sexta-feira, 30 de outubro de 2015

REFORMA PROTESTANTE (PARTE V)

O Texto abaixo foi escrito por Lúcio Reis de Andrade, e portanto pode não apresentar ponto a ponto minha opinião. Caso você também queira colaborar com um texto para este Blog, é só me enviá-lo em arquivo word (texto em Times New Roman 12, espaçamento 2 e justificado) que ele pode ser publicado com os devidos créditos a quem escreveu. Email para enviar o arquivo word: araguaribrunosqueiroz@gmail.com

Enquanto que o luteranismo se expandia nas atuais Alemanha, Suécia, Dinamarca e Noruega, na Suíça se desenvolvia um tipo diferente de protestantismo. Iniciado por Ulrico Zuínglio, Guilherme Farel e João Calvino, o movimento protestante iniciado na Suíça foi chamado de reformado ou calvinista. Este movimento não só se limitou na área religiosa, também influenciou as áreas política, econômica e social.
Podemos dizer que este movimento foi bem mais radical que o luteranismo, pois se livrou totalmente das marcas da Igreja Católica: imagens, ícones, relíquias, quadros, peregrinações, peregrinações, roupas especiais para o dirigente do culto, etc. Outra diferença marcante é que o calvinismo quase não sofreu perseguição, dando mais tempo e mais tranquilidade para realizar a completa reforma da Igreja aos padrões bíblicos. Na época, a Suíça ainda era um estado centralizado, era uma confederação de cidades, independentes entre si, que formavam a nação suíça.

A Peregrinação Espiritual de Ulrico Zuínglio
O reformador suíço nasceu em janeiro de 1484, em uma pequena aldeia suíça. Dedicou-se aos estudos, logo aos 9 anos de idade, quando foi entregue aos cuidados de seu tio, o deão de Wesen. Após estudar com seu tio, estudou nas Universidades de Basileia, Berna, Viena e retornou a estudar em Basileia. Na época, o humanismo chegara ao apogeu na Suíça, e certamente Zuínglio foi fortemente influenciado, abrindo sua mente para a Reforma.
Após receber o título de Mestre em Artes em 1506, tornou-se sacerdote da aldeia de Glarus e dominou o grego. Zuínglio passou a se dedicar ao estudo profundo das Escrituras, examinou com atenção as doutrinas e as práticas da Igreja primitiva e logo percebeu que a Igreja Católica estava muito distante dos padrões bíblicos. O mais curioso disto tudo é que Zuínglio chegou a conclusão que a Igreja precisava de uma reforma urgente e retornar aos padrões sem qualquer dependência de Lutero. Ou seja, a reforma suíça não teve origem, nem ligação com a da Alemanha, era paralela a de Lutero.
Após passar dez anos em Glarus, Zuínglio foi nomeado sacerdote na Abadia de Einsiedeln, um centro de peregrinações. Neste lugar, Zuínglio pregou a necessidade urgente da reforma na Igreja e vários monges adotaram os princípios da Reforma.
Em 1519, o reformador suíço se tornou pároco da Catedral de Zurique, onde novamente pregou sobre as doutrinas reformadas e contra as superstições católicas, a venda de indulgências, o celibato, a missa e a corrupção que havia dentro do clero. Sua influência se tornou muito grande em Zurique, até mesmo sobre o governo da cidade. Quando alguém vendia indulgências, o reformador exigia a expulsão e com sucesso ao governo da cidade. Quando Francisco I pediu soldados à Confederação Suíça para enfrentar o exército de Carlos V, somente a cidade de Zurique se recusou, graças a influência do pregador.

