sábado, 3 de outubro de 2015

JESUS CRISTO - O SENHOR "JEOVÁ"

Bruno dos Santos Queiroz

As controvérsias cristológicas caracterizadas pelo embate entre a ortodoxia cristã trinitária e as crenças heterodoxas em torno da natureza de Cristo, ora envolveu a luta contra as heresias que negavam a plena humanidade de Cristo (como no caso do docetismo gnóstico), ora contra as que rejeitavam sua plena divindade (a exemplo do arianismo). Hoje essas crenças ainda ecoam em muitas seitas que não possuem uma visão ortodoxa da união hipostática de Cristo. O Novo Testamento, no entanto, é claro  tanto em enfatizar a plena natureza humana de Cristo (“O Verbo se fez carne”), quanto sua natureza absolutamente divina (“O Verbo era Deus"). Afim de afirmar a plena deidade do Filho de Deus, o Novo Testamente constantemente se refere a Cristo sob o título de “o Senhor”:

       Na tradução grega dos Livros do Antigo Testamento, o nome inefável sob o qual Deus Se revelou a Moisés , YHWH, é traduzido por « Kyrios» («Senhor»). Senhor torna-se, desde então, o nome mais habitual para designar a própria divindade do Deus de Israel. É neste sentido forte que o Novo Testamento utiliza o título de «Senhor», tanto para o Pai como também – e aí é que está a novidade – para Jesus, assim reconhecido como sendo Ele próprio Deus.
       O próprio Jesus veladamente atribui a Si mesmo este título, quando discute com os fariseus sobre o sentido do Salmo 110, e também, de modo explícito, ao dirigir-Se aos Apóstolos. Ao longo de toda a vida pública, os seus gestos de domínio sobre a natureza, sobre as doenças, sobre os demónios, sobre a morte e o pecado, demonstravam a sua soberania divina.
       Muitíssimas vezes, nos evangelhos, aparecem pessoas que se dirigem a Jesus chamando-lhe «Senhor». Este título exprime o respeito e a confiança dos que se aproximam de Jesus e d'Ele esperam socorro e cura. Pronunciado sob a moção do Espírito Santo, exprime o reconhecimento do Mistério divino de Jesus. No encontro com Jesus ressuscitado, transforma-se em adoração: «Meu Senhor e meu Deus» (Jo 20, 28). Assume então uma conotação de amor e afeição, que vai ficar como típica da tradição cristã: «E o Senhor!» (Jo 21, 7).
       Ao atribuir a Jesus o título divino de Senhor, as primeiras confissões de fé da Igreja afirmam, desde o princípio, que o poder, a honra e a glória, devidos a Deus Pai, também são devidos a Jesus, porque Ele é «de condição divina» (Fl 2, 6) e o Pai manifestou esta soberania de Jesus ressuscitando-O de entre os mortos e exaltando-O na sua glória.
       Desde o princípio da história cristã, a afirmação do senhorio de Jesus sobre o mundo e sobre a história significa também o reconhecimento de que o homem não deve submeter a sua liberdade pessoal, de modo absoluto, a nenhum poder terreno, mas somente a Deus Pai e ao Senhor Jesus Cristo: César não é o «Senhor». «A Igreja crê... que a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontra no seu Senhor e Mestre» .
       A oração cristã é marcada pelo título de «Senhor», quer no convite à oração: «O Senhor esteja convosco», quer na conclusão da mesma: «Por nosso Senhor Jesus Cristo», quer ainda pelo grito cheio de confiança e de esperança: «Maran atha» («O Senhor vem!») ou «Marana tha» («Vem, Senhor!») (1 Cor 16, 22): «Amen, vem, Senhor Jesus!» (Ap 22, 20). (CIC, 446-451)

Tentando diminuir o peso significativo desse título divino, duas objeções têm sido levantadas:

(I)                O título Senhor pode ser apenas um pronome de tratamento: No entanto uma leitura do Novo Testamento nos revelará a profundidade do significado do nome Senhor quando aplicado a Cristo. Jesus é chamado de  “o Senhor da glória” (1Coríntios2.8), o “único Senhor” (1Coríntios8.6) e o “Senhor que no princípio fundou a terra, e cujos céus são obras de suas mãos” (Hebreus1.10). Além disso, profecias referentes a “Jeová” no Antigo Testamento, são aplicadas ao “Senhor”, referente a Jesus Cristo. Deste modo, o Novo Testamento emprega claramente o título de "Senhor" para Cristo num sentido absolutamente divino, como um sucedâneo do nome Jeová.
(II)             Foi o Pai quem tornou Jesus, “Senhor” -  Atos2.36: Todavia se esse texto diz que Deus fez Jesus se tornar Senhor, é evidente que o termo está sendo usado em sentido funcional, e não ontológico. Significa apenas que Jesus reassumiu a sua posição de soberania, após sua humilhação voluntária na Terra.

Assim a fé cristã declara, como o fizeram os primeiros apóstolos e reafirmam nossas confissões, que Jesus Cristo é o Nosso Senhor, e isso significa que Ele é o próprio Senhor Jeová:

O Filho de Deus, Segunda pessoa da Trindade Santa – sendo o próprio Deus eterno, o resplendor da glória do Pai, da mesma essência e igual ao Pai - ,Ele fez o mundo, sustém e governa todas as coisas que criou. Quando veio a plenitude do tempo, Ele tomou sobre si a natureza humana, com todas as suas propriedades essenciais e fraquezas comuns  – porém, sem pecado.
E foi concebido pelo Espírito Santo, no ventre da Virgem Maria (pois o Espírito Santo desceu sobre ela, e o poder do Altíssimo a envolveu). Foi nascido de mulher, da tribo de Judá, da descendência de Abraão e de Davi, segundo previam as Escrituras.
Desse modo, duas naturezas completas, perfeitas e distintas foram inseparavelmente unidas, em uma única pessoa, sem conversão, composição ou confusão. E essa pessoa é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem; no entanto, um só Cristo, o único mediador entre Deus e os homens. (Confissão de Fé Batista de Londres de 1689)


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