sexta-feira, 25 de setembro de 2015

FAMÍLIA CASAMENTO E ARRANHO EM ADÃO E EVA


Bruno dos Santos Queiroz
       Etimologicamente família remete a ideia de um conjunto de escravos e servos sob a jurisdição do pai de família (Nogueira, 2007). No entanto, faz-se necessária cautela para não tomarmos etimologia como significado, na medida em que o significado de uma palavra não é definido por sua etimologia. De fato, embora possa haver ligações entre a concepção judaico-cristã de família e a etimologia de tal palavra, uma falácia etimológica quanto a mesma acarretaria perdas na compreensão de seu real significado.
       Esse trabalho buscou apresentar a concepção de família ao longo do texto judaico que narra o relato de Adão e Eva. Preferiu-se usar o termo “relato”, ao invés de mito, em respeito as vertentes religiosas que fazem uma leitura literal do texto (ver Schwertley, s.d.), embora a mitologização do relato venha sendo favorecida pela ampla utilização do método histórico-crítico no ambiente acadêmico (Neto, 2009). Foi realizada uma análise histórica-objetiva do texto desse relato, considerado canônico pelos judeus e pela ortodoxia cristã tradicional, com o o propósito de apresentar a ideia de família derivada do texto.
       A leitura do escrito utilizado foi procedida tendo maior proximidade com o método hermenêutico histórico-gramatical do que com métodos modernos e pós-modernos mais subjetivistas. Geralmente estes métodos acabam por metaforizar os textos, dando uma compreensão mais simbólica. O objetivo deste trabalho, no entanto não foi encontrar a aplicação de algum simbolismo ou analogia que se possa abstrair desse relato, mas apenas analisar as contribuições objetivas desse relato para a concepção de família apreendida do texto. Assim, se “tem por objetivo achar o significado de um texto sobre a base do que suas palavras expressam em seu sentido simples, à luz do contexto histórico em que foram escritas. A interpretação é executada de acordo com regras gramaticais e semânticas comuns à exegese de qualquer texto literário, baseada na situação do autor e do leitor de seu tempo. ” (Kunz, 2008, p.1).
        As justificativas para essa análise é a importância do texto para a concepção predominante de família na tradição judaico-cristã:
Causa surpresa a muitos observadores que os padrões tradicionais de moralidade e de comportamento marital entre os judeus tenham sobrevivido com seus traços mais característicos até os nossos dias. Essa sobrevivência tem-se dado apesar das assimilações culturais dos judeus e a desintegração dos valores morais na sociedade moderna. Para essa preservação, um fator decisivo foi o longo condicionamento histórico dos judeus à fidelidade conjugal, mesmo os pouco religiosos ou secularistas. (Glasman, s.d., p. 68)
       Tendo definido as questões epistemológicas e metodológicas desse trabalho, bem como de seu objetivo façamos uma breve análise do conceito de família no relato de Adão e Eva:     
       Segundo o relato do primeiro capítulo “Deus criou homem e mulher” e lhes deu a ordem de procriar precedida pela “bênção de Deus”. No entanto, no capítulo segundo a criação do Homem e da Mulher são abordados sob um prisma um pouco diferente: A criação de Adão antecede o da mulher, estabelecendo-se portanto uma concepção de família patriarcal. Assim, quanto ao homem Adão é dado uma posição de liderança e quanto a mulher é dito que ela seria “ajudadora”.
       Apesar dessa submissão econômica da função feminina à masculina, não é necessário enxergar no relato uma hierarquia ontológica entre Adão e Eva, na medida em que ambos recebem a “imagem e semelhança do Criador” e são apresentados como “uma só carne”.
       Alguns tem proposto que o mito de Lilith devesse fazer parte do relato. Sobre isso Sicuteri (1998, apud Rodrigues, 2007) escreveu:
O mito de Lilith pertence à grande tradição dos testemunhos orais que estão reunidos nos textos da sabedoria rabínica definida na versão jeovística, que se colocada lado a lado, precedendo-a de alguns séculos, da versão bíblica dos sacerdotes (...) a lenda de Lilith, primeira companheira de Adão, foi perdida ou removida durante a época de transposição da versão jeovística para aquela sacerdotal, que logo após sofre as modificações dos pais da Igreja. (p. 23)
       A suposição de que o mito de Lilith, pudesse fazer parte do texto original se baseia na Teoria JDPD ou Hipótese Documentária. No entanto, “estas teorias documentárias continuam hipotéticas e as fontes alegadas permanecem como motivo de debate e sem reconhecimento pelos críticos” (Lopes, 2005). Também não parece estar em harmonia com o estilo de Gênesis atribuir uma androgenização a Adão, na medida em que o primeiro capítulo de Gênesis constitui um prólogo do segundo.
       Deixando de lado essas discussões epistemológicas, as conclusões que se pode tirar do relato de Adão e Eva são: (i) O homem é funcionalmente superior a mulher no arranjo familiar (criado primeiro); (ii) O homem e a mulher são ontologicamente iguais (“uma só carne’’); (iii) A concepção de casamento é monogâmica e heterossexual (“o homem se unirá a sua mulher’’); (iv) A procriação é um dos objetivos do sexo e do casamento (“multiplicai-vos”); (v) Adão tinha a função de liderança (criado primeiro); (vi) A mulher tinha a função de ajudadora (“far-lhe-ei uma ajudadora”); (v) o casamento precede a relação sexual (Deus “abençoou” e depois ordenou a procriação).
       Esse modelo de casamento apresentado no relato de Adão e Eva reverberará em toda a tradição judaico-cristã e no modelo patriarcal e nuclear de família. Assim a análise desse relato é importante para a compreensão da imagem tradicional de família e mostra a antiguidade desse modelo. No entanto, têm havido uma desconstrução desse modelo judaico-cristão na sociedade atual “possibilitando a inclusão das uniões homoafetivas como entidades familiares” (Mariano, 2009), bem como outras alterações na dinâmica familiar.
REFERÊNCIAS