O Rompimento com a Igreja Católica
O reformador suíço estava debaixo da autoridade do episcopado de Constança, que dava sinais de preocupação ao que ele pregava em Zurique. Quando foi acusado de heresia, o pregador suíço se defendeu ao rebater de forma bíblica as acusações. Assim, o reformador continuou autorizado pelo governo a pregar na cidade.
Para calar o pregador, o papa Adriano VI lhe ofereceu o cargo de cardeal, mas o reformador recusou o convite e ainda conseguiu que o governo da cidade convocasse um debate público entre ele e o vigário do bispo sobre as doutrinas reformadas. Centenas de pessoas se reuniram para ver o debate. Após Zuínglio defender as doutrinas reformadas dentro dos padrões bíblicos, o vigário se negou a provar que o reformador estava enganado e ninguém teve coragem para refutá-lo. Sendo assim, o governo da cidade decretou que o reformador continuaria pregando na cidade e que qualquer ministro religioso estava proibido de pregar uma doutrina fora das Escrituras Sagradas. Este fato marcou o rompimento do reformador e de Zurique com a Igreja Católica.
A partir daí, com o apoio do governo, a Reforma avançou rapidamente, a qual consistia na restauração da fé e das práticas bíblicas. Este era um ponto que a Reforma da Alemanha e da Suíça se diferenciavam. Lutero cria que as práticas tradicionais deveriam ser preservadas, e as que contradiziam as Escrituras deveriam ser eliminadas. Já Zuínglio cria que tudo aquilo que não encontrava base bíblica deveria ser eliminado (o princípio regulador). Até mesmo o órgão da igreja (um instrumento de música) foi eliminado por não ter base bíblica.
Sob a direção de Zuínglio, aconteceram rápidas e profundas mudanças: a hóstia foi substituída pela Santa Ceia, os sacerdotes, monges e freiras abandonaram o celibato por não ter respaldo bíblico, a missa foi substituída pelo culto bíblico e as imagens foram destruídas. Enquanto isso, os princípios da Reforma se espalhavam para outras cidades, principalmente em Berna, Basileia, Estrasburgo e Genebra.
Em 1529, Lutero e Zuínglio se encontraram no Colóquio de Marburgo, uma tentativa de unificar a Reforma suíça e alemã. Ambos os reformadores concordaram em 14 das 15 questões teológicas, a discordância era a respeito da Ceia. Enquanto que Lutero cria na consubstanciação, ou seja, Cristo estava presente fisicamente no pão e no vinho, Zuínglio cria acertadamente que o pão e o vinho eram símbolos do sacrifício de Cristo. Essa diferença de opinião entre ambos impediu a unificação da Reforma.
Enquanto isso, a rivalidade entre as cidades católicas e reformadas aumentava e a Suíça estava a um passo de uma guerra civil. A situação ficou insuportável quando as cidades católicas se aliaram ao imperador Carlos V, e foram consideradas traidoras pelas cidades reformadas. Em outubro de 1531, a cidades católicas atacaram de surpresa e derrotaram o exército de Zurique, no qual Zuínglio morreu em combate. Após um mês do conflito, foi firmada a paz de Cappel, no qual cada região escolhia qual religião ia professar. Sendo assim, a maioria das regiões se tornou protestante e o restante se tornou católico.

Guilherme Farel
De origem francesa, Farel aprendeu as doutrinas reformadas com Tiago Lefrèvre em Paris, e depois com o bispo de Meaux. Como a perseguição aos huguenotes (calvinistas franceses) estava muito forte, Farel se refugiou na Suíça, onde pregou com muito êxito as doutrinas reformadas.
Apesar do sucesso que as doutrinas reformadas causaram na Suíça francesa, na cidade de Genebra o trabalho do reformador francês avançava lentamente, com muita dificuldade. Diversas vezes os padres tentaram assassiná-lo, inúmeras vezes foi apedrejado e espancado e até foi envenenado, mas o Senhor o livrou da morte. Apesar das dificuldades, o trabalho na cidade de Genebra avançava aos poucos. Conseguiu que o governo aprovasse a abolição da missa, só era permitido pregar as doutrinas da Bíblia e a idolatria a imagens cessou. Depois disso, pregou com o mesmo êxito na cidade de Lausane.

A Peregrinação Espiritual de João Calvino
O futuro reformador francês nasceu na cidade de Noyon, em 10 de julho de 1509. Seu pai era advogado do clero local, secretário do bispo e procurador da biblioteca da catedral. Mais tarde, Calvino foi estudar na Universidade de Paris, visando se preparar para o sacerdócio, onde estudou sobre a escolástica e as humanidades, nas quais estudou principalmente o latim e a literatura clássica. De 1528-1531, Calvino estudou Direito em Orléans e Bourges e aprendeu grego com o luterano Melchior Wolmar.
Foi nesta época que Calvino se tornou admirador de Erasmo de Roterdã e se dedicou aos estudos humanistas. Depois, voltou à cidade de Paris, onde publicou um comentário do tratado ‘’Sobre a Clemência’’, do antigo filósofo romano, Sêneca. Ainda há poucas informações sobre como Calvino abandonou a fé católica e se tornou adeptos das doutrinas reformadas, mas o mais provável é que tenha sido por causa dos estudos humanistas, das Escrituras e da Patrística (período da Igreja primitiva). No ano de 1533, seu amigo Nicolau Cop, tornou-se reitor da Universidade de Paris, onde pregou sobre os ideais protestantes e exigia reforma na Igreja.
Em 1534, Francisco I deixou de tolerar os huguenotes e passou a persegui-los, assim Calvino teve que se refugiar na cidade de Basileia. Foi nesta cidade que o reformador francês concluiu seu projeto de resumir a fé cristã do ponto de vista protestante, em sua obra ‘’Institutas da Religião Cristã’’. A primeira edição foi escrita em latim, tinha 516 páginas e tratava apenas de 6 capítulos. O sucesso de sua obra foi tão grande que se esgotou em apenas nove meses. Assim, Calvino aprimorou e escreveu várias edições da sua maior obra. Sua última edição saiu em 1560, tratava de 80 capítulos reunidos em 4 volumes e escritos em latim e francês. Esta foi a primeira obra de teologia sistemática, o que fez de Calvino como o mais importante sintetizador da teologia protestante do século XVI.

