o Deus, e Deus era a Palavra”. O contexto continua a favorecer essa ideia, João 1.3 diz: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele; e sem ele nem mesmo uma só coisa veio à existência”. Temos claramente o Pai criando tudo através do Filho. Obviamente que é tudo mesmo até todos os anjos e as coisas não animadas foram criadas por meio de Jesus, de modo que sem Ele nada existiria (Colossenses1.16). Salmos 102.25 diz: "(Jeová) há muito lançaste os alicerces da terra, e os céus são obras das tuas mãos" é citado em Hebreus 1.10 para dizer: "Tu, ó Senhor (Jesus) lançaste no princípio os alicerces da terra, e os céus são obras de suas mãos".  Interessante que em Isaías 44.24 lemos sobre o Eterno: “Eu sou o Senhor (Jeová), que fiz todas as coisas, que sozinho estendi os céus, que espalhei a terra por mim mesmo”. Colossenses 1.17 diz que Jesus existe "antes de todas as coisas". Teremos um problema se as palavras de João1.3 não identificarem Jesus com o Eterno. Isso porque sabemos que tanto o espaço como o tempo foram criados por Deus. Se tudo Deus criou por Jesus, Jesus precisa estar antes do espaço e do tempo. Isso significa ser "atemporal" e "extra espacial", ou em outras palavras "Eterno" e "Onipresente”, que são atributos naturalmente divinos. O Evangelho de João foi escrito por volta do ano 95d.C., já em 110 d.C. Inácio escreveu: " Temos também nosso Médico o Senhor nosso Deus, o único unigênito Filho e a palavra, antes que o tempo começasse..." 
       Evidentemente que o anartro no texto não exige o uso do artigo indefinido “um” ("um deus").  A definição ou indefinição na tradução de um anartro depende do contexto, e não pode ser determinada pela gramática.  O anartro neste caso reforça a ideia de que o Pai e o Filho embora da mesma natureza são duas pessoas distintas. Aliás, o texto diz que "a Palavra estava com o Deus" (ēn pros ton - "diante de", "para com"), de modo que não podem ser a mesma pessoa. Nesse sentido o contexto e a ordem das palavras em João 1, indicam que o termo Deus tem tanto o sentido representacional, quanto o ontológico ao se referir a Jesus. Isto é ,Cristo é o Representante de Deus: “a expressa imagem da sua pessoa” (Hebreus 1:3) e também aquele que reúne os atributos essências da natureza divina, como eternidade e onipresença: “Pois nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Colossenses 2:9).  Veja que Jesus não é alguém que participa da natureza divina (cf. 2 Pedro1.4), mas sim uma pessoa em quem habita  plenamente todos os atributos essenciais de Deus.

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