GlASMAN, J. B. (s.d.).  Amor, Sexo e Casamento no Judaísmo.  [On-line]. Disponível em:http://www.revistanearco.uerj.br/arquivos/numero8/4.pdf. Recuperado em 03 de Setembro de 2015
KUNZ C. A. (2008). MÉTODO HISTÓRICO-GRAMATICAL: Um estudo descritivo. Via teológica2, 23-53. 
LOPEZ, A. N. (2005). O dilema do método histórico-crítico na interpretação bíblica. Fides Reformata, X, 115-138
MARIANO, A. B. P. (2009). As Mudanças no modelo familiar tradicional e o afeto como pilar de sustentação destas novas entidades familiares. [On-line]. Disponível emhttp://www.unibrasil.com. br/arquivos/direito/20092/ana-beatriz-parana-mariano.pdf . Recuperado em 03 de Setembro de 2015
NETO, J. O. R. (2005). Os problemas e limites do Método Histórico-Crítico Revista Theos, 5, 1-12.

NOGUEIRA, M. B. (2007). A Família: Conceito E Evolução Histórica E Sua Importância. [On-line]. Disponível em: http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/files/anexos/18496-18497-1-PB.pdf.Recuperado em 03 de Setembro de 2015.
RODRIGUES, Cátia Cilene Lima. Lilith e o arquétipo do feminino contemporâneo. In: Ética, religião e expressão artística. Anais do III Congresso Internacional de Ética e Cidadania. 2007.

SCHWERTLEY, B. (s.d.). A Historicidade de Adão. [On-line]. Disponível em:http://www.monergismo.com/textos/criacao/historicidade_adao_schwertley.pdf. Recuperado em 06 de Setembro de 2015.


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