O Reformador de Genebra
Enquanto aperfeiçoava as sucessivas edições das Institutas, Calvino estava determinado a prosseguir com seus estudos e ajudar os protestantes através de seus escritos. Sequer tinha sonho de se tornar pastor, muito menos pensava em se tornar um dos líderes da Reforma Protestante, pois se achava impotente para tais funções e se contentava em ser ótimo escritor. Para isso, seu próximo objetivo era estudar em Estrasburgo. Porém, depois que viajou para Ferrara (atual Itália) e depois para a França, não podia passar pelo caminho direto a Estrasburgo, devido a ocorrência de uma guerra. Assim, viu-se forçado a passar pela cidade de Genebra, para depois no outro dia chegar à cidade de Estrasburgo. Isso aconteceu no ano de 1536.
Na época, o trabalho missionário na cidade de Genebra avançava com muita dificuldade, pois o povo ainda estava preso as doutrinas da Igreja Católica, embora não houvesse perseguição aos protestantes na cidade. Assim que Guilherme Farel, missionário enviado da cidade de Berna, avistou Calvino, tentou com o todo o seu esforço convencer o reformador francês a ficar na cidade para ajudar a evangelizar e a reformar a cidade, mas Calvino se negou, dizendo que não podia interromper seus estudos. Quando não tinha esperança para convencer o jovem reformador de 28 anos, disse: ‘’Deus amaldiçoe teu descanso e a tranquilidade que buscas para estudar, se diante de uma obra tão grande te retiras e te negas a prestar socorro e ajuda’’. Calvino ficou espantado com a declaração de Farel e percebeu que estava fugindo da vontade de Deus, interrompeu sua viagem a Estrasburgo e ficou na cidade para auxiliar Farel na causa protestante.
A partir deste momento, Calvino se tornou pastor da cidade e professor de teologia e Farel era o seu colaborador. O reformador francês pregava contra a imoralidade do povo, entendia que os membros da Igreja deveriam viver de acordo com a Palavra de Deus e expulsava os membros mundanos e impenitentes. Porém, o povo ainda estava agarrado aos seus vícios, ainda obedecia aos padres, não gostava das restrições e proibições que Calvino fazia aos seus divertimentos mundanos e a Reforma ainda não tinha entrado no coração do povo. Assim, o povo expulsou Calvino da cidade, e Farel seguiu-o, isso em 1538.
Calvino viu o exílio como uma oportunidade para prosseguir seus estudos em Estrasburgo. Porém, nesta cidade, o reformador Martin Bucer, que já havia ajudado Lutero, encarregou Calvino de ajudar e reanimar os ânimos dos reformados franceses refugiados na cidade. Foi nesta cidade que Calvino conheceu e se casou com a viúva Idelete de Bure, que viveu até o ano de 1549.
Enquanto vivia em Estrasburgo, a cidade de Genebra estava em desordem. Assim, os mesmos que expulsaram o reformador, agora clamavam pela sua volta. No início o reformador resistiu em voltar à Genebra, mas depois aceitou o convite e voltou em 1531. Diferente da primeira vez na cidade, o reformador não teve oposição e trabalhou como pastor e pregador em Genebra por 24 anos.
O reformador francês dava muita importância a educação, e fundou a Universidade de Genebra em 1559. Assim, os estudantes se formavam segundo os princípios calvinistas. Sob sua liderança, a cidade de Genebra se tornou inspiração e modelo para outros reformadores. A cidade também se tornou centro de refugiados protestantes e de visitantes, inclusive o reformador escocês John Knox passou pela cidade e conheceu as doutrinas reformadas. Não só isso, como também o calvinismo se espalhou para a Escócia, Inglaterra, França, Holanda, Hungria, Espanha e Itália. Por isso, entre os reformados, Calvino se tornou o maior destaque, até mesmo sobre o fundador do calvinismo, Ulrico Zuínglio. O reformador francês morreu em 14 de maio de 1564, Teodoro Beza o sucedeu como líder religioso da cidade e na reitoria da Universidade.

Bibliografia:
GONZÁLEZ, Justo L. – História Ilustrada do Cristianismo, 2 vol. 2ª Ed. São Paulo: Vida Nova, 2012
KNIGHT, A. e ANGLIN, W. – História do Cristianismo. 2ª Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1983
MCGRATH, Alister – A Revolução Protestante. 1ª Ed. Brasília: Editora Palavra, 2012
SILVA, Paulo André Barbosa da – História da Igreja. Porto Alegre: Instituto Bíblico Esperança, 2013

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